Arte é política! Na Neewsweek dessa semana, há uma nota sobre um festival de jazz promovido em outubro de 2007 no Second Life pelo Departamento de Estado norte-americano, com a apresentação de cantoras do mundo virtual, como a mexicana Ankari Holder e a australiana Paisley Beebe. O motivo? No SL, 65% do público (quase 1 milhão de avatares) é de não-americanos, "fertile ground for cultural outreach, officials say". Terça-feira, o nível de sofisticação subiu, a Filarmônica de NY se apresentou na capital da Coréia do Norte, ainda comunista, e matou a pau. Bem, pode ser que arte não seja política, que apenas quebre icebergs de diferença (eis o dilema do oficial SS em O Pianista, de Polanski, por exemplo), mas a matéria do NYT, hoje, saiu na editoria... Mundo.
Philharmonic Stirs Emotions in North Korea
By DANIEL J. WAKIN
PYONGYANG, North Korea — As the New York Philharmonic played the opening notes of “Arirang,” a beloved Korean folk song, a murmur rippled through the audience. Many in the audience perched forward in their seats.
The piccolo played a long, plaintive melody. Cymbals crashed, harp runs flew up, the violins soared. And tears began forming in the eyes of the staid audience, row upon row of men in dark suits, women in colorful high-waisted dresses called hanbok and all of them wearing pins with the likeness of Kim Il-sung, the nation’s founder.
And right there, the Philharmonic had them. The full-throated performance of a piece deeply resonant for both North and South Koreans ended the historic concert in this isolated nation on Tuesday in triumph.
Continua aqui.
26/02/2008
A maldição dos trailers...
Um dos aborrecimentos de ir ao cinema é ver trailers. Quando anuncia-se um bom filme, que você quer ver há tempos (em Florianópolis até os lançamentos demoram a chegar), tudo bem. Mas em geral é porcaria. Há uma cena de Hollywood ending (Dirigindo no escuro) em que Woody Allen, interpretando um diretor há anos fora do mercado tentando voltar ao establishment, tenta convencer um produtor e o dono de um estúdio de que é capaz de filmar o roteiro proposto pela dupla. Numa das melhores piadas do filme, Woody garante que seu trabalho conquistaria "adultos, idosos, gente de meia-idade, jovens... Crianças, bebês de colo...". Assim é com a maioria das produções. No domingo, por exemplo, fomos assistir ao bom Onde os fracos não têm vez (que tradução para No country for old men, não?), e mais uma vez passamos pelo constrangimento de ter de aturar trailers de filmes "para todas as idades":
O HOMEM DE FERRO
(em que o ápice da babaquice é o personagem da Marvel surgir na tela com Iron Man, do Black Sabbath, de trilha sonora!)
LOUCAS POR AMOR, VICIADAS EM DINHEIRO
(pobre Diane Keaton!, que junto com um grupo de "divertidas" mulheres planeja um roubo de banco)
EM PÉ DE GUERRA
(pobre Susan Saradon!, cujo filho é um bem-sucedido escritor de auto-ajuda que precisa domar o amante da mãe, seu antigo professor de educação física no colégio)
ps. já percebi que tem um pessoal que só entra na sala de projeção com 15 minutos de atraso em relação ao horário oficial da sessão, desconfio que para não pegar trailers. Mas eu acho que não teria ido assistir a Leões e cordeiros sem ter visto o trailer antes no cinema...
Cinemark de graça: sem chances...
Eu não vou ganhar a promoção da rede Cinemark que dará cinema de graça para quem acertou o maior número de vencedores do Oscar 2008 nas 16 principais categorias da premiação.
Matei 9, creio que as mais óbvias:
Votos corretos:
Filme - Onde os Fracos Não Têm Vez
Ator - Daniel Day-Lewis
Ator Coadjuvante - Javier Bardem
Atriz - Marion Cotillard
Atriz Coadjuvante - Tilda Swinton
Diretor - Joel e Ethan Coen
Filme de Animação - Ratatouille
Figurino - Elizabeth: A Era de Ouro
Montagem - O Ultimato Bourne
Votos errados:
Roteiro Original - Conduta de Risco
Roteiro Adaptado - Desejo e reparação
Música Original - Happy working song
Filme Estrangeiro - Beaufort
Fotografia - Desejo e Reparação
Maquiagem - Piratas do Caribe - no Fim do Mundo
Efeitos Visuais - Transformers
Veja a lista completa dos vencedores do Oscar aqui.
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Cinema
24/02/2008
Nanopinião 31
Rubem Braga - um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antonio de Carvalho - Editora Globo
OK, esta é uma "nanopinião" mais elaborada. Saiu na capa do caderno DC Cultura, na edição de ontem do Diário Catarinense:
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Nanopinião
23/02/2008
Os melhores amigos reunidos
Em 1999, no segundo semestre da faculdade de jornalismo, na Unisul, conheci meus melhores amigos. Semana passada, aproveitando que o que vive na Europa hoje está em Floripa (Fernando), reencontramo-nos na casa de um deles (Guilherme).
Da esquerda para a direita, quando fazíamos jornal: Paulo Evangelista, Rodrigo Octávio, eu, Guilherme Gouvêa, Fernando Evangelista e Alexandre Beck.
Da esquerda para a direita, quando fazíamos jornal: Paulo Evangelista, Rodrigo Octávio, eu, Guilherme Gouvêa, Fernando Evangelista e Alexandre Beck.
Da esquerda para a direita: eu, Rodrigo Octávio, Paulo Evangelista, Guilherme Gouvêa, Fernando Evangelista e Alexandre Beck.
Crônica de Verão 10 - Diário Catarinense!
Texto da Revista de Verão do DC da semana passada, postado hoje, com atraso.
Leia a crônica 9.
Leia a crônica 8.
Leia a crônica 7.
Leia a crônica 6.
Leia a crônica 5.
Leia a crônica 4.
Leia a crônica 3.
Leia a crônica 2.
Leia a crônica 1!
Leia a crônica 9.
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Crônica de Verão - DC
19/02/2008
Renúncia de Fidel Castro: New York Times faz cobertura de primeira linha
Conhece o livro ao lado? Coisa fina. Pois o autor da obra é o repórter do NYT que está em Havana neste momento, cobrindo a renuncia de Fidel.
Castro Is Stepping Down as Cuba’s President
By ANTHONY DePALMA and JAMES C. McKINLEY Jr.
HAVANA — Fidel Castro said Tuesday he would step down as the president of Cuba after a long illness, opening the way for his brother Raúl Castro or another member of his inner circle to become Cuba’s president when Parliament chooses a new leader this weekend.
The announcement was made in a letter to the nation under Mr. Castro’s name, which was read on radio and television programs that many Cubans heard as they headed to work.
Under the Cuban Constitution, a newly chosen Parliament will choose a 31-member council of state on Sunday, which in turn will chose the next president. Though Cuban officials say the process is democratic, experts on Cuban politics say the decision on a successor remains in the hands of Fidel Castro, his brother and his inner circle, many of whom hold positions in the cabinet.
Continua aqui.
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Do NYT
A renúncia de Fidel Castro
Texto de capa da edição de hoje do Granma (vovó, em espanhol, nome do veleiro estropiado que Fidel e seus homens utilizaram para voltar a Cuba em 1956 e fazer a revolução anos depois), jornal oficial do governo de Cuba:
Mensaje del Comandante en Jefe
Queridos compatriotas:
Les prometí el pasado viernes 15 de febrero que en la próxima reflexión abordaría un tema de interés para muchos compatriotas. La misma adquiere esta vez forma de mensaje.
Ha llegado el momento de postular y elegir al Consejo de Estado, su Presidente, Vicepresidentes y Secretario.
Desempeñé el honroso cargo de Presidente a lo largo de muchos años. El 15 de febrero de 1976 se aprobó la Constitución Socialista por voto libre, directo y secreto de más del 95% de los ciudadanos con derecho a votar. La primera Asamblea Nacional se constituyó el 2 de diciembre de ese año y eligió el Consejo de Estado y su Presidencia. Antes había ejercido el cargo de Primer Ministro durante casi 18 años. Siempre dispuse de las prerrogativas necesarias para llevar adelante la obra revolucionaria con el apoyo de la inmensa mayoría del pueblo.
Conociendo mi estado crítico de salud, muchos en el exterior pensaban que la renuncia provisional al cargo de Presidente del Consejo de Estado el 31 de julio de 2006, que dejé en manos del Primer Vicepresidente, Raúl Castro Ruz, era definitiva. El propio Raúl, quien adicionalmente ocupa el cargo de Ministro de las F.A.R. por méritos personales, y los demás compañeros de la dirección del Partido y el Estado, fueron renuentes a considerarme apartado de mis cargos a pesar de mi estado precario de salud.
Era incómoda mi posición frente a un adversario que hizo todo lo imaginable por deshacerse de mí y en nada me agradaba complacerlo.
Más adelante pude alcanzar de nuevo el dominio total de mi mente, la posibilidad de leer y meditar mucho, obligado por el reposo. Me acompañaban las fuerzas físicas suficientes para escribir largas horas, las que compartía con la rehabilitación y los programas pertinentes de recuperación. Un elemental sentido común me indicaba que esa actividad estaba a mi alcance. Por otro lado me preocupó siempre, al hablar de mi salud, evitar ilusiones que en el caso de un desenlace adverso, traerían noticias traumáticas a nuestro pueblo en medio de la batalla. Prepararlo para mi ausencia, sicológica y políticamente, era mi primera obligación después de tantos años de lucha. Nunca dejé de señalar que se trataba de una recuperación "no exenta de riesgos".
Mi deseo fue siempre cumplir el deber hasta el último aliento. Es lo que puedo ofrecer.
A mis entrañables compatriotas, que me hicieron el inmenso honor de elegirme en días recientes como miembro del Parlamento, en cuyo seno se deben adoptar acuerdos importantes para el destino de nuestra Revolución, les comunico que no aspiraré ni aceptaré - repito- no aspiraré ni aceptaré, el cargo de Presidente del Consejo de Estado y Comandante en Jefe.
