27/04/2009

"Saí" na Regininha: ganhei o dia!

Olha, vou contar que a Regina Carvalho é dura na queda com textos. Exigente pacas, e eu bem sei porque fui seu orientando e já ouvi uns puxões de orelha. Mas hoje ganhei o dia. Fui lá espiar o Crônicas da Regina, que acaba de ser indicado ao prêmio Top Blog na categoria Variedades, e vi a minha crônica de hoje no DC reproduzida por ela! "Pôra"... Muito obrigado, madrinha!

Algumas leituras do fim de semana

No Estadão de ontem: "Origem de Deus é questão absurda" - Entrevista com John Lennox, matemático da Universidade de Oxford. Interessante, pauta e discussão raras nos jornais. http://tinyurl.com/cqlz8m Euclides da Cunha no Estadão. Texto do autor de Os Sertões, na sessão especial do Cultura que homenageia os 100 anos da sua morte. http://tinyurl.com/com4dx "Quando o homem para de pulsar" - Ao falar de neuroses em O Caráter Impulsivo, Wilhelm Reich investigou as causas de uma aparente predisposição à infelicidade http://tinyurl.com/dm2wcq "Una brasa, compañero" - Frei Betto: ele foi à Bolívia cobrir o casamento do Rei, mas queria mesmo era investigar a morte do Che http://tinyurl.com/dhrgs6 No New York Times: "Comment Is King" - Reader comments are a key part of online journalism. So why do they mostly disappoint? http://tinyurl.com/dy33cj "Slouching Towards Oblivion" - Old-school newspapers seem like aging silent film stars, stricken to find themselves outmoded by technology http://tinyurl.com/cakvnb Este post foi publicado primeiro no http://twitter.com/flenhart. UPDATE 17h40! No Diário Catarinense de sábado: "Um desafio permanente" - Catarinense Walmor Santos aponta os equívocos da Guerra do Contestado em livro lançado pela Record http://tinyurl.com/dgbgmt "A grife Benjamin" - Sobre usos e abusos da teoria benjaminiana na cultura contemporânea ou uma alfinetada dourada na crítica http://tinyurl.com/d5j7t2

Os filmes do fim de semana...

Jogo Subterrâneo (2005) - Filme de Roberto Gervitz baseado em conto de Julio Cortázar. Com Felipe Camargo e Maria Luísa Mendonça nos papéis principais, Júlia Lemmertz e Daniela Escobar no entorno. Um pianista resolve descobrir a mulher da sua vida no Metrô de São Paulo: ele determina um itinerário, entra no vagão, escolhe uma mulher e torce para que eles desçam na mesma estação. Se der certo, é a mulher certa, caso contrário... Um dia, ele permite, sem querer, que as regras sejam quebradas, o jogo o aprisiona e ele se apaixona. Cortaziano à beça, hein? O filme começa chato, com os diálogos muito ensaiados - "Vai, vai, caminha três passos, vira pra câmera e diz 'Puta que o pariu, porra!'" -, mas depois que se explica qual é o jogo e as câmeras saem do metrô, melhora muito e acaba bem. As pernas - e a atuação, ok - de Maria Luísa merecem destaque no conjunto da obra. O Caminho das Nuvens (2003) - De Vicente Amorim, de quem nunca ouvira falar, com Claudia Abreu e Wagner Moura. É baseado numa história real, um caminhoneiro desempregado que viajou com a mulher e cinco filhos da Paraíba até o Rio de Janeiro... De bicicleta! Como história, tudo certo. Como filme, sei não. Tem aquele brilho da Globo Filmes que faz de todo sertão uma belezura, ainda que sujo. O filme é sobre a viagem, mas há uma trama familiar, entre pai e filho, bem interessante, que faz valer o filme. Ah, e mudei minha opinião sobre as músicas do Roberto Carlos, o Rei, onipresente no filme inteiro. Esse entende o Brasil. (Wagner Moura sempre está bem, né?)

