30/03/2009
O lead do dia
SHOPPING, CRAFTS
Now All You Need Is Cash
By MELENA RYZIK
Monday, March 30, 2009
Make your own joke about what to put in it, but you can at least feel re-organized with a new wallet, from the budget version — the bright blue $12 mini at Aldo — to the less so, like Orla Kiely’s leaf-print model.
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Do NYT
Apenas crie a revista: a HP imprime e distribui
Mais notícias sobre o mercado jornalístico americano no NYT de hoje. Não é bem sobre o mercado jornalístico, mas tem a ver. A Hewlett-Packard lançou na internet o serviço MagCloud, que disponibiliza revistas criadas por qualquer pessoa que consiga criar uma e vende para quem quiser comprar, ao preço de 20 centavos de dólar por página. A empresa se responsabiliza pela impressão e pelo envio da revista ao comprador, e espera que o MagCloud se torne o "vanity publishing’s equivalent of YouTube". Enquanto isso, o Magazine Death Pool continua registrando o morticínio de revistas comerciais produzidas à moda tradicional, dessas que comrpamos em bancas e saem de dentro de grandes rotativas...
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Do NYT
NYTimes.com ganha versão global
Abri agora a newsletter do The New York Times e estava lá o anúncio do lançamento de uma nova versão do site do jornal: NYT Global Edition. Essa versão é posta no ar em parceria com o International Herald Tribune, empresa que faz parte do "império" do jornal nova-iorquino. Interessante.

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Do NYT
Blog jadices estreia hoje! Viva!
Ontem à noite a Jade deu a última ajeitada no jadices, seu primeiro blog. Já tem lá uma carta ao melhor amigo e um trecho de Suave é a Noite, do Fitzgerald, de quem ela insiste em reler tudo. Vai oferecer "oferendas.lamentos.letrinhas.experiências.pensamentos." e ganhou um exclusivo link direto aqui no 1 Crônica por dia, na barra à direita.
A crônica de hoje, no DC!
Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
O trampolim sorri
Foi-se o verão, eis o outono, mas o sol não cede. Desde as primeiras horas do dia, desde o despertar forçado da gente, o céu já brilha azul, o sol já torra a Ilha. O mormaço se forma aos poucos – liga-se aqui um condicionador de ar, liga-se ali um ventilador –, e ao meio-dia é verão em toda a cidade. Antes de dormir, é preciso repetir o banho, e os desodorantes estão vencidos. Esse princípio de outono está mais para verão disfarçado do que para indício de inverno. É praia e praia. Por quê? Por causa da Praia da Saudade.
Mal o outono começou, a Fatma descobriu que o mar neste ponto de Coqueiros está em condições de banho, depois de décadas de sujeira grossa. Só a Praia das Palmeiras, lá no Itaguaçu, conseguia o carimbo de salubridade no verão. O fato é que a Praia da Saudade voltou a ficar limpa, e eis por que o sol resolveu permanecer aceso a todo vapor por mais um pouco, justificando a descoberta. O pessoal desce o morro, atravessa a Via Expressa, caminha pelo bairro e vem passar o dia na praia, no mesmo local onde a elite florianopolitana (eita palavrinha!) costumava descansar os ossos.
Agora que Jurerê Internacional é o point, que o Riozinho é a nova febre, a molecada da Vila Aparecida elegeu a Praia da Saudade, e se diverte como se divertiam os bacanas. Não há melhor opção ali onde a José do Vale Pereira desemboca na areia do que o trampolim que eu vejo da sacada há três anos.
Semana passada, descobri, conversando com o pessoal do bairro, que o trampolim tem nome e foi “inaugurado” durante uma “solenidade” da prefeitura, há muitos e muitos anos. Mas o nome do dito cujo escapou da memória das minhas fontes, que me sugeriram olhar a placa comemorativa que há no início do trapiche que se enfia pela baía. A preguiça me venceu, e não fui olhar nada. Mas há um homenageado, para orgulho dos familiares, quem sabe, e é o que importa.
Melhor assim. Porque também não sei o nome de quem pula do trampolim, e é quem pula do trampolim que empresta graça a tudo. São uns garotos, umas meninas que não conheço. Nosso contato é unilateral: eu os vejo, eles nem suspeitam de mim. Pelo menos no fim de semana, que é quando tenho tempo de olhar paisagem da sacada. E esteja o sol de pé, estão lá os que pulam do trampolim. Até que o tempo feche, a tarde caia e o vento sul venha lhes empurrar para fora do mar. Mar limpo, verão estendido.
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Crônica do DC
26/03/2009
Livros que gostaria de comprar...
Lançamentos que estão na mira:
A Arte da Vida - Zygmunt Bauman
A Cidade Ilhada - Milton Hatoum
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa - Academia Brasileira de Letras
Primavera Num Espelho Partido - Mario Benedetti
Ética, jornalismo e nova mídia (Uma moral provisória) - Caio Túlio Costa
24/03/2009
Os filmes do feriado...
Dia dos Namorados Macabro (My Bloody Valentine Day 3D, 2009) - Primeira vez que fomos à sala 3D do Cinemark, no Floripa Shopping. É muito, muito legal. O filme, não. Violento ao extremo, gratuitamente violento. É picareta na cabeça de incautos a todo momento. Nada do que eu lembrava do sombrio filme de 1981, que vi quando era pequeno e fiquei, claro, assustadíssimo com o sujeito vestido de mineiro tocando o terror na mina abandonada. Mas valeu pelo 3D. Segundo a Jade, levei todos os sustos previstos no roteiro. De fato, pulei da poltrona muitas vezes. Valeu cada centavo.
Bee Movie - A História de uma Abelha (Bee Movie, 2007) - Animação da Dreamworks feita a partir de uma idéia de Jerry Seinfeld. Engraçadissímo. Conta a história de Barry B. Benson, uma abelha que não quer iniciar sua vida profissional na colmeia antes de conhecer o mundo lá fora, no caso Nova York, e mais de perto o Central Park. Quando enfim consegue sair da colmeia, Barry conhece Vanessa, uma florista, por quem se apaixona. então, a abelha descobre que a humanidade comercializa mel e mantém fazendas de criação de abelhas etc. e resolve processar a humanidade por apropriação indébita e trabalho escravo. Muito bom.
Sexta-feira 13, partes 2, 3 e 4 (Friday the 13th) - Ruins, ruins. Nenhum deles comparável ao original de 1980, no qual há uma boa carga de suspense à moda antiga. Um detalhe: a parte 3 foi lançada em uma versão 3D, em 1982. Foi essa a que assisti, entusiasmado com a sessão no Floripa Shopping. Mas em casa não é a mesma coisa, os óculos (uma "lente" verde e outra vermelha) são fraquinhos. Interessante que os recursos 3D deste filme são os mesmos do Dia dos Namorados Macabro de 2009! Ou seja, no quesito terror, a técnica do 3D ainda é incipiente, resume-se a objetos voando na sua direção.
