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16/11/2009

Confiante, e só

Os dias têm corrido, as semanas se afunilam, o mês já se foi e tudo ainda continua suspenso. 2009, quem diria? 30 anos, quem diria? Natal e Ano Novo, duas datas em aberto, duas páginas vazias. Porque agora há carro, quarto novo, nova vizinhança, menos contas a pagar; há piscina cintilante em meio ao breu, cigarro, primavera doce e trêmula, madrugadas; há semáforos piscando pare!, uma multa idiota, um bom trabalho exigindo tudo o tempo todo e perspectivas de novos bons trabalhos; há leituras interrompidas, rotina cambiante, compromissos intelectuais remunerados, mistérios na caixa de e-mail, cota de SMS estourada, tanque vazio; há mojitos, cerveja, refluxo. Velhos amigos tão amigos como há 10 anos, e amigos tão próximos até outro dia que agora parecem morar em outro país, inacessíveis. Há gente nova e amiga, revelações de deixar o cabelo em pé e o pé atrás, afirmações que fazem sorrir porque improváveis, no máximo gentis. Woody Allen e Rolling Stones, tão esquecidos. Pais e avós, tão próximos. Mudou o mundo, sigo o mesmo.

22/07/2009

Uma boa notícia para este blog!

Podia ser uma excelente notícia, mas é boa mesmo assim.
Semana passada saiu o resultado do "1º Concurso Guemanisse de Crônicas e Textos de Humorísticos", promovido pela editora Guemanisse, do Rio de Janeiro. As inscrições terminaram em maio, e resolvi enviar uma crônica publicada aqui no blog no ano passado (não precisava ser inédita). É o texto Espiral de calamidades, que escrevi por ocasião da enxurrada que desabou sobre o Vale do Itajaí, principalmente. Os comentários e elogios deixados pelos colegas, amigos e internautas me deram confiança de que esta crônica tinha qualidades e chances de brigar por um prêmio. Não ganhei, claro, porque ter ganhado seria o lead deste post, mas o fato é que o texto ficou entre os 309 melhores (que disputaram os 3 primeiros lugares) de um total de 1.192! E agora vai sair em livro, junto com os vencedores.
É a segunda vez que me inscrevo num concurso de crônicas dessa editora, e é a segunda vez que entro numa antologia publicada por ela. A outra vez foi em 2006, no "1º Concurso Guemanisse de Crônicas e Charges", que rendeu a publicação do livro Guardados e Contextos.

27/04/2009

"Saí" na Regininha: ganhei o dia!

Olha, vou contar que a Regina Carvalho é dura na queda com textos. Exigente pacas, e eu bem sei porque fui seu orientando e já ouvi uns puxões de orelha. Mas hoje ganhei o dia. Fui lá espiar o Crônicas da Regina, que acaba de ser indicado ao prêmio Top Blog na categoria Variedades, e vi a minha crônica de hoje no DC reproduzida por ela! "Pôra"... Muito obrigado, madrinha!

12/06/2008

La plus belle du quartier/Anyone else but you

Se você tem certeza de que partilha e enfrenta a vida com a mulher certa, hoje é dia de dizer obrigado a ela. De dizer obrigado e abraçá-la com o ímpeto do encontro fortuito, beijá-la com o hálito que convida à entrega; utilizar o saca-rolhas com a destreza de um maitre e servir o vinho com a deferência dos enamorados; hoje é dia de dizer obrigado e de revelar a ela um segredo temível, desses que reabririam feridas se contados a outros, mas que confidenciados assim, numa data tão íntima, proporcionam apenas alívio; dia de dizer obrigado e de preparar uma surpresa ingênua, pendurar um quadro novo na parede da sala, resgatar do álbum esquecido a foto da primeira viagem conjunta; de ouvir as baladas da modelo francesa, ver um Antonioni à luz de abajures, recitar um Neruda para ela na cama, à beira do sono ou a um passo do abismo; oferecer-lhe um presente para vestir, para comer, para beber, para decorar o cômodo preferido dela; dia de estrear a calça que ela lhe deu, falar as palavras que ela mais gosta de ouvir, elogiar as qualidades que mais a envaidecem; é dia também de ignorar os cartões de romantismo industrial, as telemensagens de conteúdo e entonação piegas, os buquês de rosas envelhecidas a serviço do comércio do amor; de dizer obrigado e acalentar mais um pouco o sonho de um futuro cúmplice e de uma felicidade à moda da casa, jamais irrestrita; de renovar a certeza de que se pode viver a dois para sempre; abrir uma exceção e falar de filhos sem medo: menino, menina ou gêmeos. Dizer obrigado, e ébrio de tinto repetir obrigado, obrigado por tudo.

