A viagem havia durado três dias e havia sido horrenda. As estradas, as famosas estradas sicilianas em virtude das quais o príncipe de Satriano havia perdido a lugar-tenência, eram vagos vestígios cheios de buracos e poeira. A primeira noite em Marineo na casa de um tabelião amigo ainda havia sido suportável; mas a segunda em uma hospedaria sórdida de Prizzi fora dura de passar, três em cada cama, ameaçados por fauna repulsiva. A terceira, em Bisaquino. Não havia percevejos, mas em compensação Don Fabrizio encontrara 13 moscas no copo de granita; um pesado cheiro de fezes exalava tanto das ruas quanto do vizinho "quarto dos cântaros" e isso gerara no Príncipe sonhos penosos; acordando com a primeira luz, afundado em suor e fedor não pudera deixar de comparar essa viagem nojenta à sua própria vida, que transcorrera inicialmente em planícies risonhas, escalando em seguida montanhas íngremes, esgueirando-se entre gargantas ameaçadoras, para desembocar mais tarde em intermináveis ondulações de uma única cor, desertas como o desespero. Essas fantasias ao amanhecer eram o que de pior podiam acontecer a um homem de meia-idade; e embora Don Fabrizio soubesse que estavam destinadas a desvanecer com a atividade do dia, sofria agudamente com elas porque era suficientemente experimentado para saber que deixavam no fundo da alma um resíduo de luto que, acumulando-se a cada dia, acabaria por se tornar a verdadeira causa da morte.
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29/07/2009
Pinceladas de Tomasi di Lampedusa
O Gattopardo, BestBolso
Tradução de Marina Colasanti
página 96
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09/04/2009
Pinceladas de Lima Barreto
Recordações do escrivão Isaías Caminha
Lima Barreto
Capítulo 3
(...)
Do interior de um café, o Laje chamou-me. Não estava só; acompanhava-o o doutor Ivã Gregoróvitch Rostóloff, jornalista brasileiro a quem fui apresentado.
— Do Jornal do Brasil? perguntei.
— Não, senhor. Trabalhei no O Combate, de Belém, na Gazeta de Leopoldina; no Deutsches Tageblatt, de Blumenau; no Al-Barid, de São Paulo e aqui, no Rio, no Harum Al-Raxid, órgão da colônia síria. Pretendo, porém, acrescentou, entrar em breve para O Globo, onde vou fazer o artigo de fundo e tratarei da política interna.
— Escreve em muitas línguas?!
— Em dez.
— É extraordinário, fiz eu, não podendo conter a minha parva admiração.
— Tive sempre muito jeito... Logo, em menino, pelas primeiras lições de francês, comecei a escrever... Depois, houve sempre em mim um desejo de ver povos, de andar à aventura... Logo que sai da universidade, parti para a Índia. Queria servir a um rajá, mas não há mais rajás. Fui à China, ver se entrava como instrutor do exército do vice-rei de Cantão. Não consegui. Parti para o Japão, onde fui chefe de uma fábrica de pólvora... Tenho viajado muito...
— Você já esteve em Paris, Gregoróvitch? indagou o padeiro.
— Ora! fez o jornalista. Quem já não esteve lá! Estive na Índia, em Calcutá, onde trabalhei ao lado do grande Rai Kisto—conhece doutor?
— Não.
— Quem? indagou o Laje.
— Rai Kisto Das Pal Beader, um grande jornalista hindu... Admira-me que o doutor não o conheça; na Europa já se fala nele. O Professor Bouglé, de Toulouse, cita o seu nome em uma das suas últimas obras...
— É vivo? indaguei.
— Não. Morreu há alguns anos.
O caixeiro veio servir-nos café e o jornalista depois de sorver um trago, perguntou-me:
— Já está formado?
— Vou matricular-me ainda, respondi sob o olhar de censura do Laje da Silva.
— Direito?
— Medicina...
