30/04/2008
28/04/2008
A reedição de Moby Dick e um pitaco sobre tradução
No dia 16 de janeiro, o escritor Sérgio Rodrigues postou em seu Todoprosa a abertura de Moby Dick, de Herman Melville, na seção "começos inesquecíveis". Aproveitou para comentar a tradução da primeira frase do livro: "Call me Ishmael" por "Chamai-me Ismael". Por ele, ficava "Me chamem de Ismael". Quando li, concordei.
Acontece que esta semana começa com o lançamento da "edição definitiva" brasileira do clássico de Melville, pela Cosac & Naify, com tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza. E que solução eles encontraram para o desafio da primeira frase? Esta:
"Trate-me por Ishmael".
Comentei com a Jade, e chegamos à conclusão de que é a melhor saída. Por quê? Porque não há certeza de que o sujeito que começa a conversar com o leitor se chama mesmo Ismael. "Me chamo", então, ficaria errado, e "chamai-me", um pouco mais correto. "Trate-me por" Fulano é perfeito.
Registros de uma banca nota A
Já contei, mas repito, babando na gravata: a Jade, minha amável mulher de 27 anos, defendeu tese de doutorado sobre Nelson Rodrigues quinta-feira passada, no curso de Letras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com nota máxima, A com louvor. Abaixo, fotos da proeza:
Jade, feliz feliz, assina a ata.
A cabeçona entre os grandes cabeções da banca (esq. à dir.): Walter Carlos Costa (UFSC), Edélcio Mostaço (USP/UDESC), Adriana Facina (UFF), Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC) e João Hernesto Weber (UFSC).
Os novos contistas de Santa Catarina
Descobri por acaso, no blog da Regina Carvalho, que o lançamento do livro organizado por ela será amanhã, às 19h30, no hall da reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Trata-se de O novo conto catarina, uma coletânea de contos, acredito que inéditos, de escritores da nova geração residentes em Santa Catarina. Encontrei alguns amigos, colegas e conhecidos na lista dos 31 autores: Carlos Henrique Schroeder, Dauro Veras, Dennis Radünz, Jaime Ambrósio, Maicon Tenfen, Marco Vasques, Moacir Loth, Raquel Wandelli e Suzana Mafra. Vamos lá!


O Estadão matou: Adelir é o padre sem noção
No dia 22, chamei aqui no 1 crônica por dia uma matéria do UOL Notícias sobre o tal padre Adelir de Carli, "o padre voador". O texto informava que ele, segundo instrutores de vôo de Curitiba, era "exibicionista". Achei bastante razoável. Ontem, porém, o Estadão foi ao ponto, em excelente texto de Mônica Manir, que, com Fred Melo Paiva, divide a contracapa do caderno Aliás em perfis e histórias de invejável qualidade - texto, sacadas e temas. Abaixo, print da primeira dobra da página e a abertura do perfil, perfeito da cartola às entrelinhas.
Mônica Manir, de Paranaguá, Paraná
Pra cima! Up! Up! Arriba! Voilá! O padre Adelir voou. E depois de 3 minutos desapareceu por completo na nuvem espessa que cobria sua base de lançamento para se tornar o brasileiro mais procurado da costa leste e o mais comentado em sites internacionais na última semana. Embaixo, a devota comunidade do Jardim Iguaçu, na cidade portuária de Paranaguá, não tinha essa amplitude toda. Apenas torcia o pescoço sob guarda-chuvas e sombrinhas à procura do pároco. Alguns bem que perguntaram se não era o caso de deixar o evento para um domingo de céu aberto. Nem era dia de nada! Mas o bicho foi teimoso que só. Assim que sete, oito homens fortes soltaram as cordas que o prendiam ao solo, padre Adelir fez com a mão em nome do pai e do filho, mas poucos viram o espírito santo. Sumiu.
A idéia de subir preso a mil balões de festa não teria sido inspiração divina, mas obra da internet, onde ele registrara a imagem de um americano que subiu aos céus sentado numa poltrona. Era Larry Walters. Em 1982, Larry amarrou 42 balões de hélio ao móvel para ver o que acontecia. Arremeteu-se a 16 mil pés (quase 4.900 metros) e não morreu por milagre. Como não tinha altímetro confiável, perdeu o posto no Guinness para o britânico Ian Ashpole, que alcançou meros, porém oficiais 11 mil pés, ou 3.350 metros.
Continua aqui (só para assinantes, infelizmente).
Pequena Miss Sunshine em busca da sua vinha
Hoje assistimos a Pequena Miss Sunshine na TV a cabo. O filme é muito divertido. Lá pela metade, quando o road movie já está a toda, a Jade me olhou e disse: "Já vi algo assim em algum lugar". Eu também: o nome do escritor John Steinbeck me ocorrera minutos antes. O enredo do filme de Jonathan Dayton e Valerie Farisé escrito por Michael Arndt é bem "parecido" com o enredo de As vinhas da ira: uma família sem dinheiro atravessa a costa oeste dos EUA a bordo de um carro aos pedaços para chegar à ensolarada Califórnia em busca de uma ilusão: os empregos e as terras fartas em Steinbeck, um concurso de beleza infantil para a gordinha Olive. Quase tudo que há no brilhante romance de Steinbeck há também no bom filme: a morte de um avô durante o percurso, a blitz policial com o cadáver no porta-malas, as descobertas pessoais de cada personagem, a família que quase se desfaz frente as dificuldades, o sonho acalentado que os une de que na Califórnia tudo vai dar certo etc. Não dá, claro. Mas, para os Hoover (do filme), tanto como para os Joad (do livro), foi preciso chegar lá para ter certeza do erro cometido. No filme, tudo é mais engraçado, e o desfecho é realmente um final feliz - no livro, é de rachar o coração.
