16/11/2009

Outra mudança...

Depois de, acho, 2 anos de blogger, migrei para o Wordpress. A casa ainda está meio bagunçada, mas não esqueci nada na mudança: todos os posts e comentários foram na barca. Então, atualize o favoritos (quanta pretensão, a minha): http://1cronicapordia.wordpress.com/

Jumping Jack Flash

Vídeo raro.

A crônica de hoje no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Blasfemo Serei o profeta de um mundo muito interligado, muito conectado, e tão indiferente. Tentarei fazer música com o alfabeto, artes plásticas com o ponto-e-vírgula. Proclamarei o sépia do outono, o gelo do inverno e direi com os pulmões cheios de ar puro: “Tremei, primavera!”. E depois expedirei a retratação de todos os erros e celebrarei cada vitória da bondade sobre o que é vil, do estilo sobre o que é baixo, da verdade sobre o que é engodo. Mandarei erguer muros em volta das casas, porque ninguém nesse mundo oco precisa saber da existência da Geysi Arruda, nem ser acertado na cabeça pelas vigas do Rodoanel, nem ficar sem luz porque assim quis o destino insondável, que ninguém consegue explicar. Tratarei, pois, de deixar o planeta ainda mais dividido, com as pessoas cada vez mais alienadas, ainda que cercadas por muros elas continuem muito conectadas, muito interligadas – taxarei a transferência de bits, vou onerar (você conseguiria ler onerarei?) o download de megas. Porque não há sentido na anarquia; é preciso que alguém mande, uma nação obedeça e haja um Judiciário corrupto o bastante para que tudo funcione azeitadamente em desordem, status quo que todo profeta almeja instalar. Proibirei lombadas, radares, pardais e tudo o mais que tente forçar civilidade no nosso trânsito frenético, entre os nossos motoristas erráticos e nervosos – abaixo a faixa de pedestres, a direção defensiva! E exigirei que cada boteco preste serviços de chapelaria, que cada casa noturna providencie mesas de dominó, que cada bordel volte a ser conhecido por lupanar. No verão, entrarei no clima de prosperidade local e lotearei a areia da praia a preços facilitados: R$ 100 o metro quadrado em Jurerê Internacional, R$ 200 o metro quadrado na Praia da Saudade. Vou me divertir como profeta, não tenho dúvidas. E se no fim dos tempos qualquer uma das minhas ideias lunáticas tiver permanecido, tiver sido incorporada aos maus hábitos gerais, eu não terei alternativa senão ficar satisfeito e feliz e me prontificar à cruz, à paz eterna, à ressurreição e a tudo o mais que envolve esses assuntos ora financeiros. Quem sabe assim, mártir do mundão interligado, conectado, indiferente e oco, eu não me transforme em um personagem de José Saramago e figure na lista dos best sellers?

Confiante, e só

Os dias têm corrido, as semanas se afunilam, o mês já se foi e tudo ainda continua suspenso. 2009, quem diria? 30 anos, quem diria? Natal e Ano Novo, duas datas em aberto, duas páginas vazias. Porque agora há carro, quarto novo, nova vizinhança, menos contas a pagar; há piscina cintilante em meio ao breu, cigarro, primavera doce e trêmula, madrugadas; há semáforos piscando pare!, uma multa idiota, um bom trabalho exigindo tudo o tempo todo e perspectivas de novos bons trabalhos; há leituras interrompidas, rotina cambiante, compromissos intelectuais remunerados, mistérios na caixa de e-mail, cota de SMS estourada, tanque vazio; há mojitos, cerveja, refluxo. Velhos amigos tão amigos como há 10 anos, e amigos tão próximos até outro dia que agora parecem morar em outro país, inacessíveis. Há gente nova e amiga, revelações de deixar o cabelo em pé e o pé atrás, afirmações que fazem sorrir porque improváveis, no máximo gentis. Woody Allen e Rolling Stones, tão esquecidos. Pais e avós, tão próximos. Mudou o mundo, sigo o mesmo.

09/11/2009

"She was hot" - Shine a light - Scorsese/Stones

Aqui e ao lado.

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense!

Um conto

Tudo o que os vizinhos sabiam era que Calixto Bartolomeu de Souza tinha mais de 70 anos. No mais, nada em sua fisionomia se destacava: seu aspecto era ordinário. Baixo, caminhava devagar. Ensimesmado, alheio ao resto. Era só mais um num lugar cheio de muitos. O velho do 104, que sentia sobre os ombros curvados algo mais que o fardo dos anos: a perda da mulher e de duas das três filhas em um desastre aéreo.

Calixto Bartolomeu, viúvo. Primeiro, vendeu a casa. Preferia viver em um apartamento apertado a ter espaço de sobra para errar por entre lembranças familiares pelo resto da vida. Sabia que de nada adianta mirar o horizonte quando o pôr-do-sol está às costas. Em seguida, já no condomínio, quitinete barata, foi ao banco e resolveu o futuro. Garantiu o dinheiro que o manteria sem percalços pela vereda que une a solidão à sepultura.

Calixto Bartolomeu tinha tempo para revirar o baú do passado. Quando a família era composta por cinco pessoas, Silvia, a filha mais velha, fugiu para a Europa: sumiu numa sexta-feira, durante o fim de semana não deu notícias, e na segunda, quando Calixto Bartolomeu e a mulher já tomavam remédios para dormir, ligou e pediu que a esquecessem. Paris era linda, não retornaria nunca mais para o Brasil.

Calixto Bartolomeu e a esposa sentiram o baque, mas, com os anos e a falta de informações sobre ela, terminaram por esquecer a filha. Afinal, o futuro era urgente: restavam outras duas meninas para criar, aposentadorias, netos, bisnetos. Silvia passou a ser uma foto pendurada na parede. Um dia, porém, ela apareceu no 104. Era uma sexta-feira.

Entre os vizinhos, claro, começou a circular um monte de boatos disparatados, até que o síndico tomou coragem e abordou o velho do 104 no corredor. Esclareceu o mistério: a senhora que estava morando com ele era Silvia, sua filha, que retornara da Europa depois de 30 anos fora do Brasil. A faxineira de Calixto Bartolomeu era quem dava as notícias de pai e filha para os vizinhos. Na casa, o ambiente melhorara. A quitinete do viúvo se transformara num confortável lar de família.

O vizinho do 103, também ele um viúvo fechado em si, não caía nesse papo furado. Às vezes, de madrugada, quando fazia muito calor ou muito frio, ele acordava de repente e ouvia, baixinho, uns gemidos de mulher amada. Vinham do 104, tinha certeza. Mas ninguém ousava acreditar nele.

26/10/2009

Abertura de Stardust Memories, de Woody Allen

Desde que voltei a atualizar o blog, tenho utilizado o espaço de vídeo aí à direita com cenas de filmes de Woody Allen, meu diretor preferido. Hoje, ao lado mas também abaixo, a cena de abertura de Stardust Memories (1980), que saiu em DVD no Brasil há pouco tempo. Magistral, porque o mundo pode mesmo ser muito freak, mas o lixão final nos aguarda... Detalhe: quem aparece no trem ao lado é Sharon Stone, o que torna a situação ainda mais claustrofóbica.



Peladeiros...

Página 7 do caderno Variedades, na edição de hoje no Diário Catarinense.


Peladeiros

O boleiro – É aquele que, só de bater na bola, todo mundo percebe que entende do assunto. Em 90% dos casos, cresceu jogando futebol de salão em ginásios de saibro. Em 100% dos casos, tem a idade do resto dos peladeiros, mas fuma e bebe como um adolescente em início de carreira boêmia, o que prejudica bastante o seu rendimento. Acontece que ele não esquece o que um dia aprendeu, e quando menos se espera acerta um chute de bico, um drible curto ou um passe de bola cavada – pecado mortal no futebol suíço! – que impressionam pela precisão. É magro por natureza e só entra em campo de grama sintética com tênis de futsal e meia curta. Mestre das assistências.

O gordo – É a melhor saúde entre os boleiros, disparado o que mais corre, seja pela direita, seja pela esquerda, na lateral do campo. Faz gols à revelia, costuma ser o goleador da noite. É o piadista da turma e é sempre espantoso quando ele ganha de você na corrida, chuta todo desengonçado – quase caindo – e tá lá! Temos de reconhecer: o gordo faz um gol memorável por semana. Por exemplo, o Julio do Poeirão: segundo a lenda, já fez mais gols que o Romário, uns 1.200.

O banheira – Mistura de gordo e boleiro: sabe chutar ao gol, mas jamais driblar, e tem bom fôlego, apesar da pança de cerveja. Fica lá na frente, conversando com o goleiro adversário. Desatento, mas pronto para tudo. Perde chances em profusão, mas acerta chutes impossíveis e sai no Bola Cheia do Fantástico. Faltas sofridas por ele parecem mais violentas que as outras. Fala sem parar com o resto do time, grita “Vira, vira!” e “Aqui, aqui!” até o limite do tolerável. Quando você passa a bola e ele marca o gol, vem cheio de orgulho agradecer; quando erra, brada um *#@! e volta para a sua posição de pivô. Tem inveja mortal dos boleiros: “Muita firula, muita firula”.

O capitão – Zagueiro do time, o tipo que compreende suas limitações e fica lá atrás, distribuindo balões, pontapés, empurrões e xingamentos. Tudo porque é o único que leva o jogo a sério. Alerta, reclama de todos: do banheira por não voltar para ajudá-lo, do boleiro por ser displicente e do gordo porque erra passe. Sua frase é “Vamos voltar, time, tô com dois aqui!”.

O dono da bola – É quem organiza o futebol, administra as finanças e a lista de discussão. Ponto.

O goleiro – Peça raríssima. Quando aparece um de verdade, vestido a caráter, é uma festa: ninguém do meu time vai precisar ir para o gol essa noite!

21/10/2009

Notícias imbricadas...

No Jornal da Globo de hoje:

- PT e PMDB anunciam chapa para as eleições do ano que vem: para presidente e, na medida do possível, nos estados.

