27/02/2007
Empatia e tolerância
"Não sou má. Eu só fiz uma coisa estúpida."
Amelia, personagem mexicana de Babel, ao menino norte-americano - de quem ela cuida desde o nascimento -, por estarem sendo perseguidos pela polícia de fronteira.
Quixotesco
Eu e a Jade fomos assistir a Babel. Saí da sala de cinema aparvalhado. Escrevo este comentário tonto ainda. Achei muito melhor do que Amores brutos ou 21 gramas. Talvez nem seja mais bem filmado. A história é que é melhor. Amores... me parece um filme sobre vaidade (quem tem o cachorro mais brabo, a modelo que perde a beleza) e 21..., sobre redenção. Babel trata da incomunicabilidade, do mudismo, da dificuldade de tolerância, do equívoco tomado por verdade, das generalizações e dos preconceitos... Pode ser que haja isso tudo nos filmes anteriores, mas agora esses aspectos ganham alcance global, se mostram inerentes ao homem de qualquer parte do planeta. E pior: tudo isso foi incorporado à práxis política, às relações entre países e povos. O mundo é mesmo uma impossibilidade, como bem diz a Jade. Bárbaro.
Vim no carro pensando que não resta outra alternativa senão ser Quixote, na medida do possível empunhar espadas contra colossos, para desentortar injustiças. Ser, enfim, quixotesco: brigar contra moinhos de estrutura granítica, invencíveis, convencido de que eles podem ruir com um golpe de sabre. Não há ilusão mais cara do que essa. E repare: nem Cervantes nem o roteirista Guillermo Arriaga ou o diretor Alejandro González Iñárritu pregam "seja Quixote". Tampouco são piegas com a brutalidade da vida. Eles apenas a mostram de perto.
23/02/2007
Crônica de Verão 10 / Diário Catarinense
Chuva na praia
A chuva começou no fim da manhã. A areia da praia primeiro desprendeu aroma, depois mudou de cor, por fim enrijeceu. Era uma chuva forte, que ensaiava cair desde muito antes de quando precipitou de fato – o que fez a maioria dos banhistas recolher seus pertences, chamar familiares, reunir todo mundo e dar no pé antes do toró. Eu fiquei; de dentro da água queria assistir a todo mundo ir embora e a praia ficar livre, ser só minha. Por isso, quando o vento virou de repente, eu vibrei; quando o tempo fechou de vez, eu sorri. Acompanhar uma tempestade chegar, de dentro da água, não é recomendável a ninguém, posto que arriscado, perigoso. Mas que é bonito, é. E faz pensar.
"O Verão vai terminando, o Carnaval já passou, quem sabe não são as águas de março que, antes do tempo, caem pesadas sobre a minha cabeça? Tom Jobim, lá se vão dez anos sem ti... De qualquer forma, isso tudo deve ter alguma coisa a ver com o aquecimento global, esse fenômeno mau que nós, seres humanos de agora, engendramos para a geração de nossos netos. Já estaremos noutra quando Florianópolis submergir e só restar as torres de uma Ponte Hercílio Luz (quiçá restaurada) para fora do oceano Atlântico. Os florianopolitanos, quem diria, viverão todos em Biguaçu, ó grande Salim Miguel!"
É claro que eu não cogitava esse tipo de pensamento meio funesto enquanto observava, entre um mergulho e outro, aquela multidão de banhistas fugir da chuva. O que eu pensava, creio, não interessa ao leitor. Mas como é mister do cronista matutar em voz alta, não posso deixar de reconhecer que eu dizia comigo mesmo algumas dessas verdades em que às vezes só a gente acredita, por só existirem na nossa cabeça, alheias em tudo à realidade concreta que nos rodeia. O que não é ruim, como pode parecer aos mais racionais: por algum mistério, o cronista é o único idealista sensato.
Está mesmo na hora de ir embora, cambada. Grande parte de vocês passou aqui dezembro, muitos enfiaram pela estrada de janeiro após vencer a curva do Ano Novo. Fevereiro chegou, o calor persistiu, os transatlânticos por aqui aportaram, os turistas aproveitaram, você conheceu uma pessoa bacana, fez amigos, teve um romance de verão – sempre furtivo, descompromissado –, pulou e dançou, queimou-se mais do que devia, tomou banho de mar à vontade, esqueceu o trabalho, o patrão, compromissos, viu que Florianópolis é um lugar lindo apesar do nome, conseguiu a muito custo comprar uma camiseta da Feijoada do Cacau, bailou fantasiado no Ilha em Gala, curtiu os desfiles dos blocos de sujo, das escolas de samba, riu à beca no Pop Gay... O diabo é que depois disso tudo, cambada, o ano começa mesmo. Então é chegada a hora de voltar. Uns para a cidade onde moram, outros para a rotina diária local.