A crítica do filme publicada pelo NYT em 26 de julho de 2006 cita, por cima, a semelhança entre as duas histórias.
Leia a nanopinião que publiquei, em 19 de agosto de 2007, sobre o livro As vinhas da ira aqui.
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Cinema
27/04/2008
Jardel: o matador que não faz mais gol
Havia anos eu não tinha notícias do Jardel, matador que deu ao Grêmio uma Libertadores (1995) e uma Recopa Sul-americana (1996). Era muito simples jogar com ele, Arce e Roger - os melhores cruzamentos do Brasil à época - nas laterais. Jardel jogou um ano e meio no Grêmio: 68 gols de pé, deitado, de cabeça, de barriga, de peixinho, de bicicleta, de bunda, em 73 jogos. Foi para fora do país: Porto (168 gols em 161 jogos), Galatassaray (34 gols em 44 jogos) e Sporting (53 gols em 49 jogos). Entre 1995, ano do bicampeonato da Libertadores pelo Grêmio, e 2003, sua média de gols foi de 1 por partida. Ganhou três prêmios de Artilheiro do Mundo e três Chuteiras de Ouro de Artilheiro da Europa. Agora, o incrível: desde 2003, marcou apenas 4 gols. O Esporte Espetacular de hoje veiculou uma entrevista com o jogador - aos 34 anos, ele voltou ao Brasil e atrás de clube. Mas está na pior: viciado em cocaína (diz que parou há dois meses), gordo etc. Na entrevista, conta uma história engraçada. Nas preleções dos jogos da Libertadores de 1995, Felipão apontava para a cabeça dele e dizia: "Tá vendo esse cabeção aqui, Arce, Paulo Nunes? Quando esiver no fundo, cruza que ele faz". E desmente que tenha dito "clássico é clássico e vice-versa".
Nanopinião 36: Reparação
Reparação, de Ian McEwan - Cia. das Letras
O primeiro impulso depois de ler Reparação é lamentar o final de Desejo e reparação, filme baseado no livro de Ian McEwan: é muito menos bonito e elaborado que o original. A adaptação do roteirista Christopher Hampton dirigida por Joe Wright é, no geral, um melodrama, e o livro é uma obra-prima de muitas leituras. E é muito pior, mais fraca de intensidade e emoção porque McEwan escreve bem demais, como eu não sabia que se escrevesse por aí... Agora, é preciso confessar um preconceito: comprei Reparação com dois pés atrás, e quase não o comprei, apesar de já ter lido críticas muito favoráveis. Sem me informar antes sobre a nacionalidade do escritor (e, portanto, da tradição literária de seu país) e sua idade, cheguei à conclusão fantástica, e burra, de que se tratava de um autor “contemporâneo”, ou “pós-moderno”, ou seja: nada de enredo, nada de personagens, só fluxo de consciência e livros em que não acontece nada. Há no Brasil, mas não só por aqui, tantos assim... Quantas críticas você já não leu a García Márquez, Vargas Llosa etc. de gente que, peito estufado, garante nunca ter lido Dickens, Mann, Hugo, Balzac, Zola etc. e que defende livros em que não acontece nada, narrados por figuras marginais, esquecidas ou isoladas, com muito sangue, muita violência, muitas bizarrices e fraturas sociais expostas em linguagem coloquial? Nada disso. Ian McEwan é inglês e completará 60 anos no dia 21 de junho – e, parece, segue a melhor tradição do seu país (ficaria chocado de ver uma crítica dele à “falta de atualidade” de Dickens, por exemplo). Bem, como só li Reparação, tenho receio de dizer que é um escritor supremo; vai que Reparação seja uma iluminação, trabalho extraordinário que talvez ele nunca mais consiga repetir? Pelo menos, é um autor admirável, e Reparação tem de entrar na lista dos melhores livros dos anos 2000, e deve figurar em listas que abranjam mais décadas. Mas as minhas dúvidas não acabam. Em Reparação, a prosa é tão rica, de uma engenhosidade tão rara, de tanta sensibilidade, que é impossível não pensar que quem narra a história é uma mulher. Talvez ele tenha se esforçado para emular um “estilo” feminino, se é que existe isso, e sua prosa em si nada tenha com aquilo (teimo em pensar que há em Reparação uma homenagem a Jane Austen, George Eliot – mulher também, lembre-se...) Bom, seria o caso, então, de os seus fãs pedirem com veemência: “não desencorpore Briony!”. Ainda pensando em termos literários, lá pelas tantas o narrador conta que Briony, jovem metida a escritora, tem certeza de que na época em que ela vive (pré-Segunda Guerra Mundial) a ficção não pode mais ser como a do século XIX, baseada em personagens e enredos... Mesmo depois de tomar conhecimento do nome do tal narrador da história, este trecho me pareceu uma ironia de McEwan, pondo uma idéia tão atual entre círculos literários na cabeça de uma jovem dos anos 1930. E Reparação é isso: personagens de quem você se aproxima e conhece em poucas páginas, enredo envolvente e uma prosa muito, muito elegante. Tão elegante que deve envergonhar certos escritores “contemporâneos” – porque invejável. Livraço.
