Há um segurança que patrulha a rua em que moro todas as noites. Está sempre só, com um porrete pendurado na cintura. Veste calça cáqui e casaco preto. É negro ou mulato, não sei dizer ao certo, pois todas as vezes em que o vi foi de passagem, de dentro do carro. O que sempre fiz foi levantar a mão, num cumprimento, tentando ser cordial. Ele respondeu com um sorriso em todas as oportunidades. De qualquer forma, é uma pessoa que esqueço com facilidade. Vejo-o agora, esqueço-o ali, no minuto seguinte. De vez em quando, quando eu e a Jade estamos na cozinha, jantando, o janelão aberto à brisa noturna, o silêncio é quebrado pelo seu apito vigilante. É o alarma: estou aqui, zelo por vocês, que Deus me ajude. Minha vontade é descer e apertar sua mão, dizer “lembrei-me”. Não faço nada, sigo comendo, conversando, até que o próximo silvo me belisque a consciência. Um gole a mais de vinho e volto à letargia. Assim é todo dia.
Ontem, porém, o apito do homem soou diferente. Eu e a Jade chegamos, e no hall de entrada havia uma carta da síndica pendurada no espelho, exposta ao olho geral. Pois o nosso segurança está na pior. Sua casa queimou inteira. A polícia desconfia de que o lar do nosso polícia foi vítima de um incêndio criminoso. Ele perdeu tudo, veio ao Dona Lídia com a garganta e os olhos apertados. Explicou a situação, reconheceu que perdeu tudo e, no seu desespero, apresentou até Boletim de Ocorrência. A carta, como a visita, é um apelo. A síndica revela que o condomínio tem uma sala fechada com pertences velhos e abandonados dos moradores. Pede que todos revirem esse baú de tralhas, em busca de doações. Exclama dor, penalizada, e pede ajuda em nome do vigia.
Somos novos na vizinhança. Não possuímos nada na dependência comum dos objetos esquecidos. Mesmo assim, a Jade reuniu comida e roupas nossas para dar ao trabalhador: uma doação que talvez nos faça falta, mas que certamente lhe será um alento. Sábado o homem aparecerá para recolher tudo. É claro que me espanta essa solidariedade despertada apenas quando a tragédia alheia nos bate à porta. Mas também penso cá comigo que é bom que ainda tenhamos certa compaixão. Mesmo que ela esteja escondida sob goles de vinhos.
26/04/2007
24/04/2007
Uma pausa para o futebol
Semanas tensas em Porto Alegre. Mas deu tudo certo. O Grêmio precisava fazer 5 gols em 2 adversários. Fez. Então, está tudo bem.
E eles que se danem.
imagem do site do Ducker, gremistão da internet.
08/04/2007
Uma data: há um ano, uma noite
"Surge a alvorada
folhas a voar
e o inverno do meu tempo começa
a brotar, a minar"
Cartola
"Tem de tudo em uma festa de casamento:
o que deseja a felicidade do casal
e a que torce para que a noiva caia da escada."
Luiz Carlos Prates
"Weddings make a lot of people sad
But if you're not the groom
You're not so bad!"
Todos dizem eu te amo, de Woody Allen
"Vitality shows in not only the ability to persist
but the ability to start over."
F. Scott Fitzgerald
Eu caminhava em círculos diante do altar improvisado. O Jaci me olhava nos olhos, e os olhos dele sorriam. Depois eu reparava a boca dele e ela sorria também. Dizia "Tá nervoso, hein, bicho?" e o brinco na sua orelha esquerda brilhava. O clima era bom, de feliz apreensão, tensão acolhedora. Respirava-se fundo à minha volta. E eu em círculos... Ainda em mim, mas cuidando a porta, os olhos das pessoas de que gosto. Muitas que eu amo e de quem sinto falta, e que me fazem bem quando ligam, me dizem bom dia. Gente que precisava estar ali para me ver suar e andar nervoso, rir da orquídea branca que o meu padrinho pendurara na lapela do meu terno caro. Procuro em volta, tudo é mancha, vago. Cadê o fotógrafo? Então, a música. E eu estaco.
Os olhos do Felipe eu conhecia há tempos – oito anos, precisamente -, mas, daquele jeito, com aquele brilho e aquela certeza, eu nunca tinha visto. Quase molhei os meus diante daquela paisagem, sobretudo quando o primeiro acorde trouxe os versos de poema do Cartola. Dei as mãos para o meu pai, ensaiei o primeiro passo, embaralhei as regras do buquê: esquerda ou direita? Suspirei; agradeci cada taça de champanhe anterior, certa de que a felicidade seria insuportável com um pingo a mais de lucidez. Então, todos os primeiros erros ficaram para trás; junto deles, a descrença, a desesperança, a dor, toda a dor. Se ainda restava alguma sombra, ela se dissipara naquele instante: o inverno do meu tempo começava ali, naquela noite quente de abril, com quarenta minutos de atraso na cerimônia, com alguns anos de atraso em relação à própria vida. Depois daqueles passos, seria só agradecer.
Cartola! O suor congelou no meu rosto. Passei meses imaginando que música a Jade escolheria para ser o tema daquela noite. Surpreso, ouvidos enlevados, saquei o Jaci – ele estava de olhos fechados, um riso rasgando o rosto virado para cima. Lembrei das primeiras noites, reconhecendo-se ao tato, deitado no chão da sala da casa, ouvindo o Angenor, recém-apresentado a mim por ela. Eu jamais tinha escutado Ensaboa, e fiz de Agenor o som ambiente do churrasco do meu aniversário de 2004. Mal lembrei isso tudo quando ouvi "ahs" e "ohs" e me dei conta. Respirei fundo (minha vez), sem um passo a mais, dei meia volta e vi que lá vinha ela, linda de branco, ao som do crioulo. Agora, o presente retomava o seu prumo, e a verdade restabelecia a história.
A cerimônia parece ter durado apenas o tempo do sim. O calor quente que derretia tudo não poupou nem a maquiagem nem o coração; ao fim de alguns segundos já me sentia estrangulada por alguma coisa impossível de nominar. Com as mãos suadas, percebi, compreendi com ainda mais clareza todas as marcas passadas. Havia sentido naquilo, sim, havia tanto sentido quanto jamais deixei de acreditar. Busquei algumas pessoas, Tânia, Maria Luiza, Cris, Camila; encontrei quem nem imaginava, Tane, Maurício, Scotto, Andréia. Em meio ao falatório distante e à benção sempre presente, como um abraço prolongado, senti falta de gente que jamais seria paisagem de novo: meu tio, minha prima, meu irmão. Já não conseguia mais lamentar, porém: tinha tudo o que de fato importava.
A festa foi tão boa que esquecemos a certidão de casamento. No táxi, até o hotel a Jade chorou no meu ombro. Não houve noite de núpcias. A champanhe e as frutas ficaram intactas, e as pétalas de flor murcharam com o nosso sono cúmplice. Voltamos da lua-de-mel direto para a nossa casa, em Coqueiros. Há um ano.
Felipe e Jade Lenhart
Fotos do casamento!
Mais fotos do casamento!
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