Para os primeiros, boa viagem; para os segundos, boa sorte.
Marcadores:
Crônica de Verão - DC
22/02/2007
Bem poderia ser a pieuvre
"Para acreditar na pieuvre é preciso tê-la visto.
Comparadas à pieuvre, as velhas hidras fazem sorrir.
Em certos momentos parece que o elemento fugitivo que flutua em nossos sonhos encontra na realidade ímãs aos quais esses lineamentos se prendem, e dessas obscuras ficções do sonho surgem criaturas. O ignoto dispõe do prodígio e serve-se dele para compor o monstro. Orfeu, Homero e Hesíodo só puderam fazer a quimera; Deus fez a pieuvre.
Quando Deus quer, excede no execrável.
A razão desta vontade é o medo do pensador religioso.
Admitidos todos os ideais, se o terror é um fim, a pieuvre é uma obra-prima."
Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, na tradução de Machado de Assis.
Não é polvo, mas bem poderia ser:
http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL6829-5603,00.html
21/02/2007
20/02/2007
Uma aposta alta
Hoje eu fiz um troço inédito na minha amadora trajetória de leitor: comprei um livro por causa da sua adaptação para o cinema. E pior: de um autor que eu até então jamais ouvira falar o nome. E ainda: autor vivo, nascido em 1949, um “contemporâneo”, portanto. O livro é O perfume – história de um assassino, do alemão Patrick Süskind. Assisti ao filme com a Jade, no cinema, e ficamos ambos encantados com a história. Pensei comigo, já nos créditos, esperando aparecer o nome do autor da trama: “Cacilda, se esse cara escrever bem mesmo, que livro não deve ser!”. Comprei, estou ansioso para comprovar. Apesar de “contemporâneo”, o enredo é à antiga. Parece uma mistura de Oliver Twist (que eu conheço só do cinema, também, pelo Roman Polanski, mas tenho aqui a tradução do Machado de Assis, na estante, à espera) com Os Miseráveis (que leio desde janeiro). Num dos momentos do filme, cheguei a cochichar à Jade: “O Victor Hugo é que devia ter escrito essa história!”. O ambiente é a Paris do século XVIII, suja, miserável e desigual – pré-1789. Numa feira livre de peixes – segundo o narrador um local putrefato, o mais fétido de toda a Paris, de toda a Europa –, nasce um garoto chamado Jean-Baptiste Grenouille (que cena, a do parto!). Ele tem um olfato extraordinário e passa a juventude em busca do segredo de como aprisionar o cheiro das coisas, que ele sente como ninguém jamais sentiu. E não há aroma mais delicado e agradável que o de uma mulher. Portanto, na cabeça maluquinha de Grenouille, é preciso reter para sempre o cheiro natural das fêmeas deste mundo, misturá-los nas doses corretas e criar o mais inebriante perfume da história. Eis a concepção do serial killer. Enfim... Em geral, livros são muito superiores aos filmes que rendem. Espero o mesmo de O perfumista... Já me fascina o fato de que o livro tenha, repito, um enredo à antiga, com começo, meio e fim delineados, alguma reviravolta, as partes conectando-se ao todo de maneira engenhosa e, muitas vezes, insuspeita – ao menos é isso que apreendi, até agora, dos grandes romances do século XIX. Se Süskind escrever como os antigos mestres, então, já não terei mais dúvida em pôr Jean-Baptiste Grenouille ao lado de Quasímodo, Twist, Quixote e outros no rol de personagens imortais da literatura mundial.
ps1. o livro é de 1985, foi traduzido para 40 idiomas.
ps2. li esse continho, como amostra grátis do cara, e indico.
Marcadores:
Crônica
16/02/2007
Crônica de Verão 9 / Diário Catarinense
O segredo do Tio Jorge
Tio Jorge era uma mina de bons predicados. Um bom pai, sem dúvida. Trabalhador responsável. Não tinha o vício do jogo, nem o gosto pela bebida. Poupava dinheiro, amava a mulher, cuidava dos filhos. Jamais flertara fora do casamento, nunca lhe passara pela cabeça dar um desfalque na empresa. Tinha zelo pelas suas coisas, lavava ele mesmo o carro, vivia sem luxos e lia pelo menos 30 livros por ano. Além de virtuoso, pregador: fazia discursos emocionados aos parentes, na tentativa de que eles o tomassem por rumo e Norte e seguissem seus passos pela vida afora. Era, enfim, sério e probo, consciencioso e correto sempre. Uma antologia de virtudes.
– Tio Jorge é um chato de galochas, isso sim - dizia o Julinho, afilhado do Tio Jorge, reclamando que o padrinho não o acompanhava numa partida de videogame.