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Cinema
23/03/2009
Uma narrativa sobre Josef Fritzl, o inominável
Acho que já escrevi aqui no blog que não vejo muito os telejornais, nem fico acompanhando, na internet, a cobertura jornalística do factual, daquilo sobre o que está todo mundo falando. Gosto do jornal, do papel, do texto, e uma hora ou outra sei que o "assunto do momento" vai ganhar uma ou duas páginas de boa reportagem nos jornais. A história de Elisabeth Fritzl, por exemplo. Eu cansei de ler e ouvir notícias a respeito da descoberta do caso, do julgamento de Josef etc., mas, até ontem, não sabia de fato tudo o que acontecera a ela na cidade austríaca de Amstetten. O Estadão traduziu uma reportagem de Kate Connolly, do jornal inglês The Guardian. Ocupa uma longa página inteira do jornal, e é irretocável. O grande texto do fim de semana, daqueles que nos fazem agradecer a existência dos bons jornais.
Da obsessão doentia de Fritzl ao pesadelo sombrio de Elisabeth
Pano embebido em éter foi ponto de partida de tragédia incestuosa; condenação à prisão perpétua, o capítulo final
Kate Connolly
Parecia um pedido inocente: "Você poderia me ajudar a instalar uma porta no batente?" Elisabeth Fritzl seguiu o pai, Josef, nas profundezas do porão que ele levara meses para construir no jardim, debaixo da casa da família, na cidade austríaca de Amstetten.
Era um dia quente de agosto de 1984, o mês em que o cantor Prince lançou seu sucesso Purple Rain, o ônibus espacial Discovery subiu pela primeira vez ao espaço, e o país africano Alto Volta mudou o nome para Burkina-Faso.
Elisabeth desceu as escadas do porão e ajudou a colocar a porta que selaria as poeirentas paredes de sua criação subterrânea. Quando se virou para subir, um pano embebido em éter tampou sua boca e o mundo escureceu. Talvez para sempre.
Foi o início tremendamente cruel de uma história inacreditavelmente cruel. Elisabeth não tinha como saber que estava ajudando o próprio pai a concluir a última fase do plano que ele montara para emparedá-la ali como sua escrava sexual.
Fritzl projetou durante anos o que na realidade era um calabouço e recebeu a autorização da prefeitura para construir seu complicado porão ainda na década de 70. Naquela época, não era difícil obter a aprovação para construções subterrâneas. Era o ápice da Guerra Fria e, afinal, o norte da Áustria encontrava-se na fronteira com a Cortina de Ferro.
Os bunkers contra as bombas atômicas eram considerados um complemento mais normal e necessário numa casa austríaca do que uma estufa ou uma ampliação da cozinha seriam em qualquer país do Ocidente - a Câmara Municipal da cidade concedeu-lhe até uma verba para cobrir parte do custo da construção.
Os vizinhos ficaram observando intrigados quando o engenheiro eletricista contratou uma pessoa para cavar durante meses no terreno da casa localizada na Ybbsstrasse, número 40, da agradável cidadezinha. Eles observaram quando foram retiradas quantidades enormes de terra da parte de baixo da casa para dar espaço aos cômodos que Fritzl pretendia construir.
Planejador cuidadoso, pensou em cada detalhe: encomendou nas empresas de construção para as quais havia trabalhado a compra do material para o concreto e o aço necessários. De início, construiu dois acessos - uma porta pesada munida de dobradiças e outra de metal reforçada com concreto, acionada por controle remoto.
Era preciso abrir ao todo oito portas para chegar ao porão. A última porta antes da escuridão de túmulo do porão foi a que Elisabeth, sem saber, ajudou o pai a instalar.
Continua aqui.
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Do Estadão
O Congresso brasileiro: inclassificável
O Jornal Nacional mostrou agora há pouco que o Senado brasileiro conta até com funcionários "virtuais", que não têm gabinete mas trabalham para os senadores que compõem a mesa diretora. Hoje também, Fernando Henrique Cardoso, veja só, disse, em São Paulo, que o Congresso Nacional "não representa mais nada". Agora, o que me chamou mesmo a atenção para o "problema" foi a reportagem da manchete do Estadão de ontem:
''Clube de amigos'' do Senado faz folha de pagamento crescer 42%
Gasto com pessoal saltou de R$ 2,1 bilhões em 2007 para R$ 3 bilhões neste ano; diretor recebia até R$ 20 mil
Na capa, lê-se que "o ex-diretor-geral Agaciel maia operou uma máquina de multiplicação de cargos. Em 1995, quando ele assumiu, havia 7 secretarias (diretorias) e 16 subsecretarias. Em 14 anos, passaram para 67 secretarias e 104 subsecretarias com status de diretoria - e ninguém sabe quantas elas eram". Havia até uma Diretoria de Apoio Aeroportuário, comandada por Francisco Carlos Melo Farias, cuja tarefa principal, junto com mais seis funcionários, era "facilitar a vida dos senadores, providenciando os embarques, encontrando vagas em voos, conseguindo transferências de última hora. Na prática, ocupavam-se mais dos parentes e amigos dos senadores do que dos próprios parlamentares, que já costumam chegar com tudo pronto para o embarque".
Abaixo, a arte que mostra as últimas do Congresso Nacional, essa instituição inclassificável.
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Do Estadão
A crônica de hoje, no DC!
Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
Dúvidas cabeludas
Andei me sentindo um excluído. Um outsider, alguém que está por fora, um zé ninguém na sociedade, alheio ao que a exultante maioria anda aprontando por aí. Então, tirei um domingo para pensar, refletir demoradamente sobre como haviam sido as últimas semanas, sobre o que diabos, afinal, estava me fazendo sofrer deste sentimento ingrato digno de um pária social. Descobri que nos hábitos cotidianos, na postura diante da vida e do futuro, encontrava-se a origem do meu desconforto. Era preciso mudar.
Na segunda-feira pela manhã, subi num ônibus e desci na frente de uma concessionária. Estava vestido como um desses advogados que almoçam nos restaurantes a quilo do Centro da cidade e sorria como eles – nenhum problema desse mundo me afligia. Fui muito bem recebido. O vendedor perguntou o que eu procurava, e eu respondi que o carro que sorrisse, piscasse, seria meu. O rapaz achou graça e conduziu-me pelo pátio atulhado. Então, me mostrou “uma máquina, preto, lindo, completinho”. Eu puxei o comprovante de renda e resolvi a questão: zero de entrada, tudo parcelado. O vendedor me parabenizou e saí da loja guiando o último modelo.
Após passear sem rumo com meu brinquedinho de pasmar, fui ao shopping. Visitei lojas de grife e comprei cinco camisetas, duas calças, três sapatos, um casaco de couro e um par de chinelas. Preenchi cadastros, respondi a algumas perguntas e saí com os carnês no bolso e numerosas sacolas na mão.