En breves cartas dirigidas a Randy Alonso, Director del programa Mesa Redonda de la Televisión Nacional, que a solicitud mía fueron divulgadas, se incluían discretamente elementos de este mensaje que hoy escribo, y ni siquiera el destinatario de las misivas conocía mi propósito. Tenía confianza en Randy porque lo conocí bien cuando era estudiante universitario de Periodismo, y me reunía casi todas las semanas con los representantes principales de los estudiantes universitarios, de lo que ya era conocido como el interior del país, en la biblioteca de la amplia casa de Kohly, donde se albergaban. Hoy todo el país es una inmensa Universidad.
Párrafos seleccionados de la carta enviada a Randy el 17 de diciembre de 2007:
"Mi más profunda convicción es que las respuestas a los problemas actuales de la sociedad cubana, que posee un promedio educacional cercano a 12 grados, casi un millón de graduados universitarios y la posibilidad real de estudio para sus ciudadanos sin discriminación alguna, requieren más variantes de respuesta para cada problema concreto que las contenidas en un tablero de ajedrez. Ni un solo detalle se puede ignorar, y no se trata de un camino fácil, si es que la inteligencia del ser humano en una sociedad revolucionaria ha de prevalecer sobre sus instintos.
"Mi deber elemental no es aferrarme a cargos, ni mucho menos obstruir el paso a personas más jóvenes, sino aportar experiencias e ideas cuyo modesto valor proviene de la época excepcional que me tocó vivir.
"Pienso como Niemeyer que hay que ser consecuente hasta el final."
Carta del 8 de enero de 2008:
"...Soy decidido partidario del voto unido (un principio que preserva el mérito ignorado). Fue lo que nos permitió evitar las tendencias a copiar lo que venía de los países del antiguo campo socialista, entre ellas el retrato de un candidato único, tan solitario como a la vez tan solidario con Cuba. Respeto mucho aquel primer intento de construir el socialismo, gracias al cual pudimos continuar el camino escogido."
"Tenía muy presente que toda la gloria del mundo cabe en un grano de maíz", reiteraba en aquella carta.
Traicionaría por tanto mi conciencia ocupar una responsabilidad que requiere movilidad y entrega total que no estoy en condiciones físicas de ofrecer. Lo explico sin dramatismo.
Afortunadamente nuestro proceso cuenta todavía con cuadros de la vieja guardia, junto a otros que eran muy jóvenes cuando se inició la primera etapa de la Revolución. Algunos casi niños se incorporaron a los combatientes de las montañas y después, con su heroísmo y sus misiones internacionalistas, llenaron de gloria al país. Cuentan con la autoridad y la experiencia para garantizar el reemplazo. Dispone igualmente nuestro proceso de la generación intermedia que aprendió junto a nosotros los elementos del complejo y casi inaccesible arte de organizar y dirigir una revolución.
El camino siempre será difícil y requerirá el esfuerzo inteligente de todos. Desconfío de las sendas aparentemente fáciles de la apologética, o la autoflagelación como antítesis. Prepararse siempre para la peor de las variantes. Ser tan prudentes en el éxito como firmes en la adversidad es un principio que no puede olvidarse. El adversario a derrotar es sumamente fuerte, pero lo hemos mantenido a raya durante medio siglo.
No me despido de ustedes. Deseo solo combatir como un soldado de las ideas. Seguiré escribiendo bajo el título "Reflexiones del compañero Fidel" . Será un arma más del arsenal con la cual se podrá contar. Tal vez mi voz se escuche. Seré cuidadoso.
Gracias
Fidel Castro Ruz
18 de febrero de 2008
5 y 30 p.m.
18/02/2008
O Internacional agora tem sala de troféus?
Abaixo, notícia publicada em Zero Hora. É, o Internacional de Porto Alegre está cada vez maior... Agora, tem até sala de "relíquias"! Parabés aos colorados por este avanço institucional!
12 de fevereiro de 2008
Inter
Sala de troféus
Enquanto o novo museu não é construído, o Inter realocou suas principais relíquias e inaugurou ontem a Sala das Grandes Conquistas, no Beira-Rio. Ao lado do Portão 6 (na Avenida Padre Cacique), abriga os troféus do Mundial, Libertadores e Recopa, além da Copa Dubai, dos três Brasileirões e da Copa do Brasil. Fica aberto à visitação de terça-feira a domingo, das 10h às 18h, com entrada franca. Em dias de jogos, funcionará somente até meio-dia.
17/02/2008
Coletivo de jornalista é jornal?
No sábado, a Rafaela Giordano, que hoje mantém o blog fotográfico Cenas do Rio (onde mora) e com quem trabalhei no Variedades do Diário Catarinense, esteve ontem em Floripa com o Cláudio, com quem faz o blog Le vin au blog, para uma visita rápida. Eles fizeram um cruzeiro Santos-Buenos Aires-Santos e estavam voltando para casa. Com o "pit stop" em Canasvieiras, deu tempo para reunir todo o pessoal da editoria (e quem trabalhou com ela lá!) para um almoço no Churrasco ao vivo. Foi ótimo.
Vamos lá, da esquerda para a direita: Jaci, Marcia com o Nicolas no colo, Ana Paula, o casal visitante, eu e Jade, Dorva e Cris, Angelo e Valéria, Fábio Mutley.