Mas não era apenas o sobrinho mais chegado que via defeitos no Tio Jorge. Havia um comportamento, uma idiossincrasia do Tio Jorge que aborrecia não só o pequeno vidrado em jogos eletrônicos, mas todos os familiares. Eis o motivo: Tio Jorge não entrava no mar, simplesmente porque não confiava nele. Nascido em Florianópolis, um manezinho assim com o sotaque à Guga Kuerten, Tio Jorge recusou-se por toda a vida a colocar um pé dentro da água salgada do Atlântico. E era dono de uma bela casa de praia em Jurerê (o Internacional do nome veio depois) desde o fim dos anos 1980.
– Quando a turma foi, eu já tava, não tem? - dizia ele, garboso.
Até tentara, ainda pequeno, tomar banho como qualquer outra pessoa. Eram os anos (vejam vocês, turistas, como o tempo passa e as coisas mudam) em que as praias mais badaladas eram as de Coqueiros e Estreito, bairros populosos de Florianópolis localizados no continente! Foi uma vez, duas, tornou a ir, repetiu a dose. Falhou em todas. Não era medo, não era desespero, nojo, nada. Simplesmente, como já escrevi, não confiava. A correnteza, as águas vivas, as areias negras e as areias finas, os barcos, os guarda-sóis, os protetores solares, as algas verdes e escuras, o vento Sul ("Velho vento vagabundo!" – gostava de declamar Cruz e Sousa), tudo lhe despertava desconfiança.
– Esse menino tá é muito afeminado – dizia, à época, o pai do Tio Jorge, Seu Pedro, conhecido na região central da cidade como Pedrão, gaúcho barbaridade que encontrara aqui na Ilha de Santa Catarina o amor e o sustento.
Passou o tempo. Seu Pedro, a mãe, os cinco irmãos, os colegas, os professores, a vizinhança, enfim, o mundo inteiro desistiu de fazer Jorge ir à praia. Jorge estudou, cresceu, trabalhou com afinco e virou, claro, Tio Jorge, uma coletânea de qualidades. Formou família, comprou o terreno em Jurerê, ergueu uma bela casa e, desde então, não passava um janeiro longe da casa de praia. Ele e os familiares já viravam o ano lá. E, até março, Tio Jorge não colocava o pé na água, nem jogava videogame com o Julinho.
Mas todo santo dia, quando o pessoal retornava da praia lá pela uma hora da tarde, a carne assada em brasas já estava pronta, no ponto, servida à mesa. Coraçõezinhos, lingüiças, franguinho e tudo o mais tinia na churrasqueira. Isso porque o Tio Jorge aprendera com o pai os segredos do melhor churrasco. Os elogios que essa virtude suprema rendia lhe enchiam de ternura, compensavam qualquer trauma.
– Acha que eu não sei que quem vai pra praia volta com fome? Sou tolo, eu?
Marcadores:
Crônica de Verão - DC
09/02/2007
Crônica de Verão 8 / Diário Catarinense
Um diálogo da estação
– Menina, há quanto tempo!
– É verdade... Mas vem cá, tá falando que nem atriz agora, é? "Menina..."
– Hehehehe, sempre brincalhona, hein?
– Tem de ser, né? Se não, a gente fica doida...
– E o calor? Que janeiro horrível, não? Era um calor que ninguém agüentava...
– Pois eu adorei. Quanto mais quente, melhor. Ih, esse não é o nome de um filme com a Marilyn, não?
– Deve ser, deve ser... Tu sempre soubeste mais destes assuntos do que eu, querida...
– E a vida, como está?
– Ah, o de sempre: viagens, jantares, hotéis, convidados, grandes festas...
– Ah, entendo. Mas não pode ser tão ruim assim, vai.
– Não, claro que não, mas às vezes incomoda. Não sei explicar...
– Mas tu me dizias que quanto pior, melhor, não é isso?
– Claro, estou de férias! Depois de um longo ano de trabalho, pude parar, ficar mais perto dos filhos, do marido, ir para a casa de praia, acordar tarde, passar o dia na praia, vendo as crianças, fazendo exercícios (Na minha praia apareceu um grupo de atletas que incentiva todo mundo a praticar esporte, menina, é uma beleza, com microfone e tudo. Fica tão bonito o fim do dia, com o sol caindo no horizonte, pular e correr com um monte de gente desconhecida, fazer amizades novas...) Ai, e à noite, então? A gente assa um peixinho, fica sentado no deck da casa, deitado nas redes até tarde, conversando, bebendo uma cervejinha, ou então vendo o Big Brother, e aí vai para a cama, liga o ventilador e dorme na santa paz, ouvindo o barulho das ondas quebrando na praia... Adoro!