Leia outras nanopiniões:
Nanopinião 35: Carne viva, de Paulo Francis
Nanopinião 34: A morte e a morte de Quincas Bica D'água, de Jorge Amado
Nanopinião 33: O homem que inventou Fidel, de Anthony DePalma
Nanopinião 32: Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum
Nanopinião 31: Rubem Braga - um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antonio de Carvalho
Nanopinião 30: A trégua, de Mario Benedetti - Alfaguara
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Nanopinião
25/04/2008
IstoÉ amiga do Serra?
Do boletim Expresso Digital, do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina:
ISTOÉ manipula foto para proteger Serra
Fotos publicadas na edição nº 267, de 10 a 16 de abril de 2008, no jornal BRASIL DE FATO
A revista ISTOÉ, que circula desde o dia 06 de abril, mostra que a campanha eleitoral já começou e de que lado está. Para proteger o PSDB e o governador de São Paulo, José Serra, a publicação, contrariando todas as regras do jornalismo, apagou uma inscrição “Fora Serra” de uma foto feita durante um protesto do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e do MBA (Movimento dos Atingidos por Barragens) contra a privatização da Cesp (Companhia Energética de São Paulo).
Mais que isso, o resultado visual inverte o significado da imagem que traz uma placa de trânsito “PARE”, como se quem devesse parar fossem os movimentos, e não as privatizações.
A adulteração de uma foto – passível de processo pelo detentor de seus direitos autorais, no caso, a Folha de São Paulo – é plenamente possível com o uso de um programa de tratamento de imagens, como o Photoshop, por exemplo, mas é prática condenada no meio jornalístico.
O fato escancara o poder de influência camuflada que os meios de comunicação de massa têm para atuar com o que vem sendo chamado de “Partido da Mídia”.
A foto adulterada é de autoria do fotógrafo Cristiano Machado.
O texto e imagens acima foram extraídos de reportagem publicada no jornal BRASIL DE FATO, edição nº. 267, de 10 a 16 de abril de 2008, de autoria de Marcelo Netto Rodrigues e Renato Godoy de Toledo.
Fotos publicadas na edição nº 267, de 10 a 16 de abril de 2008, no jornal BRASIL DE FATO
A revista ISTOÉ, que circula desde o dia 06 de abril, mostra que a campanha eleitoral já começou e de que lado está. Para proteger o PSDB e o governador de São Paulo, José Serra, a publicação, contrariando todas as regras do jornalismo, apagou uma inscrição “Fora Serra” de uma foto feita durante um protesto do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e do MBA (Movimento dos Atingidos por Barragens) contra a privatização da Cesp (Companhia Energética de São Paulo).
Mais que isso, o resultado visual inverte o significado da imagem que traz uma placa de trânsito “PARE”, como se quem devesse parar fossem os movimentos, e não as privatizações.
A adulteração de uma foto – passível de processo pelo detentor de seus direitos autorais, no caso, a Folha de São Paulo – é plenamente possível com o uso de um programa de tratamento de imagens, como o Photoshop, por exemplo, mas é prática condenada no meio jornalístico.
O fato escancara o poder de influência camuflada que os meios de comunicação de massa têm para atuar com o que vem sendo chamado de “Partido da Mídia”.
A foto adulterada é de autoria do fotógrafo Cristiano Machado.
O texto e imagens acima foram extraídos de reportagem publicada no jornal BRASIL DE FATO, edição nº. 267, de 10 a 16 de abril de 2008, de autoria de Marcelo Netto Rodrigues e Renato Godoy de Toledo.
24/04/2008
Um dia D, com nota A
Tudo certo! A doutora Jade Gandra Dutra Martins Lenhart, após uma banca de quatro horas de duração, recebeu nota máxima com sua tese sobre Nelson Rodrigues: "A com louvor". E agora, que virá??? :)
Hoje é o dia D: defesa de doutorado!
Hoje a Jade defende a tese de doutorado Nelson Rodrigues e sua cena: dramaturgia da dupla tensão, cinema da síntese. Hoje, enfim, ela festeja cinco anos dedicados à pesquisa, o lançamento do mais completo site sobre a vida e a obra do dramaturgo, uma dissertação de mestrado e as 500 páginas que escreveu agora. A banca se reúne às 14h30, no Centro de Comunicação e Expressão (CCE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Abaixo, uma crônica do Nelson, um dos mestres do idioma, retirada de A cabra vadia, reeditado há poucos dias pela editora Agir.
ps. o site Tudo sobre Nelson Rodrigues está fora do ar, porque hospedado na página do curso de Jornalismo da UFSC, atualmente em reformas.
Os idiotas confessos
Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante.
Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — “Uma santa! Uma santa!”. Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc.
Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão. E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — “Eu sou um quadrúpede!”. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — “Sou um quadrúpede de 28 patas!”. Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota.