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Curioso baile na biblioteca E quando o outono abafado tornou-se de fato a estação da fresca, descobri por epifania: pode-se dançar na biblioteca. Porque espaço há, pista de dança circunscrita a um par ou dois de metros quadrados. Eu olhei, medi e confirmei: é o bastante! Experimentei um dia, testei num outro. Por fim, decidi-me por um baile. Em vez de chamar os amigos, recebê-los na sala de estar, oferecer-lhes amizade franca, bom papo, tira-gostos e bebida à vontade, como costumamos fazer aos sábados, eu iria me trancar no escritório e, rodeado por livros, à sombra das estantes carregadas, dançar ali por uma noite inteira. No sábado adequado, tranquei a porta, acendi abajures, abri espaço, liguei o som. Antes de escolher a música, tratei de escolher o par. Puxei Mrs. Dalloway de uma estante, botei Madeleine Peyroux para tocar. Virginia Woolf relutou, mas cedeu. Aconcheguei a escritora como se deve, à moda inglesa. Ela de cara fechada, passos em falso, quase trôpega de vergonha ou de tédio. Gentil, arranquei-lhe um sorriso, e ganhei a noite. Seduzi Virginia. Para não perder o ar de lorde, busquei outra inglesa, Emily Brontë, que não se recusou. Estava mais alegre que Virginia, mas desconfiada. Dançava quase entregue, mantinha um olho colado à porta. Era como se esperasse, para qualquer momento, a chegada inesperada, tempestuosa, de um Heathcliff rico e pronto para a vingança. Fiz-lhe ver que nada nos ameaçava, senão o mau humor dos vizinhos. Ela riu, soltou-se. Convenci Brontë. Como sentisse falta de uma conversa em português, examinei as estantes. Brilhou, num canto, A hora da estrela. Clarice Lispector recusou o convite. Disse estar atarantada, encasquetara com não sei que sonho ou vertigem, não estava para saracoteios. Insisti, fui até galante. Clarice acendeu um cigarro, o rosto de pedra. Fumou, apenas um jazz antigo agitava-se pela biblioteca. Pisoteou a bagana e deu-me a mão. Foi uma dança sem graça. Para fechar a noite – Oscar Wilde já se insinuava do alto de uma estante –, recorri a Zélia Gattai. Foi a dança da noite. Ela bailou com um sorriso de Jorge rasgado na cara, os gestos amplos, ao som de Asa Branca. Dancei ainda um fado com Sophia de Mello Breyner Andresen. E foi a poetisa portuguesa quem me alertou, olhando pela janela a baía encapelada e vestida de noite, antes que eu deixasse a biblioteca: na casa do mar, pode-se dançar na sala...

23/04/2009

O filme do feriado de Tiradentes...

Estômago (2007) - Comentário bem atrasado, mas é que só agora deu tempo. Descobri João Miguel em Cinema, aspirinas e urubus (2005), num papel coadjuvante muito bem feito. Em Estômago, de Marcos Jorge, ele está brilhante. Duas histórias são contadas paralelamente, e no fim se "encontram", claro. Já vimos isso algumas vezes, foi bom rever: o roteiro escrito a quatro mãos (Lusa Silvestre, Marcos Jorge, Cláudia da Natividade e Fabrizio Donvito) é redondo e curioso. O filme dá uma fome danada, mesmo com o fim sinistro, que, acho, pretende embrulhar o estômago. Muito bom. Brasileiro, cheio de prêmios. Yeaah!, hehe. ps. a Jade escreveu lá no jadices um texto muito "ixperto" sobre o filmão O signo da cidade, da (isso é bem importante) Bruna Lombardi. Aqui.