- Ladrão rouba empresa no Paraná e, junto com o butim, leva aparelho de GPS. Polícia rastreia e prende o sujeito em casa horas depois.

Tudo a ver.

Bastardos Inglórios

Hoje assisti a Bastardos Inglórios (Inglorius Basterds, 2009), novo filme do Quentin Tarantino. Infelizmente, li muitos elogios ao filme antes, o que me deixou cheio de expectativas. Do diretor, só gosto de Cães de aluguel (1992) e um pouco de Jack Brown (1997). Achei este novo dispensável, uma mistura de comédia mais ou menos com Chuck Norris. Incendiar rolos e rolos de filmes e um cinema inteiro para matar nazistas malvados me pareceu uma metáfora perfeita para o que Tarantino fez...

Sem medo do clássico

Abaixo, resenha do livro Tradição Literária & Tradição Crítica (Editora Movimento, 167 páginas, R$ 30), publicada no DC Cultura do último sábado. Aqui, por quatro motivos: porque eu sou um papa-clássico, porque tem tudo a ver com a minha dissertação de mestrado no curso de Pós-graduação em Literatura da UFSC (a formação do gênero crônica no Brasil), porque o autor do livro é o professor-doutor-meu-orientador no mestrado João Hernesto Weber e porque é muitíssimo bem escrito pela Jade, que entende do assunto e de texto.

CULTURA
Sem medo do clássico
Tradição Literária & Tradição Crítica, novo livro do professor João Hernesto Weber, discute os cânones brasileiros

POR JADE MARTINS *

João Hernesto Weber pertence àquele rol de professores que marcam a trajetória dos alunos, seja pela ironia impressa nos debates orientados em sala de aula, seja pelo extenso conteúdo apresentado nas grades. Acompanhar seu pensamento, porém, já não é exclusividade dos frequentadores dos embates literários brasileiros, circunscritos num universo de congressos, pesquisas e artigos científicos. O lançamento de Tradição Literária & Tradição Crítica, sua mais recente coleção de ensaios, expande a experiência do autor para além dos limites da academia, reposicionando ricas discussões sobre o Brasil, a literatura daqui e sua crítica.


A direção de Weber, importante frisar, é avessa a modismos teóricos de qualquer espécie. Se a universidade, muitas vezes, remaneja expectativas em função do filósofo estrangeiro em voga no momento, ele dispensa o hype e se debruça sobre a cartela habitual de preferências, com raízes bem fincadas. Pensando o processo de formação da nossa literatura, dialoga com Antonio Candido, Roberto Schwarz, Alfredo Bosi, pelos quais nunca deixou de nutrir certo “respeito-ternurinha”, como sugere já na escolha da epígrafe, de Carlos Drummond de Andrade. Analisando nossos pontos altos, recorre a ficções do porte de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Na base da paisagem, norteando o pensamento, multiplicando a profundidade, a sombra do filósofo alemão George Lucacks, autor de Teoria do Romance. Weber é clássico, e Tradição Literária & Tradição Crítica comprova a eternidade do olhar que lança sobre povo e nação, ficção e história, ordem e desordem – sempre na releitura dos seus eleitos.

Estimulado pelo objetivo de relacionar literatura e sociedade, legítima missão à linhagem de Weber, o grupo de 14 textos compõe um sofisticado painel das discussões formativas mais relevantes da nossa historiografia crítica. A complexidade aqui está no intercruzamento, perseguido também, do pensamento brasileiro com as ficções mais profícuas da nação. Discutindo afastamentos e zonas de contato entre as teorias de Candido, Schwarz, Raymundo Faoro e outros tantos, em Algum “desconforto crítico”, Weber revitaliza a obra de Machado de Assis, construindo sua própria Capitu, ao mesmo tempo em que remete às construções de Schwarz sobre as meninas do bruxo do Cosme Velho. Partindo do título do livro de poemas de Guilhermino César, também crítico e historiador, em Arte de Matar, desconstrói o discurso contemporâneo das desconstruções, numa metateoria repleta de ironia, reivindicando a validade das análises marxistas que buscam relacionar literatura e sociedade. Clássico, sem dúvida, inclusive nas críticas.

Quando discute diretamente formação, seja crítica ou literária, Weber ratifica a potência de um pensamento que resiste mesmo diante das flutuações teóricas típicas do meio por onde transita. Sua compreensão da importância de Antonio Candido, bem como das relações tecidas entre o crítico e seus seguidores, ainda que distanciadas em tantas instâncias, ajuda a explicar não apenas os (des)caminhos da nossa literatura como também a própria consolidação da experiência intelectual brasileira. A riqueza da abordagem encontra-se nos desdobramentos infinitos: enquanto desvela a literatura por meio da estrutura social, e a própria sociedade por meio da ficção, Weber ainda incute significado nos desdobramentos da trajetória de cada um dos críticos com quem dialoga, ao longo dos ensaios. O Candido autor de Formação da Literatura Brasileira, por exemplo, difere em muito do ensaísta de Dialética da Malandragem, quando já revia os próprios vácuos teóricos. Lançar luz sobre tais nuanças, imperceptíveis muitas vezes, é um empreendimento executado com cuidado (e raro respeito) pelo pesquisador.

Dotado de incisivo espírito crítico, até mesmo quando discorre sobre os seus mais caros companheiros de jornada, Tradição Literária & Tradição Crítica oferece lições definitivas ao leitor sobre o que é ser brasileiro. Discute nossa formação, literária e crítica, apontando pontos culminantes e sequestros impróprios; revê e relê nossos clássicos, incentivando o consumo permanente; apresenta novas entradas de leitura, expondo em muitas páginas abordagens diferenciadas e originais, sobretudo nas análises de Machado de Assis e Guimarães Rosa; homenageia um método de trabalho que permanece contemporâneo mesmo em meio à enxurrada de novidades, ao mesmo tempo em que se posiciona no centro dele, fazendo parte, agora ele próprio, Weber, de uma tradição que ajudou a esboçar, construir, pensar, analisar, consolidar.

* Doutora em Teoria Literária pela UFSC

19/10/2009

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, que a partir de hoje tem como editor o jornalista Regis Malmann. Escrever Por que é difícil escrever? Por que as palavras teimam em escapulir de repente? Muitas vezes estão na palma da mão, adestradas, prestativas e corretas, prontas a pular para o teclado; em outras, ficam deitadas no nosso colo, de onde as pescamos como quem come pipoca no cinema, absortos no texto que flui diante de olhos incrédulos. Mas é fato: elas correm de nossa visão e fogem de nossas mãos como num feito de mágica. Nada entendemos. Uma hora estão aqui, saltitantes e ardendo, e num minuto desaparecem, sacanas. Sapecas e sacanas: os personagens perdem a fala, a descrição do ambiente fica incompleta. Ao mínimo descuido, danou-se: os que no papel falam e sentem e choram fogem para trás da folha em branco, zombam de nossa falta de atenção e se recusam a voltar. A sala, o quarto, a estação de metrô ou a agência dos correios viram lugares frios, sem cheiro e cor, sem vida e música. Por que diabos é tão difícil escrever? Em certas noites, parece mesmo que a tela do computador debocha de nós. Ela fica fora de foco, o teclado dorme, o branco cega e o texto estaca. É duro quando as palavras, andarilhas do tempo e do espaço, entram em greve e pedem adequado uso e aumento de vocabulário. Porque puxamos da memória sempre as mesmas palavras. Aí, a revolta: erguem-se em armas os as e os is, deitam os emes de cabeça para baixo e tudo fica de pernas pro ar. No teclado, aperta o “d”, surge o “t”. São elas sabotando a máquina.
A situação pode piorar: as letras formam fileiras, braços dados, serifas unidas, em nome do idioma. Nestes casos, a César o que é de César: busca-se na estante um livro grande e empoeirado, recorre-se ao Aurélio. Ele sabe como negociar com os rebelados. Em minutos apresenta um termo novo, uma expressão em desuso e pronto, voltam a formar palavras e frases e parágrafos as letrinhas satisfeitas.
Resolvidas as questões do aumento e do uso adequado, respiramos fundo e seguimos em frente. Voltam a conversar os personagens, música soa no quarto do Joca. Música embala também a discoteca onde Joana dança, na fatídica noite do dilúvio bíblico que vai afogar a cidade inteira e ninguém sobreviverá a não ser Joana. São fábulas que as palavras nos proporcionam. Pelo menos até amanhã, tudo certo. Mas no novo dia, nova crônica, as palavras novamente irão se rebelar, vingativas. Aí, repete-se o óbvio: por que é difícil escrever?

12/10/2009

A crônica do Dia das Crianças!

O Variedades da edição de hoje do Diário Catarinense é especial pelo Dia das Crianças, como explica o texto abaixo, publicado na capa do caderno:

O Variedades de hoje é uma homenagem ao Dia das Crianças e, também, ao Dia Nacional da Leitura. As reportagens desta edição foram escritas de maneira a facilitar a compreensão dos baixinhos. Nas páginas seguintes, eles vão encontrar uma entrevista com o escritor Ziraldo, a análise de uma exposição de artes plásticas chamada Era Uma Vez e o lançamento do último livro de Asterix e Obelix, entre muitas outras coisas legais. Então, passe logo o caderno para seu filho ler e curtir.

Fiz minha parte.


O ursinho abandonado

Você ou alguém que você conhece tem um ursinho de pelúcia? Porque você sabe: quem possui um ursinho de pelúcia costuma tratá-lo muito bem, às vezes até como se ele fosse um ser vivo. A gente dá um nome para ele, veste com roupas de criança, perfuma, dá comida de mentirinha que é para ele não passar fome, põe para dormir na cama. Em geral, a gente tem muito orgulho do ursinho, e sente um ciúme danado dele. É por isso que a gente guarda o ursinho no quarto, em cima do armário, encostado em uma estante, sentado em uma cadeira ou em cima de um travesseiro. Ele fica bem à vista, para todo mundo vê-lo! É muito legal ver um ursinho de pelúcia bem novinho.