E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos “melhores”. Só os “melhores”, repito, só os “melhores” ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político.
Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos “melhores”, só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.
Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os “melhores” podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — “Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido”. Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.
De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.
Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os “superiores”. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.
Quanto aos “melhores”, ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a “invasão dos idiotas”. E, de fato, eles explodem por toda parte: são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.
E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas o problema religioso. A Igreja tem uma hierarquia de 2 mil anos. Tal hierarquia precisa ser preservada ou a própria Igreja não dura mais quinze minutos. No dia em que um coroinha começar a questionar o papa, ou Jesus, ou Virgem Maria, será exatamente o fim.
É o que está acontecendo. Nem se pense que a “invasão dos idiotas” só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: — “Subdesenvolvimento” — e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gêmeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura.
Mas eu falava de que mesmo? Ah, da Igreja. Um dia, ao voltar de Roma, o dr. Alceu falou aos jornalistas. E atira, pela janela, 2 mil anos de fé. É pensador, um alto espírito e, pior, uma grande voz católica. Segundo ele, durante os vinte séculos, a Igreja não foi senão uma lacaia das classes dominantes, uma lacaia dos privilégios mais hediondos. Portanto, a Igreja é o próprio Cinismo, a própria Iniqüidade, a própria Abjeção, a própria Bandalheira (e vai tudo com a inicial maiúscula).
Mas quem diz isso? É o Diabo, em versão do teatro de revista? Não. É uma inteligência, uma cultura, um homem de bem e de fé. De mais a mais, o dr. Alceu tinha acabado de beijar a mão de Sua Santidade. Vinha de Roma, a eterna. E reduz a Igreja a uma vil e gigantesca impostura. Mas se ele o diz, e tem razão, vamos, já, já, fechar a Igreja e confiscar-lhe as pratas.
Cabe então a pergunta: — “O dr. Alceu pensa assim?”. Não. Em outra época, foi um dos “melhores”. Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o gênio se finge imbecil. Nada de ser gênio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram. E as freiras põem short, maiô e posam para Manchete como se fossem do teatro rebolado. Por outro lado, d. Hélder quer missa com reco-reco, tamborim, pandeiro e cuíca. É a missa cômica e Jesus fazendo passista de Carlos Machado. Tem mais: — o papa visitará a América Latina. Segundo os jornais, teme-se que o papa seja agredido, assassinado, ultrajado etc. etc. A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação. São os idiotas, os idiotas, os idiotas.
22/04/2008
Uma manchete lúcida sobre o tal padre Aderli
UOL NOTÍCIAS
22/04/2008 - 20h13
Padre Carli foi expulso de escola de vôo por indisciplina e exibicionismo, diz instrutor
Já tenho um novo despertador...
Sexta-feira, acordo com bumbos no ouvido. Olho o relógio: 7h20, quarenta minutos antes de o despertador apitar. Levanto, grogue, e abro a janela: um jaguara musuculoso derruba uma parede a marretadas, numa obra do Clube 12 de Agosto, em Coqueiros, terreno vizinho. Contenho um grito mal-educado. Vou à sala e ligo a TV: o telejornal anuncia com pompa as notícias de ontem, como os jornais que vou ler pouco depois, mas sem o apelo, o carisma, a inteligência do texto. O jaguara segue marretando a parede - que só cede, não cai - até as 8h. E aí pára. Silêncio. Mas já é hora de ir para o trabalho.
Terça-feira pós-feriado. Acordo assustado por um som terrível, indescritível, e quase caio da cama. Olho o relógio: 7h! Não é possível. Abro a janela e a cena é inacreditável: uma escavadeira e um caminhão manobram no pequeno terreno ao lado. Os motoristas contorcendo os volantes... E começa a dureza: junta a parede derrubada, acomoda os destroços; junta a parede derrubada, acomoda os destroços; junta a parede derrubada, acomoda os destroços... Eu não contenho o grito: "Brincadeira, hein? Escavadeira às sete da manhã é brincadeira!". O sujeito me olha com olhos arregalados, assustado, como se previsse que a qualquer momento alguém fosse pôr a cabeça para fora da janela, fora de si. Fecho a veneziana, o vidro. Vou para o computador. Procuro pelo site do Clube 12, quero um telefone. Ligo, ligo, ninguém atende. Aí me dá o estalo: antes das 8h, eles terminam a função. Às 7h45min, silêncio. Abro a janela de novo: um crioulinho varre o chão...
Indignado por não ter conseguido falar com ninguém no Clube 12 entre as 7h e as 7h45min, volto ao site. E descubro toda a verdade: a administração só funciona a partir das 8h. Tá explicado.
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Crônica
19/04/2008
Shine a light... Que show! Que puta show!
