Guillermo Valle, Líbano 2006
Matt Corner, Líbano 2006
Fotos de guerra e algumas encrencas
por Fernando Evangelista
Matt Corner é um fotógrafo de guerra. Tem cara de alemão, nome de americano, mas é italiano da gema. É um sujeito esperto e corajoso. Corajoso demais e, às vezes, lá no meio das bombas, eu ficava me perguntando se ele era mesmo corajoso ou só um suicida alucinado. Mais um doido em busca de um sentido ou de uma revelação, igual àqueles fanáticos com o Velho Testamento embaixo do braço. Uns se agarram à religião, outros ao poder, às drogas e outros se agarram às guerras. Cada um na sua, como naquele comercial de cigarro. Pena que não é tão simples assim.
A primeira reportagem que fizemos juntos foi durante a operação militar Escudo Defensivo. O exército de Israel fechou e ocupou todas as cidades controladas pela Autoridade Palestina. Era 2002 e esse seria o último grande confronto entre Ariel Sharon e Yasser Arafat. Em Ramallah, vimos uma senhora palestina ser assassinada por um franco-atirador israelense. Ela estava saindo de um hospital, acompanhada do marido e levou um tiro na testa e outro no pescoço. Tentamos regastá-la e trazê-la para dentro do hospital, mas ouvimos outros tiros e ela não pode ser socorrida. Morreu no meio da rua, a alguns metros de onde estávamos. Então é isso o que os jornais chamam de “efeito colateral”? É isso que chamam de “direito de defesa”? Que nome se dá a esse tipo de crime? Nas guerras do começo do século XX, 90% das vítimas eram soldados. Hoje, 90% são civis.
Em 2003, junto a um grupo de ativistas italianos, Matt e eu chegamos a Amã, capital da Jordânia, com o objetivo de cruzar a fronteira do Iraque, invadido meses antes pelos Estados Unidos. A estrada que liga Amã ao Iraque - 400 quilômetros em meio ao deserto - é estreita e sem sinalização. Lembro que fazia um calor de mais de 45 graus, nosso carro não tinha ar-condicionado e as janelas traseiras estavam emperradas. Na fronteira, os militares norte-americanos impediram a nossa passagem e nos ameaçaram de morte. “Tirem seus rabos daqui, senão vamos atirar”, disse um dos soldados, metralhadora em punho. Um pessoal nada simpático.
Assim, sem escolha, voltamos para Amã e na manhã seguinte o grupo de ativistas ocupou a embaixada italiana e exigiu do embaixador uma providência. “Somos cidadãos italianos e queremos que nosso governo nos ajude a entrar no Iraque”, gritou um dos ativistas. E o melhor de tudo isso foi a foto de Matt, mostrando a cara de um embaixador, perplexo e apavorado. O homem ligou para as autoridades norte-americanas, explicou a situação e eles mandaram um fax de rendição, autorizando nossa entrada. Fez-se uma festa. “Derrotamos o Império”, comentou alguém. Matt foi o único a não comemorar.
No dia seguinte - sempre com o grupo – retornamos à fronteira segurando o papel das autoridades norte-americanas, nosso visto incontestável. Os militares (os mesmos da véspera) olharam o papel, conversaram entre si, olharam outra vez, e disseram muito educadamente: “isso não vale nada, caiam fora”. E tudo aconteceu muito rápido. Dois soldados me pegaram pelos braços, outros dois pelas pernas e me arremessaram para fora da fronteira. Fomos expulsos e alguns de nós levaram pontapés e socos. Matt também foi expulso, mas não deixou de fazer as fotos sem que os soldados percebessem.
O resto do grupo desisitiu de entrar no Iraque. Eu também desistiria não fosse pela insistência do meu companheiro de reportagem. De volta a Amã, descobrimos que a Polícia Secreta da Jordânia era o único orgão – naquele momento – que poderia nos conceder um documento autorizando a entrada no país vizinho. Fomos a vários ministérios até encontrar a sede da Polícia Secreta, bem no centro da cidade e devidamente identificada com uma placa na entrada. Lá, depois de uma interminável conversa sobre o futebol brasileiro, pegamos nosso “visto”. E assim, nós dois e um motorista iraquiano, fizemos aqueles 400 quilômetros pelo deserto e chegamos pela terceira vez à fronteira.