— Não é mau... Toda a carreira serve, mas...
— O doutor é formado em Direito? indaguei por minha vez
— Não. Formei-me em Línguas Orientais e Exegese Bíblica, na Universidade de Sófia, tendo começado o curso no Cairo.
Disfarcei a vontade que me deu de rir, ouvindo tão extravagante titulo escolar. Havia alguma coisa de opereta, mas o homem era tão simpático, tinha sido tão amável e parecia tão ilustrado que me esforcei por sujeitar o meu ímpeto de rir, soltando uma frase à-toa:
— Na Europa o homem de estudo tem campo, sabe onde deve chegar; aqui...
— Qual, doutor! Não há como a sua terra! A questão é pendurar, quando se entra, a sobrecasaca de cavalheiro no Pão de Açúcar; e no mais — tudo vai às mil maravilhas!
O padeiro ficou atônito com a cínica franqueza do julgamento do jornalista. Teve um assomo de virtude e objetou pudicamente:
— Nem tanto, doutor! Nem tanto! olhe que ainda há homens honestos nesta terra e em altas posições — o que é mais raro!
O doutor Gregoróvitch dardejou-lhe um breve olhar sarcástico e expelindo uma longa fumaça cheia de dúvida e de troça, disse devagar:
— Pode ser, Laje! Quem sabe?
Só, subindo a rua movimentada, pus-me a interrogar-me sobre o tal Gregoróvitch. De que nacionalidade era? Que espécie de moralidade seria a sua? Com aquele título burlesco de doutor em Línguas Orientais e Exegese Bíblica, quem poderia ser ao certo? Um bandido? Um aventureiro simplesmente? Ou um homem honesto, de sensibilidade pronta a fatigar-se logo com o espetáculo diário e que por isso corria o mundo? Quem seria? E jornalista! Jornalista em dez línguas desencontradas! Mas era simpático o diabo, de fisionomia inteligente...
(...)
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01/04/2009
Pinceladas de Gay Talese
Já que hoje foi confirmada a presença de Gay Talese na Flip deste ano, republico abaixo um trecho da obra-prima A mulher do próximo (Cia. das Letras), comentada aqui em nanopinião de 2007.
“De volta aos Estados Unidos, Talese continuou sua pesquisa em viagens pelo interior, entrevistando homens e mulheres comuns, bem como líderes comunitários e celebridades locais. Conversou tanto com casais monogâmicos e casais praticantes assumidos da troca de parceiros quanto com promotores e advogados de defesa, teólogos e conselheiros matrimoniais. Passou semanas em Virgínia Ocidental, Kentucky, Indiana, Ohio e depois desceu para o Cinturão da Bíblia, onde ouviu sermões em igrejas e compareceu a reuniões municipais, prestou atenção nas conversas dos outros em bares, visitou distritos policiais e os bairros da pesada. Durante o dia, passeava pelas zonas comerciais, notando a proximidade das Woolworth’s e J. C. Penney com as casas de massagem e cinemas pornôs. À noite, demorava-se nos saguões dos Holiday Inns, Ramadas e outros motéis, observando que homens com terno cinzento e pasta de executivo compravam Playboy e Penthouse antes de subirem para seus quartos. Observou também casais jovens com filhos e caminhonetes entrando em shopping centers; sólidos rotarianos e kiwanianos, com camisas de cetim escandalosas, jogando boliche; mulheres sardentas do interior, retirando romances góticos de bibliotecas escolares; moradores bronzeados de subúrbios de classe média jogando partidas de tênis em duplas mistas; membros da geração Pepsi cantando no coro da igreja aos domingos. Depois de longas conversas com esse tipo de gente, Talese percebeu que a vida familiar normal e as tradições americanas perduravam na superfície, mas no âmbito individual estavam sendo repensadas e reavaliadas. Nas viagens, Talese procurava não esquecer que, apesar das mudanças sociais e científicas relevantes para a Revolução Sexual – a pílula, a reforma das leis sobre aborto e as restrições legais à censura –, havia milhões de americanos cujo livro favorito continuava a ser a Bíblia, que não cometiam adultério e tinham filhas universitárias ainda virgens. A Reader’s Digest indiscutivelmente prosperava, e, embora a taxa de divórcio fosse mais alta do que nunca, o mesmo acontecia com a de segundas núpcias.”