02/05/2008

O outono aplicando o inverno

Tinto forte, noite adentro. O outono aborreceu-se e nos despejou um vento sul que castiga o rosto descoberto. Daqui dois dias, calculo, as paredes ficarão frias, e em algumas correrão gotículas de água invernal. No escritório, será missão nossa, leitores de mãos calorosas, salvar os livros da umidade, do mofo e do mau cheiro. Será também um tempo de água gelada na torneira, banhos quentes e demorados, aquecedor ligado no máximo. A ventania, tinhosa, enfiando-se, esgueirando-se pelas frinchas das venezianas (as cortinas se mexendo, de leve, alertando para o perigo da brisa encanada). Roupas lavadas sem varal em que descansar, sós ao vento, secas jamais. As escolhas da manhã, pavorosas, amorosas: sair debaixo dos cobertores, abandonar o travesseiro, separar-se da mulher de pele tépida e toque macio, pés descalços no chão gélido, rumo ao banheiro de azulejos; desligar o despertador, ativar o soneca, rolar mais um pouco, dormir mais um tanto, fazer amor, ficar deitado nu envolto pelo calor do orgasmo; levantar-se de supetão, correr ao armário, vestir-se às pressas, tomar um capuccino e sair para enfrentar o mundo e ganhar a vida. Lá fora, já sei: briga de guarda-chuvas, calçadas e esquinas alagadas, carro que joga água da sarjeta nos passageiros de ônibus. Voltar para casa com a calça jeans molhada, os tênis encharcados, as meias ensopadas, o frio pendurado nas costas. Enquanto na rua, enregelados, embrutecidos, crianças e cães buscam abrigo em meio ao breu espesso, luta sem trégua por fogo, conforto e carinho. É o outono aplicando o inverno. Tinto forte, noite adentro.

22/04/2008

Já tenho um novo despertador...

Sexta-feira, acordo com bumbos no ouvido. Olho o relógio: 7h20, quarenta minutos antes de o despertador apitar. Levanto, grogue, e abro a janela: um jaguara musuculoso derruba uma parede a marretadas, numa obra do Clube 12 de Agosto, em Coqueiros, terreno vizinho. Contenho um grito mal-educado. Vou à sala e ligo a TV: o telejornal anuncia com pompa as notícias de ontem, como os jornais que vou ler pouco depois, mas sem o apelo, o carisma, a inteligência do texto. O jaguara segue marretando a parede - que só cede, não cai - até as 8h. E aí pára. Silêncio. Mas já é hora de ir para o trabalho. Terça-feira pós-feriado. Acordo assustado por um som terrível, indescritível, e quase caio da cama. Olho o relógio: 7h! Não é possível. Abro a janela e a cena é inacreditável: uma escavadeira e um caminhão manobram no pequeno terreno ao lado. Os motoristas contorcendo os volantes... E começa a dureza: junta a parede derrubada, acomoda os destroços; junta a parede derrubada, acomoda os destroços; junta a parede derrubada, acomoda os destroços... Eu não contenho o grito: "Brincadeira, hein? Escavadeira às sete da manhã é brincadeira!". O sujeito me olha com olhos arregalados, assustado, como se previsse que a qualquer momento alguém fosse pôr a cabeça para fora da janela, fora de si. Fecho a veneziana, o vidro. Vou para o computador. Procuro pelo site do Clube 12, quero um telefone. Ligo, ligo, ninguém atende. Aí me dá o estalo: antes das 8h, eles terminam a função. Às 7h45min, silêncio. Abro a janela de novo: um crioulinho varre o chão... Indignado por não ter conseguido falar com ninguém no Clube 12 entre as 7h e as 7h45min, volto ao site. E descubro toda a verdade: a administração só funciona a partir das 8h. Tá explicado.