E assim fui pela semana, remodelando meu estilo de vida, reordenando ideias e repensando ideais. Cancelei assinaturas de jornal e revistas, passei a ver novelas e reality shows, ouvir rádio, jantar fora com mais frequência, comprar vinhos e queijos no empório perto de casa, planejar viagens a Miami e a Orlando, estudar inglês e informática. Revi, também, minhas amizades – afinal, quem são meus amigos de verdade? Alterei o endereço de e-mail, mudei de operadora e o número do meu telefone.
Porém, o efeito foi breve. Dali a um mês, depois de uma passageira sensação de vida resolvida, a insegurança voltou. Que fiz? Vendi meus livros. Chamei o dono de um sebo, ele olhou tudo, fez anotações, contabilizou título e autores e pediu um dia para pensar. Na manhã seguinte, ofereceu-me uma bolada e carregou toda a minha biblioteca. Ah, sinto-me bem melhor. Dedetizei a minha casa das dúvidas cabeludas.
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Crônica do DC
20/03/2009
Transleitor mandando ver!
Indiquei aqui semana passada o blog Transleitor, do jornalista amigo Diego Fontoura. Desde então, ele tem traduzido uns textos muito legais para nós, preguiçosos de ler no inglês original. Olha o que li de bom lá:
"Quem matou o filme de terror?" - Babás não são mais presas fáceis. Agora em filmes como a nova versão de Aniversário Macabro, são os matadores em série que estão sendo massacrados. Michael Myers e Jason Voorhees lamentam a morte brutal do filme de terror. Por Tom Shone. Publicado no The Daily Beast, edição de 13/03.
"Esse jornalista é um oferecimento de..." - O pânico vem pela manhã. Enquanto eu sento em minha mesa e tomo um copo de suco de romã da Pom Wonderful, eu começo a me preocupar com a minha carreira. Eu posso até ser o melhor jornalista do mundo, mas se não restam mais jornais para eu "jornalisticar", eu terei que usar meus talentos para a comunicação de outras maneiras, como para pedir dinheiro a meus pais. Por Joel Stein. Publicado na Time de 23/03.
"Contemplando a nova 'fisicalidade' do Cinema" - Lamentando a morte da maneira fétida e humana com que costumávamos interagir com os filmes. Por C.S. Leigh. Publicado na The Believer, edição de Março/Abril.
"O Bibliotecário da internet" - Brewster Kahle quer criar uma coleção online gratuita de conhecimento humano. Tarefa que soa idealista e impossível - mas ele está fazendo progresso. Publicado na The Economist de 05/03.
(A mesma matéria saiu na CartaCapital desta semana, dentro do caderno Technology Quarterly da revista inglesa, encartado em português na brasileira.)
O morticínio de revistas nos EUA
Descobri o Magazine Death Pool no Digestivo Cultural, fui lá espiar e contei nos dedos: 27 revistas americanas desapareceram desde janeiro. No primeiro mês do ano, sete magazines sumiram das bancas. Em fevereiro, 14. E março já registra seis fechamentos. O "slogan" do site é mais que adequado:
Who will be the next?
Há ainda uma seção chamada Museum of Dead Magazines. É abrir e sair olhando os defuntos do mercado editorial...
ps. meu percurso foi uma visita ao +D1, que me levou ao Vida de Frila, que me convenceu a ir ao As Últimas, onde abri a tag Literatura, de onde pulei pro Digestivo Cultural.
17/03/2009
"Aí vindes outra vez, inquietas sombras"
Cena da microssérie Capitu - Bentinho e Capitolina ao portão da casa dela.
"Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.
Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas e salas. Na principal destas, a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos, já ela estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa.
Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior, é outra cousa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.
Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História dos Subúrbios menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?...
Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do espírito. É o que vais entender, lendo."
(Segundo capítulo de Dom Casmurro, irretocável obra-prima.)
16/03/2009
Evo Morales e a folha de coca
Artigo de Evo Morales, publicado na edição de sexta-feira do New York Times, pedindo o fim de uma lei da ONU que, em 1961, equiparou a folha de coca à cocaína e deu um prazo de 25 anos para que a prática de mascar a planta fosse abolido! A Bolívia assinou a convenção em 1976. Portanto, desde 2001 todos os mascadores de coca em terras bolivianas são criminosos internacionais...
Let Me Chew My Coca Leaves
By EVO MORALES AYMA
THIS week in Vienna, a meeting of the United Nations Commission on Narcotic Drugs took place that will help shape international antidrug efforts for the next 10 years. I attended the meeting to reaffirm Bolivia’s commitment to this struggle but also to call for the reversal of a mistake made 48 years ago.
In 1961, the United Nations Single Convention on Narcotic Drugs placed the coca leaf in the same category with cocaine — thus promoting the false notion that the coca leaf is a narcotic — and ordered that “coca leaf chewing must be abolished within 25 years from the coming into force of this convention.” Bolivia signed the convention in 1976, during the brutal dictatorship of Col. Hugo Banzer, and the 25-year deadline expired in 2001.
So for the past eight years, the millions of us who maintain the traditional practice of chewing coca have been, according to the convention, criminals who violate international law. This is an unacceptable and absurd state of affairs for Bolivians and other Andean peoples.
Continua aqui.
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Do NYT
A crônica de hoje, no DC!
Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
Do boteco
Quem compreende os mecanismos da boemia há sempre de saber se o prato que chega à mesa ficou muito tempo em cima do balcão à espera do garçom, esfriando, ignorado. Quem é afeito à vida nos bares não pode deixar de reconhecer os bebedores de primeira viagem, porque estes costumam olhar o cardápio durante algum tempo e pedir drinques de nomes esdrúxulos que não o bom chope ou a boa cerveja. Quem gosta de bate-papo em mesa de bar percebe rápido quando alguém está “aumentando” ao contar uma história, e compreende e entende e até perdoa secretamente os companheiros quando volta do banheiro e dá com o silêncio constrangido e instituído às pressas – seria o assunto de que falavam proibido ao colega apurado? Um verdadeiro botequeiro conhece uma moça pela boca. Um frequentador contumaz de botequins descobre logo que chega ao bar se a noite será boa, se as mesas estarão floridas, se o atendimento será digno, se o cozinheiro está num bom dia só pelo jeito com que os garçons o recebem e se olham e cochicham entre si. E não hesita sobre qual mesa escolher para sentar-se com os amigos e as amigas – que esteja longe de caixas de som e de cantores empunhando um violão, longe das portas dos banheiros, longe da entrada ou da saída do bar, longe do alcance de condicionadores de ar e pás de ventiladores. Quem é boêmio desse jeito consegue balancear a sua vida habitualmente dissipada: um dia vai ao botequim de categoria onde as mulheres estão sempre por ali para animar o ambiente e a comida é gostosa como em nenhum outro lugar, um dia visita o pé-sujo para comer calabresa na chapa e entornar cerveja barata entre velhos entortados pelo vício, mas sempre volta ao seu bar predileto, que costuma combinar os dois estilos com a conveniência de aceitar cartão de crédito e de débito. Um noctívago dos botecos da cidade já sacou que garçom competente é garçom senhor, de cabelos brancos, com filhos para educar e mulher para mimar, e não os jovens indolentes que trabalham como se prestassem favores noturnos a uma clientela que eles não cumprimentariam de dia. Quem gosta mesmo da coisa tem o hábito de visitar botequins em toda cidade que visita a passeio, faz uma lista dos seus preferidos, dá notas, emite conceitos e compra guias especializados. Ah, e um verdadeiro botequeiro conhece uma moça pela boca porque o bar é o lugar, por excelência, da conversa ligeira, claro.