Ontem, assistimos a Shine a light, de Martin Scorsese. Deu o que eu desconfiava: a imprensa, quase toda, acho, trabalhou errado o filme, tratando-o como um documentário. Não é, claro. Por mais que o diretor tenha dito, se é que disse, que se trata de um doc, algum sujeito de bom senso deve (ou deveria) ter escrito, ao vê-lo em Cannes, que o Scorsese está (ou estaria) errado. Trata-se de um registro de luxo de um show extraordinário dos velhinhos, no Beacon Theater, em Nova Iorque. Como registro, impecável: com o melhor equipamento e os melhores profissionais do cinema, só podia ficar redondo (a edição é fantástica). Para que o espectador não assista somente ao show (afinal, é um "filme"), Scorsese abre o longa com bastidores - sua angústia por não conhecer o set list, a visita de Bill Clinton (que promoveu o espetáculo) ao teatro horas antes do início, algumas cenas dos Stones descontraídos antes de subir ao palco etc. Quando a música começa, tome rock and roll! A cada bloco de três ou quatro músicas, foram exertadas, de maneira engenhosa, cenas de arquivo da banda. Interessante que esses intervalos vão ficando mais espaçados conforme o filme avança, com o objetivo, imagino, de acostumar o espectador à idéia de que ele está ali para ver o show, que é histórico, e fim de papo. Duca!
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Citação - Millôr Fernandes
"Idiota mesmo é o sujeito que lê uma história de duplo sentido e não entende nenhum dos dois."
18/04/2008
Jornalistas de cultura de olho vivo nos políticos
Quando trabalhei no Diário Catarinense, editoria de Variedades, além de conhecer e conviver com pessoas como Salim Miguel, Flávio José Cardoso e João Francisco Hamms (cito o escritores por afinidade, mas há muitos, de muitas áreas, de muitas virtudes, com quem fiz relações bacanas), eu gostava demais também de cobrir o que aqui em Santa Catarina só com muito boa vontade se pode chamar de "política cultural". Quando o editor Dorva Rezende ou a subeditora Valéria Rivoire me enviava para a rua à caça do Gilmar Knaesel - secretário de Turismo, Esporte e Lazer -, do então diretor da Fundação Catarinense de Cultura, Edson Busch Machado, ou do tal Vilson Rosalino, da Franklin Cascaes, era uma alegria. Porque, apesar de políticos na fala e no trato, pelo menos os dois primeiros respondiam todas as perguntas sem hesitar, desde as mais fáceis até aquelas que surgem na hora, feitas à queima-roupa - Rosalino uma vez me atendeu com atraso de meia-hora e abandonou a entrevista antes do término para ir ao dentista... Mas sempre foi difícil concordar - apesar de respeitar - com a visão de mercado que eles imprimiram ao "fazer cultura" em SC. No fim das contas, o balanço será, tenho certeza, de que essa postura mercantilista da cultura terá feito muito mal a quem produz cinema, música, literatura e artes no estado. Lembro-me da briga da Frente em Defesa da Cultura Catarinense durante as votações das reformas administrativas do governo estadual... Se o repórter não tivesse paciência e bom ouvido, não conseguia apurar nada, checar nada, e a palavra oficial, infelizmente, é que ganhava a manchete. Muitas vezes eu saía de manhã da redação para ir à Assembléia Legislativa farejar os ânimos (prepotência e burrice têm cheiro, você sabe) e conferir as votações, na esperança de voltar até as 13h com uma boa matéria para o dia seguinte, dando factualidade a um caderno que é fechado muito, muito tempo antes do resto do jornal. Bom, saí do DC há dois anos, mas os camaradas que lá estão - refiro-me aos que eu conheço, claro - continuam de olho nos políticos, ou na ausência deles. Por isso, transcrevo abaixo um texto de ontem do colega Marcos Espíndola, publicado no seu Blog do Marquinhos, sobre o quadro Primeira Missa no Brasil, do Victor Meirelles, e os amadores que o cercam...
Querem chuva na Primeira Missa...
Se tivesse comparecido pelo menos uma vez, nem que fosse na abertura, na exposição da Primeria Missa no Brasil, de Victor Meirelles, o governador Luiz Henrique da Silveira teria comungado do constrangimento ao qual os visitantes do Museu de Artes de Santa Catarina (Masc) já estão habituados a passar: as constantes goteiras naquele espaço. Ainda esta semana, a própria tela, cujo seguro está avaliado em US$ 3 milhões, teve que ser deslocada às pressas para outro ponto para não ser atingida pelas goteiras. Ainda que tenha sido pintada muito após o próprio descobrimento, os documentos aos quais o pintor catarinense teve acesso para elaborar a obra, dentre eles A Carta de Pero Vaz de Caminha, atestam que a previsão do tempo, naquela ocasião, estava bom...
Se você for ao Masc perceberá que uma série de marcas foram espalhadas pelo chão do ambiente, justamente os pontos atingidos pelas infiltrações. Houve até quem achasse que os baldes também utilizados em situações de chuva fossem apenas parte de uma instalação do saudoso artista plástico Schwanke. Mas não..
A situação chegou a tal ponto que, me relataram, as 170 obras que compõem a mostra Um Século de Arte Brasileira - Coleção de Gilberto Chateubriand foram mantidas nas caixas por determinação dos responsáveis pelo acervo, que se assustaram com a quantidade de goteiras. A exposição, que reúne um dos mais importantes acervos particulares do país (de Tarsila do Amaral a Portinari e Ivens Machado), está prevista para abrir no dia 22 de abril. Temendo o risco de avarias, teriam exigido da direção do Masc os reparos no teto como condição para realizar a mostra aqui. Eis aí a primeira prova de fogo da nova presidente da Fundação Catarinense de Cultura, Anita Pires.
O governador, se tivesse presenciado tal situação, com certeza iria pedir providências - duvido que haja infiltrações no Centro Administrativo. E olha que não faltaram oportunidades. Ainda na terça-feira ele esteve no CIC para empossar Anita Pires na FCC, mas nem passou perto do Masc para uma visita à Primeira Missa. O mesmo ocorreu durante a exposição do Centenário de Martinho de Haro, um dos destaques nacionais de 2007.
Só lamento muito pelo guerreiro João Evangelista de Andrade Filho, diretor do Masc, que prestes a completar 50 anos de militância no movimento artístico catarinense tem que se desdobrar para dar conta daquilo que fora prometido, ou seja, as condições mínimas de trabalho para o Masc. Ainda ontem ele fora visto correndo esbaforido pelos corredores do CIC tentando negociar com presidente da FCC uma solução para o problema.
Essa Missa virou uma verdadeira ladainha... E olha que dela nem sabemos o terço!
Inclassificável: Ney MT em duas versões
Ney Matogrosso fez dois shows em Florianópolis na semana passada, dias 7 e 8. Dias depois, descobri que pelo menos dois amigos meus foram assisti-lo, e saíram do Centro Integrado de Cultura (CIC) com opiniões bem diferentes sobre a qualidade do que viram. O mais curioso é que a professora Regina Carvalho e o mestrando em jornalismo Ben-Hur Demeneck, a quem me refiro, foram juntos, com a maior boa vontade! Mas só um deles aprovou o Ney. Leia o que eles escreveram:
Regina:
"Ontem teve show do Ney Matogrosso no CIC. Resolvi ver, porque não sou grande fã do Ney, e amigos gays (amados, próximos,todos gente fina) ouvem minhas críticas a seus CDs e sempre dizem: vai ver um show, é outra coisa, vais gostar.
Ney tem uma voz maravilhosa, talvez a melhor voz masculina da MPB, em todos os tempos, com volume e amplitude invejáveis. Mas não sabe usá-la. Não tem marca, não deixa marca, não interpreta… Canta Chico como Chico, canta Cazuza como Cazuza, coisas assim. Aliás canta Cazuza PIOR que Cazuza, pois Cazuza tinha garra, gana, força, apesar de não ter voz tão boa quanto a de Ney."
Continua aqui.
Ben-hur:
"O bilheteiro não estava num bom dia e já deixou claro:
- Dia sete, do anúncio. Está esgotado!
Sequer o out-door de fora do CIC anunciava o espetáculo de Ney Matogrosso, e todos já souberam antes de mim. Era tarde de quarta-feira, cinco dias antes. Na edição daquele dia do Diário Catarinense, circulava uma reportagem do show “Inclassificáveis”. Em razão de tanta procura, veio a informação mais importante do dia:
- Mas vai ter uma sessão extra, na terça. Sabe como é, muita gente procurando, não é?"
Continua aqui.
15/04/2008
"O homicida mama na carótida do outro"
Saiu, enfim, o quarto número da Coleção Arquivinhos da Editora Bem-te-vi. Agora, o homenageado é Nelson Rodrigues. Em 2007, o prêmio Jabuti de projeto gráfico saiu para o terceiro volume da série, dedicada a Otto Lara Resende. Desta vez, é uma pena que o DVD que vem com o Arquivinho traga um vídeo há muito publicado no YouTube: uma entrevista de Otto com Nelson, por ocasião do lançamento de O reacionário. O dramaturgo acabara de recuperar-se de um coma de 15 dias. Dizendo-se um crente na imortalidade da alma, Nelson destilou a sua filosofia de vida, cuspindo as frases que o tornaram um dos cronistas mais lidos da história da imprensa brasileira. Vida longa a Nelson Rodrigues!
Frases da entrevista ao Otto:
"Que boa besta é o Marx."
"Eu sou uma múmia, me considero uma múmia, com todos os achados da múmia."
"Eu me preparei para ser múmia. Há uma convicência entre mim e minha velhice formidável."
"Cícero tem um tratado sobre a velhice? Contra a velhice? Não? Ah, bom."
"Otto, te dou vários anos de meditação para descobrir um Cristo de 15 anos."
"A constante do ser humano é claro que é a burrice."
"Qual o maior acontecimento do século 20? É a rebelião dos cretinos fundamentais. Antes, o cretino fundamental raspava a parede da sua humildade, tinha consciência da sua inépcia."
"Nenhum outro homem consegue ser cafajeste. O brasileiro planta bananeira até no velório."
"O vira-latas é um sujeito tremendo, que emana luz. O brasileiro tem luz própria."
"O homicida mama na carótida do outro."
Parte 1
Parte 2
Parte 3
14/04/2008
SUS: saúde é verba!
Escrevi ontem sobre Sicko, documentário de Michael Moore sobre o sistema de saúde dos EUA, que assisti com a Jade no sábado. Em conversa por e-mail sobre o filme, recebo duas respostas sobre o mesmo tema dos jornalistas Fernando Evangelista e Ben-hur Demeneck: a reportagem de capa de CartaCapital desta semana é sobre o SUS. "Pobre, mas eficiente" é o título da entrevista do ministro da saúde, José Gomes Temporão. Ele diz que para o sistema único de saúde brasileiro o que falta é verba!