10/04/2008

Tudo por um RG novo

Fui dormir à 1h30 de hoje, depois de ouvir, até o fim, as entrevistas do presidente e do técnico do meu fracassado time. Acordei às 7h30, sacudido pela Jade. Eu precisava ir ao Instituto Geral de Perícias, no Itacorubi, fazer uma carteira de identidade nova, e ela, que trabalha naquele bairro, me daria carona. Duas fotos 3x4 e a certidão de casamento original já dormiram na mochila. Eu tinha esperança de resolver logo a questão e voltar para o Centro, para o trabalho. E lá fomos. Às 8h30, a Jade me deixou no endereço que um funcionário do local me indicara por telefone. É uma construção com a cara do Estado: verde, estreita e com muitos metros de comprimento. A entrada do prédio fica nos fundos, de costas para a rua, virada para o mato. Eu caminhei todo o estacionamento e cheguei à porta principal, cujo acesso é feito por escada ou rampa. Um PM me abordou chamando-me de "amigão". Perguntei pelo setor de carteiras de identidade. Ele apontou: "Aquela porta ali, amigão". Havia três pessoas na fila. Puxei a minha senha e aguardei. Uma garota de uns 16 anos me perguntou se eu desejava uma segunda via. Respondi que não, apenas um documento novo. Ela conferiu a certidão de casamento, as fotos, o CPF – que optei incluir no RG – e me deu um boleto e uma outra senha, para ser utilizada na volta do banco. Com uma rispidez danada, completou: "O boleto você paga no Besc; abre daqui a pouco, às 10 horas. Senta e aguarda". Fiquei sem reação; eram 8h45, a Jade já devia ter chegado ao serviço e eu só queria voltar àquele lugar para buscar o documento. Saí da salinha e olhei o hall de entrada: não havia cadeiras, nem bancos, nem nada. "Não é possível." Escalei uma escada, rumo ao primeiro andar. Nem sinal. E agora? Voltei para a entrada do prédio e sentei-me na escada. O PM me olhou e riu: "É, amigão..." Para não ter de conversar com estranhos, ainda mais um desconhecido que me chama de "amigão", sempre carrego uma leitura na mochila, neste caso, a Piauí. Foi o melhor momento da manhã infausta. (Lá pelas tantas, enquanto lia o excelente perfil de Eurico Miranda escrito por Roberto Kaz, me ocorreu que esse maldito boleto talvez estivesse disponível na internet, para você pagar na hora do almoço perto do trabalho e, no outro dia de manhã, já levar tudo pronto para resolver a pendenga o mais rápido possível. Óbvio, há o boleto na internet. Eu bem mereço o Estado.) O tempo passa. Quando me dou conta, são 9h50. Levanto, lépido, para ir ao Besc. "Agora vai." Qual o quê. Umas 13 pessoas estão no hall, boleto na mão. Então o prestativo PM dá uma sugestão à turma: "Organizem a fila do banco ali no canto. Quando abrir, não vai dar briga". E os 13 se espremeram contra a parede do imenso hall, em fila indiana, satisfeitos com o conselho do guarda. Eu já estava bastante puto da cara. Continuei lendo na fila a revista grandona, em protesto. Paguei. Voltei à menina, e ela disse que minha senha "já foi pro espaço". Puxei uma nova, e a garota me fez um favor espantoso: apontou, escondidas atrás do balcão onde estava, um monte de cadeiras, algumas já ocupadas por gente com boletos quitados. Havia cadeiras no prédio! Ao me atender a primeira vez, a moça deve ter esquecido de me informar. Sentei-me, e aguardei o apito da senha eletrônica, lendo. Enfim, soou a corneta. Um sujeito atendeu-me com cortesia, puxou conversa ("Ah, jornalista! Que vida corrida, hein?" Sorri, pareceu-me irônico), foi rápido. Mas não tem jeito. Quando estou me encaminhando para a terceira fila, a "do dedão sujo", o funcionário me alerta que posso diminuir o prazo de entrega do documento de 15 para 5 dias úteis, caso pagasse uma segunda taxa... "Porra", exclamei sem pensar, "claro!", corrigi. Ele me entregou novo boleto e cochichou, como a um amigo: "Depois de pagar, não pega outra senha não; entra aqui na sala e me entrega". E lá fui eu para a fila do banco de novo. Paguei a taxa, adentrei a sala com indescritível cara-de-pau, entreguei o canhoto, assinei lá um documento e fui, enfim, para o último estágio. Eram 10h50. Um casal aguardava para fazer o RG da sua filha, ainda no colo da mãe. Pendurado na parede por uma cordinha, um banner de plástico com a impressão digital de um enorme polegar. Uma voz de mulher chamou o casal com a menina. Pelo que ouvi, foi uma festa. Risonha, alegre, a atendendente fez brincadeiras, interagiu com a criança, deve ter passado tinta preta no narizinho dela. Os pais exclamavam de contetamento. Silêncio. "Felipe." Entro; desajeitado, me inclino para jogar a mochila no chão. A mulher, com cara de infinita indiferença, me indica uma cadeira: "Ali, filho, ali". Era uma outra pessoa. Com uma mecanicidade que raiava a eficiência, pintou meu dedos, apertou e tal e resolveu. "Ali tem um banheiro", indicou. Entrei. O sabonete era uma garrafa de detergente; Pinho Sol, sei lá. O papel toalha estava amontoado em cima do recipiente que devia comportá-lo. Parecia um WC de boteco. Saio do banheiro e olho uma porta lateral: um papel A4, colado no sentido horizontal, com a palavra SAÍDA pintada em vermelho. Lembrava um Centro Acadêmico. Foi com alívio que enfrentei o estacionamento, para a rua, livre. Eram 11h10. Agora eu precisava de um ônibus. Cheguei a uma parada. Havia umas senhoras sentadas, aguardando o ônibus com cara de quem está na fila do Besc. Comentavam: no dia seguinte, uma ficara 40 minutos esperando o ônibus; outra, meia hora. Eu tive certeza de que não passaria ônibus antes do meio-dia. "Um táxi, preciso de um táxi." Ora, o prédio verde do Instituto Geral de Perícias fica na rua do cemitério São Francisco de Assis, e não encontrei táxis por ali. O sol a pino fritava a parada de ônibus, e as velinhas sentadas debaixo do plástico quente, cheias de roupas, resignadas como aposentadas na fila do INSS. Eu já estava puto da cara de novo. Toca o celular. É a Jade: "Oi, meu amorrr, como foi lá?" Respondo: "Tá quase acabando..." Ela fica surpresa: "Ainda?" Resmungamos em coro que o mundo é mesmo uma impossibilidade. Desligo, o ônibus se aproxima. São 11h35. Sento num banco do fundão, descansado. Puxo a Piauí, tudo resolvido. Aí, o inesperado. O ônibus não vai para o Centro. A Transol pensa como o Estado. O coletivo faz contorcionismos sobre os elevados da região e ruma para o Terminal da Trindade (Titri). Lá, depois de mais uma fila, entro num ônibus que tem como destino o Centro. Desço no Ticen por volta do meio-dia. Agora, resta esperar 5 dias úteis. Há de dar tudo certo.

04/04/2008

"The heart is a very, very resilient little muscle"

Ontem à noite, revi Hannah and Her Sisters. É dos meus preferidos. Acho a cena em que Michael Cane beija pela primeira vez a cunhada, Barbara Hershey, ao som do melancólico Concerto em Fá Menor de Bach, bela como poucas. O beijo é tão repentino, tão impulsivo, que os dois esbarram na vitrola, a agulha desliza sobre o prato e a música, de romântica, recomeça tensa, nervosa, ao mesmo tempo em que o namorado pintor de Barbara, Max von Sydow, adentra bufando a sala onde eles acabam de se beijar, furioso, despachando um "rock star" interessado em decorar sua casa em Southampton: "I'm not interested in what your decorator thinks. You don't buy paintings to blend in with the sofa". Acho horrível a situação da mulher de Cane, Mia Farrow, enganada pelo marido, traída pela irmã. Cane sente um remorso medonho, é verdade (sentimento que o cineasta levaria à catarse três anos depois, com Martin Landau em Crimes and Misdemeanors), mas a covardia e a comodidade do seu casamento impedem-lhe de terminar tudo e brigar por Barbara, que está na dele e não aguenta mais a imposição intelectual sufocante de Max. Cane passa a se encontrar com Barbara semanalmente, num quarto de hotel, e seu desconforto com a situação, mastigado em monólogos amargurados ("For chrissake, stop torturing her"), irrompe num jantar com Mia, que lhe enche de perguntas sobre a sua mudança de humor e atenção em família: "What is this? The Gestapo?". E há ainda o humor, claro, protagonizado por Allen, ex-marido de Mia. A cena em que imagina o médico informando-lhe sobre o tumor no cérebro, hipocondríaco incurável, é ótima: "Mr. Saxe, I'm afraid the news is not good. If I can show you where the tumor is and why we feel that surgery would be of no use". E na verdade o médico apóia o raio X contra o quadro de luz e diz: "You're just fine. There's nothing here at all. And your tests are all fine". Começa aí a corrida de Allen pelo sentido da vida. Se estivesse com câncer, teria dado um tiro na cabeça. Agora que está bem, por que continuar vivo? Que diferença faria? O périplo por bibliotecas, sacristias, consultas religiosas é hilário. Até aos Hare Krishna, dançando no Central Park ensolarado, ele recorre, mas é besteira: "Who are you kidding? You're gonna be a Krishna? You're gonna shave your head and dance around at airports? You'd look like Jerry Lewis. Oh, God, I'm so depressed". O casal que Allen forma com a irmã-problema de Mia, Diane Wiest, no fim do filme – após uma tentativa frustrada de começarem um relacionamento, anos antes – mostra bem que as relações amorosas vão e vêm e ninguém consegue de fato explicá-las: "I was telling your father that it's ironic I used to always have Thanksgiving with Hannah and I never thought I could love anybody else. Here it is years later. I'm married to you and completely in love with you. The heart is a very, very resilient little muscle. It really is". Ainda tem os versos de e.e. Cummings: "The voice of your eyes / Is deeper than all roses / Nobody, not even the rain / Has such small hands". E Cole Porter. Para ler o roteiro deste filmaço, clique aqui.

27/03/2008

De quando fomos alienígenas durante um almoço de quarta-feira

Quando encontrei a Jade ontem no Centro, para almoçarmos, tive vontade de lhe tascar um beijo e dizer, feliz da vida, "Que bom que o Rafinha ganhou, não é mesmo?", na esperança de que ela, ágil e natural, me devolvesse no mesmo idioma, "Um alívio. Imagina se vencesse a cajuína!". Isso porque a quarta-feira de sol e muito trabalho foi uma quarta-feira monotemática, de um único e relutante assunto, e me admirei ao descobrir que nem as manchetes dos jornais, nem as chamadas dos telejornais fossem sobre o resultado do BBB8, mas notas de canto, submatérias. Corajosos jornais, alheios à vida lá fora: até os cães vadios trotaram por aí discutindo o caráter dos contendores, as pernas da mulher e a inteligência do sujeito. No bar, um bêbado de língua enrolada afirmava que iria inscrever-se para a seleção do próximo programa, e um outro rebatia que "Você não entra nem pro AA, imagina pro BB". Na banca de revistas um grupo de senhoras malvestidas conversava sobre o que cada uma fizera para entreter a família durante os derradeiros minutos do programa – pipoca, doces, ovos de páscoa, refrigerante light –, senhorinhas safadas que ajudaram a inchar o Ibope de 46 pontos do Bial. O guarda de trânsito, entre um siga e um alerta, trocava algumas palavras sobre o evento da noite passada com um companheiro de ofício. O vendendor ambulante falava do BBB8, o porteiro do centro comercial também. E num certo momento, durante o almoço, eu nos flagrei cercados por BBB maníacos inamistosos, ululantes, de olhos rútilos e espuma na boca como os mais desesperados personagens rodriguianos. Só porque a Jade estava comigo, falando de trabalho, da tese e da vida.

23/03/2008

Floripa, 282

Um domingo de Páscoa de muito trabalho me impediu de ir ao aniversário do amigo Rodrigo Octávio, que completou 29 anos, e de folhear os jornais como se deve. O seu Júlio, avô da Jade, foi quem me alertou durante o almoço de bacalhau: "O caderno do DC em homenagem a Florianópolis está lindíssimo". Agora eu conferi, e é verdade. Destoam apenas os anúncios toscos, constrangedores, de Sérgio Grando e do tal "vereador Miotto", que melhor fariam se não estivessem ali roubando lugar das fotografias. No Donna DC, seis artigos sobre a cidade, e o que de melhor há está na aula de história de Sérgio da Costa Ramos, na declaração de amor do Flávio José Cardozo e na pensata do vento da Regina Carvalho. Veja a galeria de fotos do caderno do DC.
De minha parte, escrevi no Donna DC de 16/12/07, no período de interino do escritor Maicon Tenfen, a seguinte crônica, que cabe no clima de homenagem:

Feliz é a gaivota Leitoras, a verdade é uma só. Como não almejo ser o autor de qualquer versão oficial, é preciso que eu confesse, antes de tudo: foi uma bruxa, destas que de vez em quando saem dos livros de Franklin Cascaes para dar uma volta nas noites de lua cheia, quem me segredou o que vai relatado abaixo. À sabedoria da feia e boa velha, pois, é que devemos creditar a beleza da revelação. O lúdico a quem é fantástico, como deve ou deveria ser tudo o mais nesta Ilha misteriosa. Contou-me a bruxa que há uma relação estreita entre os que moram em Florianópolis, em especial os que aqui nasceram ou se criaram desde pequeno, e as gaivotas que habitam a cidade. Ora, quem não as conhece de vista? Encontramos gaivotas por toda parte, diariamente, e não apenas nas praias. No trajeto para o trabalho, ao atravessar as pontes de carro, numa caminhada pela Avenida Beira-Mar Norte, nas pinturas das fachadas de prédios... A gaivota é nossa íntima. Dito isto, aprendam enquanto há tempo e ainda existem bruxas para nos ensinar os segredos da Ilha: da mesma forma que nós olhamos para o céu à noite e vemos a beleza, a intensidade e a presença de estrelas que não existem mais, as gaivotas manezinhas sobrevoam uma cidade que ainda tem a beleza, a intensidade e a presença de uma Florianópolis que também não existe mais. Ou que só é visível a olhos humanos nas fotos da nossa carente Biblioteca Pública, nos arquivos de jornais ou nos blogs dos saudosistas. As gaivotas que habitam as nossas praias ainda olham para o mar e só vêem canoas e baleeiras de pescadores, no lugar dos jet-skis poluidores e lanchas potentes poluidoras e banana-boats ridículos e escunas cujo passeio é embalado por trilhas sonoras de filmes do Indiana Jones; miram os costões e áreas de preservação e não encontram prédios, casas e outros empreendimentos irregulares construídos sob a rígida vigilância de políticos desatentos; voam pela faixa de areia e enxergam só areia, que na cidade entrevista por elas ainda não foi engolida pelas casas criminosamente construídas à beira-mar nem é utilizada para festas "VIP" de réveillon, privando o público do seu espaço; dão rasantes sobre o espelho dágua e ainda encontram fartura de peixes para deglutir, no lugar de uma sujeira cada vez mais irremovível que bóia e nos fere o olho, o nariz e a saúde. Elas até hoje não conseguiram compreender o sentido da canção de Luiz Henrique Rosa, que diz "Ai, que saudades que eu tenho da minha lagoa", já que a Lagoa da Conceição, do seu ponto de vista, ainda é um paraíso pujante de vida, cor e cheiro de mar como desde sempre. Nessa cidade fantástica das gaivotas nativas, o Avaí é o time mais vezes campeão do Estado e também o de maior torcida. E a bruxa contou ainda que dentre todas essas gaivotas, as que mais enxergam a beleza, a intensidade e a presença de uma Ilha que não existe mais são as que vivem entre Coqueiros e Itaguaçu, bairros onde Florianópolis é mais Rio de Janeiro. Eis, portanto, toda a verdade. De minha parte, desconfio que as belas gaivotas que habitam Florianópolis são todas umas hippies da primeira geração dos hippies. Mas não considero que essa característica as faça um exemplo acabado de alienação. Afinal, elas não escrevem as leis, não se elegem vereadoras nem são envolvidas até as asas em operações da Polícia Federal como a Moeda Verde. Diria mesmo que as invejo. Todo dia, quando abro a janela aqui de casa, não por acaso em Coqueiros, sinto prazer em observá-las planando, corajosas, contra o vento Sul, velho e vagabundo, como o definiu outro dia o poeta Cruz e Sousa.

26/02/2008

A maldição dos trailers...

Um dos aborrecimentos de ir ao cinema é ver trailers. Quando anuncia-se um bom filme, que você quer ver há tempos (em Florianópolis até os lançamentos demoram a chegar), tudo bem. Mas em geral é porcaria. Há uma cena de Hollywood ending (Dirigindo no escuro) em que Woody Allen, interpretando um diretor há anos fora do mercado tentando voltar ao establishment, tenta convencer um produtor e o dono de um estúdio de que é capaz de filmar o roteiro proposto pela dupla. Numa das melhores piadas do filme, Woody garante que seu trabalho conquistaria "adultos, idosos, gente de meia-idade, jovens... Crianças, bebês de colo...". Assim é com a maioria das produções. No domingo, por exemplo, fomos assistir ao bom Onde os fracos não têm vez (que tradução para No country for old men, não?), e mais uma vez passamos pelo constrangimento de ter de aturar trailers de filmes "para todas as idades": O HOMEM DE FERRO (em que o ápice da babaquice é o personagem da Marvel surgir na tela com Iron Man, do Black Sabbath, de trilha sonora!) LOUCAS POR AMOR, VICIADAS EM DINHEIRO (pobre Diane Keaton!, que junto com um grupo de "divertidas" mulheres planeja um roubo de banco) EM PÉ DE GUERRA (pobre Susan Saradon!, cujo filho é um bem-sucedido escritor de auto-ajuda que precisa domar o amante da mãe, seu antigo professor de educação física no colégio)
ps. já percebi que tem um pessoal que só entra na sala de projeção com 15 minutos de atraso em relação ao horário oficial da sessão, desconfio que para não pegar trailers. Mas eu acho que não teria ido assistir a Leões e cordeiros sem ter visto o trailer antes no cinema...