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Crônica do DC
O filme do fim de semana
Veludo Azul (Blue Velvet, 1986) - Estava lendo o muito bom A tarde da sua ausência, de Carlos Heitor Cony, quando lembrei que o meu amigo Paulo Evangelista me emprestara o DVD do famoso e festejado filme de David Linch. Chamei a Jade, que já o assistira duas vezes há muitos anos, e lá fomos, eu cheio de expectativas. Tsc tsc tsc. Pobre de mim que não enxergo bem. Isabella Rossellini está feia - a filha de Ingrid Bergman está feia! É demais. Nem da música eu gostei. Numa palavra, freak. Vou rever Mulholland Dr. (2001) para recuperar a fé no homem.
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Cinema
13/03/2009
Sobre cachorros e lobos
Pesquei a dica no Desculpe a poeira, excelente blog do jornalista Ricardo Lombardi. O blog The Big Picture, que tem um grande acervo fotográfico, acaba de publicar uma série sobre a corrida de cães com trenós no Alasca. Bem Jack London, hein? Um exemplo é a foto abaixo. O resto você vê aqui.
(REUTERS/Heinz-Peter Bader)
Por falar em cachorros, comprei a nova edição da Super Interessante. A matéria de capa é sobre os cães domésticos: "São nossos filhos? São lobos bem-comportados? São aberrações genéticas? Veja o que fez dos cachorros os nossos melhores amigos". A reportagem traz informações curiosas, como as modificações genéticas que a domesticação provocou em algumas raças como buldogue, o salsicha e o puig. Mas o que mais me chamou a atenção foi um boxe sobre as heranças genéticas que os cachorros ainda preservam dos lobos selvagens:
- Quando seu cão vem lamber-lhe a boca, ou "beijá-lo", é porque ele está esperando que você regurgite comida para ele comer, como fazem os lobos.
- É o instinto de caçador dos ancestrais que faz com que os cães adorem correr atrás de bola, frisbee etc. e trazer de volta para você.
Uma pena que a reportagem não esteja disponível no site da revista.
(REUTERS/Heinz-Peter Bader)
Por falar em cachorros, comprei a nova edição da Super Interessante. A matéria de capa é sobre os cães domésticos: "São nossos filhos? São lobos bem-comportados? São aberrações genéticas? Veja o que fez dos cachorros os nossos melhores amigos". A reportagem traz informações curiosas, como as modificações genéticas que a domesticação provocou em algumas raças como buldogue, o salsicha e o puig. Mas o que mais me chamou a atenção foi um boxe sobre as heranças genéticas que os cachorros ainda preservam dos lobos selvagens:
- Quando seu cão vem lamber-lhe a boca, ou "beijá-lo", é porque ele está esperando que você regurgite comida para ele comer, como fazem os lobos.
- É o instinto de caçador dos ancestrais que faz com que os cães adorem correr atrás de bola, frisbee etc. e trazer de volta para você.
Uma pena que a reportagem não esteja disponível no site da revista.
12/03/2009
Um vídeo de Woody Allen: Bananas (1971)
De Bananas, filme antigo, recentemente lançado em DVD no Brasil. É paulada à direita e à esquerda, muito divertido. A cena abaixo mostra um dos líderes revolucionários de San Marcos, ilhota no Caribe, chegando em visita diplomática aos EUA.
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Cinema
Trechos, excertos, parágrafos de arte
"Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."
NELSON RODRIGUES
“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: 'Não há mais que ver', sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir. E para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.”
JOSÉ SARAMAGO
"Às vezes, me sinto muito só. Sem ontem e sem amanhã. Não adianta que haja pessoas em volta de mim. Mesmo as mais queridas. Só se está só ou acompanhado, dentro de si mesmo. Estou muito só hoje. Duas ou três lembranças que me fizeram companhia, desde segunda-feira, eu já gastei. Não creio que, amanhã, aconteça alguma coisa de melhor."
ANTÔNIO MARIA
"A meu avô Cesário devo este horror pelos cães, o pescoço musculoso, o riso acima de minhas posses, o pressentimento de uma velhice turbulenta. (...) A minha avó Margarida, a maneira leve de pisar e fechar portas. A Minas Gerais, a minha sede, o jeito oblíquo e contraditório, os movimentos de bondade (todos), o hábito de andanças pela noite escura (da alma, naturalmente), a procrastinação interminável, como um negócio de cavalos à porta de uma venda."
PAULO MENDES CAMPOS
"Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem para não me deixar entrar, ele ficará indeciso quando eu lhe disser em voz baixa: 'Eu sou lá de Cachoeiro...'."
RUBEM BRAGA
"Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher. Isso exige às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença."
OTTO LARA RESENDE
ps. trechos retirados do Releituras, com exceção de Saramago.
11/03/2009
De volta às aulas: eu vou, eu vou...
No dia seguinte à banca de avaliação da minha monografia de conclusão do curso de Especialização no Jornalismo da UFSC, em março, acho, de 2005, disse à Jade: "Chega de academia! Só volto daqui muitos anos". Primeiro porque ainda estava decepcionado com minha atuação na banca - imagine que eu não entregara a conclusão nas cópias dos trabalhos dos professores convidados, apenas para a minha orientadora Regina Carvalho! - e segundo porque foi duro ter de ir às aulas à noite depois de passar o dia no clicRBS.
Mas, veja só, repetirei a empreitada, quatro anos depois! Ontem me vi comprando "material escolar" e arrumando a mochila para o meu primeiro dia de aula no curso de Mestrado em Literatura Brasileira na UFSC. Alguns amigos já sabiam da minha aprovação no processo de seleção, ocorrido no fim do ano passado e que quase me custou um coração sadio - a prova de proficiência, em inglês, foi tão difícil que eu tinha certeza de que rodara, até ver meu nome na lista final dos selecionados. Mas só hoje anuncio no blog, porque hoje começam as aulas.
Pois é. A partir de hoje, então, um dia muito especial, torno-me mais um mestrando nessa vida, com uma dissertação para apresentar daqui dois anos. Vou estudar a "formação" da crônica no Brasil, como espaço de fazer literário nos jornais e fonte de pesquisa que ajuda a recontar a história do país, com foco em Machado de Assis e Rubem Braga - tema que pesquiso desde a graduação, com trabalho orientado por Mário Pereira, e depois pela Regininha na pós. Meu orientador dessa vez será o professor João Hernesto Weber, que sabe tudo de Machadão.