Papéis e passaportes entregues, o militar norte-americano perguntou se estávamos com o grupo do dia anterior – “grupo, qual grupo?” – olhou cada página do passaporte, chamou um superior, repetiu as mesmas perguntas e, finalmente, nos deixou entrar. Fomos os únicos, de um grupo de 43 pessoas. E lá no Iraque, no mesmo momento em que Bush e boa parte da mídia ocidental comemoravam – patrioticamente - o fim da guerra, Matt e eu fizemos uma reportagem dizendo que a tragédia estava apenas começando. Porém, nem os mais pessimistas poderiam imaginar o que aconteceria nos cinco anos seguintes: o número de civis iraquianos mortos – segundo o jornalista Robert Fisk - está entre 350 mil e um milhão, quatro mil são as baixas norte-americanas e os feridos passam dos 29 mil. Conforme o governo dos Estados Unidos, o conflito já custou 500 bilhões de dólares. Para Joseph Stingliz, prêmio Nobel de economia, os gastos já chegam a 3 trilhões de dólares.
Não é simples caminhar pelas estradas do Oriente Médio e Matt escolheu trilhar as estradas secundárias. As histórias que lhe interessam são as histórias que não se contam. Ele possui qualidades fundamentais para quem trabalha em áreas de risco: é pragmático, sem ser indiferente; é posicionado, sem ser ideológico; é cético, sem ser cínico. É apaixonado pelo o que faz, o que pode soar piegas e fora de moda diante do jornalismo estatístico e desumanizado de hoje em dia.
Em 2006, cobrimos a guerra do Líbano, que durou 34 dias e matou 1.200 libaneses e 157 israelenses. E foi no sul de Beirute que conheci o fotógrafo espanhol Guillermo Valle. Ele, então com 23 anos, já estava cobrindo sua quarta guerra. Havia começado aos 14 anos. As fotos de Guillermo unem o que existe de mais fascinante no fotojornalismo: arte e informação de qualidade. Não por acaso, tornou-se um dos mais jovens colaboradores do jornal El País e integrante da agência francesa Sipa Press. Não conheço ninguém que tenha captado tão profundamente o clima desse conflito como ele o fez. Se alguém me perguntar o que de fato aconteceu no Líbano, posso indicar qualquer uma de suas fotos.
Matt e Guillermo lançam, no dia 31 de março, às 19 horas, na Assembléia Legislativa de Santa Catarina, o projeto 100 histórias, mostra fotográfica que reúne imagens da Europa, África e Oriente Médio, com destaque para imagens recentes da Palestina, Iraque e Líbano. A mostra, organizada pela jornalista Juliana Kroeger e patrocinada pela Brasil Telecom e pela Universidade Estácio de Sá, é dedicada a todos aqueles que, por ignorância ou ingenuidade, acreditam nas armas como um método legítimo de luta. Toda a guerra, como fica evidente em cada uma das fotos, é imunda e desumana. Sem exceção.
Esses dois fotógrafos, além de certa loucura, compartilham a certeza de que uma foto – apenas uma foto bem feita – pode ser capaz de denunciar a injustiça mais terrível. E isso, para eles, justifica todos os riscos.
Fernando Evangelista é jornalista
fernando_evangelista@hotmail.com

Feliz é a gaivota Leitoras, a verdade é uma só. Como não almejo ser o autor de qualquer versão oficial, é preciso que eu confesse, antes de tudo: foi uma bruxa, destas que de vez em quando saem dos livros de Franklin Cascaes para dar uma volta nas noites de lua cheia, quem me segredou o que vai relatado abaixo. À sabedoria da feia e boa velha, pois, é que devemos creditar a beleza da revelação. O lúdico a quem é fantástico, como deve ou deveria ser tudo o mais nesta Ilha misteriosa. Contou-me a bruxa que há uma relação estreita entre os que moram em Florianópolis, em especial os que aqui nasceram ou se criaram desde pequeno, e as gaivotas que habitam a cidade. Ora, quem não as conhece de vista? Encontramos gaivotas por toda parte, diariamente, e não apenas nas praias. No trajeto para o trabalho, ao atravessar as pontes de carro, numa caminhada pela Avenida Beira-Mar Norte, nas pinturas das fachadas de prédios... A gaivota é nossa íntima. Dito isto, aprendam enquanto há tempo e ainda existem bruxas para nos ensinar os segredos da Ilha: da mesma forma que nós olhamos para o céu à noite e vemos a beleza, a