– Ouvindo tu falares, até parece bom. Dá até vontade de trabalhar, só para tirar férias...
– É, trabalhar nunca é demais.
– Mas aí perco viagens, jantares, hotéis, convidados, grandes festas, não é verdade?
– É verdade. Perde o Verão, também. Mas fazer o quê, né? Cada um, cada um.
– Tá bom, querida. Tchau então, hein? Boas férias...
– Tchau, tchau...
Um fim de semana histórico
Na tarde do dia 13 de janeiro, na Cachoeira do Bom Jesus, Norte da Ilha de Santa Catarina, aconteceu o que antigos veranistas daquele balneário garantem que não acontecia havia 30 anos, talvez mais, talvez nunca. A praia estava cheia, muito sol e pouco vento. Existiam dezenas de barcos na água, da Ponta das Canas até Canasvieiras. Alguns estavam ancorados perigosamente próximos da faixa de areia e dos banhistas. Então, aconteceu. Apareceu no horizonte um bote com a inscrição "Marinha" e três tripulantes a bordo. A embarcação oficial "estacionou" ao lado de um desses barcos e, com uma sirene estridente, denunciou a irregularidade. O proprietário, desembestado, entrou correndo na água para levar para mais longe a sua propriedade. Foi o bastante para que uma pequena multidão, da areia da praia, desse uma salva de palmas para o poder público, que naquele sábado apareceu de repente para fazer valer o respeito aos veranistas. Um cidadão até assoviou de agradecimento aos fiscais, como guri pequeno – como não fazia havia 30 anos, como talvez nunca fizera antes.
Marcadores:
Crônica de Verão - DC
02/02/2007
Crônica de Verão 7 / Diário Catarinense
Olhar não tira pedaço?
O casal tinha bodas de prata, e ambicionava ouro e diamante. Preparado estava: ambos, homem e mulher, tinham afinidades, sonhos comuns e muita cumplicidade, mas também alguns antídotos – de descoberta penosa, mas providencial – ao óxido que a convivência amorosa ora produz. Além disso, eram os pais responsáveis de um filho que já lhes presenteara com um neto. Para eles, o divórcio não passava de um termo jurídico mais útil aos advogados e rábulas do que a um par de amantes e avós orgulhosos. Como todo casal ajustado, tinham seus acordos tácitos. Vou revelar um deles.
Parte deste acerto é que os dois combinavam tirar férias durante o Verão. Porque adoravam o mar, a casa de praia, o cheiro da maresia nas noites quentes e de brisa, o barulho das ondas na hora de dormir, os ventiladores de teto, os churrascos com os amigos nas tardes ensolaradas de domingo, as pranchas de body-board, a preguiça de acordar, a relutância em ir dormir, a animação das pessoas nas ruas, o clima festivo e alto astral da estação, a meninada na praia. Nem das filas nos supermercados se queixavam...
E a outra parte do acordo? Consistia numa permissão que ela dava ao marido. Acontecia assim: com sol a pino ou céu nublado em dia de mormaço, os dois iam à praia de manhã e ficavam até o fim da tarde. Tomavam banho juntos, pegavam umas ondinhas, torravam ao sol lado a lado, almoçavam em algum restaurante próximo... Mas, em determinado momento, separavam-se. Era quando ele, ajeitando o boné, dizia alto e bom som:
– Vou por aí.
Era a senha, e a mulher nem chiava. Conhecia o homem que tinha. Sabia que o marido, ao anunciar o seu passeio, iria vistoriar o restante da praia. Não pelo prazer de caminhar, exercitar-se, entrar em forma. Ele ia era olhar as bundas da mulherada, um de seus vícios de Verão. E nem punha óculos escuros: ia de cara limpa, a sombra do boné melhorando a visão, sem que precisasse manter os olhos semicerrados em busca daquele fio dental...
E assim todo o Verão, ano a ano. A certa altura, geralmente quando a mulher já estava estendida de bruços na cadeira de praia havia horas, ele erguia-se de sob o guarda-sol, com aquela cara de despreocupado, ajustava o bonezinho, a bermuda na cintura, e dizia:
– Vou por aí.
Um dia, porém, após voltar de uma das melhores caminhadas de sua vida (era bunda boa, morena e luzidia de protetor solar para todo o lado!), não agüentou e comentou com a esposa, que lia sentada, de óculos escuros:
– Nunca vi tanta bunda bonita!
No que a mulher respondeu:
– Seu bobo. Pensa que olhar é bom, é? Bom é mostrar...
E ela largou o livro e virou de costas, bunda para o ar...
Marcadores:
Crônica de Verão - DC
Assinar:
Postagens (Atom)