Mas agora eu preciso dizer que eu conheci um ursinho de pelúcia diferente. Foi assim: na semana passada, eu precisei ir da Ilha para o Continente e do Continente para a Ilha todos os dias – de segunda a sexta –, então eu andei bastante de ônibus. Quando eu voltava para a Ilha, às vezes o ônibus passava pela ponte bem na pista da ponta, em que dá para ver o mar. E toda vez que o ônibus passou por essa pista da ponta, eu vi um ursinho de pelúcia na passarela de pedestres da outra ponte, a que liga a Ilha ao Continente. Ele estava ali, junto com uns trapos, como se estivesse em uma casa qualquer, mas pegando chuva, vento e sereno. Era um ursinho de pelúcia feioso, tristonho, esfarrapado. Ele estava sempre sozinho: nunca tinha ninguém perto dele.

O mundo é o lugar mais bonito que existe, mas nas ruas a gente vê muita coisa triste: trombadinhas pedindo dinheiro na porta de um restaurante ou na mesa de um bar, mendigos dormindo sob a marquise de uma loja ou na entrada de uma igreja, ladrões mascarados roubando o dinheirinho de uma lan house ou o valioso ouro de uma joalheria no shopping center, casebres de madeira que a gente vê quase pendurados nos morros da cidade.

Mas agora pense nesse ursinho de pelúcia abandonado que eu descobri: ele parece não ter ninguém para brincar com ele, cuidar dele com carinho. A gente sabe que há nos orfanatos um monte de meninos e meninas que não têm pai nem mãe, nem ninguém que goste deles, ninguém para cuidá-los, mas um ursinho abandonado eu não conhecia, nunca tinha visto. Não é triste saber que ele ainda pode estar lá, solitário? É como se ele ficasse todo dia, o dia inteiro, pedindo esmolas, pedindo por favor que alguma criança que passa no ônibus e não consegue percebê-lo desça e vá lá brincar com ele.

08/10/2009

Lula e as Olimpíadas


"Nunca antes na história desse país uma Olimpíada foi tão necessária."


Paulo Caruso, pela boca do cartum do Lula, no Jornal da Globo.

07/10/2009

05/10/2009

Ai de ti, Florianópolis!

“Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum”, de Rubem Braga para Copacabana

Ai de ti, Florianópolis, porque os teus filhos mais queridos estão envelhecendo, e há de chegar o domingo em que a meia dúzia restante terá desaparecido levando junto o teu caráter, e o cetro da manezice que eles empunharam por toda a vida, em teu louvor, por amor a ti, terminará fincado sobre a figueira da praça e será ignorado pelos turistas, apedrejado pelos teus detratores, pichado pelos vagabundos e mijado pelos vira-latas de coleira eletrônica. Ninguém mais falará “tás tolo”, e toda a tua memória mofará trancafiada no último rancho de pescador. Porque estão te sufocando, eu sei.

Ai de ti porque o vento Sul virá te presentear de madrugada com um ramalhete de desgraças nunca vistas, e a manhã ficará escura, engolida pelo breu espesso com cheiro de molusco putrefato, e no meio da tarde as tuas lagoas e as tuas pontes sumirão dos cartões-postais da mesma forma com que um dia a chuva carregou um morro abaixo – e com ele as casas, os postes, os curiós e os miseráveis –, e choverá pedras de gelo sobre a tua carcaça e na sétima hora da noite o senhor do cataclismo descansará do trabalho bem feito, não sem antes encarregar o oceano em fúria de te vigiar de madrugada.

E aí, que será feito com a tua sala de troféus, o teu rol de prêmios, as tuas conquistas, o teu reconhecimento? Com que sotaque tu falarás, e com que praia tu vais te gabar para atrair as massas? Que será do teu Carnaval, das tuas procissões, do teu réveillon? Com que bambuzal, com que garapuvu tu cobrirás teus parques de lama e ladeará as tuas trilhas sem saída? Não te restarão somente os manguezais pestilentos, que farão proliferar a sua vida selvagem por entre as ruínas do teu comércio e das tuas residências com a força invencível do progresso? Perderás o teu nome de assassino.

Eis o teu fado, Florianópolis, a menos que um especulador talentoso vislumbre em meio aos teus despojos a chance para abrir um empreendimento de sucesso e transformar o teu destino. Algo assim como um retiro espiritual para sapos, caranguejos e jacarés? Ai de ti.

01/10/2009

Fuera!

Capa especial do Ducker - O Site da Torcida Tricolor, hoje, em homenagem a mais um feito colorado neste ano do centenário.

ps. Em 2007, o Inter entrou na Libertadores para defender o título e caiu na primeira fase. Agora, repete a façanha na Sul-Americana.

30/09/2009

"I'm Thru with Love" às margens do Sena

Ontem, na novela global das 21h, Taís Araújo e José Meyer, que estão em lua-de-mel em Paris, fizeram referência à cena abaixo, do filme Everyone says i love you (1996), de Woody Allen. Goldie Hawn canta e eles dançam I'm Thru with Love, e ela flutua! É ótimo.

29/09/2009

Teste Blogpress

Oi.
Este é um teste do app Blogpress, para atualização de blogs a partir do iPhone.


Flip, da República, no DC de hoje!

Tirinha do meu amigo Beck no caderno Variedades, do Diário Catarinense:

("Cropado" no Photogene, editor de fotos para Iphone)

Obs:
para ler diariamente a tirinha na internet, mais a do
Galvão, o caminho é Diário Catarinense/Edição do Dia/Colunas/Palavras Cruzadas (pdf).

28/09/2009

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Sem anestesia Estou há 12 dias engolindo três comprimidos de antibiótico de oito em oito horas. Durante esse período, tomei um anti-inflamatório de 12 em doze horas. Estou também há quase cinco dias sem conseguir comer direito, tomando líquidos com dificuldade, ingerindo uma baga de cortisona a cada 24 horas, bochechando um líquido verde e fazendo compressa de gelo no lado esquerdo da face. Tudo para o meu próprio bem, claro, pois agora só me restam um siso e um pouco de juízo que o dentista ainda não extraiu na marra. Meus amigos dentistas tentam me esclarecer certos assuntos relacionados à sua profissão, mas é em vão. Imagino que arrancar um dente hoje não seja muito diferente de como o faziam nos tempos de Homero. A técnica deve ser rigorosamente a mesma do século VIII a.C., com exceção de que agora há uma anestesia que pode não “pegar” direito, enquanto nos tempos de Ulisses o paciente era embriagado e nada via. Atualmente, aliás, vemos tudo o que cometem na nossa boca. E ainda somos prestativamente informados do que está acontecendo, isso quando não oferecem um espelho para acompanharmos a necropsia das cáries e a exumação dos dentes inclusos. Certo, houve evolução. Na década de 30, Nelson Rodrigues, com 21 anos, precisou arrancar todos os dentes, por ordem médica, para tentar combater uma febre que não passava e que era, na verdade, uma tuberculose. Ninguém mais faz isso, claro. Mas imagine a multidão que anda por aí com dentes implantados, próteses etc.! Ora, decerto o dentista abre a sua boca, rasga a gengiva com um bisturi, liga uma espécie de furadeira na tomada, abre um rombo no osso da sua cara – com todo o cuidado, que é para não arrebentar um nervo da face e lhe deixar desfigurado para o resto da vida – e enfia lá um parafuso com um dente de mentira na ponta. Se algo der errado, ele terá de abandonar a sofisticação do procedimento e utilizar um martelo e um formão para rachar a sua mandíbula. O preço será o mesmo: meia dúzia de salários mínimos. O jovem Woody Allen poderia ter filmado a seguinte cena em alguma das suas primeiras comédias: vestidos de branco, dentistas caminham lentamente, um a um, rumo ao cadafalso: deitado com a cabeça no tronco, cada um deles recebe 10 injeções de anestesia em várias partes da gengiva, antes de ser guilhotinado diante de uma eufórica multidão de desdentados.

21/09/2009

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, do Diário Catarinense. Uma novela em Floripa Horário nobre, anúncio de estreia de novela, voz de locutor da Globo: “Odair nasceu na beira da praia e tem o mar por quintal de casa. Jovem, cheio de vitalidade, desde cedo aprendeu com o pai, um humilde pescador artesanal, o valor do trabalho, da virtude e do respeito à Mãe Natureza. Apesar da origem familiar pobre, o rapaz escolheu seguir os passos de seus antepassados e tirar o sustento da pesca. Sua namorada é Letícia, uma linda garota livre de preconceitos nascida no Centro da cidade e filha de importantes funcionários públicos municipais. A gata se encantou pelo jeito simples do garotão no balneário mais badalado da Ilha, onde rolam altos agitos durante o verão. Juntos, os dois vivem um intenso caso de amor, provando que não há barreiras invencíveis para os casais apaixonados. Mas uma ameaça vai por à prova a felicidade desta união: Mauricio Bulhões Jr., um típico filhinho de papai recém-chegado de São Paulo. Um dos mais tradicionais clãs empresariais paulistanos, os Bulhões trocaram São Paulo por Floripa para unir lazer com qualidade de vida sem deixar os lucrativos negócios de lado. Mauricio vai aos poucos ganhando a confiança da juventude local, esbanjando o dinheiro da família nas mais badaladas casas noturnas, beach clubs e restaurantes de comida japonesa. Será na praia, durante aulas práticas na escolhinha de surfe, que o rival amoroso de Odair conhecerá Letícia e tentará conquistar o coração da bela morena. A situação se agrava quando Hercules, um combativo representante do Ministério Público Estadual, passa a acusar os Bulhões de envolvimento em negociatas no ramo hoteleiro de Jurerê Internacional com a conivência dos pais de Letícia na prefeitura. Obstinado, paladino da lei e da ordem, Hercules fará de tudo para desmascarar os forasteiros desonestos. A fim de provar sua inocência e preservar a honra de seu sobrenome, os empresários moverão mundos e fundos na luta judicial contra o promotor idealista. Acontece que Odair tem um grande aliado na sua disputa pelo amor de Letícia: o perigoso Xandoca, um velho amigo de infância e de pescarias na Ilha das Aranhas. Morador de um dos morros mais violentos de Florianópolis, Xandoca promete ajudar no que for preciso, inclusive com o auxílio da Gangue do Boca, uma turma barra pesada que não brinca em serviço. O houle não perde por esperar. Intrigas, paixões, grandes emoções. Em dezembro, na esquina da sua rua.”