08/02/2008

É o banco o lar do Kafka?

Meti-me num banco na hora do almoço, e ele me recebeu com a grosseria habitual. Peguei a fila, interminável, uma linha de gente aborrecida e apressada, setindo-me, eu também, um pobre-diabo. Que fazer, se não esperar, e olhar, e contar um a menos, um a menos, a cada sujeito que sai do caixa com suas pendências ajustadas? Eu gastei o tempo observando os maus tratos que o banco - qualquer banco - dispensa ao povão. Confesso que, entretido nisso, distraí-me. Não deixa de ser curioso perceber os mecanismos repressivos da "instituição". É a porta giratória que trava no nosso nariz, como a recusar a entrada do cliente, e faz a fila de gente que está entrando recuar. As câmeras de vídeo penduradas aqui e ali vigiando tudo (e quando você passa e a câmera o acompanha!). A fila do "caixa a jato" que se forma em frente à escada, atravancando os caminhos. Os seguranças que nada ou pouco sabem (ou podem) informar. O sistema de senhas, caixas especiais para idosos e gestantes, apitos de alarme e alerta soando a todo momento. O entra e sai de funcionários: um gaiato, irritado e beligerante, garante que "lá atrás" há um monte de trabalhadores "tomando café e fumando um cigarrinho". E eu que pensava ser um banco o lar de Kafka. Engano, está mais para Foucault. Ao menos não tinha ninguém conversando sobre o último paredão do BBB8.

08/01/2008

Sociologia na hora do almoço

Fui almoçar com a Jade no Ramogida, casa de sushi no Centro da cidade, porque a única, que eu saiba, no Centro da cidade aberta ao meio-dia com exceção do sushiman do Finotrato, infelizmente fechado em férias coletivas. Sentamos, comemos e ouvimos a inevitável "conversa da mesa ao lado". Era o dono do restaurante, se não me engano, que desfiava sociologia: O promotor assassino do sujeito que ameçava lhe roubar em SP merecia uma estátua. Se todos os surpreendidos por ladrões de relógio reagissem como fez o promotor assasino, desferindo 11 tiros no assaltante, a coisa no Brasil seria muito diferente. A Justiça não tem nada de incomodar o promotor assassino porque ele usava uma arma de maneira ilegal: a pistola fora usada contra um bandido, oras bolas. É certo que "os direitos humanos" sairão em defesa do pobre-diabo ladrão. Eu ouvi, ouvi, e quase me levantei para pedir ao sujeito sua opinião sobre vigilância sanitária e receita federal. Mas fiquei com medo de ofender o cara. Vai que ele puxa uma arma...

16/12/2007

Uma crônica

Ontem, o sogro no DC Cultura. Hoje, minha saideira no Donna DC enquanto interino de Maicon Tenfen. Agora, só depois... Feliz é a gaivota Leitoras, a verdade é uma só. Como não almejo ser o autor de qualquer versão oficial, é preciso que eu confesse, antes de tudo: foi uma bruxa, destas que de vez em quando saem dos livros de Franklin Cascaes para dar uma volta nas noites de lua cheia, quem me segredou o que vai relatado abaixo. À sabedoria da feia e boa velha, pois, é que devemos creditar a beleza da revelação. O lúdico a quem é fantástico, como deve ou deveria ser tudo o mais nesta Ilha misteriosa. Contou-me a bruxa que há uma relação estreita entre os que moram em Florianópolis, em especial os que aqui nasceram ou se criaram desde pequeno, e as gaivotas que habitam a cidade. Ora, quem não as conhece de vista? Encontramos gaivotas por toda parte, diariamente, e não apenas nas praias. No trajeto para o trabalho, ao atravessar as pontes de carro, numa caminhada pela Avenida Beira-Mar Norte, nas pinturas das fachadas de prédios... A gaivota é nossa íntima. Dito isto, aprendam enquanto há tempo e ainda existem bruxas para nos ensinar os segredos da Ilha: da mesma forma que nós olhamos para o céu à noite e vemos a beleza, a intensidade e a presença de estrelas que não existem mais, as gaivotas manezinhas sobrevoam uma cidade que ainda tem a beleza, a intensidade e a presença de uma Florianópolis que também não existe mais. Ou que só é visível a olhos humanos nas fotos da nossa carente Biblioteca Pública, nos arquivos de jornais ou nos blogs dos saudosistas. As gaivotas que habitam as nossas praias ainda olham para o mar e só vêem canoas e baleeiras de pescadores, no lugar dos jet-skis poluidores e lanchas potentes poluidoras e banana-boats ridículos e escunas cujo passeio é embalado por trilhas sonoras de filmes do Indiana Jones; miram os costões e áreas de preservação e não encontram prédios, casas e outros empreendimentos irregulares construídos sob a rígida vigilância de políticos desatentos; voam pela faixa de areia e enxergam só areia, que na cidade entrevista por elas ainda não foi engolida pelas casas criminosamente construídas à beira-mar nem é utilizada para festas "VIP" de réveillon, privando o público do seu espaço; dão rasantes sobre o espelho dágua e ainda encontram fartura de peixes para deglutir, no lugar de uma sujeira cada vez mais irremovível que bóia e nos fere o olho, o nariz e a saúde. Elas até hoje não conseguiram compreender o sentido da canção de Luiz Henrique Rosa, que diz "Ai, que saudades que eu tenho da minha lagoa", já que a Lagoa da Conceição, do seu ponto de vista, ainda é um paraíso pujante de vida, cor e cheiro de mar como desde sempre. Nessa cidade fantástica das gaivotas nativas, o Avaí é o time mais vezes campeão do Estado e também o de maior torcida. E a bruxa contou ainda que dentre todas essas gaivotas, as que mais enxergam a beleza, a intensidade e a presença de uma Ilha que não existe mais são as que vivem entre Coqueiros e Itaguaçu, bairros onde Florianópolis é mais Rio de Janeiro. Eis, portanto, toda a verdade. De minha parte, desconfio que as belas gaivotas que habitam Florianópolis são todas umas hippies da primeira geração dos hippies. Mas não considero que essa característica as faça um exemplo acabado de alienação. Afinal, elas não escrevem as leis, não se elegem vereadoras nem são envolvidas até as asas em operações da Polícia Federal como a Moeda Verde. Diria mesmo que as invejo. Todo dia, quando abro a janela aqui de casa, não por acaso em Coqueiros, sinto prazer em observá-las planando, corajosas, contra o vento Sul, velho e vagabundo, como o definiu outro dia o poeta Cruz e Sousa.