Vamos lá, da esquerda para a direita: Jaci, Marcia com o Nicolas no colo, Ana Paula, o casal visitante, eu e Jade, Dorva e Cris, Angelo e Valéria, Fábio Mutley. Tropa de Elite foi entendido em Berlim?
Surpresa, Tropa de Elite, de José Padilha, levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim! No Jornal Nacional, Wagner Moura disse que enfim reconheceram o filme, etc., porque no Brasil "nós fomos muito mal interpretados". De fato. Mas nem todo mundo ficou no "fascista!"...
27/10/2007
Cinema
Nova câmara para a favela
JADE MARTINS LENHART/ Jornalista e doutoranda em Teoria Literária na UFSC
Com o polêmico Tropa de Elite, em cartaz há duas semanas em Florianópolis, o diretor José Padilha constrói uma nova abordagem da relação entre traficantes e policiais, tema assíduo nos últimos anos, e articula um salto na história do cinema nacional mesmo diante da enxurrada de interpretações equivocadas de crítica e público. Violento, forte e contundente como o livro no qual é baseado, Elite da Tropa, o longa revela maturidade justamente ao reunir o bem e o mal num universo difuso e pouco dicotomizado. No inferno entrevisto em cena, quase todos têm boas intenções, e este talvez seja o maior avanço do filme na direção da complexidade.
Pirateado por centenas de milhares de curiosos, oferecido nos camelôs como artigo de urgência, Tropa de Elite já colecionava adjetivos antes mesmo do lançamento: violento, genial, tosco, brilhante, de direita, fascista. Alguns exaltaram os atributos técnicos do filme e a coragem das denúncias, a truculência do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), facção da Polícia Militar com uma caveira no uniforme, mas esses foram poucos. Parte da crítica insistiu no caráter reacionário do enredo, um policial disposto a "limpar" a área a qualquer preço, nem que seja necessário transformar torturas de menores e assassinatos a sangue frio em rotina. A polêmica encontra explicação dentro da própria história do cinema brasileiro: é difícil encontrar no cinema social, sobretudo aquele que vai narrar a favela, o grau de ambigüidade sugerido aqui pelo diretor de Ônibus 174.
Capitão Nascimento, o policial justiceiro, Lampião contemporâneo, é extremamente violento mas é também incorruptível. Tortura menores em suas operações de praxe ao mesmo tempo em que não tolera qualquer gorjeta. Ganha uma miséria, porém acredita no sistema. É o melhor da sua categoria mas sofre de síndrome de pânico. Ameaça empalar um garoto que escondeu um traficante foragido e troca a fralda de seu filho recém-nascido quando chega em casa. Sem dúvida, ele acredita que está construindo um país melhor - o que torna tudo mais chocante. Pois é justamente a humanidade de capitão Nascimento de Wagner Moura que parece confundir parte dos espectadores e da crítica: os primeiros aplaudiram seus feitos ao fim da sessão, ato que repugnou o cineasta, os segundos confundiram o discurso do policial crédulo e esperançoso com as idéias do diretor, e acusaram o filme de fascista.
Em entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, José Padilha afirmou claramente que enxerga no problema do tráfico carioca uma guerra, mas nem mesmo neste imbróglio defende o tipo de violência praticado por seu protagonista. Chocado com as interpretações, mas confiante que as sugestões não estão no seu filme, e sim na cabeça dos espectadores que transformaram o policial em herói, Padilha expõe sem dificuldade suas reais intenções: fazer um filme de denúncia contra a polícia. Por isso, explicou, capitão Nascimento, incorruptível e competente, aparece em cena torturando um menor de idade com um cabo de vassoura. A revista Veja parece não ter compreendido à mensagem. Na edição de capa sobre o filme, endossa o discurso reacionário de capitão Nascimento, da polícia, portanto, culpando os "maconheiros da Zona Sul" de trabalharem junto ao tráfico. Vai mais longe no discurso do "herói": se para Nascimento os estudantes financiam o tráfico, para a Veja eles são sócios, o que pressupõe algum tipo de lucro ou benefício que vai além da recreação ou da saciedade de uma dependência química.
A mesma ambigüidade complexa do capitão encontra eco nas outras personagens. Os estudantes de classe média criam ONGs no morro mas parecem presos a ideais sociais apenas aparentes: no cotidiano do trabalho, sentam no chão e fumam maconha à tarde inteira. No discurso de capitão Nascimento, são também financiadores do tráfico, como todos os "maconheiros de merda", em última instância.
Colabora para o clima tenso, de inversão total dos valores, a narrativa em primeira pessoa, dirigida, não por acaso, pela personagem do capitão Nascimento. É ele quem narra a história, é ele quem nos conta todas aquelas mortes, é ele quem apresenta os dois candidatos à sua substituição, é ele quem pode bradar suas opiniões reacionárias sem freios: os maconheiros da Zona Sul matam criancinhas toda vez que acendem um baseado, os estudantes perdem tempo com leituras que não servem para nada, a Polícia Militar não presta e está 100% corrompida, a ordem é matar até que não sobre nenhuma maçã podre no cesto. Ele acredita piamente em cada uma de suas verdades, talvez por isso parte do público acredite junto, talvez por isso parte da crítica tenha confundido a interpretação do Capitão com a do próprio diretor.