21/04/2009

Nanopinião 50 (!): 1808

1808, de Laurentino Gomes - Planeta Feriado de Tiradentes, escreverei sobre 1808. Demorei para puxar da estante, sentar e ler. Quando o fiz, terminei em quatro ou cinco noites. É muito bem escrito. Claro, o livro vendeu mais de 500 mil cópias, acho, por causa da passagem dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil, e nada melhor do que ler sobre como foi a fuga da metrópole e o desembarque na colônia no dito "calor da hora", apesar de quase tudo ali já ser de conhecimento de quem estuda História no colégio. Acontece que o texto é muito bem escrito mesmo, e é notória a dificuldade que a maioria dos professores e historiadores tem para escrever um texto palatável ao leitor médio. Eis um trunfo decisivo, penso, para o sucesso do livro de Laurentino Gomes, jornalista que por muitos anos trabalhou praticamente anônimo na editora Abril. (Hoje, parece, depois de vender áudiobook, DVD, edição especial para jovens, kit com tudo isso reunido, ele largou a empresa para se dedicar apenas à faina de escrever livros. Sortudo.) Trata-se de uma longa narrativa de fatos históricos, uma mescla da forma jornalística da reportagem com o rigor do respeito à História - não faz sentido esperar ficção, boa ou má, de um livro desses. E a escolha é muito consciente: de quando em quando, o autor faz referências aos "livros de história", colocando-se à parte da historiografia "oficial" do assunto. Pode ser birra de jornalista, ou medo de se meter em áreas que sejam do domínio da academia - tome-se como exemplo o pau que outros jornalistas já levaram ao fazer o mesmo -, mas foi a escolha do autor. O último capítulo, por exemplo, nem é interessante, mas reforça a ideia de que Laurentino prefere ficar do lado do jornalismo sempre: revela, pela primeira vez, com informações descobertas na internet - uma ferramenta indispensável ao jornalista de hoje! - detalhes de um personagem que participou de toda a saga da fuga-chegada-estabelecimento da corte no Brasil e que livro algum, pesquisador algum, pergaminho algum preservara em arquivo algum. Me pareceu ironia. Só pareceu, claro, porque Laurentino presta a toda hora suas homenagens a dezenas de historiadores brilhantes. Mas o que será desperta mais a curiosidade do leitor de 1808? A descrição da sociedade portuguesa na época da invasão das tropas francesas? Do jeito de ser de D. João e Carlota Joaquina que já mais ou menos conhecemos do cinema? Da longa viagem da esquadra de XX naus que rumaram superlotadas para o Brasil em desabalada carreira? De como eram as cidades de Salvador (primeira parada) e Rio de Janeiro? Provavelmente isso tudo junto. Mas o que mais impressiona no livro é acompanhar a formação da elite brasileira, as pistas que Laurentino dá para que possamos adivinha o quê, daqueles tempos, permanece como praxe da nossa elite e da nossa classe dirigente atual. É assustador olhar de perto o Brasil de 1808 - cheio de capitães-do-mato, fazendeiros de açúcar, exploradores de minas, pequenos comerciantes, traficantes de escravos, todos eles precariamente alfabetizados, ignorantes das culturas já desenvolvidas de outros países - e ver que essa gente foi quem passou a dar as cartas enquanto a Universidade de Coimbra não nos fornecia cabeças pensantes em bom número. De repente, tínhamos condes, marqueses, barões oficializados, em profusão. De repente, o estado brasileiro "nascia" com 15 mil empregados (nos EUA, quando da transferência da capital da Filadélfia para Whashington, eram 1000), mantidos pela corte na base do aumento de impostos, do tráfico, de explorações de todo tipo etc. No fim das contas, foi o que D. João, inseguro, medroso, conseguiu fazer: uma elite tosca, mas também demarcar limites geográficos, erigir banco, biblioteca, faculdades, imprensa, instituições. De um matagal de 300 anos, ele praticamente fez um país. Em uma década, e depois fugiu - o que não deixa de ser bem brasileiro. ps. esta é a 50ª nanopinião no blog!

20/04/2009

Uma pensata sobre o Twitter e a ânsia por conectividade

Ontem li um artigo muito interessante no New York Times, escrito pela jornalista Virginia Heffernan, crítica de televisão do jornal e autora da coluna The Medium da The New York Times Magazine. Ela ficou encucada com uma declaração do escritor de ficção científica Bruce Sterling numa conferência sobre tecnologia: o símbolo mais claro de pobreza - espiritual, intelectual, etc. - em uma pessoa é a dependência de conexões: “Poor folk love their cellphones!”. Em outras palavras: "Anyone with a strong soul or a fat wallet turns his ringer off for good and cultivates private gardens that keep the hectic Web far away. The man of leisure, Sterling suggested, savors solitude, or intimacy with friends, presumably surrounded by books and film and paintings and wine and vinyl — original things that stay where they are and cannot be copied and corrupted and shot around the globe with a few clicks of a keyboard." Encucante mesmo. Conheço um monte de gente que se enquadra neste perfil, e teima o mais que pode em não aderir à espiral internética enlouquecida. Leia o artigo - Let Them Eat Tweets - aqui.

O filme do fim de semana...

Scarface (1983) - Revi, depois de nem sei quantos muitos anos, o filme de Brian De Palma, a atuação memorável, impecável de Al Pacino. "You know what capitalism is? Getting fucked!", brada esse Tony Montana da Cuba comunista que, depois de prosperar em Miami e virar milionário, não aceita que os bancos queiram lhe cobrar 10% de taxas para manter uma fachada de negócio limpo. Com exceção da música, datada mesmo, over, o resto é muito bom. Muito foda. Lá pela metade do filme me dei conta que Robert De Niro e Casino (1995), de Martin Scorsese, devem, e copiam, muito a Al Pacino e Scarface. Só impressão, será?