21/11/2007

Uma estréia!

Com muito atraso, publico abaixo a estréia da coluna de crônica da Regina Carvalho, escritora e professora aposentada do curso de Jornalismo da UFSC, minha orientadora no curso de Especialização. Os textos sairão às quintas-feiras, no caderno Anexo, do jornal A Notícia. Longa vida à coluna! A primeira crônica jamais se esquece Regina Carvalho, escritora regicarv13@yahoo.com.br Há coisas que se vive dizendo, viram clichês, mas que não deveriam nem precisariam que se acreditasse nelas. Uma é a mania de se afirmar que a vida é finita. Não, não é, este é apenas um recorte mal feito da idéia: a vida de cada pessoa é finita, mas a Vida, a possibilidade, a existência, não. Eu não vou viver pra sempre, nem quero, mas o ser humano terá uma vida longa, embora não eterna, enquanto espécie. E não me refiro à vida além da morte, pois não sei se existe alguma coisa depois que se vai desta para melhor. A Velha Tida, minha avó, a que amava provérbios, base de sua sabedoria, repetia: morrer é descansar, e dava um suspiro, que fundo!, na expectativa de um dia receber este merecido repouso, depois de uma vida de muito sacrifício e muita labuta. Essa mesma finitude com a crônica. A mesma coisa com as palavras. E possam todas receber seu repouso mais que merecido. A crônica é também uma espécie, um gênero, ora em ascensão, ora em decadência, bem como nós. Às vezes some do mercado editorial, pra surgir depois, transfigurada ou semelhante, dependendo do autor, do momento, da temática. Palavras têm suas fases, também. Ao ir pedir um filme na locadora, muitas vezes passo por isso. Já se notou quantos títulos de filmes são adjetivados da mesma maneira? Assim é comum eu explicar pro atendente da locadora: acho que o nome é “Amor Mortal”, mas também pode ser fatal, letal, final... E lá vamos os dois (rindo, é claro!) decifrar o enigma, atrás de alguma coisa parecida e que seja o que estou buscando. Pois esta é minha crônica fatal, a primeira crônica. Talvez seja a última crônica que escrevo na vida, talvez não seja. E não é lindo que ao menos isso me seja oferecido de misterioso, a partir de mim mesma? Todos repetem o axioma do grande filósofo grego: conhece-te a ti mesmo. É um bom axioma, sem dúvida, mas se a gente conhecer a si completamente, vai se chatear um bocado na própria, inevitável e irrecorrível presença... É maravilhoso que se possa ainda surpreender a si próprio(a) de vez em quando, mesmo que de forma negativa... É bom que se possa rir de si mesmo(a), admitindo: “poxa, pensei que conhecia todos os meus defeitos, mas não sabia que ainda seria capaz dessa nova canalhice... E como posso ser canalha! Viva eu!” Ainda bem que com nossos próprios botões podemos ser completamente sinceros, embora desconfie que a imensa maioria nem com os botões totalmente soltos o consiga... Esta é minha crônica fatal, aquela que vai decidir se continuarei fazendo crônicas ou não, se vocês continuarão lendo minhas crônicas ou não... No texto de Fernando Sabino intitulado “A Última Crônica”, ele usa este título apenas porque se baseia no poema (quase) homônimo de Manuel Bandeira. Mas ao se ler o título se cria uma expectativa que funciona muito bem, principalmente porque ele vai desfazê-la depois. Sabino continuou cronicando, felizmente pra nós, mas poucas de suas produções futuras conseguiram alcançar o nível e a beleza daquela, absolutamente perfeita enquanto crônica. Tudo é pra sempre, nada é pra sempre, só o amor constrói, só o amor destrói, só o amor desconstrói... Tudo é certo, tudo é errado, é pecado, engorda, dá câncer, só Jesus salva, Alá é o único Deus e Maomé o seu profeta, mas tudo está certo como dois e dois são cinco, já o disse outro profeta. E aí reside a beleza da vida... e a da crônica, com todos os temas à nossa disposição, com todas as palavras à disposição. Gosto disso. Esta é minha crônica primordial...

