Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense!
Um conto
Tudo o que os vizinhos sabiam era que Calixto Bartolomeu de Souza tinha mais de 70 anos. No mais, nada em sua fisionomia se destacava: seu aspecto era ordinário. Baixo, caminhava devagar. Ensimesmado, alheio ao resto. Era só mais um num lugar cheio de muitos. O velho do 104, que sentia sobre os ombros curvados algo mais que o fardo dos anos: a perda da mulher e de duas das três filhas em um desastre aéreo.
Calixto Bartolomeu, viúvo. Primeiro, vendeu a casa. Preferia viver em um apartamento apertado a ter espaço de sobra para errar por entre lembranças familiares pelo resto da vida. Sabia que de nada adianta mirar o horizonte quando o pôr-do-sol está às costas. Em seguida, já no condomínio, quitinete barata, foi ao banco e resolveu o futuro. Garantiu o dinheiro que o manteria sem percalços pela vereda que une a solidão à sepultura.
Calixto Bartolomeu tinha tempo para revirar o baú do passado. Quando a família era composta por cinco pessoas, Silvia, a filha mais velha, fugiu para a Europa: sumiu numa sexta-feira, durante o fim de semana não deu notícias, e na segunda, quando Calixto Bartolomeu e a mulher já tomavam remédios para dormir, ligou e pediu que a esquecessem. Paris era linda, não retornaria nunca mais para o Brasil.
Calixto Bartolomeu e a esposa sentiram o baque, mas, com os anos e a falta de informações sobre ela, terminaram por esquecer a filha. Afinal, o futuro era urgente: restavam outras duas meninas para criar, aposentadorias, netos, bisnetos. Silvia passou a ser uma foto pendurada na parede. Um dia, porém, ela apareceu no 104. Era uma sexta-feira.
Entre os vizinhos, claro, começou a circular um monte de boatos disparatados, até que o síndico tomou coragem e abordou o velho do 104 no corredor. Esclareceu o mistério: a senhora que estava morando com ele era Silvia, sua filha, que retornara da Europa depois de 30 anos fora do Brasil. A faxineira de Calixto Bartolomeu era quem dava as notícias de pai e filha para os vizinhos. Na casa, o ambiente melhorara. A quitinete do viúvo se transformara num confortável lar de família.
O vizinho do 103, também ele um viúvo fechado em si, não caía nesse papo furado. Às vezes, de madrugada, quando fazia muito calor ou muito frio, ele acordava de repente e ouvia, baixinho, uns gemidos de mulher amada. Vinham do 104, tinha certeza. Mas ninguém ousava acreditar nele.
09/11/2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário