29/06/2009

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Sem assunto Repare: não há o que ler aqui hoje. Se você buscava distração neste canto de página, um refrigério lírico em meio ao inferno de notícias ruins do jornal, peço desculpa. Se você argumentar que Michael Jackson morreu e que eu deveria discorrer sobre o cinquentão pop até o fim da coluna, arrancando emoção de cada vírgula, responderei que não concordo, porque, para chorar este defunto, há na cidade um ecossistema de músicos e críticos musicais diplomados na melhor faculdade de jornalismo do Brasil. E o fato é que não tenho “inspiração” nem paciência para contar uma história qualquer nesta segunda-feira. O papel está em branco. Só me resta, então, sugerir uma parceria. Façamos assim. Eu fico a entretê-lo, a orientá-lo de alguma forma, perdido talvez em digressões, e você assume a tarefa de escrever a crônica por mim. Lembre-se de que não é preciso diploma para escrever crônicas – graças ao jornalista Rubem Braga, que é o Deus deste gênero literário. No fim das contas – você verá –, ser um cronista de segunda é um desafio autodidata: exercita a capacidade cognitiva, mexe com a criatividade, testa conhecimentos gerais e dá até intimidade com o idioma. No mais, diverte. O que é crônica, afinal? Eu não sei, ninguém sabe. Dizem que é aquilo que vem à cabeça do cronista e ele consegue decifrar em linguagem escrita, há quem garanta não ser nada disso. O pessoal não se decide, é mesmo uma terra sem lei. Mas tenho umas pistas. Você pode falar mal dos outros e das coisas – o Lula, o trânsito –, ditar regras e incitar os povos a fazer o que você acha melhor – tudo bem, só não seja aborrecido, nem dê discursos. Você pode, ainda, escrever frases bonitas de se ouvir, mas completamente vazias de significado se relidas com atenção. Por exemplo: junte numa só sentença engenhosa as palavras solidão, desespero e vazio e pronto, as garotas o aclamarão, vão querer autógrafos e sabe-se lá o que mais da sua persona sensível. Você tem também o direito de inventar um enredo que se resolva em poucos parágrafos, historieta com o mínimo de verossimilhança e de suspense. Para o leitor transitório de jornal, acostumado tanto à verdade jornalística quanto ao espanto da revelação cabeluda nas páginas policiais, mistério é o que conta. Em último caso, recorra às memórias de infância, sempre bem-vindas, ou, sei lá, qualquer outra reminiscência. Só não pode é ficar sem assunto. Combinado?

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