08/11/2007

Como há quase uma década

Alexandre Beck, Paulinho Evangelista, Moema Paiva, Guilherme Gouvêa e nós
Fomos terça à abertura da primeira exposição individual do velho camarada Alexandre Beck. Ele estava contente da vida, atencioso com o bastante de gente que vinha cumprimentá-lo, questioná-lo sobre isso e aquilo (cores primárias, qualidade dos traços, profundidade de campo, perspectiva, que sei do que falavam?). Por lá, também, havia parentes, amigos longínquos, talvez de infância, ex-patrões e companheiros de trabalho, atraídos pelas reportagens dos jornais, pelo convite virtual via e-mail (meu Deus, não é o Alexandre, aquele? Que saudades...), e ainda o Guilherme, o Paulinho, o Rodrigo. Quase uma década após nos conhecermos, quem diria, estávamos reunidos para a abertura da exposição do cartunista do nosso jornal universitário. E não é que o Beck pinta telas? Segredo muito bem guardado, inclusive para nós, tão próximos apesar do abismo do dia-a-dia. E ficamos de papo-furado, conversando. Rimos muito quando, olhando a reprodução da matéria do Diário Catarinense sobre o vernissage, o Guilherme reparou que a repórter havia reabilitado a nossa crítica à Unisul, que fazíamos com tanta contundência: "Capenga, o jornal que é a cara da nossa universidade". Brinquei que estava explicado por que Laudelino José Sardá, coordenador do curso de Comunicação à época, não aparecera. Mas eis que o salão se esvazia em meio à conversa, a salgadinhos e refrigerantes: os curiosos, os amigos longínquos, os parentes, os ex-patrões e companheiros de trabalho se vão. Ficamos nós; vamos para um boteco, comemorar a primeira tela vendida, as demais que já estão encaminhadas, o sucesso? Não. A verdade é que é só terça-feira, o ano já está curto, a semana continua longa, e o trabalho urge e cansa. Posamos para a foto histórica e despedimo-nos, mais leves do que quando chegamos e felizes uns pelos outros.

05/11/2007

miniconto

O mundo é mesmo asfixiante De cabeça leve, o sujeito foi almoçar num restaurante em que havia salmão grelhado, feijão à mineira e purê de mandioca no buffet do dia. Serviu-se, sentou-se, e o mundo começou a encolher à sua volta. Porque não pôde ignorar as conversas que o rondavam. Mulheres bem vestidas conversavam sobre um concurso recém-feito. Uma delas lamentava ter ido mal em questões de atualidades. Dizia que devorava livros frívolos, mas que romances de verdade, jornais, revistas, não conseguia. Um homem de paletó e gravata, ao seu lado, tratou de consolá-la. Perorou que ele jamais abrira um volume na vida, não tinha assinatura de nada, e no entanto estavam ali almoçando boa comida. A amiga que os acompanhava emendou que o pecado não era a ignorância, mas o mau desempenho no chutômetro. Além do mais, concluiu, eles conheciam alguém que lia mesmo e dava bola para essas coisas? "Fala sério..." O trio gargalhou, o homem ergueu o copo. E brindaram à felicidade.

30/10/2007

miniconto

O cão enamorado
Deitado nas escadarias da catedral, o vira-lata olhava o movimento com fuça entediada. Não lhe ocorria nada melhor a fazer: estarrado, observava o vaivém no Centro da cidade. Era cedo, oito horas, e o sol espoucava no céu, cegando a visão turva, deficiente do vira-lata. Um pombo desses imundos que andam à Carlitos se aproximou, bicou uma pata do vira-lata, surpreendeu-se com a falta de reação do cão, anestesiado de tédio, e saiu para lá. Então o vira-lata se ergueu, subitamente enérgico, e ficou alerta. As orelhas espetadas, as narinas trêmulas, a postura digna de prêmio. Ficou assim muitos segundos, concentrado, a farejar. Quando apareceu ela, a moça apressada, de saltos altos, elegante, linda mesmo, o vira-lata saltou do degrau da escadaria e se pôs a trotar atrás dela. Abanando o rabo, satisfeito. Havia meses as suas incansáveis narinas sujas farejavam de onde diabos vinha aquele feromônio gostoso, mistura de pimenta e vertigem.

24/10/2007

miniconto

Chego em casa e a casa me engole. Deixo lá fora o que ficou pendente, anuviado, o que negligenciei ou não resolvi direito. Porque é ingenuidade crer que os problemas não estarão à minha espera pela manhã, prontos para rastejarem atrás de mim aonde eu for. Então que aguardem, durmam aí no tapete da porta, me dêem essa noite e essa folga. Amanhã, tão logo o sol me enxote da cama, após um banho quente e um bom café da manhã, eu estarei pronto para mais um dia, e prometo: os tratarei com a indiferença de sempre.

16/10/2007

Esses jornais que nos seduzem...

O melhor momento para ler as folhas dominicais não é nem a tarde de sábado, para aquelas que nascem prematuras, nem o fim da manhã de domingo, para as que vêm à rua na hora adequada. O melhor momento para ler as folhas dominicais é a noite modorrenta de segunda-feira, quando tanto umas como outras já se finaram e não têm mais como assustar a gente...
 
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