13/07/2009
A crônica de hoje, no DC!
Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
Chuva e paciência
Hoje chove, e, nestes dias de chuva, até a folha do computador, já com todas estas letras e palavras, já com duas linhas quase completas, fica chocha, sem graça. Porque lá fora cai uma garoa triste, penosamente devagar.
– Cada pingo d’água deve equivaler a uma estrela que derreteu durante a noite.
Não me pergunte de onde tirei essa pensata, lembrei dela agora, com um sorriso magro nos lábios, quando olhei a peneira lá de cima que nos deságua esta amargura. Neste momento, devido à minha blasfêmia de um minuto atrás, o aguaceiro aumenta – vem temporal por aí.
Lá fora, o céu fica de uma cor pálida, parecendo uma grande, imensa porção de algodão mofado. Olho para os morros e não consigo ver nada. O sombrio nevoeiro me tira a visão dos cumes baixos de Florianópolis. Sinto-me péssimo, achando que nunca mais vou voltar a ver aqueles lugares que, na verdade, nem visitei e nem imagino como são, mas que, daqui da minha casa, faço questão de contemplar todo dia.
E o vento sul, este inferno meteorológico, acossa impunemente o meu bairro.
“Vento encanado mata”, dizem os sabidos, nossos avôs e avós, nossos vizinhos mais antigos e vividos. Aqui no bairro, então, meus bons velhinhos, morreremos todos assassinados pelo vento, pois em Coqueiros encana todo o vento do mundo. Ele grita: arranca veneziana das janelas de prédios, sacode as antenas de TV, arrebenta cordas frouxas nos varais das casas. É um turbilhão de ar em movimento, sem freio.
Ligo a televisão e sintonizo um canal que fornece previsões, todas muito suspeitas, sobre o tempo e o clima de cada região, cidade e quilômetro quadrado do Brasil. Espero, entorpecido pela calma, a região Sul, Santa Catarina e, finalmente, a ilha. Sol forte durante todo dia, uma pancadinha de chuva no fim da tarde, quando estiver escurecendo e a noite, avançando. Descubro, mais tarde, que o tal canal é estrangeiro e que seus funcionários nem imaginam a localização desta obscura ilha da América do Sul.
Sem muita paciência e esperança, descrente de que qualquer coisa possa mudar na atmosfera lá de fora e aqui de dentro nos próximos minutos, volto ao janelão da sala e observo, torcendo pelo temporal que se aproxima, lá fora. Que venha o cataclismo.
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Adorei essa frase:
ResponderExcluir"E o vento sul, este inferno meteorológico, acossa impunemente o meu bairro".
Acossa o meu também. Sofro horrores com o vento e com a maresia!
É, essa vida de praiano... :)
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