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Preços de verão... Seria importante que um grupo de zelosas donas de casa e de cidadãos conscientes, munidos com artilharia do Procon, formasse uma espécie de Comando Delta na cidade para caçar os preços de verão que continuam vigorando no outono, por oportunismo ou esquecimento de quem os reajustou na véspera da alta temporada. O DC mostrou, quarta-feira, que o assunto é “da hora”. Pesquisa encomendada pela Associação das Empresas de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador (Assert) revelou que a região Sul do Brasil é aquela onde menos se paga por uma refeição: R$ 13,88 contra R$ 16,26 da média nacional. Em Florianópolis, a refeição sai por R$ 19,52: o valor mais alto da região que menos cobra. Na categoria “à la carte”, a comparação é covardia: R$ 45,70 aqui, contra média de R$ 21,05 no Sul e de R$ 27,22 no Brasil. O levantamento foi realizado em janeiro, claro. OK, em março, Floripa voltou a ser a capital dos catarinenses, dos florianopolitanos, dos que moram aqui. Fomos à praia, num domingo pela manhã, e não encontramos filas nem na Via Expressa Sul nem no trevo que dá acesso à Ressacada nem no trevo que encaminha à Lagoa ou ao Sul da Ilha. Havia estacionamento de sobra perto da praia, ninguém pedia dinheiro para “cuidar” do carro, cerveja e refrigerante e sanduíches naturais eram vendidos a preços justos. Ou seja, feita hoje, a pesquisa poderia resultar em dados diferentes e tal, mas, sei não: proprietários de certos estabelecimentos parecem ainda não ter percebido que não somos paulistas grã-finos. Até entendo: é porque os bolsos estão cheios. Apesar da enxurrada de novembro, o governo conseguiu deixar tudo limpinho e relativamente organizado para receber os viajantes do mundo. Fez-se, então, entre dezembro e fevereiro, uma poupança gorducha, as algibeiras estão forradas. Até o fim do ano, é possível que algumas lojas, alguns restaurantes, algumas casas noturnas e alguns prestadores de serviço não tenham de se incomodar com as finanças, se preocupar com a escassez da “baixa temporada” – época em que os turistas endinheirados do Brasil trocam o nosso vento Sul, a nossa escassez de teatros, museus e eventos interessantes pelos atrativos embolorados da Europa ou ensolarados do Nordeste. Sei que a ideia faz arrepiar o cabelo do nariz dos colunistas políticos, mas creio que o Comando Delta teria uma missão justa e faria um bom trabalho. Só espero que a prefeitura não use a PM para proteger os preços altos.

14/04/2009

O blog meio abandonado... culpa do Twitter!

Tenho postado muito pouco, sabe quem vem aqui espiar de vez em quando. É que caí na mais recente armadilha da internet: o Twitter. Muita coisa que eu gostaria de colocar aqui no blog, com fotos, links etc., tenho postado lá, em 140 caracteres - que é o espaço máximo permitido para cada postagem. E o fato é que esta ferramenta, criada por Evan Williams (criador do Blogger), Biz Stone and Jack Dorsey, é meio viciante, se você "segue" pessoas interessantes. Como funciona? Você cria uma conta no Twitter, pode postar comentários de até 140 caracteres e adicionar à sua rede outras pessoas que podem postar comentários de até 140 caracteres. Cada vez que alguém da sua rede posta algo, o texto aparece na sua página, e vice-versa. Dessa forma, estabelece-se, às vezes, um diálogo interessante, com dicas daqui sendo repassadas pra lá e de cá viajando prali e assim vai. É claro que o risco de virar um “Acordei, fui ao banheiro…”, “Dei a descarga…” é grande, como reclama o Xico Sá no blog dele. O Sérgio Rodrigues também reclama: o Twitter é "a nova doença infantil da internet". Mas cada um sabe os amigos e conhecidos que tem. Saiba mais sobre o Twitter: - no How Stuff Works (inglês) e aqui em português. - na Wikipedia - no New York Times E, se for entrar pro jogo, o meu nick é flenhart. UPDATE: a Clasrissa, funcionária da Edelman, agência responsável pela comunicação do HSW, deixou aqui na área de comentários o link pro site em português, já acrescentado à lista aí de cima. E o HowStuffWorks também está no Twitter: twitter.com/Howstuffworks

13/04/2009

Os filmes do feriado...