13/04/2008
Sicko: viva o SUS! Dinheiro ao SUS! Já!
Gostei muito de Sicko ($O$ Saúde, Michael Moore, EUA, 2007). Gostei muito, também, da crítica de João Moreira Salles ao filme na Bravo! E gostei mais ainda de saber que até o Brasil, capenga como é, tem um sistema de saúde público melhor que o dos EUA. Na verdade, o que existe lá é vergonhoso, vexatório para o país mais rico do mundo. Moore, com seu jeito bufão e "americano à prova de balas", mostra que na Inglaterra, no Candá, na França e em... Cuba! as pessoas recebem tratamento médico-hospitalar digno, mas investiga só bem por cima o quanto isso custa, o quão problemático pode vir a ser um dia para as finanças do estado, etc. O fato é que na sua terra natal, e parece ser essa a mensagem – e f... os meios –, tudo passa por "the corporation", "the profits". As histórias que ele exibe, pinçadas entre as dezenas de milhares de e-mails-testemunhos que recebeu em resposta a uma pergunta em seu site do tipo "Você já teve problemas com seu seguro de saúde?", são assustadoras. Vão desde o senhor sem seguro que perdeu as pontas dos dedos indicador e médio da mão direita e teve de optar qual deles reconstruir (afinal, um custava U$ 60 mil e outro, U$ 12 mil) até a mulher que, vítima de câncer, após perder a casa para pagar dívidas astronômicas do seguro, tomava um remédio que nos EUA custa U$ 120 e em Cuba, U$ 0,50. Mas o melhor do filme é o depoimento de um senhor canadense, jogador de golfe. Michal Moore pergunta se ele não preferia pagar somente o seu plano de saúde, sem precisar arcar com a conta do resto da população. Com uma naturalidade civilizada, de quem não consegue enxergar ironia num questionamento desse tipo, o senhor responde que não, porque há pessoas no Canadá que não poderiam arcar com seus próprios gastos médicos se não houvesse um sistema universal financiado por todos. Moore então brinca: "O senhor é socialista? Verde?". Com cara de contrariado, o homem nega. Moore: "Você tem filiação partidária? Que corrente você segue?" E o senhor: "Sou do partido conservador"...
ps. meu xará Felipe Wolff, dentista que estudou sistemas de saúde públicos do mundo inteiro na sua especialização em odontologia na UFSC, me chama a atenção para o fato de que 90% dos transplantes, no Brasil, são feitos pelo SUS.
Trailer:
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12/04/2008
Mais um caso do RG novo!!!
Na noite de quinta-feira, dia em que publiquei aqui a minha desventura para fazer uma nova Carteira de Identidade, fui ao boteco Conversa Fiada, em Coqueiros, encontrar os amigos da pós-graduação de 2004: Ricardo Rievers, Fábio Mafra e Ben-Hur Demeneck. Ricardo, que já havia lido o relato, dava risada, e me pediu que contasse sem falta o caso aos outros dois. Contei, para diversão e espanto da mesa. Ben-hur, então, conseguiu dar um quadro ainda mais assustador, juntando aos meus exemplos uma triste, kafkiana experiência sua ao fazer um RG novo em Ponta Grossa (PR), sua terra natal. Não resisti, e pedi que escrevesse sobre, ele que dedica seu tempo ao mestrado em jornalismo na UFSC. Cronista, porém, não perdeu tempo. Segue abaixo. E boa leitura.
O endereço do enigma
por Ben-Hur Demeneck
No centro de Ponta Grossa, Paraná, a duas quadras do terminal central de ônibus, uma rua expressa um pouco do recolhimento que acomete a muitos dos que caminham pela cidade, centro ou subúrbio. A Tenente Hinon Silva sintetiza aquele olhar apressado, a dificuldade de se parar e observar detalhes, ou mesmo para assoar o nariz, separar as moedas ou olhar novamente o número do endereço que se procura. Um enigma de vida secreta, de segredos de quem somos em poucas centenas de metros.
Um recato de alcova, a visão de uma porta que delimita o mundo privado, deixando-o enclausurado. Profissionais de boletos, de processos, de inquéritos, e bares, hospedarias, igreja, ordem mística, prédio que foi escoteiro. Alcova com porta rangendo por dobradiça enferrujada. Os sindicatos, o lavacar e os motoboys recuperam o barulho de rua.
A sinalização da Zona Azul confirma estarmos no Centro, vizinhos da rua da Estação, Fernandes Pinheiro. Os carros estacionados todos com placas de Ponta Grossa. Um certo gosto pelo controle do corpo e do espírito nos coloca junto a esse olhar baixo, pés revirando grimpas secas em capões. Olhar paralelepípedo.
No distrito policial, o jovem pede uma segunda via da identidade. Cansou de mostrar aos amigos que a criança da imagem é ele. Apresentará rosto mais maduro, e sair da plastificação de beiços abertos para a lâmina. Passa na ponta dos dedos a tinta de gráfica, marca o papel. Sai para lavar as mãos. Na área ligada com a rua está o velho tanque com um sabão em pedra. Fricciona as palmas, obsessivamente.