20/09/2009

Gavião Kyikategê: os índios no futebol

Emocionante a reportagem do Esporte Espetacular de hoje.
Linda mesmo:
"O Gavião Kyikategê é formado e dirigido por índios e busca um lugar na primeira divisão do futebol paraense. O Estrela de Ouro Parkategê, a tribo vizinha, disputa o campeonato amador de Marabá."

18/09/2009

Atualização

De volta ao blog - aos poucos, passo a passo, devagar e sempre. Abaixo, as últimas crônicas do Diário Catarinense. 14 de setembro As perdas As chuvaradas voltaram, e com elas os tornados. Ora, nesta última década Santa Catarina tornou-se um pedaço de terra visitado por tornados e ciclones extratropicais. Não me lembro de algum dia ter aprendido nas aulas de geografia que esse tipo de fenômeno pudesse um dia castigar o lugar onde vivo. Havia a estiagem, que matava o gado, queimava as plantações, secava os rios, e enchentes de grandes proporções de vez em quando, que engoliam casas, carros, vidas. Mas nunca, sei lá, o furacão. De repente, do nada, aparece um Catarina vindo do oceano e arrasa tudo que encontra na sua rota com força inédita, que não conhecíamos senão por filmes de catástrofes, e inaugura uma triste rotina. Continua aqui. 7 de setembro Se eu pudesse... Se eu pudesse, confesso que me dava o direito de deixar em branco este espaço que me cabe no caderno Variedades de hoje. Ainda melhor que isso somente se houvesse a possibilidade técnica de trocar o texto que porventura eu apresentasse por uma mancha preta que ocupasse toda a coluna aqui no canto da página, de alto a baixo, nesta segunda-feira de feriado nacional e tédio invencível. Continua aqui. 31 de agosto O Vô Maneca Para Guilherme Gouvêa, pelos 33 Nos tempos em que era meu pai quem levava eu e meu irmão ao barbeiro, íamos emburrados, sem dar um pio no carro, indiferentes aos comentários de que estávamos com “jubas de leão”. Nada amenizava nosso aborrecimento contra o ofício de certo velhinho bondoso que nos recebia com sorrisos e abraços. Este senhor chamava-se Vô Maneca, que é como meu pai o tratava. Ele e a mulher moravam em uma casinha azul de madeira, na Trindade. Continua aqui. 24 de agosto Agosto funesto Serei azedo como este mês de agosto. Porque pensei que em 2009 o mês não seria tão carregado como outros agostos cujas ocorrências marcaram a história. O agosto atual no Brasil, porém, tem lá suas tragédias, ligadas aos três poderes, cada vez mais indignos de crédito. Continua aqui. 17 de agosto A sacada e o Peninha Na semana passada, investi boa parte das minhas tardes sentado na velha sacada, olhando a rua e o movimento. Fizeram-me companhia uma pilha de livros que eu jamais imaginara ler e um canário verde e amarelo chamado Peninha. O passarinho é lindo e cantador, motivo pelo qual recebe tratamento respeitoso e digno dos seus responsáveis: ganha alpiste a cada tantos dias, frutas silvestres ou couve de quando em quando, água renovada diariamente, sementes exóticas, brisa pela manhã, solzinho no fim de tarde e, à noite, a proteção de panos limpos sobre a gaiola para que os mosquitos e as luzes da noite não o incomodem. Além disso, a sacada é ornada com vasos de flores e muito verde, o que decerto ajuda a diminuir ainda mais o desamparo do bicho. Continua aqui.

09/08/2009

Até!

03/08/2009

As boas leituras do fim de semana

Estadão: No vale-tudo póstumo, caiu na rede, é peixe Herdeiros viraram uma praga cultural, cujo poder decisório põe em risco reputações consolidadas - por Sérgio Augusto Seguindo Rubinho Barrichello no Twitter Pelo microblog, dono da mola deu a cara a tapa, mas também bateu um bocado - por Christian Carvalho Cruz NYT: Fotógrafa Annie Leibovitz está na pior: empresa cobra dela 24 milhões em dívidas: http://migre.me/4yEA Serendipity na internet: por que é tão difícil? http://migre.me/4yEi Editor abre e explica erros de informações na reportagem sobre a morte de Walter Cronkite, o paladino da precisão: http://migre.me/4yDF Neto de Hemingway mexe em Paris é uma festa e reedita! AE Hotchner, biógrafo, lamenta: http://tiny.cc/NwlEb Financial Times: Lunch with the FT: Lars von Trier
Der Spiegel: Napoleão na Rússia não foi batido pelo inverno, mas pelos piolhos: http://tinyurl.com/lttow6

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Vinho pra ressaca, e nela fico Achou suspeito quando o telefone tocou. Não esperava ninguém, nem marcara encontro. Já estava deitado, entregue à leitura: embrulhado em cobertores e edredons, o aquecedor ligado. Mas o telefone tocou e tinha de atender, pois se esquecera de desligar o aparelho da parede para que não importunasse seu sono. Era sexta-feira, e o leitor já percebe que os hábitos de nossa personagem estão menos para as festas do que para o silêncio monástico do fim-de-semana recluso. Atendeu. Segundos depois do “alô”, viu-se diante de uma prova de fogo. Alguns colegas colocavam sua abnegação em xeque e o chamavam para uma festinha daquelas. Começou por responder que não, não podia, estava cansado, sonolento, o trabalho da semana tinha sido exaustivo, o corpo pedia doze horas de sono mais um sábado inteiro de repouso. Da resposta negativa à mentira descarada bastou um pigarro: tinha saído noite passada e bebido além da conta, estava com ressaca, vomitara. Os colegas insistiram para que deixasse de besteiras, de mentir na maior. Ele que se vestisse e descesse em 10 minutos, tempo que levariam para buscá-lo. Acrescentaram que Silvia estaria presente na festa, com um fogo danado. Completaram: – Anda doida para sair contigo. Não foi o bastante. Nossa personagem agradeceu, mas tornou a recusar, agora com uma veemência nada habitual. Passou a desfiar um novo rosário de motivos furados. Tampouco deu certo. Os amigos riram ao ouvir que, devido à ressaca, tivera de tomar remédios e estava prostrado. Não colou. Em resumo: ficaram cerca de meia hora discutindo a ineficiência dos argumentos e o desconforto de uma ressaca imaginária. Até que a nossa personagem cedeu. Desligou o telefone deixando aos arautos do prazer a promessa de que em menos de quinze minutos estaria “pronto para mais essa, seus sacanas”. Tomou um banho rápido, Silvia na cabeça, vestiu-se, armou-se com três camisinhas e, de uma talagada, derrubou uma dose de uísque sem gelo. Para esquentar. Silvia era uma mentira dos amigos, a festa não passara de uma ida ao bordel, a bebida lhe causara um real enjoo e, no sábado à tarde, ao despertar, disse a si mesmo que nunca mais cairia no conto da luxúria fácil. À noite, pediu uma pizza de legumes e uma garrafa de vinho branco seco. – É pra curar a ressaca – disse à atendente da pizzaria.

29/07/2009

Pinceladas de Tomasi di Lampedusa

O Gattopardo, BestBolso Tradução de Marina Colasanti página 96
A viagem havia durado três dias e havia sido horrenda. As estradas, as famosas estradas sicilianas em virtude das quais o príncipe de Satriano havia perdido a lugar-tenência, eram vagos vestígios cheios de buracos e poeira. A primeira noite em Marineo na casa de um tabelião amigo ainda havia sido suportável; mas a segunda em uma hospedaria sórdida de Prizzi fora dura de passar, três em cada cama, ameaçados por fauna repulsiva. A terceira, em Bisaquino. Não havia percevejos, mas em compensação Don Fabrizio encontrara 13 moscas no copo de granita; um pesado cheiro de fezes exalava tanto das ruas quanto do vizinho "quarto dos cântaros" e isso gerara no Príncipe sonhos penosos; acordando com a primeira luz, afundado em suor e fedor não pudera deixar de comparar essa viagem nojenta à sua própria vida, que transcorrera inicialmente em planícies risonhas, escalando em seguida montanhas íngremes, esgueirando-se entre gargantas ameaçadoras, para desembocar mais tarde em intermináveis ondulações de uma única cor, desertas como o desespero. Essas fantasias ao amanhecer eram o que de pior podiam acontecer a um homem de meia-idade; e embora Don Fabrizio soubesse que estavam destinadas a desvanecer com a atividade do dia, sofria agudamente com elas porque era suficientemente experimentado para saber que deixavam no fundo da alma um resíduo de luto que, acumulando-se a cada dia, acabaria por se tornar a verdadeira causa da morte.

28/07/2009

Nelson Rodrigues de volta à rede!

Em 2002, sob orientação do professor Clóvis Geyer no Jornalismo da UFSC, a Jade publicou o site Tudo Sobre Nelson Rodrigues, como trabalho de conclusão. Desde então e até pouco tempo atrás, o site esteve hospedado no site do curso. Agora, volta ao ar com domínio próprio, o mesmo layout e o mesmo conteúdo, mas há promessas de atualização...

27/07/2009

A teoria de Einstein comprovada em Sobral (CE)!

Do Estadão de ontem:
Os lunáticos de Sobral

Há exatos 90 anos, durante um eclipse no interior do Ceará, foi provada a teoria da relatividade de Einstein

Ivan Marsiglia

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TIME DE ASTROS Os cientistas, em frente da Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio, em 1919. De branco, no centro da foto, estão Charles Davidson e Andrew Crommelin. À esquerda do primeiro, Henrique Morize

Diz que o povo abarrotou a igreja, em frente do acampamento onde tinham sido instaladas as lunetas e equipamentos de medição dos gringos. As senhoras, terços enrolados nas mãos em prece, achavam que o mundo ia se acabar. Diz que algumas corriam pelas ruas batendo panelas, na esperança de espantar os maus espíritos. Já as grávidas foram trancafiadas em seus quartos desde o dia anterior para que não gerassem filhos escuros como as trevas. E diz que às 8 horas, 58 minutos e 28 segundos da manhã do dia 29 de maio de 1919, a sombra da Lua cobriu por completo a circunferência do Sol. Os galos, confusos, puseram-se a cantar como se fosse noite. E, por não mais que cinco minutos, as estrelas saltaram aos olhos dos cientistas maravilhados.

O eclipse, acompanhado por uma equipe de astrônomos ingleses, americanos e brasileiros, mudaria não apenas a rotina dos então cerca de 6 mil habitantes da pequena Sobral, a 235 quilômetros de Fortaleza, no Ceará, mas os próprios rumos da ciência naquele início do século 20. À época, a cidade, que tem hoje 155 mil habitantes e é conhecida por ser a terra natal dos irmãos políticos Cid e Ciro Gomes, era iluminada por lampiões e puxada por charretes e carroças. Foi essa espantosa expedição científica que levou o primeiro automóvel visto por lá, um Ford Modelo T, o famoso Ford Bigode. E as mães sobralenses, sobressaltadas, recomendavam às crianças que não se metessem com o carro "para ele não ‘pisar’ nelas", diverte-se o físico cearense Emerson Ferreira de Almeida, professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú. Aos 38 anos, Emerson é o responsável pelo Museu do Eclipse, erguido há dez anos pelo então prefeito e atual governador Cid Gomes na praça central, da Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio, local exato onde os astrônomos primeiro fincaram suas lunetas. Continua aqui.

Nova biografia de Gabriel García Márquez

No Estadão de ontem. Tomara que o livro saia logo no Brasil. Li Viagem à semente, de Dasso Saldívar, ainda na faculdade, e também o primeiro volume de Viver para contar, do próprio Gabo. Um terceiro olhar sobre o autor de O outono do patriarca será bem-vindo. Caminhos de García Márquez Entusiasta, mas escrupuloso, Gerald Martin narra a trajetória do colombiano Michael Greenberg Quando Gabriel García Márquez terminou de escrever Cem Anos de Solidão, em 1966, estava com quase 40 anos, era pai de dois meninos e não tinha dinheiro suficiente para mandar os manuscritos da Cidade do México para seu possível editor em Buenos Aires. O episódio é famoso, aliás, um dos muitos que contribuíram para a imagem pública cuidadosamente elaborada de populista e estereótipo do gênio. No prazo de um ano, o sucesso do romance deslumbraria o autor, que foi tomado, como diria mais tarde, pelo "frenesi da fama". Antes de Cem Anos de Solidão, ele havia publicado apenas três contos em pequenas edições quase clandestinas. Não parecia razoável esperar mais. Continua aqui.

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
No Twitter, quarta-feira passada:
loucura: acabo de chegar à ressacada, de moto taxi. A cronica de segunda ta garantida!
De moto, pelo Grêmio! Eu não iria a Avaí x Grêmio, por falta de ingresso. Acontece que duas horas antes do início do jogo eu consegui uma entrada. Telefonei para um avaiano que, de manhã, me oferecera carona. Para a minha desgraça, ele já estava na Ressacada. Amigo de longa data, porém, ele tratou de me encorajar: – Amigão, na rádio dizem que a fila está lá no túnel! Se eu fosse tu, ia até o Centro e pegava um moto-táxi. Vais chegar rapidinho. Boa sorte! Suei frio ao considerar a ideia. Mas decidi arriscar. No Largo da Alfândega, o único taxista que avistei estava com um avaiano na garupa. Esperei, e quando faltava pouco mais de uma hora para o começo da partida – eu cogitava desistir –, encontrei um livre. Combinei preço, meti o capacete e pedi muita calma – sou novato e tenho medo. Parecia que rodávamos havia meia hora, quando uma freada brusca me fez repensar no que diabos eu estava metido. Próximo ao túnel, a poucos metros de onde partíramos, dois motociclistas se estatelaram na nossa frente. Ao ver a cena – motos no chão, os sujeitos se levantando em câmera lenta, os faróis dos carros, o semáforo verde, buzinadas –, quase pedi para descer. – Esses irresponsáveis... Era o meu taxista. Suspirei de alívio. E no túnel eu dizia a ele: – Só na manha, só na manha, meu senhor. Percebi então que quanto mais eu falava, menos ele acelerava. Tratei de puxar conversa. O problema é que ele começou a virar a cabeça para trás repetidamente (“Como?”). Balbuciei “só na manha” e fiquei quieto. De qualquer forma, agora estávamos na Via Expressa Sul, sem curvas, com carros por todos os lados! Por que me preocupar? Tudo ia muito bem quando comecei a achar o espaço entre os carros muito estreito. E se eu desse uma joelhada num espelhinho? Se alguém resolvesse mudar de pista? Ou abrir a porta? E se a polícia nos parasse? Se eu fosse preso? Estrada reta é um perigo. Depois do Trevo da Seta, incentivado pelo meu silêncio de aparente tranquilidade, o taxista invadiu a pista no sentido contrário e acelerou. Um ônibus em alta velocidade surgiu, e o meu piloto teve de voltar à sua pista, sobre os sinalizadores, provocando-me uma leve tremedeira na espinha. Quando chegamos, faltavam 40 minutos para o começo do jogo. E o resto da noite, para ser franco, foi bem sem graça.

22/07/2009

Uma boa notícia para este blog!

Podia ser uma excelente notícia, mas é boa mesmo assim.
Semana passada saiu o resultado do "1º Concurso Guemanisse de Crônicas e Textos de Humorísticos", promovido pela editora Guemanisse, do Rio de Janeiro. As inscrições terminaram em maio, e resolvi enviar uma crônica publicada aqui no blog no ano passado (não precisava ser inédita). É o texto Espiral de calamidades, que escrevi por ocasião da enxurrada que desabou sobre o Vale do Itajaí, principalmente. Os comentários e elogios deixados pelos colegas, amigos e internautas me deram confiança de que esta crônica tinha qualidades e chances de brigar por um prêmio. Não ganhei, claro, porque ter ganhado seria o lead deste post, mas o fato é que o texto ficou entre os 309 melhores (que disputaram os 3 primeiros lugares) de um total de 1.192! E agora vai sair em livro, junto com os vencedores.
É a segunda vez que me inscrevo num concurso de crônicas dessa editora, e é a segunda vez que entro numa antologia publicada por ela. A outra vez foi em 2006, no "1º Concurso Guemanisse de Crônicas e Charges", que rendeu a publicação do livro Guardados e Contextos.

20/07/2009

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Faltava-lhe algo Ela tinha tudo. Tinha um motorista para levá-la e trazê-la, uma cozinheira para preparar as refeições, tinha uma faxineira para lavar e varrer, uma empregada doméstica para passar e servir. A mulher possuía ainda um belo apartamento, vasos coloridos, porta-retratos de prata, uma vista incrível da cidade a partir da sacada. Tinha até uma luneta, com que espiava o mundo dos outros nas noites de insônia. E ela tinha amigas. Em sua companhia, frequentava os bares da moda, bebia às vezes um chope, para variar um pouco do vinho sagrado, tinto e suave. Não raro saía para jantar, ela e mais duas ou três, sempre juntas, sempre um pouquinho alteradas. Tinha um celular com a memória cheia de telefones. A sobriedade bastava-lhe no trabalho, aliás, quando os homens a olhavam de longe. O que viam era uma muralha de austeridade, que só ruía quando ela abria um sorriso – raro como flor no ermo. Ela tinha dentes bem brancos e uma boca vermelha, carnuda. Era sócia de uma confraria secreta que promovia festas de arromba em lugares privados. Coluna social alguma, por mais prestigiada ou disputada que fosse, recebia fotos do evento. Ela mantinha as unhas pintadas, o cabelo sedoso e escovado. Era vaidosa como só as boas mulheres o são. Tinha um secador de cabelos potente e uma escrivaninha cheia de livros. Lia deitada no sofá, só de camisola, com as pernas para cima, apoiadas na parede. Ria sozinha e se divertia nos chats fazendo passar-se por loura, seios fartos. E era morena e magra. Nas festas da confraria, já bêbada, dançava até cansar e os pés ficarem doloridos. Balançava a cabeça e mexia a cabeleira de um lado para o outro, como vira certa vez uma atriz fazer num filme XXX. Dançando de vestido curto, as coxas à mostra, sentia-se desejada. Até mesmo algumas colegas lhe deitavam uns olhos de tato, gulosos. Dizia-se que tinha uns romances, uns encontros furtivos. Só diz-que-diz, ninguém nunca flagrara nada. Era discreta, sensual e misteriosa. Quando, porventura, ia a um encontro, porteiro algum a via voltar para casa acompanhada. Ela tinha tudo. Mas era sozinha, e sozinha vivia. Nunca casara, nunca ninguém a vira com um namorado sério. Ela tinha tudo; dinheiro, amizades, diversão, um lar, os livros. Sentia, porém, falta de algo. Bebia em casa por causa disso e, chorando, ouvia Maria Rita baixinho... Faltava-lhe um beijo. Era isso: faltava-lhe uma boca para se entregar.

19/07/2009

100 anos de Gre-nal!

Ontem, 18 de julho, 100 anos do primeiro Grêmio x Inter, 10x0 para o tricolor. Hoje, 2x1 no jogo festivo da efeméride. Tudo certo, tudo azul.

17/07/2009

Morre a lenda: Walter Cronkite (1916/2009)

Acompanhe a cobertura da morte do jornalista Walter Cronkite, lenda do telejornalismo americano, no site do New York Times. Aqui, a galeria de fotos do "The Most Trusted Man in America".

13/07/2009

Viva Salim Miguel!

No Twitter:

Salim Miguel no site da revista Cult!