intensidade e a presença de estrelas que não existem mais, as gaivotas manezinhas sobrevoam uma cidade que ainda tem a beleza, a intensidade e a presença de uma Florianópolis que também não existe mais. Ou que só é visível a olhos humanos nas fotos da nossa carente Biblioteca Pública, nos arquivos de jornais ou nos blogs dos saudosistas. As gaivotas que habitam as nossas praias ainda olham para o mar e só vêem canoas e baleeiras de pescadores, no lugar dos jet-skis poluidores e lanchas potentes poluidoras e banana-boats ridículos e escunas cujo passeio é embalado por trilhas sonoras de filmes do Indiana Jones; miram os costões e áreas de preservação e não encontram prédios, casas e outros empreendimentos irregulares construídos sob a rígida vigilância de políticos desatentos; voam pela faixa de areia e enxergam só areia, que na cidade entrevista por elas ainda não foi engolida pelas casas criminosamente construídas à beira-mar nem é utilizada para festas "VIP" de réveillon, privando o público do seu espaço; dão rasantes sobre o espelho dágua e ainda encontram fartura de peixes para deglutir, no lugar de uma sujeira cada vez mais irremovível que bóia e nos fere o olho, o nariz e a saúde. Elas até hoje não conseguiram compreender o sentido da canção de Luiz Henrique Rosa, que diz "Ai, que saudades que eu tenho da minha lagoa", já que a Lagoa da Conceição, do seu ponto de vista, ainda é um paraíso pujante de vida, cor e cheiro de mar como desde sempre. Nessa cidade fantástica das gaivotas nativas, o Avaí é o time mais vezes campeão do Estado e também o de maior torcida. E a bruxa contou ainda que dentre todas essas gaivotas, as que mais enxergam a beleza, a intensidade e a presença de uma Ilha que não existe mais são as que vivem entre Coqueiros e Itaguaçu, bairros onde Florianópolis é mais Rio de Janeiro. Eis, portanto, toda a verdade. De minha parte, desconfio que as belas gaivotas que habitam Florianópolis são todas umas hippies da primeira geração dos hippies. Mas não considero que essa característica as faça um exemplo acabado de alienação. Afinal, elas não escrevem as leis, não se elegem vereadoras nem são envolvidas até as asas em operações da Polícia Federal como a Moeda Verde. Diria mesmo que as invejo. Todo dia, quando abro a janela aqui de casa, não por acaso em Coqueiros, sinto prazer em observá-las planando, corajosas, contra o vento Sul, velho e vagabundo, como o definiu outro dia o poeta Cruz e Sousa.
Herbert Matthews e Fidel Castro
O repórter que a história não absolveu
por Felipe Lenhart*
No dia 6 de março, reportagem de James C. McKinley Jr., correspondente do The New York Times em Havana, descrevia como estudantes cubanos, por meio de um mercado informal de pen drivers e conexões clandestinas de internet, fazem para enviar para o exterior notícias e desabafos que não seriam publicados no Granma. Situação semelhante enfrentou o também jornalista do NYT Herbert Matthews, em 1957, para ludibriar a censura de Fulgêncio Batista. Para sair do país com as anotações de uma reportagem histórica, ele precisou recorrer à imunidade da esposa. Presas à cinta, coladas ao corpo de Nancy Matthews, viajaram as fotos e os apontamentos que comprovariam a existência de Fidel Castro. O relato dos bastidores, da execução e das conseqüências da entrevista com o líder revolucionário – cuja data, 16 de fevereiro, é comemorada em Cuba – está em O homem que inventou Fidel (Cia. das Letras), de Anthony DePalma. Lançada em 2006, a obra ganha atualidade com a renúncia do comandante-em-chefe.
O encontro dos dois se deu numa clareira da Sierra Maestra, após o jornalista ter furado o bloqueio militar da região disfarçado de fazendeiro e passado a noite em claro à espera do entrevistado. Fidel estava escondido com o seu exército estropiado, pronto para mudar a história à bala, mas a versão oficial, divulgada mundo afora meses antes, era de que fora morto, seu cadáver desaparecido nos charcos de um pântano onde ele, Raúl Castro, Che Guevara e mais um punhado de homens desembarcaram do veleiro Granma, vindos do México, sob o bombardeio de aviões do governo.