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14/09/2008
Pinceladas de William Faulkner
Esquetes de Nova Orleans, José Olympio
tradução de Leonardo Fróes
página 131
Mr. Harris detestava duas coisas: seu vizinho, Juan Venturia, e uma música chamada O Rosário. Experimentava um violento prazer por nunca ter decidido qual detestava mais. Nos dias em que Venturia, fazendo suas faxinas, despejava entulho e latas – e uma vez um gato morto – na entrada da casa de Mr. Harris; ou quando uma das apreciadas galinhas de Mr. Harris adentrava o espaço de Venturia e conseqüentemente sofria abrupta e completa extinção, ele tinha consciência de que odiava Venturia com um furor desconhecido no mundo. Porém, quando forçado pela esposa ou as filhas a assistir a um desses saraus musicais onde estrangeiros de jubas desgrenhadas, incapazes de falar ou tocar em inglês, arranhavam rabecas aflitivas, ele tinha consciência de que nada em parte alguma poderia ser pior do que O Rosário – ou, no que lhe dizia respeito, qualquer outra modinha.
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27/08/2008
Pinceladas de Gabriel García Márquez
O outono do patriarca, Record
tradução de Remy Gorga, Filho
páginas 159 e 160
Pouco antes do anoitecer, quando acabamos de tirar a courama apodrecida das vacas e arrumamos um pouco aquela desordem de fábula, ainda não havíamos conseguido que o cadáver se parecesse à imagem de sua lenda. Nós o havíamos raspado com ferros de descamar peixes para tirar-lhe a rêmora de fundo do mar, nós o lavamos com creolina e sal de lavar pedra para apagar as marcas da putrefação, nós empoamos sua cara com amido para esconder os remendos de talagarça e os buracos de parafina com que tivemos de restaurar-lhe a cara picotada de pássaros de muladar, nós lhe devolvemos a cor da vida com camadas de ruge, e batom de mulher nos lábios, mas nem mesmo os olhos de vidro incrustados nas covas vazias conseguiram impor a ele o semblante de autoridade que seria necessário para expô-lo à contemplação das multidões. Enquanto isso, no salão do conselho de governo invocávamos a união de todos contra o despotismo de séculos para repartir em partes iguais o espólio do seu poder, pois todos haviam voltado ao exorcismo da notícia sigilosa mas incontível de sua morte, haviam voltado os liberais e os conservadores reconciliados no remorso de tantos anos de ambições postergadas, os generais de alto-comando que haviam perdido o rumo da autoridade, os três últimos ministros civis, o arcebispo-primaz, todos os que ele não teria querido que estivessem estavam sentados à volta da longa mesa de nogueira tentando pôr-se de acordo sobre a forma como se devia divulgar a notícia daquela morte enorme para impedir a explosão prematura das multidões na rua, primeiro um boletim número um do correr da primeira noite sobre um ligeiro percalço de saúde que havia obrigado a cancelar os compromissos públicos e audiências civis e militares de sua excelência, em seguida um segundo boletim médico no qual se anunciava que o ilustre enfermo se havia visto obrigado a permanecer em suas habitações privadas em conseqüência de uma indisposição própria de sua idade, e por último, sem nenhum aviso, os dobres rotundos dos sinos da catedral no amanhecer radiante da cálida terça-feira de agosto de uma morte oficial que ninguém havia de saber nunca com toda certeza se em realidade era a sua.