A melhor notícia do dia: saiu hoje, no site da revista Cult, o perfil que escrevi de Salim Miguel, o escritor "líbano-biguaçuense", como ele gosta de dizer, que no dia 23 vai à Academia Brasileira de Letras receber o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. O texto visa mostrar a incessante atuação de Salim na vida literária e cultural brasileira, lá se vão mais de 60 anos... Abaixo, a abertura. O resto, confira no site.
Salim Miguel, jornalista e escritor
Autor de Nur na Escuridão recebe dia 23 de julho o Prêmio Machado de Assis, a mais importante honraria das letras nacionais 13/07/2009 Felipe Lenhart O escritor Salim Miguel não se cansa de repetir a história da tarde em que, por telefone, teve de explicar a um impaciente revisor do centro do país o significado da palavra tanso. Para não soar professoral, Salim foi didático: "Meu filho, se tu não sabes o que quer dizer tanso, então és um tanso mesmo". Este ruído de comunicação entre o epicentro e a periferia da produção cultural brasileira serve de metáfora para ilustrar uma embolorada tradição do mercado editorial: para ser lido e publicado por editoras importantes, angariar críticas relevantes ao seu trabalho, o escritor de fora do eixo Rio-São Paulo precisa vencer desafios às vezes absurdos. Mas perdoai o revisor diligente: inquirir o autor em busca de justificativas pela escolha de certos vocábulos, pelo uso de certa sintaxe, faz parte do seu ofício. Ele só não sabia que o libanês Salim Miguel não se permite concessões de estilo. Sua obra literária foi construída a partir da cidade catarinense em que passou a infância, Biguaçu, na Grande Florianópolis, onde os açorianos legaram uma herança peculiar nos usos, costumes e no linguajar local. Por ali e em quase todo o litoral, tanso - sonso, tolo, ingênuo - é palavra corriqueira na boca dos "manezinhos da Ilha" e dos que vivem à beira-mar. Foi essa pertinácia em escrever obedecendo ao tom da própria voz e à cadência do próprio ritmo, levando a sério o ensinamento de que é a partir dos pormenores da aldeia que se revela a complexidade do mundo, que levou Salim Miguel a empenhar toda a sua vida à palavra escrita e à difusão da literatura no Brasil. No dia 23 deste mês, quando entrar na sede da ABL para receber o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra, a mais importante honraria das letras nacionais, Salim estará emocionado pela realização do sonho de ter reconhecida a sua trajetória literária, e lá nos desvãos da memória haverá de emergir uma cena da época em que fazer-se escritor e jornalista era apenas um desejo de criança: o dia em que conheceu João Mendes, o livreiro cego da sua Aracataca afetiva. Continua aqui.

Leituras...

A primeira dica é a carta de Mário de Andrade a um então jovem Otto Lara Resende, que, com 22 anos, recebeu o poeta paulistano em Belo Horizonte no dia 10 de setembro de 1944 nos preparativos do 1º Congresso Brasileiro de Escritores. No Cassino da Pampulha, de madrugada, Otto escreveu um poema a Mário num guardanapo, e Mário, depois, de volta a SP, escreveu-lhe uma carta de agradecimento e enviou ainda uma cópia datilografadado poema. Está na edição de estreia de serrote, revista de ensaios do Instituto Moreira Salles. A segunda dica é a entrevista com o jornalista e escritor francês Gilles Lapouge, que tem 85 anos e há seis décadas escreve para o Estadão. 2009 é o ano do homem.

Vídeo da semana: Richard Dawkins

Ao lado, vídeo da palestra de Richard Dawkins na Flip.

A Flip, como foi.

Ontem fez uma semana que a Flip terminou. Nossa viagem não foi legal, como dei pequena amostra na crônica da semana passada publicada no Diário Catarinense. E a Flip nos decepcionou, de certa maneira. Primeiro, a viagem. Chegamos a Paraty na quarta-feira à noite, por volta de 23h30. O sujeito que nos alugou a suíte estava dormindo, e deu trabalho acordá-lo. Chovia. Quando enfim entramos no quarto, o cheiro de mofo era evidente. Saímos para jantar, afinal eram os minutos finais do dia do aniversário da Jade, e queríamos brindar novamente - passamos o dia no RJ curtindo a cidade e comemorando, e eu estava com "saúde de vaca premiada", apenas tomando religiosamente os remédios para combater a alergia diagnosticada uma semana antes do embarque. Voltamos para a pousada muito cansados e dormimos. No dia seguinte, nossa primeira mesa-redonda na Tenda do Telão era a de Richard Dawkins, às 19h. Mas às 14h, pouco depois de acordar, eu já queimava em febre, tinha o corpo todo dolorido e tossia e sentia a garganta doer. Com muito trabalho fomos ver Dawkins, que acabou sendo a melhor palestra - conduzida pelo jornalista Silio Boccanera, acostumado a entrevistar figurões - das que assistimos. À noite eu continuava mal. Na sexta-feira, dia de Milton Hatoum e Chico Buarque, o mesmo roteiro de febre, cansaço, corpo em frangalhos. Eu não tinha força para nada. E a Jade, nervosa, me levava a uma farmácia, a outra farmácia, e outra e outra. Até que decidimos ir a um posto da Unimed e fomos informados de que um clínico geral só apareceria por ali na terça-feira! Posto de saúde havia, afastado do centrinho histórico, mas fechava às 17h. Enfim, foi um sufoco. Mal aproveitamos, e sequer assistimos a Lobo Antunes, depois de ver uma fraquíssima entrevista com Gay Talese – UPDATE: parecia um talk-show! –, no limite das forças. Pelo menos a três colegas que encontramos lá ficamos devendo uma ida ao boteco mais próximo, porque infelizmente tivemos de evitar tudo e todos simplesmente para que eu pudesse dormir e respirar direito: Bruno Dorigatti, do Portal Literal, Igor Miguel Pereira, autor publicado pela Letras Brasileiras, e a jornalista Carolina Pinheiro de Paula, autora do blog A Macaca.
*** Sobre a Flip, as palavras de Daniel Piza, ontem, no Estadão, poderiam ter sido escritas por mim ou pela Jade.
*** A cidade do Rio de Janeiro continua duca! E muito obrigados, Rafa e Cláudio, pelo colchão em Botafogo!!!

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Chuva e paciência Hoje chove, e, nestes dias de chuva, até a folha do computador, já com todas estas letras e palavras, já com duas linhas quase completas, fica chocha, sem graça. Porque lá fora cai uma garoa triste, penosamente devagar. – Cada pingo d’água deve equivaler a uma estrela que derreteu durante a noite. Não me pergunte de onde tirei essa pensata, lembrei dela agora, com um sorriso magro nos lábios, quando olhei a peneira lá de cima que nos deságua esta amargura. Neste momento, devido à minha blasfêmia de um minuto atrás, o aguaceiro aumenta – vem temporal por aí. Lá fora, o céu fica de uma cor pálida, parecendo uma grande, imensa porção de algodão mofado. Olho para os morros e não consigo ver nada. O sombrio nevoeiro me tira a visão dos cumes baixos de Florianópolis. Sinto-me péssimo, achando que nunca mais vou voltar a ver aqueles lugares que, na verdade, nem visitei e nem imagino como são, mas que, daqui da minha casa, faço questão de contemplar todo dia. E o vento sul, este inferno meteorológico, acossa impunemente o meu bairro. “Vento encanado mata”, dizem os sabidos, nossos avôs e avós, nossos vizinhos mais antigos e vividos. Aqui no bairro, então, meus bons velhinhos, morreremos todos assassinados pelo vento, pois em Coqueiros encana todo o vento do mundo. Ele grita: arranca veneziana das janelas de prédios, sacode as antenas de TV, arrebenta cordas frouxas nos varais das casas. É um turbilhão de ar em movimento, sem freio. Ligo a televisão e sintonizo um canal que fornece previsões, todas muito suspeitas, sobre o tempo e o clima de cada região, cidade e quilômetro quadrado do Brasil. Espero, entorpecido pela calma, a região Sul, Santa Catarina e, finalmente, a ilha. Sol forte durante todo dia, uma pancadinha de chuva no fim da tarde, quando estiver escurecendo e a noite, avançando. Descubro, mais tarde, que o tal canal é estrangeiro e que seus funcionários nem imaginam a localização desta obscura ilha da América do Sul. Sem muita paciência e esperança, descrente de que qualquer coisa possa mudar na atmosfera lá de fora e aqui de dentro nos próximos minutos, volto ao janelão da sala e observo, torcendo pelo temporal que se aproxima, lá fora. Que venha o cataclismo.

07/07/2009

A crônica de ONTEM, no DC!

Ontem, cheguei muito tarde a Florianópolis para atualizar o blog com a crônica do Diário Catarinense. O texto é um pouquinho do que eu e a Jade passamos em Paraty, que recebeu a Flip entre os dias 1 e 5. Foi escrita em cima da hora, domingo pela manhã, antes de embarcarmos de volta para o RJ - caso contrário eu perderia o deadline -, porque antes disso eu não tinha força pra nada. Mais tarde conto direito como foi. Em Paraty, na FLIP – E aí, meu? Como tá a Flip? – Opa! Quanto tá? Nuns mil reais, já... – Não, não foi isso que perguntei, mas fico feliz de saber que o casal está sendo econômico. – Mil reais por pessoa, cara. Tá doido? – Ih, mas pelo menos tá valendo a pena, né? Até o Chico Buarque está por aqui... – É, tem valido a pena, mas poderia estar melhor. Quanto ao Chico, não sei por que convidaram ele, sinceramente. – Como assim? – Bom, chegamos na quarta-feira, quase meia-noite, e o dono da suíte que a gente alugou já estava dormindo o sétimo sono. Tivemos de esmurrar o portão da casa durante bom tempo até que ele acordasse. E ele veio nos atender com aquele bom humor... “Acresce que chovia”, se é que você me entende. Bom, entramos na suíte e surpresa: o banheiro não tinha porta. Para manter o mínimo de privacidade, combinamos que quando um usasse o banheiro, o outro sairia do quarto. – Meu, que improvisação! Mas é comum em cidade pequena... – É... E a participação do Chico? Foi emocionante. Principalmente naquela hora em que ele e o Milton Hatoum leram trechos dos seus últimos livros. A diferença entre o trabalho dos dois é tão absurda que ficamos com pena do Chico, passando um papelão desses. – Pô, não gostou mesmo, hein? – Rapaz, na quinta-feira acordei tremendo de febre, com uma crise alérgica dos diabos. Violentíssima, sem brincadeira. Era o mofo da suíte. Eu só conseguia respirar pelas orelhas, e mesmo assim com dificuldade. Dor no corpo, coriza, tosse, vias aéreas congestionadas, 39 graus de febre... – Mas passou, pelo jeito. – Sim, passou ontem, durante o Supercine. Porque de quinta até ontem eu sobrevivi ardendo em febre. Queria fazer entrevistas, perseguir escritores, aproveitar a programação completa, virar um paparazzi do Gay Talese mas tudo que fizemos foi ir de farmácia em farmácia, pedindo ajuda e comprando remédios. E “acresce que chovia”, se é que me entendes. – Bom, mas hoje vocês já estão indo embora e amanhã estarão em casa, depois de rápido voo. – É mesmo. Mas sabe que foi bom passar por essa experiência? É verdade, porque até quarta-feira eu era a favor da realização da Copa do Mundo em Floripa. – Não entendi. – Deixa pra lá.