(Aqui, você lê a entrevista que a jornalista Raquel Wandelli fez com Weber sobre o centenário de morte do autor de Dom Casmurro, publicada na edição 68 do jornal O Catarina, da Fundação Catarinense de Cultura. Aqui, o currículo Lattes de Weber.)
Então é isso. Como a minha amiga Rafa, lá do Cenas do Rio, que acaba de ser aprovada num curso de Mestrado, lá vou eu hoje à noite para o primeiro dia de aula. Serão duas disciplinas por semestre, dois dias por semana:
Leituras Críticas
A dialética de Saturno, a melancolia e o fragmentário: Machado de Assis e Clarice Lispector
Profa. Dra. Ana Luiza de Andrade
As (Re)construções do Espaço Nacional
Escrita-viagem. Uma poética da navegação.
Prof. Dr. Stélio Furlan
Não vai ser fácil, mas também não será impossível.
Então, simbora pra aula!
09/03/2009
Vendo a Islândia ruir
Só agora à noite li a reportagem de João Moreira Salles sobre a débâcle de um país rico e próspero: a Islândia. No dia 6 de outubro de 2008, o primeiro-ministro Geir Haarde foi para a TV anunciar a ruína do país que na década de 90 se fez um dos mais ricos do mundo. Quarenta e oito horas depois, o primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown, classificou a Islândia de país terrorista e a enquadrou numa lei antiterror promulgada depois do 11 de setembro. Moreira Salles chegou à Islândia em novembro. O que ele descreve é inacreditável. Abaixo, acho que a melhor cena da reportagem. Leia e imagine se algo parecido seria factível no Brasil...
(...)
Em Reykjavík só se fala do encontro que haverá à noite, no cinema da Universidade da Islândia. Um grupo de cidadãos convocara o governo a dar explicações. No palco, doze cadeiras, uma para cada ministro, e diante de cada uma, em letras garrafais, o nome do titular da pasta. Quem não comparecer se fará presente por sua ausência, pela força de uma cadeira vazia, de um nome. As pessoas discursarão diante dessas ausências.
Ninguém acredita que o governo compareça. Às 20 horas, não há um só lugar vazio no auditório para 1 800 pessoas. Há gente sentada nas escadas, rente às paredes, ao pé do palco. Do lado de fora, no foyer, diante de telões, outras mil se espremem para testemunhar esse lance teatral.
Espantosamente, um a um, os ministros surgem pela lateral do palco. Atordoados, sob vaias, caminham em direção às cadeiras e buscam seus nomes. Apenas quatro permanecem vazias. A que mais se destaca, a de Oddsson, exibe um DAVÍD imenso, em letras gordas e pretas. Até mesmo o primeiro-ministro Geir Haarde aparece. Seu lugar é ao lado de Oddsson, e durante as horas de agonia ele se apoiará várias vezes no espaldar da cadeira do político do qual não passa de uma sombra.
Era a primeira vez, desde o início da crise, que o governo se dispunha a dar alguma satisfação à sociedade. Fechara-se em si mesmo desde outubro, desconsiderara os protestos. Não dera entrevistas - e agora comparecia a uma audiência pública que seria transmitida ao vivo pela televisão. A estratégia das cadeiras vazias parecia ter surtido efeito.
Um jornalista comenta que o incidente na delegacia os obrigou a vir; só ali teriam percebido a gravidade da situação. Outros dizem ainda que já se decidira, caso eles não aparecessem, que os manifestantes se dividiriam em grupos para ir à casa de cada um deles. Não havia escapatória.
Ao contrário do esperado, a palavra não é dada imediatamente aos ministros. Um mestre-de-cerimônias toma o microfone, vira-se para os oito e diz: "Hoje vocês terão de ser honestos. E terão de responder com suas próprias palavras, não com discursos preparados por homens de marketing." Irônico, faz gracejos e a platéia se põe a rir. Logo fica evidente que não se trata de uma sessão de esclarecimentos, mas de humilhação pública. Orador após orador sobe ao palco para ler discursos preparados de antemão. Um professor de economia exige a demissão sumária dos membros de conselho dos bancos (apenas os presidentes-executivos haviam perdido o emprego), proposta recebida com palmas e bravos.
Haarde assiste a tudo com a cabeça enterrada nos ombros, olhos pregados na platéia, desafiador. É traído em seu nervosismo pelo pé que não cessa de tamborilar. Um empresário declara que "o sistema político deve ser purgado, o que só acontecerá com novas eleições". Pede, explicitamente, a renúncia do governo. É ovacionado de pé. Polidamente, até o primeiro-ministro bate palmas. Uma cientista política declara que a Islândia será doravante conhecida por três palavras: saga, gêiser e kreppa. E acrescenta, referindo-se diretamente aos oitos homens sentados a um metro de distância: "Se vocês não admitirem que os protestos são legítimos e não dialogarem com os manifestantes, poderá haver distúrbios e violência na Islândia." Não são jovens que confrontam o governo, mas acadêmicos, profissionais liberais, empresários, homens de terno e gravata, mulheres de tailleur. Uma jovem desempregada toma o microfone e, com fúria indisfarçável, vira-se para o primeiro-ministro e ordena: "Geir, renuncie!"
Noventa minutos depois de iniciada a sessão, os oito ministros ainda permanecem mudos, alguns de olhos no chão. Finalmente alguém entregará o microfone a Haarde para que ele responda: "Por que vocês não renunciam?" O primeiro-ministro explica que o momento é grave demais. Há uma operação de salvamento em curso, negociações complexas com o Reino Unido e o FMI, e uma eleição significaria uma ruptura desse processo. A ministra das Relações Exteriores se manifesta: "Talvez vocês que estão aqui não representem a maioria do povo islandês." É a maior vaia da noite. No dia seguinte, o líder da oposição dirá que apenas a ministra da Educação teve a decência de se desculpar pela tragédia.
A esquizofrenia política era evidente. O primeiro-ministro batia palmas para a demissão de si próprio. A ministra que desafiou o público havia declarado, dias antes, que se não estivesse no governo também iria para a rua protestar. O ministro do Comércio pediu a demissão de Oddsson. E o FMI, chamado às pressas, se apresentou para salvar um país que até então seguira a mais ortodoxa política de liberalização econômica.
Às dez em ponto a sessão foi encerrada.
(...)
Leia tudo aqui (agora precisa de cadastro, gratuito).
Estadão dá banho de jornalismo
2009 é o ano em que se celebra a memória do jornalista e escritor Euclides da Cunha, morto há 100 anos, e o Estadão deu início ontem à retomada e à revisão (no bom sentido) da obra euclidiana. A última página do primeiro caderno da edição dominical trouxe matéria apresentando o projeto multimídia O Ano de Euclides. Trata-se de uma ambiciosa grande reportagem que vai mobilizar o jornal, o portal do Grupo Estado e a Rádio Eldorado até o fim do ano.