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20/08/2008
Pinceladas de Lev Tolstói
A sonata a Kreutzer, Editora 34
tradução de Boris Schnaiderman
páginas 46 e 47
– O mais espantoso está justamente em que ninguém queira saber aquilo que é tão claro e evidente, aquilo que devem conhecer e pregar os médicos, mas sobre o que se calam. O caso é terrivelmente simples. O homem e a mulher foram criados como animais, de modo que, depois do amor carnal, começa a gravidez, seguida da amamentação, estados em que o amor carnal é nocivo tanto para a mulher como para o filho. Existe número igual de homens e mulheres. O que decorre disso? Parece claro. E não é preciso muita sabedoria para tirar daí a conclusão que fazem os animais, isto é, a abstenção. Mas não. A ciência chegou a tal ponto que descobriu não sei que leucócitos, que correm no sangue, e toda espécie de tolices desnecessárias, mas não conseguiu ainda compreender isto. Pelo menos, não se ouve que ela o diga. E eis que sobram para a mulher apenas duas soluções: a primeira consiste em fazer de si um monstro, destruir em si ou ficar destruindo, na medida das necessidades, a capacidade de ser mulher, isto é, mãe, a fim de que o homem possa ter um prazer tranqüilo e permanente; ou a segunda solução, e até mesmo não uma solução, mas uma transgressão simples, grosseira, direta, das leis da natureza, que se comete em todas as assim chamadas famílias honestas. E consiste precisamente em que a mulher, contrariando a sua natureza, deve ser ao mesmo tempo grávida, nutriz e amante, deve ser aquilo a que nenhum animal se rebaixa.
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25/06/2008
Pinceladas de Victor Hugo
Os miseráveis, Cosac & Naify
tomo 2, páginas 110 e 111
"A vida para Marius ficou difícil. Comer com o dinheiro obtido na venda das roupas e do relógio não era nada. Ele se alimentou também dessa coisa inexprimível que se chama o pão que o diabo amassou. Coisa horrível, que inclui os dias sem pão, as noites sem sono e sem luz, a lareira sem fogo, as semanas sem trabalho, o futuro sem esperança, os cotovelos rotos, um chapéu velho que provocava o riso das mocinhas, a porta que encontra fechada à noite por não se ter pago o aluguel, a insolência do porteiro e do estalajadeiro, as zombarias dos vizinhos, as humilhações, a dignidade ofendida, a aceitação de trabalhos vis, o desgosto, a amargura, o desânimo. Marius aprendeu como se devora tudo isso, e como, muitas vezes, essas são as únicas coisas que existem para se devorar. Nesse momento da existência em que o homem tem necessidade de orgulho, porque tem necessidade de amor, viu-se escarnecido, porque estava mal vestido, e ridicularizado, porque era pobre. Na idade em que a juventude nos enche o coração de uma altivez imperiosa, ele muitas vezes baixou os olhos para as botinas furadas e conheceu a vergonha injusta e o pungente rubor da miséria. Admirável e terrível prova da qual os fracos saem infames e os fortes, sublimes. Cadinho em que o destino joga o homem todas as vezes em que quer criar um patife ou um semideus.
Nas pequenas lutas, fazem-se grandes ações. Há bravuras persistentes e ignoradas que se defendem corajosamente na sombra contra a invasão fatal das necessidades e torpezas. Nobres e misteriosos triunfos que nenhum olhar vê, que nenhum renome paga, que nenhuma fanfarra saúda. A vida, a desgraça, o isolamento, o abandono, a pobreza, são campos de batalha que também têm seus heróis; heróis obscuros, maiores talvez que muito herói ilustre.
Muitas naturezas firmes e raras assim foram criadas; a miséria, quase sempre madastra, às vezes mostra-se mãe; a privação gera o poder da alma e do espírito; a penúria é a nutriz da altivez; a desgraça é ótimo leite para os magnânimos.