02/07/2009

Flip 2009 - Dia 1

Dia 1, porque chegamos tarde a Paraty ontem à noite e não vimos a conferência de abertura de Davi Arrigucci Jr. nem o ouvimos o show de Adriana Calcanhoto. Estávamos estragados depois de quase cinco horas dentro do ônibus, que fez parada em Angra dos reis e era desconfortável. Mas assim que deixamos as malas na pousada, por volta de 23h30, saímos para jantar (ambos urrando de fome) e já encontramos dois conhecidos: Bruno Dorigatti, do Portal Literal, e Igor Miguel Pereira, jovem escritor cujo primeiro romance, Txakazuê, eu editei na Letras Brasileiras.
Depois do jantar, corremos pra pousada e dormimos muito. Pela manhã, fomos reconhecer os locais onde ocorre a programação da Flip e relembrar a cidadezinha que visitamos em 2005, ainda noivos. Nossa primeira palestra na Tenda dos Telões será a do escritor Richard Dawkins, autor de Deus, um delírio.
Confira a programação completa da Flip 2009 aqui.

29/06/2009

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Sem assunto Repare: não há o que ler aqui hoje. Se você buscava distração neste canto de página, um refrigério lírico em meio ao inferno de notícias ruins do jornal, peço desculpa. Se você argumentar que Michael Jackson morreu e que eu deveria discorrer sobre o cinquentão pop até o fim da coluna, arrancando emoção de cada vírgula, responderei que não concordo, porque, para chorar este defunto, há na cidade um ecossistema de músicos e críticos musicais diplomados na melhor faculdade de jornalismo do Brasil. E o fato é que não tenho “inspiração” nem paciência para contar uma história qualquer nesta segunda-feira. O papel está em branco. Só me resta, então, sugerir uma parceria. Façamos assim. Eu fico a entretê-lo, a orientá-lo de alguma forma, perdido talvez em digressões, e você assume a tarefa de escrever a crônica por mim. Lembre-se de que não é preciso diploma para escrever crônicas – graças ao jornalista Rubem Braga, que é o Deus deste gênero literário. No fim das contas – você verá –, ser um cronista de segunda é um desafio autodidata: exercita a capacidade cognitiva, mexe com a criatividade, testa conhecimentos gerais e dá até intimidade com o idioma. No mais, diverte. O que é crônica, afinal? Eu não sei, ninguém sabe. Dizem que é aquilo que vem à cabeça do cronista e ele consegue decifrar em linguagem escrita, há quem garanta não ser nada disso. O pessoal não se decide, é mesmo uma terra sem lei. Mas tenho umas pistas. Você pode falar mal dos outros e das coisas – o Lula, o trânsito –, ditar regras e incitar os povos a fazer o que você acha melhor – tudo bem, só não seja aborrecido, nem dê discursos. Você pode, ainda, escrever frases bonitas de se ouvir, mas completamente vazias de significado se relidas com atenção. Por exemplo: junte numa só sentença engenhosa as palavras solidão, desespero e vazio e pronto, as garotas o aclamarão, vão querer autógrafos e sabe-se lá o que mais da sua persona sensível. Você tem também o direito de inventar um enredo que se resolva em poucos parágrafos, historieta com o mínimo de verossimilhança e de suspense. Para o leitor transitório de jornal, acostumado tanto à verdade jornalística quanto ao espanto da revelação cabeluda nas páginas policiais, mistério é o que conta. Em último caso, recorra às memórias de infância, sempre bem-vindas, ou, sei lá, qualquer outra reminiscência. Só não pode é ficar sem assunto. Combinado?

MJ revisto 2: um artigo escrito por quem o viu

O texto abaixo foi escrito às pressas pelo meu amigo jornalista Eliziário Goulart Rocha, a pedido de Zero Hora, minutos depois de a notícia da morte de Michael Jackson ter sido confirmada. Eliziário viu o homem de perto, e gostou. 26/09 Jamais haverá outro como ele Lembro-me de tê-lo ouvido pela primeira vez quando eu tinha uns oito anos de idade, e ele 10, embora possa ter sido antes. I’ll be there, Ben, Music and Me, Happy, canções pueris, cujas letras eu desconhecia, embalavam meus irrealizáveis sonhos românticos da infância. Então, o menino-prodígio do Jackson Five cresceu, mas conseguiu segurar os agudos, deu show de bola na carreira-solo e virou ícone mundial. Tive o privilégio de cobrir para Zero Hora quatro shows da turnê Dangerous, dois em Buenos Aires e dois no Morumbi, em São Paulo, em outubro de 1993. Momentos inesquecíveis em que assisti ao vivo a toda aquela magia. Genuíno príncipe herdeiro da música negra americana, Michael misturou ritmos improváveis, revitalizou o pop, reinventou o videoclipe, cantou e dançou como ninguém. Elevado à categoria de mito, depois de personagem quase ficcional, isolado em sua Terra do Nunca particular, por vezes sucumbiu à própria fantasia. E como a mídia que incensa é a mesma que destrói, virou fonte inesgotável de assunto. Mas não podia se queixar disso, ao menos não inteiramente, pois contribuía para sua própria desconstrução. “Ninguém é normal quando está no palco desde os cinco anos de idade”, desabafou certa vez, ao receber o Grammy na auto-explicativa categoria de Lenda. Lamentavelmente, a cor de sua pele, a sexualidade, as cirurgias plásticas, as acusações de abuso, tudo isso acabou se sobrepondo no imaginário de milhões de pessoas aos atributos do artista genial, cujo legado para a música internacional é de uma dimensão que a maioria ainda levará muito tempo para compreender. Michael era único, daquela categoria de artistas dos quais se pode dizer que jamais haverá outro sequer parecido. Um dos últimos grandes, verdadeiramente grandes. E como a maioria deles, parte cedo. A relação brilho intenso, vida breve prevalece mais uma vez. Enquanto escrevia eu ouvia algumas de suas incontáveis canções de sucesso – Man in the Mirror é minha predileta, e era também a dele. Este texto está longe de expressar todo o significado de Michael, mas foi escrito sob a emoção da notícia que acabou de chegar, e que ainda nem foi adequadamente digerida. A notícia de que milhões de fãs em todo o mundo perderam sua estrela, de que ele nos deixou em desassossego, mas de que talvez ele, enfim, tenha paz.

MJ revisto 1: Moonwalker, o jogo

Minha primeira contribuição à análise do legado e da influência cultural de Michael Jackson à cultura pop é divulgar aqui no blog o videocast do Angry Video Game Nerd - um viciado em jogos antigos - sobre Michael Jackson's Moonwalker, do Mega Drive. E que jogo! Um dos objetivos é salvar criancinhas de homens malvados; há um momento em que MJ vira um robô tipo transformer; "and even the dogs dance in the fucking game". Bem divertido.