Daniel Piza e o fotógrafo Tiago Queiroz já estão dentro de um barco, numa viagem que durará entre 10 e 12 dias entre Sena Madureira (AC) até a região do Alto Purus, em território peruano. Eles vão refazer, assim, a expedição que Euclides empreendeu entre abril e outubro de 1905. Reportagens diárias no jornal, no portal e na rádio mostrarão no que a região está diferente de quando Euclides a desbravou há mais de um século. Detalhe: os jornalistas estão embarcados com participantes do Projeto Cidadão, que durante o percurso expedirão documentos - RG, certidão de batismo e casamento etc. - a ribeirinhos e moradores de aldeias e seringais.
E vou repetir aqui a pergunta que a jornalista, professora e minha amiga carioca Rosane Porto fazia aos seus alunos de história do jornalismo: "E aí, caceta, alguém sabe me dizer quem foi Dilermando de Assis?". E ante o silêncio geral, tascava: "Vocês não sabem nada mesmo, hein?". Hahahaha. Descubra aqui.
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Do Estadão
A crônica no DC de hoje!
Página 7 do caderno de Variedades do Diário Catarinense.
No banco
Ir ao banco já não é chato. Até um mês atrás, eu ia, entrava na fila, esperava um bocado e me aborrecia com uma funcionária esforçada que tentava me convencer a trocar a fila dos caixas de carne e osso pela fila dos caixas eletrônicos. Me dei mal em todas as vezes que acatei a sugestão. Muita gente usa caixas eletrônicos, e em algumas ocasiões fiquei mais tempo nesta fila do que na fila da senha. E quando você é convencido, desce as escadas, chega ao hall de entrada e descobre que apenas um ou dois dos seis ou sete caixas eletrônicos estão funcionando?
Um dia, cheguei com a mochila que uso diariamente para trabalhar. Peguei a senha, cuspida por uma máquina simplória, e sentei-me numa cadeira, até confortável. Quando o sinal sonoro da senha tocou no painel, descobri que estava a 20 números de pagar o cartão de crédito e outros boletos de pagamento indispensável para o meu bom nome na praça e o meu mínimo conforto em casa. Após assistir a uma matéria sobre economia na televisão, checar o e-mail no celular e ver aproximar-se a funcionária do banco, lembrei que tinha um Paulo Mendes Campos na mochila. Puxei o livro e comecei a ler.
Alguns minutos depois – eu com um olho na crônica, outro no painel –, a funcionária esforçada se aproximou. Sem o mínimo tato, mandou ver.
– Posso ver a sua conta?
E eu, sem a mínima paciência:
– Não, não pode.
E voltei à leitura. Eu conhecia a lengalenga. Se eu desse atenção, ela repetiria o discurso decorado de que para contas do próprio banco eu posso fugir das filas, que aborrecem a todos, e me dirigir aos caixas eletrônicos, fáceis de usar e em bastante quantidade no hall de entrada. Dessa vez, a moça respondeu um OK e foi incomodar o próximo.
Desde esse dia, eu já chego com o livro, ou a revista, ou o jornal na mão. Pego a senha, sento-me e leio. A moça passa longe. E lamento quando há pouca gente na fila.
* * *
PS. E não é que até os políticos elegem o Collor?
PS2. Vida a longa a Silveira de Souza, o primeiro entrevistado da série de conversas com escritores brasileiros inaugurada sábado no DC Cultura.
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Crônica do DC
Para adicionar aos favoritos: Transleitor
Quem passeia por aqui sempre ou de vez em quando sabe que costumo linkar muitos textos em inglês, pinçados de sites de jornais e revistas estrangeiros. Não tenho nem o conhecimento nem a paciência para tentar traduzi-los para os leitores do blog. Na faculdade, eu costumava traduzir, ainda que não de todo corretamente, os artigos de Eduardo Galeano publicados no jornal mexicano La Jornada e no jornal argentino Página 12 e enviar para os amigos, mas porque são escritos em espanhol e eu tinha bastante tempo.
Aí entra o recém-criado Transleitor. O autor do blog, o jornalista - "pipoqueiro, editor, pesquisador, vendedor de sapatos, coordenador vistual, comentarista de tapete vermelho..." - Diego Fontoura, velho amigo da Jade com quem estou fazendo boa amizade agora, se propôs a traduzir do inglês textos atuais das revistas e dos jornais americanos - leia-se The New Yorker, The New York Times, Esquired e sabe-se lá que outras ele conheceu e lia durante os seis anos em que morou lá.
Para estrear o blog, ele escolheu a crítica do filme Watchmen, escrita por Anthony Lane para a New Yorker dessa semana. Pois é, carne fresca. Abaixo, o lead.
Visite e adicione nos favoritos. Diego garante que vai tentar traduzir um texto por dia.
Boa leitura!
Watchmen, por Anthony Lane
O mundo da grafic novel é um mundo curioso. Para cada obra-prima, como "Persepolis" e "Maus", parece haver estantes repletas de falsa mitologia e distopias chuvosas, patrulhadas por heróis de mandíbulas rochosas e suas parceiras com seios em formato de melão. Os fãs são "massonicamente" leais, e sempre dispostos a defendê-las com um ardor que nem mesmo os apreciadores de Wagner se equipariam. Um lorde do gênero é um inglês peludo e emburrado chamado Alan Moore, o co-autor de "The League of Extraordinary Gentlemen" e "V for Vendetta". Ambos viraram filmes; o primeiro foi apenas um extraordinário desperdício de dinheiro, tempo e talento, enquanto o segundo conseguiu ser menos agradável do que tropeçar sobre arame farpado e cair de cara num plantação de urtica. Em cada um dos casos, o choro dos leitores foi devido ao afastamento traiçoeiro da obra original; Moore acabou se distanciando de ambas as produções, e agora mais uma vez com a nova adaptação de "Watchmen". O filme foi escrito por David Hayter e Alex Tse, e dirijido por Zack Snyder, mas em lugar nenhum se vê o nome de Moore.
Continua aqui.
Silveira de Souza no DC Cultura
Faltou apenas uma pergunta sobre crônica, o gênero "menor", do meu amigo Dorva Rezende na excelente entrevista que ele e Fábio Brüggemann fizeram com o escritor Silveira de Souza, publicada sábado no caderno DC Cultura, do Diário Catarinense. Afinal, Souza foi cronista do DC durante um ano e é autor de pequenas obras-primas do gênero (leia Os pequenos desencontros, por exemplo). A entrevista abre um série (muito bem-vinda) de bate-papos com escritores catarinenses e ocupa as quatro páginas do caderno. Abaixo, um trecho da entrevista e o link para ler tudo.