Houve um momento na vida de Marius em que ele varria o patamar da escada, comprava um soldo de queijo Brie na quitanda, esperava que a tarde caísse para ir ao padeiro comprar um pedaço de pão, que levava furtivamente para seu quarto, como se o tivesse roubado. Às vezes viam entrar, no açougue da esquina, em meio às cozinheiras cheias de chistes que o acotovelavam, um jovem de aspecto acanhado, carregando livros debaixo do braço, ao mesmo tempo tímido e arisco, e que, ao entrar, tirava o chapéu mostrando a testa coberta de suor, fazia profunda saudação à açougueira admirada, outra saudação ao cortador, pedia uma costela de carneiro, pagava-a com seis ou sete soldos, embrulhava-a num papel, punha-a sob o braço, entre dois livros, e ia-se embora. Era Marius. Com essa costeleta, que ele próprio cozinhava, vivia três dias. No primeiro dia, comia a carne, no segundo, a gordura, e no terceiro dia roía o osso.
Ainda estava de luto pela morte do pai quando começou no seu íntimo a revolução de que acabamos de falar. Desde então nunca mais deixou de usar roupas pretas. Mas as roupas é que o deixaram. Chegou um dia em que seu casaco tornou-se imprestável. As calças ainda resistiam. Que fazer? Courfeyrac, que por sua parte o ajudara bastante, presenteou-o com um casaco velho. Por trinta soldos, Marius mandou-o a um porteiro qualquer que o virou do avesso; era a sua roupa nova. Mas o casaco era verde. Marius, então, só saía depois do pôr-do-sol. Com isso, seu casaco parecia preto. Querendo vestir sempre o luto, vestia-se da noite."
Nanopinião (10/06/2007).
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16/06/2008
Pinceladas de Ernest Hemingway
As ilhas da corrente (1970)
tradução de Milton Persson
editora Bertrand Brasil
páginas 174 e 175
– Avance mais um pouco – pediu Roger.
– Avançando mais um pouco.
David já tinha a chumbada a seu alcance.
– Tudo pronto, Eddy? – perguntou Roger.
– Claro – respondeu Eddy.
– Olho nele, Tom – gritou Roger, inclinando-se e agarrando a chumbada do fio.
– Afrouxe o travão – pediu a David e começou a içar o peixe devagar, segurando e erguendo o fio pesado para aproximá-lo do arpão.
O peixe vinha subindo, comprido e largo como uma vasta tora na água. David o controlava, olhando de relance para o caniço, a fim de verificar se não estava enroscando. Pela primeira vez em seis horas não retesava as costas, braços e pernas, e Thomas Hudson viu que os músculos das pernas se retorciam e tremiam. Eddy estava debruçado à amurada com o arpão e Roger içava, vagarosa e uniformemente.
– Pesa mais de quinhentos – afirmou Eddy. Depois em voz baixa: – Roger, o anzol tá quase arrebentando.
– Dá para alcançá-lo? – perguntou Roger.
– Ainda não – disse Eddy. – Vá aproximando ele com calma, devagar.
Roger prosseguiu içando o fio de arame e o grande peixe se ergueu uniformemente para o barco.
– Ta se cortando – avisou Eddy. – Tá preso praticamente por nada.
– E agora, dá pra alcançar? – perguntou Roger. Seu tom de voz não mudara.
– Por enquanto ainda não – respondeu Eddy, também baixo.
Roger içava com toda a delicadeza e suavidade possíveis. Depois, parando, endireitou-se, perdendo a tensão; segurando a chumbada frouxa nas duas mãos.
– Não. Não. Não. Ah, meu Deus, por favor, não – exclamou Tom Jr.
Investindo para baixo com o arpão, Eddy saltou pela amurada para tentar cravá-lo no peixe se conseguisse alcançá-lo.
Não adiantou. O grande peixe pairou ali na profundidade da água onde parecia um enorme pássaro roxo escuro e depois afundou lentamente. Todos o viram ir descendo, ficando cada vez menor, até sumir de vista.
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