O escafandro e a borboleta (Le Scaphandre et le Papillon, 2007) - Intimista e claustrofóbico, o filme de Julian Schnabel - o mesmo diretor do ótimo Antes que anoiteça (2000), com Javier Bardem. Neste, o editor-chefe da revista Elle sofre um AVC, fica três semanas em coma e, quando acorda, só consegue mexer os olhos. Internado num hospital de inválidos no Sul da França, com a ajuda de uma fisioterapeuta e de uma fonoaudióloga, consegue escrever um livro. A ex-mulher do personagem principal é a Emmanuelle Seigner, que eu não via desde Lua de fel... Muito bom, e como é cruel a medicina. Fim dos tempos (The Happening, 2008) - Filme mais recente do chato M. Night Shyamalan. É bem legal. Um dia, começa uma ventania no Central Park, o tempo congela e as pessoas começam a sucidar-se. Em questão de horas, uma série de suicídios é registrada em toda a costa Leste americana. As cidades grandes começam a ser evacuadas, porque desconfia-se de um ataque terrorista com toxinas que alteram o comportamento. Paranoia total. Me pareceu um filme sobre o pós-11 de setembro, sei lá. Simplesmente não há explicação para as mortes. Como em Os pássaros (dica da Jade), uma hora pára de ventar e ninguém mais se mata. Bem melhor que A dama na água (2006). O signo da cidade (2008) - O melhor do feriado. Foi escrito por Bruna Lombardi e dirigido pelo marido dela, o Carlos Alberto Riccelli (ela teve a sensibilidade de não colocá-lo na frente da tela!). Achei muito bom. O filme ganhou alguns prêmios em festivais em Brasília, Goiânia e Manaus. É sobre a solidão, e sobre São Paulo, e sobre o amor, e sobre a perda. Muito bom mesmo. Se você não quer se ajudar, ajude alguém, pelo menos. E como Bruna é bonita...

A crônica de hoje, no DC: A vista da ponte

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. A vista da ponte Então, “é importante que as pessoas possam continuar tendo a vista da Ponte Hercílio Luz” ao sair da Ilha de Santa Catarina pela Ponte Colombo Salles? Quem o diz assim, com um tom solene e grave de quem fala coisas sérias, é o secretário de urbanismo e serviços públicos de Florianópolis, José Carlos Ferreira Rauen. Pelo menos foi essa frase que saiu nos jornais. Ora, bem sei que a política é um ramo profissional em que o futuro é sempre incerto. O sujeito vira ministro da pesca, por exemplo, sem nunca ter segurado uma minhoca. Torna-se secretário de turismo sem nunca ter se banhado nas águas termais de Piratuba. Não dá, claro. Mas suponho que um secretário de urbanismo pelo menos saiba bastante sobre a urbe a que presta serviços. É de se esperar, ainda, que problemas de outras pastas sejam do seu conhecimento. A “questão” do trânsito, por exemplo, e a “questão” das mortes por acidentes no trânsito, para ser específico. Se há quem seja assassinado a tiros em um assalto numa rua movimentada da Trindade às sete da noite de uma segunda-feira, bem pode ocorrer de carros despencarem da Ponte Colombo Salles. Um guard-rail (eita!) decente nas duas pontes que ligam a Ilha ao Continente e vice-versa são urgentes há muitos anos. Eu moro no continente há três, e tomei um susto quando vi que estavam instalando as muretinhas (eita!). “Será que é sério mesmo?”, pensei. Era, até que veio o embargo e, em seguida, aquele argumento delirante do “direito à vista da Ponte Hercílio Luz”. Por saber como são feitos as salsichas e os jornais impressos, tendo a desconfiar de que declaração do secretário possa ter sido transcrita de maneira errada, e ninguém percebeu antes de publicar a notícia. É evidente que o secretário deve ter dito que “é bem pouco importante que as pessoas possam continuar tendo a vista da Ponte Hercílio Luz” ao sair da Ilha de Santa Catarina pela Ponte Colombo Salles. Mas isso, reconheço, é só uma suspeita. Vai que o secretário tem convicção do que falou, e acha que a vista da ponte velha é tão importante quanto a segurança? Se a frase está correta, podemos ao menos especular que declaração o secretário de urbanismo e serviços públicos de Florianópolis vai dar quando o próximo carro cair lá de cima da Colombo Salles: – Por favor, a Ponte Hercílio Luz nada tem a ver com o suicídio de automóveis.

09/04/2009

Pinceladas de Lima Barreto

Recordações do escrivão Isaías Caminha Lima Barreto Capítulo 3 (...) Do interior de um café, o Laje chamou-me. Não estava só; acompanhava-o o doutor Ivã Gregoróvitch Rostóloff, jornalista brasileiro a quem fui apresentado. — Do Jornal do Brasil? perguntei. — Não, senhor. Trabalhei no O Combate, de Belém, na Gazeta de Leopoldina; no Deutsches Tageblatt, de Blumenau; no Al-Barid, de São Paulo e aqui, no Rio, no Harum Al-Raxid, órgão da colônia síria. Pretendo, porém, acrescentou, entrar em breve para O Globo, onde vou fazer o artigo de fundo e tratarei da política interna. — Escreve em muitas línguas?! — Em dez. — É extraordinário, fiz eu, não podendo conter a minha parva admiração. — Tive sempre muito jeito... Logo, em menino, pelas primeiras lições de francês, comecei a escrever... Depois, houve sempre em mim um desejo de ver povos, de andar à aventura... Logo que sai da universidade, parti para a Índia. Queria servir a um rajá, mas não há mais rajás. Fui à China, ver se entrava como instrutor do exército do vice-rei de Cantão. Não consegui. Parti para o Japão, onde fui chefe de uma fábrica de pólvora... Tenho viajado muito... — Você já esteve em Paris, Gregoróvitch? indagou o padeiro. — Ora! fez o jornalista. Quem já não esteve lá! Estive na Índia, em Calcutá, onde trabalhei ao lado do grande Rai Kisto—conhece doutor? — Não. — Quem? indagou o Laje. — Rai Kisto Das Pal Beader, um grande jornalista hindu... Admira-me que o doutor não o conheça; na Europa já se fala nele. O Professor Bouglé, de Toulouse, cita o seu nome em uma das suas últimas obras... — É vivo? indaguei. — Não. Morreu há alguns anos. O caixeiro veio servir-nos café e o jornalista depois de sorver um trago, perguntou-me: — Já está formado? — Vou matricular-me ainda, respondi sob o olhar de censura do Laje da Silva. — Direito? — Medicina... — Não é mau... Toda a carreira serve, mas... — O doutor é formado em Direito? indaguei por minha vez — Não. Formei-me em Línguas Orientais e Exegese Bíblica, na Universidade de Sófia, tendo começado o curso no Cairo. Disfarcei a vontade que me deu de rir, ouvindo tão extravagante titulo escolar. Havia alguma coisa de opereta, mas o homem era tão simpático, tinha sido tão amável e parecia tão ilustrado que me esforcei por sujeitar o meu ímpeto de rir, soltando uma frase à-toa: — Na Europa o homem de estudo tem campo, sabe onde deve chegar; aqui... — Qual, doutor! Não há como a sua terra! A questão é pendurar, quando se entra, a sobrecasaca de cavalheiro no Pão de Açúcar; e no mais — tudo vai às mil maravilhas! O padeiro ficou atônito com a cínica franqueza do julgamento do jornalista. Teve um assomo de virtude e objetou pudicamente: — Nem tanto, doutor! Nem tanto! olhe que ainda há homens honestos nesta terra e em altas posições — o que é mais raro! O doutor Gregoróvitch dardejou-lhe um breve olhar sarcástico e expelindo uma longa fumaça cheia de dúvida e de troça, disse devagar: — Pode ser, Laje! Quem sabe? Só, subindo a rua movimentada, pus-me a interrogar-me sobre o tal Gregoróvitch. De que nacionalidade era? Que espécie de moralidade seria a sua? Com aquele título burlesco de doutor em Línguas Orientais e Exegese Bíblica, quem poderia ser ao certo? Um bandido? Um aventureiro simplesmente? Ou um homem honesto, de sensibilidade pronta a fatigar-se logo com o espetáculo diário e que por isso corria o mundo? Quem seria? E jornalista! Jornalista em dez línguas desencontradas! Mas era simpático o diabo, de fisionomia inteligente... (...)

08/04/2009

O Grêmio no Google e os 100 anos do Gre-nal

Comecei o dia lendo o twitter do colega Alexandre Gonçalves: @colunaextra Grêmio leva bola nas costas no Google: http://tinyurl.com/dxkabj Um vídeo do Youtube mostra que se você digita gay no campo de busca do Google, o buscador mostra Grêmio como opção de pesquisa. Uma idéia muito original dos colorados, em resposta a uma provocação que eles estão sofrendo pelo seu festejado centenário...