Em relação a Cidade de Deus, nosso mais famoso filme sobre favela, a diferença de ponto de vista é brutal. Se lá temos como narrador o menino incapaz de seguir os passos do irmão, famoso aprendiz de bandido do Trio Ternura, aqui conhecemos a versão daquele que manda, justamente o violento que ninguém tem coragem de seguir, uma espécie muito pior de Zé Pequeno. Enquanto o filme de Fernando Meirelles trouxe o ponto de vista do garoto deslocado, incapaz de aceitar a paisagem que encontra diante de si, Tropa de Elite coloca o espectador por trás do olhar violento e extremamente cônscio de quem defende sem dificuldade suas próprias maldades, corroborando com as atrocidades do sistema. Capitão Nascimento não é o delegado Fleury retratado em Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton: diferente daquele monstro todo de branco interpretado por Cássio Gabus Mendes, incapaz de um gesto de bondade, o capitão do Bope se revela cheio de nuanças, o que o torna imensamente mais forte e mais assustador.
Completamente à margem das narrativas cinematográficas comuns no Brasil, alicerçadas numa idéia de melodrama que separa o bem do mal, posicionando cada uma dessas categorias em personagens distintas, formando um mundo dicotômico, José Padilha defende a complexidade do problema do tráfico. Afora o ritmo, angustiante, e as atuações, todas excelentes, o que ele realiza na tela é algo jamais elaborado antes, um certo pensamento trágico, a mistura do bem e do mal dentro de cada uma das criaturas que transitam neste inferno. O olhar de José Padilha sobre a favela, o tráfico e a polícia, temas espinhosos do Brasil contemporâneo, é extremamente original e envolvente justamente porque revela um mundo misturado onde os valores já se diluíram. Montar ONGs no alto da favela não parece ser a solução, a leitura dos clássicos da teoria não costuma adiantar para muita coisa, assim como as mortes todas sob o comando do capitão não conseguem resolver quase nada ao fim da história. Entregar esta compreensão ao público foi o grande salto de Tropa de Elite.
Cronicamente inviável, realmente: só mesmo por aqui um cineasta realiza uma obra de tal complexidade e se torna herói da Veja.
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Cinema
16/02/2008
"O ano em que meus pais saíram de férias" não é mais do que bacana, para o NYT
O New York Times publicou sexta-feira a crítica de O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburguer, longa brasileiro que tentou entrar na disputa do Oscar. Para o crítico do jornal, o filme não passa de bacaninha. Leia abaixo:
A Brazilian Boy, Alone in the Tumult of 1970
By A. O. SCOTT
"The Year My Parents Went on Vacation" takes place in Brazil in 1970, when the country was ruled by a military dictatorship and its national soccer team, led by Pelé, was making its way toward the finals of the World Cup. Accordingly, sports and politics both play parts in this film, directed by Cao Hamburger, which filters the tumult and trauma of Brazilian history through the perceptions of a 12-year-old boy named Mauro.
Mauro, played by Michel Joelsas, is the child of left-wing activists who go underground to escape arrest, torture or worse. Though they try, anxiously and somewhat ineptly, to shelter their son from what is happening, their only choice seems to be to abandon him. But their plan to leave the boy with his grandfather in São Paulo goes awry, and Mauro winds up in the grudging, grumpy care of his grandfather's neighbor Shlomo (Germano Haiut), a member of the city's Orthodox Jewish community.
Continua aqui.
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Cinema
15/02/2008
Crônica de Verão 8 - Diário Catarinense!
Texto da Revista de Verão do DC da semana passada, postado hoje, com atraso. Acima, a crônica da edição de hoje.
Leia a crônica 7.
Leia a crônica 6.
Leia a crônica 5.
Leia a crônica 4.
Leia a crônica 3.
Leia a crônica 2.
Leia a crônica 1!
Leia a crônica 7.
Leia a crônica 6.
Leia a crônica 5.
Leia a crônica 4.
Leia a crônica 3.
Leia a crônica 2.
Leia a crônica 1!