Silveira – A nossa literatura, a do século 20, vamos dizer assim, é uma literatura toda voltada ao linguístico, para a sua própria feitura. A história, o argumento, o plot, começou a perder a sua força de informação, que havia antigamente. Por exemplo, os romances do Dickens mudavam as leis; Oliver Twist mudou a forma como se cuidava e se dava proteção às crianças abandonadas na Inglaterra vitoriana. A literatura tinha aquela aura de informação social, muito importante, por isso que tinha aquele apelo popular maior. Também a ciência, não a partir de Galileu, mas a partir do século 18, começou a ganhar um terreno maior de informação sobre o universo e as coisas do universo, não só do macrocosmo, mas também do micro e do cosmos em si, nas suas várias disciplinas científicas.
Continua aqui.
08/03/2009
Os filmes do domingo
O operário (The Machinist, 2004) - Com Christian Bale e Jennifer Jason Leigh, o filme é um suspense psicológico parecido com um estudo do diretor Brad Anderson sobre Hitchcock: as perseguições de carro e alucinações de Vertigo, a banheira de Psicose, a música e os efeitos sonoros à Bernard Herrmann. Foi minha opinião quando acabou o filme, e uma busca "The Machinist" + Hitchcock no Google não deixou dúvidas. Agora, será que a magreza de Bale é real, resultado de uma dieta quase suicida, ou efeito especial?
Não estou lá (I'm Not There, 2007) - Com Cate Blanchett, Christian Bale (coincidência!), Richard Gere e o finado Heath Ledger, é a cinebiografia de Bob Dylan. Gostei bastante do filme dirigido por Todd Haynes, apesar de não conhecer mais que duas ou três músicas de Dylan, e ignorar completamente a sua biografia. (Aliás 1: deu vontade de ler Dylan, de Howard Sounes, editado pela Conrad, que está na estante aqui de casa. Aliás 2: esta biografia está num lista do jornal inglês The Independent como uma das 10 melhores "rock biographies" de todos os tempos.) A atuação de Blanchett é fora do comum. Que atriz.
Não estou lá (I'm Not There, 2007) - Com Cate Blanchett, Christian Bale (coincidência!), Richard Gere e o finado Heath Ledger, é a cinebiografia de Bob Dylan. Gostei bastante do filme dirigido por Todd Haynes, apesar de não conhecer mais que duas ou três músicas de Dylan, e ignorar completamente a sua biografia. (Aliás 1: deu vontade de ler Dylan, de Howard Sounes, editado pela Conrad, que está na estante aqui de casa. Aliás 2: esta biografia está num lista do jornal inglês The Independent como uma das 10 melhores "rock biographies" de todos os tempos.) A atuação de Blanchett é fora do comum. Que atriz.
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Cinema
05/03/2009
David Foster Wallace e o último romance
A New Yorker do fim de semana trará uma matéria sobre o escritor David Foster Wallace, sua depressão de duas décadas e o romance The Pale King, que escrevia quando cometeu suicídio no dia 12 de setembro do ano passado. O texto, assinado pelo jornalista e ensaísta D. T. Max - autor, descubro agora, de uma das mais impressionantes reportagens que a piauí já publicou, retirada do livro The Family That Couldn't Sleep: A Medical Mystery. Max escreve muito bem e é rigoroso com as informações e os detalhes. Abaixo, a abertura da matéria sobre Foster Wallace:
Life and Letters
The Unfinished
David Foster Wallace’s struggle to surpass “Infinite Jest.”
by D. T. Max
The writer David Foster Wallace committed suicide on September 12th of last year. His wife, Karen Green, came home to find that he had hanged himself on the patio of their house, in Claremont, California. For many months, Wallace had been in a deep depression. The condition had first been diagnosed when he was an undergraduate at Amherst College, in the early eighties; ever since, he had taken medication to manage its symptoms. During this time, he produced two long novels, three collections of short stories, two books of essays and reporting, and “Everything and More,” a history of infinity. Depression often figured in his work. In “The Depressed Person,” a short story about an unhappy narcissistic young woman—included in Wallace’s 1999 collection, “Brief Interviews with Hideous Men”—he wrote, “Paxil, Zoloft, Prozac, Tofranil, Wellbutrin, Elavil, Metrazol in combination with unilateral ECT (during a two-week voluntary in-patient course of treatment at a regional Mood Disorders clinic), Parnate both with and without lithium salts, Nardil both with and without Xanax. None had delivered any significant relief from the pain and feelings of emotional isolation that rendered the depressed person’s every waking hour an indescribable hell on earth.” He never published a word about his own mental illness.
Continua aqui.
Descobri o texto acima, na verdade, navegando no site da NY Magazine. Na capa de hoje há a seguinte chamada:
O texto de Sam Anderson começa assim:
Wrestling With the Mini-Biography of David Foster Wallace
I'm feeling, predictably, of two minds about The New Yorker’s epic 12,000-word article about the life and death of David Foster Wallace.
On one hand, I have gratitude and admiration for its author, D.T. Max. This is a heroic feat of research and synthesis — a bracingly adult, rational, honest, patient treatment of a subject many of us are still borderline hysterical about. It's as solidly intelligent a piece of literary detective work as you could ever hope for, and it will likely be our best one-stop clearinghouse for DFW information until someone eventually writes the full-length biography. (A project Max already seems to have a pretty serious head start on, if he’s interested.)
Continua aqui.
***
ps. conheci DFW no fim do ano passado, já depois de seu suicídio, via piauí - um dos artigos de que mais gostei até hoje na revista, aqui.
04/03/2009
Sai As Benevolentes nos EUA, e a crítica racha
Parece estranho, mas o livro As Benevolentes, de Jonathan Littell, que ganhei de aniversário em 2007, editado pela Alfaguara, só começou a ser vendido nos EUA na terça-feira passada. É o que informa matéria do New York Times, que aborda a apaixonada recepção crítica do livro do americano que vive na Espanha e escreve em francês, vencedor do prêmio Goncourt. Para uns, obra-prima de gênio; para outros, "willfully sensationalistic and deliberately repellent”. E assim no mundo inteiro. Não lembro como a crítica analisou o livro aqui no Brasil. Li o primeiro capítulo na tela do computador, no site da editora, ainda em 2007, o que me fez pedir entusiasticamente o livro de aniversário, mas ainda não encarei o romance de quase 1000 páginas que descansa em uma estante. A minha impressão é de que "As Benevolentes" tem toda a pinta de obra-prima mesmo. É muitíssimo bem-escrito. Arrisque-se aqui.
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Do NYT
03/03/2009
Os leitores do futuro...
Incrível a matéria de manchete do Diário Catarinense de ontem:
O X DA EDUCAÇÃO
Sinal de alerta no ensino catarinense
Mais da metade dos municípios catarinenses não atingiu a meta de aprendizado mínimo em português, entre os alunos da 4a série do ensino fundamental, na Prova Brasil. O teste foi desenvolvido pelo Ministério da Educação, e aplicado em 2007 a alunos das redes pública e privada.