5 anos juntos, 3 anos de casados

08/04/2006 "Surge a alvorada, folhas a voar, e o inverno do meu tempo começa, a brotar, a minar" Cartola "Tem de tudo em uma festa de casamento: o que deseja a felicidade do casal e a que torce para que a noiva caia da escada." Luiz Carlos Prates "Weddings make a lot of people sadBut if you're not the groomYou're not so bad!" Todos dizem eu te amo, de Woody Allen "Vitality shows in not only the ability to persist but the ability to start over." F. Scott Fitzgerald

06/04/2009

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Deu trabalho, mas saiu. Incomum Nem tudo são flores nessa vida. Mas devo confessar: nasci em berço de ouro, minha infância foi um mar de rosas. Batia uma pelada com a galera, marcava gol de placa, me doava para o time, ouvia o professor, às vezes passava por um mau momento, mas logo dava a volta por cima e fazia as pazes com a vitória. No colégio, não tinha medo de errar, afundava a cabeça nos livros até altas horas da noite, mas, em compensação, tirar nota máxima era comigo mesmo, minha especialidade. A contragosto, porém, em certo momento tive de repensar a vida, que até então me sorria com uma boca cheia de dentes. Chegara o dia D, a hora da verdade: o que eu vou ser quando crescer? Fiz o que o meu coração mandou, entreguei na mão de Deus. A certa altura dos meus estudos, resolvi investir pesado, com o intuito de um dia nadar em dinheiro. Para tanto, era preciso tomar um rumo na vida, explorar meu potencial, trabalhar na área, correr atrás. Bem-sucedido, quem sabe eu não fosse flechado por cupido, vivesse uma paixão intensa com uma mulher de verdade e constituísse uma família unida? Se tudo desse errado nesse percurso, eu poderia tirar um coringa da manga, dar uma cartada de mestre: concederia uma entrevista explosiva em alto e bom som, arrebentava a boca do balão, entregava a corja toda. Aí eu poderia limpar o meu nome, contabilizar os prejuízos, sanear as finanças, sair do vermelho, chegar a um denominador comum, para não ter mais dor de cabeça. Deveria arrancar o mal pela raiz, aparar arestas, preencher lacunas. Mas quem não deve não teme. A bem da verdade, devo confessar que hoje, passada a tempestade, o azul límpido de um céu de brigadeiro se descortina à minha frente. Eu gostaria muito de só contar estrelas, carregar pianos, fazer girar a roda da máquina da história. Ensinar aos alunos da universidade da vida com quantos paus exatamente se faz uma canoa. Pelo menos uma vez vestir o hábito do monge, o traje esporte e o passeio completo antes de silenciar dentro do paletó de madeira, no apagar das luzes. Viajar sem rumo, ir num pé e voltar no outro, num ai, de mala e cuia, na cara e na coragem, sem lenço e sem documento, porque navegar é preciso. Ver chover no molhado, presenciar o sertão virar mar, chorar lágrimas de crocodilo no ombro do amigo da onça. Viver com intensidade e, quem sabe, tirar a sorte grande já nos descontos... Encerrar com chave de ouro, enfim.

O filme do fim de semana...

Valsa com Bashir (Waltz with Bashir, 2008) - Sábado à noite, para descansar da "festa de arromba" que o Paulo Scarduelli deu na (agora) antiga casa dele no Porto da Lagoa, sexta, ficamos em Coqueiros para assistir à animação do diretor israelense Ari Folman. O filme é lindo, visualmente, e muito maduro de conteúdo. Consegue reunir drama psicológico, guerra e desenho animado com um bom gosto tremendo. Trata do drama de um ex-soldado israelense ao tentar lembrar sua participação na Guerra do Líbano (1982) e, quem sabe, nos massacres de Sabra e Shatila. Nestes dois campos de refugiados, soldados falangistas cristãos chacinaram palestinos indefesos sob a proteção do exército de Israel, em "resposta" ao assassinato do presidente do Líbano, aliado de Israel, Bashir, pelos palestinos. Para tentar rememorar tudo, o personagem principal conversa com amigos que lutaram com ele na época, e cada um acrescenta um grande momento ao roteiro. Excelente.

04/04/2009

Adolfo Boos Jr. no DC Cultura

Excelente, de novo, a entrevista do mês com um escritor catarinense da série que o DC Cultura começou em março com Silveira de Souza. Dessa vez, o entrevistado é Adolfo Boos Jr., autor dos romances Um largo, sete memórias e Quadrilátero, ambos elogiadíssimos. Se Fábio Brüggemann foi o parceiro do editor Dorva Rezende na primeira entrevista, agora foi o também escritor Flávio José Cardozo. ps. com exceção do Dorva, claro, já entrevistei todos eles. :) DC Cultura – Você é conhecido como um escritor difícil, exigente consigo mesmo e para com os leitores, que sempre busca a melhor frase, a melhor palavra, rescreve com frequência os seus textos. Entre escrita e rescrita, um romance como Quadrilátero, por exemplo, levou quanto tempo para ficar pronto? Boos – Eu gosto de elaborar um texto, eu acho uma maravilha, o processo de criação é apaixonante. Quadrilátero levou alguns anos para ficar pronto. Primeiro porque eu tinha imaginado para o livro um outro formato. Seria um romance formado por histórias curtas, contos, mas depois foi sofrendo transformações. Foi apaixonante escrevê-lo. Apanhei feito boi ladrão, porque eu não tenho teoria literária. Fiz no instinto, fui na marra, lendo e chorando de raiva quando tinha que rasgar uma página, era no tempo da máquina de escrever. Um trabalho do cão. E aí, quando chegou a época da Bienal Nestlé de Literatura, eu dei o trabalho como terminado. Só não tinha o título. Mas eu tinha quatro personagens principais, aquela ideia de Quadrilátero nasceu dali. Tanto que, no Quadrilátero publicado, só tem o primeiro e o segundo livros, o Livro de Mateus e o Livro de Lucas. Os quatro personagens principais têm os nomes dos quatro evangelistas. Na continuação do romance que estou negociando publicar com o (o editor Carlos Jorge) Appel, vão ser os livros de João e de Marcos. Essa segunda parte do Quadrilátero também foi escrita e rescrita várias vezes, e ficou de lado um tempo dando espaço para outros livros como Um Largo, Sete Memórias, o Burabas e até o (Presenças de) Pedro Cirilo. Quando o romance nauseava demais, eu me dedicava a outro. É um negócio meio sazonal, tem uma época que eu só faço aquele livro, até ficar pronto. E como publicar no Brasil está cada vez mais difícil, a tendência da gente é continuar inédito, porque publicar na província é também continuar inédito. Você não vence as barreiras assim fácil.
Leia tudo aqui. Relembre a entrevista com Silveirinha aqui.
UPDATE: contei no Twitter e esqueci depostar aqui: o Julio Basadona Dutra e a Dona Iolanda a que o Boos Jr. se refere na entrevista são avós maternos da Jade.

01/04/2009

Pinceladas de Gay Talese

Já que hoje foi confirmada a presença de Gay Talese na Flip deste ano, republico abaixo um trecho da obra-prima A mulher do próximo (Cia. das Letras), comentada aqui em nanopinião de 2007. “De volta aos Estados Unidos, Talese continuou sua pesquisa em viagens pelo interior, entrevistando homens e mulheres comuns, bem como líderes comunitários e celebridades locais. Conversou tanto com casais monogâmicos e casais praticantes assumidos da troca de parceiros quanto com promotores e advogados de defesa, teólogos e conselheiros matrimoniais. Passou semanas em Virgínia Ocidental, Kentucky, Indiana, Ohio e depois desceu para o Cinturão da Bíblia, onde ouviu sermões em igrejas e compareceu a reuniões municipais, prestou atenção nas conversas dos outros em bares, visitou distritos policiais e os bairros da pesada. Durante o dia, passeava pelas zonas comerciais, notando a proximidade das Woolworth’s e J. C. Penney com as casas de massagem e cinemas pornôs. À noite, demorava-se nos saguões dos Holiday Inns, Ramadas e outros motéis, observando que homens com terno cinzento e pasta de executivo compravam Playboy e Penthouse antes de subirem para seus quartos. Observou também casais jovens com filhos e caminhonetes entrando em shopping centers; sólidos rotarianos e kiwanianos, com camisas de cetim escandalosas, jogando boliche; mulheres sardentas do interior, retirando romances góticos de bibliotecas escolares; moradores bronzeados de subúrbios de classe média jogando partidas de tênis em duplas mistas; membros da geração Pepsi cantando no coro da igreja aos domingos. Depois de longas conversas com esse tipo de gente, Talese percebeu que a vida familiar normal e as tradições americanas perduravam na superfície, mas no âmbito individual estavam sendo repensadas e reavaliadas. Nas viagens, Talese procurava não esquecer que, apesar das mudanças sociais e científicas relevantes para a Revolução Sexual – a pílula, a reforma das leis sobre aborto e as restrições legais à censura –, havia milhões de americanos cujo livro favorito continuava a ser a Bíblia, que não cometiam adultério e tinham filhas universitárias ainda virgens. A Reader’s Digest indiscutivelmente prosperava, e, embora a taxa de divórcio fosse mais alta do que nunca, o mesmo acontecia com a de segundas núpcias.”
 
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