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Crônica de Verão - DC
Nanopinião 30
A trégua, de Mario Benedetti - Alfaguara
Depois de Quem de nós, primeiro livro do escritor uruguaio que li e passei para a Jade, agora ocorreu o contrário: entusiasmada com o "novo" autor, ela puxou da estante A trégua, leu em poucos dias, adorou e passou para mim, que li em duas semanas, dando um tempo na biografia de Rubem Braga. Trata-se do diário de Martín Santomé, chefe de departamento de uma empresa burocrática, nos fim dos anos 1950 em Montevidéu. A um ano da aposentadoria (que será marcada pela comemoração de meio século de vida!), ele anota seu dia-a-dia enfadonho e comenta crises e dificuldades no relacionamento com os três filhos. Viúvo, vive sozinho há mais de duas décadas, conquistando aqui e ali mulheres sem nome nem compromisso. Bem, um dia ele conhece uma garota, funcionária nova da sua repartição, e se envolve com ela, provavelmente apaixonado. Eis um resumo do que se precisa saber. Banal, acho também, mas bem escrito demais! O narrador é muito inteligente e escreve um texto simples mas complexo, com um vocabulário que vexa leitor preguiçoso. Apesar da estrutura de diário, há diálogos, mudanças de ambiente, silêncios. E o tom, apesar de confessional... Há uma contenção, um jeito não exaltado de narrar a felicidade que me agradou bastante - ah, essas indentificações com personagens de ficção! - quando explicado, porque de início, e até pouco mais da metade do livro, achei estranhíssimo. Foi quando li o trecho abaixo:
Mas é que não consigo ser um desses sujeitos que andam sempre com o coração na mão. Custa-me ser carinhoso, inclusive na vida amorosa. Sempre dou menos do que aquilo que tenho. Meu estilo de gostar é esse, um pouco reticente, reservando o máximo só para as grandes ocasiões. Talvez haja uma razão, e é que eu tenho a mania dos matizes, das gradações. De modo que, se estivesse sempre expressando o máximo, o que deixaria para esses momentos (há quatro ou cinco em cada vida, para cada indivíduo) nos quais a gente deve apelar para o coração em cheio? Também sinto um leve mal-estar diante do pieguismo, e o pieguismo me parece justamente isso: andar sempre com o coração na mão. A quem chora todo dia, o que resta fazer quando lhe couber uma grande dor, uma dor para a qual sejam necessárias as máximas defesas? Sempre é possível matar-se, mas isso, afinal, é uma solução pobre. Quero dizer que é quase impossível viver em crise permanente, fabricando-se uma impressionabilidade que submerja a pessoa (uma espécie de banho diário) em pequenas agonias.
Não dói de bom?
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Nanopinião
11/02/2008
Fitzgerald escritor, Pat Hobby roteirista
Do Sunday Book Review:
Essay
Fitzgerald vs. Hollywood
By PAUL GREENBERG
“Most writers,” the writer F. Scott Fitzgerald once wrote, “look like writers whether they want to or not. It is hard to say why.”
Looking out over the not unruly mob picketing in front of Rockefeller Center during the first week of the writers’ strike this past November, I was struck by the truth of Fitzgerald’s words. Off to my left, Tom Fontana, the creator of the HBO series “Oz,” shoved his hands in his pocket and rolled his shoulders into the wind, like a writer. To my right, an erudite and charming friend who writes an educational cartoon your children watch stroked his beard and picked at his ear very much like a writer. Even an elusive beauty from the staff of “Sex and the City” whom I had futilely dated a few years back now looked, with her suspect glance across the crowd, more than anything else, like a writer.
Of course there are exceptions — not all writers look like writers. One writer in particular, Fitzgerald noted, didn’t look anything like a writer.
Continua aqui.
***
Para ler The Pat Hobby Stories, publicadas em Esquire entre janeiro de 1940 e maio de 1941, acesse o PGA (Project Gutenberg of Australia).
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Do NYT
09/02/2008
Que texto!
Editorial do Estadão de hoje:
O escândalo é outro
Como faz, pavlovianamente, sempre que suspeitas de improbidade pairam sobre o Palácio do Planalto, o ministro da Justiça, Tarso Genro, atribuiu a onda, que não pára de se avolumar, de revelações sobre o uso abusivo de cartões de crédito estatais a uma operação da imprensa mal-intencionada, para dar assunto a uma oposição silenciada pelos êxitos do lulismo. Foi o que alegou ao ser confrontado com o copioso - e surpreendentemente minucioso - noticiário sobre o que a ex-ministra da Igualdade Racial chamou de “erros administrativos” nos gastos e retiradas mediante cartão corporativo por funcionários e autoridades da administração federal. Trata-se, desdenhou, de um “escândalo artificial”. De mais a mais, alegou o ministro, não fosse uma iniciativa moralizadora do presidente Lula - a criação do Portal da Transparência, de livre acesso no site da Controladoria-Geral da União (CGU) -, a mídia não teria a seu alcance, e com essa facilidade, as informações detalhadas dos pagamentos e saques feitos com os 11 mil cartões emitidos pelo governo.
Nesse ponto, Tarso tem toda razão. Pena que ele tenha deixado de combinar com os russos, no caso o chefe, antes de reaquecer as suas críticas à imprensa. Afinal, os meios de comunicação fazem rigorosamente o que Lula incentivou a sociedade a fazer quando do lançamento do portal, em 2005 - ajudar “no controle e fiscalização” do uso do dinheiro público. Não há nada de artificial, portanto, nem no exercício dessa contribuição nem nos seus resultados. É o governo que deixou o serviço pela metade. Na edição de 13 de janeiro, este jornal revelou, com base no exame dos dados disponíveis no portal, o assombroso aumento superior a 800% dos dispêndios com o cartão corporativo entre 2003 e 2007. Desde então, a massa de fatos e números trazidos ao conhecimento dos brasileiros deixa patente, à parte tudo mais, a extraordinária eficiência desse sistema de agregação de minuciosas informações objetivas, graças à tecnologia da computação, como instrumento do controle e fiscalização de que falava Lula - e que deixou de ser utilizado por quem tem a obrigação de se valer dele em primeiro lugar: o próprio governo.