A reportagem que o NYT publicou na capa em 24 de fevereiro de 1957 mostrava uma foto de Fidel armado e a reprodução da sua assinatura nas anotações de Matthews (com a data da entrevista). No texto, o jornalista escreveu que os revolucionários queriam "uma mudança radical e democrática para Cuba, e portanto anticomunista" e que o movimento “é também nacionalista, o que, em geral na América Latina, significa anti-ianque”. O governo cubano se pronunciou: a entrevista era uma farsa. O NYT então publicou uma fotografia de Matthews e Fidel no meio da mata. A reação foi trepidante. Jovens norte-americanos viajaram à Ilha para se juntar aos heróis da Sierra; setores de Washington ficaram satisfeitos, porque empresários e políticos já estavam desiludidos com Batista (apesar de ser de direita e "confiável", o ditador era corrupto demais, um empecilho ao business); a luta por valores apresentados como os dos Founding Fathers encheu de orgulho a nação que estaria exportando, assim, o seu modelo de democracia.
O furo, talvez a entrevista mais importante do século XX, fez Matthews acreditar que haviam retornado os bons tempos, ele que começara no departamento comercial, subira a repórter, editor, correspondente internacional, repórter especial e editorialista. Mas se a reportagem exclusiva tornara a lhe inflamar o ego, ressuscitara também os questionamentos ao seu bom senso e à sua ética jornalística a partir do momento em que Fidel passou a expropriar empresas norte-americanas, pregar anti-americanismo em seus longos discursos, fuzilar gente ligada ao regime deposto nos paredões... Sobretudo depois que Guevara e Raúl estreitaram relações com a União Soviética. Começou a recair sobre o jornalista a suspeita do engodo: Matthews teria escondido o caráter comunista de um regime instalado a 140 km da Flórida, em plena Guerra Fria.
Para os detratores do veterano repórter, esse tipo de manipulação não seria novidade. Apesar de ser um dos responsáveis por redigir as opiniões do mais respeitado jornal do planeta, Matthews acumulara rusgas com editores e políticos no quesito “editorial x opinião”. No começo da carreira, ele cobrira a invasão da Abissínia pela Itália, em 1935, e a sua admiração por Mussolini ia além das entrelinhas – arrepender-se-ia, depois, do apoio ao fascimo. Na Guerra Civil espanhola – ao lado de Ernest Hemingway e Robert Capa –, diziam, só faltou-lhe empunhar um rifle de braços dados com os comunistas.
O endurecimento progressivo do regime provocou inúmeros problemas para Matthews. Ele passou por todas as humilhações que um jornalista acusado de traição poderia passar em tempos de guerra – o fiasco da invasão da Baía dos Porcos, em 1961, e o episódio da “crise dos mísseis”, em 1962, agravariam a situação: ameaças de morte, investigações do FBI, interrogatórios no Senado, inquirições de toda a espécie, o desprezo de velhos amigos, a desconfiança de antigos patrões. É comovente acompanhar a luta de Matthews em defesa de sua honestidade: o Fidel de 1957 não era comunista e queria sim realizar eleições livres ao assumir o poder. Para ele, os vendavais da História – incluindo a animosidade dos EUA – é que haviam arrastado Cuba para dentro da Cortina de Ferro.
Browsing Books
Paperback Row
By ELSA DIXLER
When the Book Review introduced a new best-seller list devoted to trade paperback fiction last Sept. 23, the editors explained that the list “gives more emphasis to the literary novels and short-story collections reviewed so often in our pages (and sometimes published only in softcover).” That suggests the difference between trade and mass-market fiction, but it doesn’t really make it clear, and many readers have written to express their confusion. This column, sitting as it does in the print edition next to the full spread of paperback best-seller lists, will attempt to explain the difference.
For this exercise we need a ruler and two versions of a book whose market niche has particularly confounded readers: Ian McEwan’s “Atonement,” which appears on both the trade and mass-market fiction lists. (This week it appears at Numbers 8 and 17, respectively.) “Atonement,” a gracefully written novel about the power of the past and the nature of storytelling, set mostly in England around the time of World War II, was first published in the United States in 2002. The paperback appeared a year later and spent 11 weeks on our (at that time, only) paperback best-seller list. The movie, a sweeping love story starring Keira Knightley and James McAvoy, opened here in December 2007. In November, just before the movie’s release, Anchor, the publisher of “Atonement,” issued a mass-market paperback.
I have before me two copies of “Atonement.” The cover of the trade version, published in February 2003, is black and white. It shows a child seated on stone steps, calling to mind the Tallis family’s country house and their younger daughter, Briony, who sets the plot in motion. Employing my ruler, I find that the book’s dimensions are 7.9 by 5.2 by 0.9 inches. It sells for $14.95. And now, the mass-market version. This cover is in color, and it features photographs of Knightley and McAvoy looking passionate in their Oscar-nominated period costumes. This book measures 6.8 by 4.2 by 1.2 inches, and it costs $7.99.
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