A meta, estabelecida pela ONG Todos pela Educação, tomou por base os resultados do teste de 2005. A partir dos números, os índices futuros foram previstos com um acréscimo gradual, projetando que, até 2022, todas as cidades alcancem 70% de alunos com conhecimento mínimo de matemática e língua portuguesa.
Participaram da avaliação 77.912 alunos catarinenses de 4ª série e 61.890 de 8ª. Os resultados de 2007 mostram que 53,3% dos municípios catarinenses que participaram do teste não alcançaram o índice esperado de aprendizado entre os alunos da 4ª série em português. O percentual dos municípios cujos alunos da 8a série não chegaram ao conhecimento mínimo na mesma disciplina foi de 31,8%.
Continua aqui.
UPDATE: editorial do DC sobre assunto, aqui.
02/03/2009
Os filmes do fim de semana
- Slumdog Millionaire (Quem quer ser um milionário?) - os 2/3 iniciais do filme são excelentes, de primeira; a parte final, não. Começa poderoso, termina mamão com açúcar (ainda que de maneira coerente: os 3 mosqueteiros, um por todos e todos por um etc.).
- Freddy vs. Jason - uma idéia muito boa atirada no lixo (considere o contexto da série, ok? Por falar nisso, espie a série 12 Days of Friday, do Rotten Tomatoes. Para quem curte, é demais!).
- Rumble Fish (O selvagem da motocicleta) - Mickey Rourke rules!
- Rachel Getting Married (Raquel vai casar) - Anne Hathaway está bem mesmo. O filme se parece a Festen (Festa em família) - acho que li isso em algum lugar - e tem um trilha duca.
Abaixo, trailers de Rachel e Slumdog:
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Cinema
As crônicas do DC...
Porque na semana passada foi Carnaval, e o blog ficou ainda mais às moscas, segue a atualização das duas últimas crônicas publicadas na página 7 do caderno Variedades, do Diário Catarinense.
2/3/09
A Zona Sul de Floripa
Toda cidade precisa ter uma Zona Sul. É por isso que se deve visitar a capital do estado do Rio de Janeiro. Pelo menos, a cada seis meses. Claro que o visitante expõe-se ao risco de bala perdida, à ameaça da guerra civil – que, aos poucos, trucida e humilha a cidade – e aos outros tantos males que o Jornal Nacional não deixa de denunciar toda noite. Mas o importante, o fundamental, é embriagar-se de Zona Sul. Certa vez, disseram-me o seguinte:
– Você não imagina o que é morar em Ipanema e trabalhar no Leblon, ou no Jardim Botânico. Essa é a melhor rotina que alguém pode manter nesse mundo.
E eu fiquei cabisbaixo, nostálgico dessa vida que não levei, e talvez jamais experimente.
Do Flamengo à Gávea, o Rio é habitado por milhares de Marcelinho Zona Sul, aquele personagem do Stepan Nercessian dirigido pelo Xavier de Oliveira. Os bares, as lojas, os prédios, os casarões, as calçadas, os horizontes, os morros, as praias, a gente – quase tudo na Zona Sul conforta o carioca e o faz mais feliz.
(E a Urca? Não sei por que puxo o assunto. É que o irmão de um amigo meu, natural das Gerais, a nossa impagável Potosí brasileira, mora na Urca, vive na Urca, dorme na Urca, patrocinado pela mãe. Cursa uma faculdade de Cinema e tem um carro à disposição e habita um espaçoso apartamento com vista para a baía. É jovem como um Menudo, solteiro, e goza da Urca. O meu amigo mineiro repete essa história a cada 15 dias, em uma roda de bar, e eu e os demais comparsas de mesa, açulados de inveja, dizemos a ele que um dia, quando criarmos coragem, vamos nos candidatar a uma vaga de irmão dele.)
Bem, quem não mora no Rio nem vive na Urca precisa inventar uma Zona Sul para a sua cidade. E a minha Zona Sul, em Florianópolis, fica entre Coqueiros e o Bom Abrigo. Não há dúvida, nem cabe eleição. À nossa Zona Sul continental só faltam a água limpa das praias do Rizzo, da Saudade, do Meio, de Itaguaçu etc., uma filial da Livraria Argumento – onde pudéssemos sentir o cheiro dos livros que importam – e a sede do finado, estimado, saudoso Cine York. Porque o resto – bares, botecos e botequins, restaurantes, comércio, “agito noturno”, parque, brisa marinha, construções históricas – tudo há neste trecho encantado da cidade. E é na noite do primeiro dia útil da semana que a Zona Sul de Floripa começa a vibrar, e trepidante segue até o domingo seguinte.
23/2/09
É Carnaval!
O lugar é amplo o bastante para que celebremos a nossa notória falta de samba no pé. Grande que chega para que dancemos desengonçados e exaltemos a nossa brasilidade batucando com algum talento e algum senso musical em latinhas e caixas de fósforo. Há cadeiras, poltronas, pufes e até um sofá para que, cansados, sedentos e suados, sentemos confortavelmente para uma pausa providencial e abramos uma latinha de cerveja de boa cepa. Bebida, aliás, é o que não falta no freezer; água e refrigerantes em meio ao gelo descansam dentro de um isopor do tamanho de um baú de navio.
A iluminação é especial, projetada por alguém que entende de eletrônica e passou a tarde testando os melhores efeitos. E o ambiente inteiro foi decorado com motivos carnavalescos – pendurada na parede, dominando a cena, está a capa do disco de vinil da Banda de Ipanema, gravado na rua, em 1977, e narrado, vejam só, pelo Sérgio Chapelin! E sobre uma mesa há comida farta – frios, queijos, pães e patês, azeitonas e muito amendoim – para saciar os foliões esgotados. Para completar, o aparelho de som com amplificador foi ligado à televisão de 29 polegadas. Assim podemos assistir aos desfiles de todas as agremiações do Brasil sem sair do seguro e confortável camarote da nossa sala de estar.
* * *
Ainda sobre folia. Na semana passada divulgou-se que o prefeito Dário Berger foi aplaudido por ter cedido à pressão da chamada classe cultural da cidade e acatado a desistência da insultuosa ideia de submeter a Fundação Franklin Cascaes à Secretaria de Turismo e Esporte. Fora dois ou três, os vereadores aprovaram a decisão de reunir os três segmentos numa só pasta. Levantados do chão, escritores, músicos, cineastas, produtores e promotores culturais pressionaram, chatearam, aborreceram o prefeito e os “edis” para que não cometessem esse desserviço.
O prefeito enfim cedeu, e foi aplaudido. Não entendi. Sempre achei que aplausos fossem uma forma de reconhecimento ao belo e ao talento, e devessem ser dirigidos, por exemplo, aos integrantes de orquestras sinfônicas que executam com excelência o seu trabalho. E não é que, na semana em que se dedicou uma salva de palmas ao prefeito, o maestro, os músicos e a parafernália da Orquestra Sinfônica de Santa Catarina foram despejados de dentro das salas que ocupavam no CIC? O ano só começa no dia 2 de março mesmo.
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