20/07/2009

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Faltava-lhe algo Ela tinha tudo. Tinha um motorista para levá-la e trazê-la, uma cozinheira para preparar as refeições, tinha uma faxineira para lavar e varrer, uma empregada doméstica para passar e servir. A mulher possuía ainda um belo apartamento, vasos coloridos, porta-retratos de prata, uma vista incrível da cidade a partir da sacada. Tinha até uma luneta, com que espiava o mundo dos outros nas noites de insônia. E ela tinha amigas. Em sua companhia, frequentava os bares da moda, bebia às vezes um chope, para variar um pouco do vinho sagrado, tinto e suave. Não raro saía para jantar, ela e mais duas ou três, sempre juntas, sempre um pouquinho alteradas. Tinha um celular com a memória cheia de telefones. A sobriedade bastava-lhe no trabalho, aliás, quando os homens a olhavam de longe. O que viam era uma muralha de austeridade, que só ruía quando ela abria um sorriso – raro como flor no ermo. Ela tinha dentes bem brancos e uma boca vermelha, carnuda. Era sócia de uma confraria secreta que promovia festas de arromba em lugares privados. Coluna social alguma, por mais prestigiada ou disputada que fosse, recebia fotos do evento. Ela mantinha as unhas pintadas, o cabelo sedoso e escovado. Era vaidosa como só as boas mulheres o são. Tinha um secador de cabelos potente e uma escrivaninha cheia de livros. Lia deitada no sofá, só de camisola, com as pernas para cima, apoiadas na parede. Ria sozinha e se divertia nos chats fazendo passar-se por loura, seios fartos. E era morena e magra. Nas festas da confraria, já bêbada, dançava até cansar e os pés ficarem doloridos. Balançava a cabeça e mexia a cabeleira de um lado para o outro, como vira certa vez uma atriz fazer num filme XXX. Dançando de vestido curto, as coxas à mostra, sentia-se desejada. Até mesmo algumas colegas lhe deitavam uns olhos de tato, gulosos. Dizia-se que tinha uns romances, uns encontros furtivos. Só diz-que-diz, ninguém nunca flagrara nada. Era discreta, sensual e misteriosa. Quando, porventura, ia a um encontro, porteiro algum a via voltar para casa acompanhada. Ela tinha tudo. Mas era sozinha, e sozinha vivia. Nunca casara, nunca ninguém a vira com um namorado sério. Ela tinha tudo; dinheiro, amizades, diversão, um lar, os livros. Sentia, porém, falta de algo. Bebia em casa por causa disso e, chorando, ouvia Maria Rita baixinho... Faltava-lhe um beijo. Era isso: faltava-lhe uma boca para se entregar.

3 comentários:

  1. Oi, Felipe.
    Como de hábito, cá estou para espiar o teu blog, saber de novos textos e saborear um pouco da tua escrita, que gosto muito.
    Parabéns pela crônica...
    ADOREI e me identifiquei. Não que eu tenha tudo, mas me falta a boca para me entregar. Coisas da vida moderna? Que o tempo me mostre o contrário porque quero amar e ser amada...diacho! Tenho certeza que muitas pessoas que leram este texto sentiram a mesma coisa que eu.
    Mande um abração pra Jade,
    outro pra você e segue o baile porque teus leitores comparecem ;)

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  2. jade11:52

    nós temos um ao outro, né, rei? te amo muito.

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  3. Muito obrigado, Carolina! Saber que andas por aqui, espiando e lendo, é muito bom.

    E linduda, te amo tudo.

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