Escândalo, para recorrer ao termo do ministro da Justiça, não é o produto do trabalho jornalístico que consistiu simplesmente no esquadrinhamento do fabuloso arquivo do Portal da Transparência. É, isso, a incompetência, ou inapetência, de quem de direito na cúpula do aparelho de Estado para passar periodicamente um pente-fino nos gastos declarados, para separar aqueles que respeitam as normas que regem o uso dos cartões corporativos daqueles que as transgridem, e punir os responsáveis, também com o ressarcimento dos cofres públicos. Um governo verdadeiramente comprometido com o manejo escrupuloso do dinheiro alheio - ou seja, não só da boca para fora, a fim de impressionar os incautos - não esperaria a imprensa denunciar o que ele tinha plenas condições de saber a qualquer momento, por estar escancarado diante de si, para só então mostrar-se zeloso guardião da moralidade. Se quisesse, o Executivo teria identificado as grossas irregularidades cometidas pela ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, e agido de acordo com a gravidade do que ela preferiu chamar, complacentemente, “erros administrativos”.
O mesmo vale para a outra ponta das impropriedades - a do varejo das tapiocas, como a insignificância dos R$ 8,30 que o ministro dos Esportes, Orlando Silva, gastou indevidamente pelo manjar com o seu cartão, ou acima disso, embora não na escala da ex-ministra. É, notoriamente, o caso do servidor do Ministério das Comunicações que, em junho do ano passado, fez o contribuinte bancar os R$ 1.400 pela reforma de uma mesa de sinuca de uso na repartição. O que exaspera é o governo a reboque. Foi preciso que um repórter flagrasse o episódio no portal da CGU, passados sete meses, para o Ministério anunciar a abertura de uma investigação, ao fim da qual se adotarão as “medidas cabíveis”, com a eventual demissão do sinuqueiro. É de se perguntar quantos malfeitos do gênero ainda aguardam o olhar de um jornalista para merecer a (tardia) atenção do governo da transparência. E quantos portadores de cartões corporativos estatais, na dúvida sobre se podem usá-los para cobrir uma despesa, não se guiam pelo cômodo princípio do “em dúvida, gaste”. Afinal, de quem é o dinheiro?
08/02/2008
É o banco o lar do Kafka?
Meti-me num banco na hora do almoço, e ele me recebeu com a grosseria habitual. Peguei a fila, interminável, uma linha de gente aborrecida e apressada, setindo-me, eu também, um pobre-diabo. Que fazer, se não esperar, e olhar, e contar um a menos, um a menos, a cada sujeito que sai do caixa com suas pendências ajustadas? Eu gastei o tempo observando os maus tratos que o banco - qualquer banco - dispensa ao povão. Confesso que, entretido nisso, distraí-me. Não deixa de ser curioso perceber os mecanismos repressivos da "instituição". É a porta giratória que trava no nosso nariz, como a recusar a entrada do cliente, e faz a fila de gente que está entrando recuar. As câmeras de vídeo penduradas aqui e ali vigiando tudo (e quando você passa e a câmera o acompanha!). A fila do "caixa a jato" que se forma em frente à escada, atravancando os caminhos. Os seguranças que nada ou pouco sabem (ou podem) informar. O sistema de senhas, caixas especiais para idosos e gestantes, apitos de alarme e alerta soando a todo momento. O entra e sai de funcionários: um gaiato, irritado e beligerante, garante que "lá atrás" há um monte de trabalhadores "tomando café e fumando um cigarrinho". E eu que pensava ser um banco o lar de Kafka. Engano, está mais para Foucault. Ao menos não tinha ninguém conversando sobre o último paredão do BBB8.
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Crônica
07/02/2008
Chávez pensou em suicidar-se em 2002 - e Fidel não quis dar asilo ao presidente da Venezuela
Reportagem de El País, publicada hoje e traduzida para o português no UOL Mídia Global:
Como Fidel salvou Chávez do suicídio no golpe de 2002
Fidel Castro queria que o primeiro-ministro espanhol Aznar protegesse Chávez, relata bispo que testemunhou os acontecimentos na Venezuela
Juan Jesús Aznárez
Em Madri
Apenas um dia antes que regimentos leais e a população irada lhe devolvessem o comando, Hugo Chávez permanecia entrincheirado no Palácio de Miraflores em Caracas, a sede do governo venezuelano. Era um homem profundamente abatido, disposto ao suicídio, convencido de que o golpe cívico-militar de 11 de abril de 2002 contra sua presidência havia triunfado. "Não se mate!", lhe pediu Fidel Castro por telefone na madrugada do dia 12. Alarmado com o estado emocional de seu amigo e aliado, o líder cubano pediu ajuda ao primeiro-ministro espanhol José María Aznar (que governou de 1996 a 2004) para salvar sua vida e lhe conceder asilo na Espanha, segundo afirma em suas memórias sobre aquela crise o bispo Baltasar Porras, ex-presidente da Conferência Episcopal Venezuelana (CEV).
"Nos inteiramos de que, através da embaixada da Espanha, houve um pedido do próprio Fidel Castro ao chefe do governo espanhol, José María Aznar, para que Chávez fosse recebido na Espanha, pois o presidente cubano manifestava não querer recebê-lo em seu país", escreve Porras, cuja companhia pessoal Chávez solicitou antes de se entregar aos generais que o acabaram derrubando depois de uma jornada de duros confrontos civis na capital. Então, a oposição e a Igreja Católica estavam fartas do ex-tenente-coronel de pára-quedistas. "A intransigência, a desqualificação, o insulto e a ameaça tornam impossível o diálogo", salientou a Exortação Pastoral de janeiro de 2002.
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01/02/2008
Crônica de Verão 7 - Diário Catarinense!
Texto da Revista de Verão de hoje do DC. Que bom que o sol voltou, e o povão ao Mercado Público...
Sunset bom é o do mercado
Hão de me desculpar os promoters, os donos de boates e bares de praia, os contrabandistas de celebridades, os fotógrafos biscateiros, os músicos que animam a noite, os DJs que por aqui aportam (todo dia há um melhor do mundo novo), os "baladeiros" que não se incomodam com o barulho e o empurra-empurra, os garçons que ganham boas gorjetas de gente que tem bastante dinheiro para distribuir, as empresas que prestam serviços de som e imagem, os empresários que se dedicam a pensar e promover festas, os seguranças privados que eventualmente são contratados para segurar a boiada, os designers que desenham flyers e folhetos maneiros, lindíssimos, anunciando todo o trabalho dessa turma nas festanças de arromba que ocorrem quase todos os dias em praias e balneários de Santa Catarina. Há de me desculpar toda essa gente, mas não há sunset party que bata, supere, sequer se equipare ao bate-papo durante o pôr-do-sol no Mercado Público de Florianópolis.
Se na sua casa de praia falta água ou energia. Se a Casan por acaso o multou por lavar o carro, "desperdiçando" na praia a água que você pagou o ano inteiro sem utilizar. Se a mosquitada não lhe dá descanso à noite, se no supermercado não há flit em quantidade suficiente. Se você tomou um baita caldo de onda traiçoeira na Joaquina, se as águas tristonhas de Daniela já lhe enfararam. Se você teve de ouvir três vezes seguidas o CD de 96 músicas mp3 numa fila na SC-401. Se o seu time não contratou um único e escasso reforço digno de adjetivos positivos para o início da temporada. Se você tentou jantar fora e não conseguiu. Se alguém na praia já lhe chutou areia na cara. Se o sujeito que vende queijo coalho insiste em lhe oferecer a borracha chamuscada. Se a sua namorada, Deus do céu, deu-lhe um pé na bunda e foi atrás de um surfista. Se as suas férias passaram num ai e você já voltou a trabalhar... Bom, então você precisa ver o sol cair sentado numa das mesinhas da área externa do Mercado Público.
Quem está trabalhando diariamente aproveita melhor, até. Porque depois de ralar o dia inteiro, ter a camisa empapada com o suor dos justos, a cabeça carregada com as preocupações do serviço e da família, pouco dinheiro no bolso e nenhum relógio no pulso, o pôr-do-sol no Mercado Público é a panacéia. Lá está a cidade, pulsa a cidade, bebe e come quem é e está na cidade. O pastel de berbigão preparado na hora, o filé de sardinha frito em óleo renovado. O chope com dois dedos de colarinho, a caipirinha com açúcar na medida exata (mais embriagante do que engordativo). E, em volta, uma gente sem pose ou firula, conversando, bebendo e comendo enquanto o sol cai lá pros lados do Continente.
Periga ainda de você olhar para o lado e descobrir a figura afável do seu Chico Amante, um nativo da melhor cepa, autor da série Somos todos manezinhos e do quase filosófico Ser manezinho. O papo com ele é variado e de primeira: do cenário político da cidade a causos ilhéus de tirar o fôlego. O mesmo ocorrerá se você topar com Luiz Armando Wolff. Representante da tchurma do Lira Tênis Clube, ele próprio um personagem do livro de Amante, poderá lhe contar, com a sua voz de crooner aposentado, mas ainda elegante, a incrível história de quando João Gilberto esteve por aqui para um show e, vaiado, varou a noite pelos bares do Centro carregando o seu violão cheio de bossa. Entre a gente, feito um qualquer. Como é no Mercado, como tem de ser sempre.
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Crônica de Verão - DC
Chuvarada em Florianópolis
Editorial da página 3 do Diário Catarinense de hoje:
Visor
"Dilúvio"
As intensas chuvas que começaram na noite de quarta-feira, e tantos prejuízos causaram à população, evidenciaram também que Florianópolis - e também a maioria das cidades de maior porte do Estado - não dispõe de um sistema de escoamento pluvial e de drenagem à altura de suas necessidades. O problema é velho de muitos anos. No Natal de 1995, por exemplo, a Capital ficou praticamente debaixo d´água. Já naquele tempo se cobrava investimentos mais consistentes em esgotos pluviais, assim como em obras de contenção das encostas em diversas áreas de risco dos morros circundantes. Lá se foram mais de 12 anos e tudo continua na mesma. Aliás, ficou pior. A área construída aumentou enormemente, "impermeabilizando" ainda mais a cidade, e a população também. Depois desta quinta-feira "diluviana", os moradores de Florianópolis e os turistas (ah, os turistas!) certamente farão uma reflexão sobre a tal da qualidade de vida no pedaço.
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