25/06/2009

Uma homenagem a Stélio Furlan

Ontem foi o último dia de aula da disciplina de Stélio Furlan no mestrado em literatura brasileira da UFSC. Intitulado Escrita-viagem: uma poética da navegação, o curso, in progress, como frisou o professor na apresentação, em março, teve por objetivo a investigação do tema viagem na literatura luso-brasileira: Almeida Garret, Fernando Pessoa, Machado de Assis, João do Rio, Cesario Verde, Helder Macedo e outros. Como trabalho de conclusão, Stélio pediu que escrevêssemos uma crônica e um "diário de bordo". Ontem, compartilhamos as crônicas com os colegas, lendo em voz alta. O texto abaixo é da jornalista Raquel Wandelli, que tive a sorte de ter como professora e editora no curso de jornalismo da Unisul. É uma pena que ela publique tão de raro em raro na imprensa. Ano passado, participou, a convite da Jade, de uma edição de Ô Catarina, da Fundação Catarinense de Cultura, carregando nas costas o centenário de Machado de Assis - e com que maestria. Pois ontem ela roubou a cena de novo, com a leitura de uma pequena obra-prima. Quem conhece ou já ouviu falar de Stélio - o professor que fala como escreve -vai entender bem por quê. Quem não conhece, vai poder apreciar frases lapidares. Ela aceitou que eu publicasse a crônica aqui no blog desde que saísse a minha também (cujo personagem é meu orientador, João Hernesto Weber). Pois seguem as duas. Mas a leitura que vale é a dela. Em torno da sala – crônica de viagem A Stélio Furlan “Quero encontrar a ilha desconhecida. Quero saber quem eu sou quando nela estiver”, José Saramago, Conto da ilha desconhecida “O amor e a viagem nos fazem descobrir que há algo em nós que não conhecíamos desde então”. Contardo Calligaris Embora jovem e arrojado como mestre, o timoneiro tratava-nos, tripulantes, com a formalidade do pronome vós. Hipnotizava-me a performance elegante, reencenação do classicismo extemporâneo de um Ricardo Reis, meus olhos divertidos e estranhados com a fala e os gestos anacrônicos. Uma fala singularmente coletiva, eco palimpseico de vozes contemporâneas e passadas produzindo referência suspensa no tempo e no espaço - de uma só vez familiar e estranha. Viajar, repetia, é conhecimento e reconhecimento. Dialogava como se processasse em seu interior uma escrita, pois parecia não estar disposto a abandonar por nenhum instante o projeto silencioso de elaboração de um infindável texto-viagem que, como máquina do mundo, se compunha de universos e multidões. Que as ondas postas em calma também refletem os céus. E se o céu está espelhado no mar, a conquista do mar representa a conquista do céu, concluiu o condutor. De modo que quando conversávamos com nosso comandante, estávamos sem perceber lendo o livro da sua vida e da trajetória dos homens e mulheres que navegaram pelos mares por onde simbolicamente nos afogaríamos durante quatro meses de intempéries e calmarias. Dirigia-nos sempre o tom fingido da pessoa que sofre e sente o que diz, como se tudo que lhe viesse à tona fosse fruto do desbravar de um novo território. E como se tudo que dissesse lhe corresse dolorosamente nas veias. Dessa forma mantinha o deslumbramento da infância. Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras. Sentir tudo excessivamente, Porque (como em Caeiro) todas as coisas são, em verdade, excessivas, E toda a realidade é um excesso. Levou para a expedição a bagagem de um rei sírio disposto a atravessar no deserto sua biblioteca babilônica montado em um tráfego de camelos. Mas trazia a alma despida. E embora navegasse, seguia a pé. Assim, nós, companheiros de sua andança, sentíamo-nos também parte do oceano que nos convidava a redescobrir como parte da conquista do mundo e de nós mesmos, dando voltas em torno do quarto ou viajando sem sair da sala de aula. Afinal, escreveu Proust, a “verdadeira viagem de descobrimento não é descobrir terras novas, mas descobrir um novo olhar”. Era de rir-se, não de deboche, mas de graça incontida, o jeito grave de anunciar os percursos da viagem, de traçar simples orientações, rotas, históricos de trajetórias outras que nos serviriam de bússolas, mapas de navegação. Sempre com aquele acento cuidadoso de quem está a ler o livro que escreve... Com a mesma fluência imiscuía ao discurso próprio escritas alheias, como se juntasse e soletrasse, par coeur, os pedaços de uma carta rasgada que lhe choviam sobre os ombros. Reconstituídas as partes, compunham palavras de amor, de tempos cruzados, de revolta, de loucura, de sonho, de paz e de guerra, de bravura política, de serenidade e incompreensão que invariavelmente lhe embargavam a voz. Nessa viagem de encantamento, qualquer forma de herança poética se revestia de plena significação. Mas de súbito acometia-lhe uma alma distraída... Pausava e arregalava-se por trás dos óculos de aros finos e lentes redondas, os cabelos claros e lisos alinhados para o lado, ao modo de um literato russo, os lábios finos de canto criando clima para o gracejo... E podia-se esperar um trocadilho, um comentário jocoso, uma gíria... Poderia vir do limbo, do vernáculo infame ou de sua carta de cosmonautas, mas na pele do nosso timoneiro ganhava literariedade. Praticava a língua toldo de todos do poema-balão de Cabral. E a leveza se restabelecia na nossa tripulação. Na aparência e no homem incorporavam-se contornos de Machado de Assis, Fernando Pessoa, Sophia Andersen, Almeida Garret, Helder Macedo, Rodrigo de Haro, José Saramago, Camões, Cabral de Melo Neto, Cesário Verde, Vergílio Várzea, Caminha e outros loucos que quiseram grandeza... Loucura é verso do além... Para a expedição, levou a bordo do pequeno e lento vapor marinheiros voluntários, entre artesãos, músicos, psicanalistas, jornalistas, professores e pedagogos de naus diversas... Todos a empreender a viagem da errância, que tem por corolário a aprendizagem do outro. Em fragatas desse risco, convém quebrar o enclausuramento do eu sob todas as suas formas como recomenda Mafesoli. Nossa viagenzinha tornou-se prática inventiva do espaço e da escrita, alargamento de fronteiras identitárias. “Nunca me senti tão portuguesamente eu, senão como quando me sinto diferente de mim”, ouvimos de Pessoa Caeiro. No caminho, uma dessas vozes partiu e o comandante da nau registrou a perda na carne da escrita onde cravou que a vida não é se não uma viagem para a morte. “Todo texto é um tecido, uma travessia”, disse Barthes, antes de fazer a sua. E a voz fantasma do timoneiro passou a ser também nossa. Eu, de minhas avarias, cometi para Sofhia Andersen: “Sou um pássaro que se bate nas vidraças, procurando saídas”. Chegamos ao final do percurso sem a expansão de territórios, nem a conquista messiânica do estrangeiro colonizado, mas com fome de infinito (a alma Florbela) e de novas odisséias aumentada. A expedição violenta da partida fora pacificada pela experiência oceânica da leitura. Vencemos nada, além da distância do Longe e do Tempo. Logramos nada, além do exercício e excitação do olhar. Mas metade da nossa alma é feita de maresia, diz o verso de Sophia. Nessa viagem de viagens encaixilhadas mise-em-abyme, ao lado do timoneiro, que a toda hora alternava o posto com a tripulação, nos convertemos em jangada, assim como a nação de Saramago converteu-se em nau para migrar em direção à América. Eis a poética da navegação: a busca do outro. Torcidos sobre nosso próprio eixo, com nossos eus aspirados e multiplicados, partiremos em busca de outras ilhas desconhecidas. E a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia Nova, que não existe no espaço, em naus que não são construídas, mas daquilo de que os sonhos são feitos. A viagem nem acabou e o passado já é futuro. Raquel Wandelli *** Uma ilha chamada crônica Lançar-se ao mar! É o que penso após ver a lista dos estudantes aprovados para o curso de Mestrado em Literatura Brasileira no site do departamento. Eis um oceano que se abre – ora encapelado, com ondas grandes a quebrar sem dó contra as rochas do litoral, ora macio, com peixes pulando para fora d’água em demonstração de paz e tranquilidade. Por conta da experiência da mulher, feita doutora logo cedo na vida, sei que o tempo vira e muda sem aviso prévio nestas águas acadêmicas. O que era sol se faz tempestade, o que era borrasca se torna calmaria. Mas assim é em todo lugar onde não se tem teto sobre a cabeça e quando o destino da jornada é o horizonte que parece se afastar conforme avançamos. Escolhi meu ponto de chegada neste oceano imensurável mais por gosto pessoal, afinidade eletiva, do que por racionalidade. Afinal, tão pouco se sabe sobre a Ilha Crônica! Ela é festejada nas cantigas dos marujos, citada nas conversas dos bares do cais, todo mundo a conhece de longe, mas quase ninguém lá aporta. Pois é este o meu destino: a Ilha Crônica. Coordenadas sobre sua localização existem em fartura, exibem-se aqui e ali fotografias parciais da sua exuberância, diz-se que lá o solo é fértil e tudo nasce quando plantado, que está aberta a qualquer visitante. Tudo muito bonito, mas ninguém sabe dizer ao certo quanto mede, qual sua área, o que nela brota de fato, quem a descobriu, quem chegou lá primeiro, como se formou. Tudo é muito vago sobre tal ilha, onde quero descer e fincar uma bandeira. Tenho por guia e capitão um homem de barbas brancas, baixo na estatura, atarracado e sábio, a quem a figura de lobo do mar só não corresponde porque fuma cigarros em vez de cachimbo. Conhece a geografia e os caminhos do oceano. Sabe se localizar com pouco mais que algumas referências. Tem sua rota preferida, claro, aquela que percorre de olhos fechados, praticamente sem pegar no timão: o caminho que leva à majestosa Ilha Machado de Assis. Reconhece as terras machadianas pelo cheiro, pela forma e pelo estilo. Desembarcou lá muitas vezes, já explorou boa parte da ilha gigante. Diz-se que foi da Ilha Machado de Assis que se desgrudou, mais de século atrás, devido a movimentos tectônicos sob o oceano literário, a Ilha Crônica. E essa é a primeira pista que pode me levar ao meu porto seguro. São ilhas vizinhas. O problema, preciso admitir, está na embarcação. Ela não foi escolhida pela robustez do casco, o tamanho do calado ou o número de velas e de escotilhas. É frágil, mais lírica do que eficiente, mais fugaz do que resistente, mais para canoa de índio do que para caravela lusitana. Mas a mulher não me deixou desanimar: “É o que tens, estou certo de que te darão licença para navegar”. O capitão, tão logo viu o arcabouço da nau, também não desanimou: “Qual! É adequada. Vai e vai longe. Te apruma e toca o barco. Mande notícias de quando em quando”. Eu me convenci, juntei os trapos, reuni provisões, acomodei tudo em malas e baús, fechei as primeiras, passei o cadeado nos segundos e lancei-me ao mar. Toda a minha ambição é tornar-me Gilliatt. Fazer como o personagem de Victor Hugo, que enfrenta o oceano, as vagas temíveis, as noites fechadas e as tempestades em alto mar. Bate-se com a pieuvre, espécie de monstro marinho, lula ou polvo gigante e mortal – “Para acreditar na pieuvre é preciso tê-la visto”, segundo as palavras do mestre francês traduzidas por Machado de Assis. A Ilha Crônica será a minha Durande. Devo chegar até ela, e resgatá-la. Responder quanto mede, qual sua área, o que nela brota de fato, quem a descobriu, quem chegou lá primeiro, como se formou é a minha missão sem preço e sem recompensa. Gilliat fez o que fez por amor à bela Déruchette. Eu pretendo emulá-lo por amor à literatura. Aberto a mudanças de rota, à mercê dos ventos que sacodem o mar, deambulando pelo oceano acadêmico rumo ao horizonte fugidio.
 
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