Minutos se passam, pena para atingir a limpeza pré-documental. No limite dos esforços, começa a procurar onde se enxugar, sacudindo-se para retirar o excesso d’água. Olha para a parede da frente, na do lado, para o chão. Nenhum gancho com uma toalha. Sequer um "use no máximo duas folhas". Anúncio impresso em A4 esclarece:
NÃO ENXUGUE SUAS MÃOS NA PAREDE. VOCÊ SERÁ RECONHECIDO POR SUAS DIGITAIS E PROCESSADO POR DANOS AO PATRIMÔNIO PÚBLICO.
Guardou as palavras nessa ordem, mas gostaria de ter certeza no que viu. Achou muito parecido com a chamada de um programa de literatura, que falaria sobre a influência de um escritor tcheco na literatura do século XX. Perguntaria depois na biblioteca o que sabiam, apenas escondendo as circunstâncias do insight.
Um senhor de 40 anos, próximo à lista dos documentos perdidos caminha em direção ao lavacar. Mesas de sinuca se guardam na escuridão interior de dois bares. A cerveja não está tão cara como previa. Pensa em beber, só boné é pouco para tanto sol. Um cachorro híbrido pequinês descansa na entrada, com a língua de fora para refrescar o calor acumulado em seus pêlos longos. Biombos não são vistos, não há o que camuflar.
Num dos estabelecimentos, um quadro em grande destaque na parede atrás do balcão. Centralizado, sobre todos os outros objetos, a figura de um homem de trajes simples, em gestos cheios de nobreza. O senhor reconhece ali Carlito curvado, em cumprimento. O personagem, criador de uma poesia tanta para o riso como para a lágrima, está congelado em mais uma de suas histórias em branco e preto. É quando lhe passam pensamentos como:
– Nesse Carlitos, que emoção devo tomar? Tomarei cerveja? Quem atende?
11/04/2008
Matéria vencedora do Pulitzer saiu em Piauí
Um dos seis prêmios Pulitzer que o The Washington Post venceu segunda-feira foi para Gene Weingarten, por uma reportagem fantástica que saiu no dia 8 de abril de 2007 e que a revista Piauí traduziu e publicou na sua edição de julho. Leia abaixo a abertura, e leia tudo no site da revista.
Vida urbana
Pérolas aos poucos
Uma experiência extraordinária para testar a nossa capacidade de reação ao belo: botar um virtuose para tocar no metrô.
GENE WEINGARTEN
Ele desceu do metrô na estação L’Enfant Plaza e encostou-se numa parede ao lado de uma cesta de lixo. Por quase todos os critérios, era um sujeito que não chamava a atenção: um homem branco, mais ou menos jovem, vestindo jeans, camiseta de manga comprida e boné do time de beisebol Washington Nationals. De uma caixa, ele tirou o violino. Deixando a caixa aberta no chão, na frente dos pés, teve o cuidado de plantar ali algumas notas de 1 dólar, e várias moedas, para atrair mais dinheiro. Girou o corpo, para ficar de frente para o fluxo dos pedestres e começou a tocar.
Eram 7h51 da manhã, da sexta-feira, 12 de janeiro, hora do rush matinal. Ao longo dos 43 minutos seguintes, enquanto o violinista executava seis peças clássicas, 1.097 pessoas passaram à sua frente. Quase todos estavam a caminho do trabalho que, no caso da grande maioria, era um emprego público. A L’Enfant Plaza fica no núcleo da área de Washington ocupada pela administração federal, e ali transitam burocratas de nível médio, com os seus títulos um tanto indeterminados e estranhamente intercambiáveis: analista de projeto, gerente de iniciativa, programador de orçamento, especialista, consultor, supervisor.
Cada um dos passantes precisava fazer uma escolha rápida, uma escolha habitual para os usuários do transporte coletivo em qualquer área urbana, onde artistas de rua fazem parte da paisagem: parar e escutar? Acelerar o passo com uma mistura de culpa e irritação, incomodado com a inesperada demanda feita ao seu tempo e dinheiro? Jogar 1 dólar na caixa aberta, só por educação? E a sua decisão muda, se o músico for muito ruim? E se for muito bom? Temos tempo para a beleza? Não devíamos ter? Qual é a matemática moral desse momento?
Continua aqui.
10/04/2008
Tudo por um RG novo
Fui dormir à 1h30 de hoje, depois de ouvir, até o fim, as entrevistas do presidente e do técnico do meu fracassado time. Acordei às 7h30, sacudido pela Jade. Eu precisava ir ao Instituto Geral de Perícias, no Itacorubi, fazer uma carteira de identidade nova, e ela, que trabalha naquele bairro, me daria carona. Duas fotos 3x4 e a certidão de casamento original já dormiram na mochila. Eu tinha esperança de resolver logo a questão e voltar para o Centro, para o trabalho. E lá fomos.
Às 8h30, a Jade me deixou no endereço que um funcionário do local me indicara por telefone. É uma construção com a cara do Estado: verde, estreita e com muitos metros de comprimento. A entrada do prédio fica nos fundos, de costas para a rua, virada para o mato. Eu caminhei todo o estacionamento e cheguei à porta principal, cujo acesso é feito por escada ou rampa. Um PM me abordou chamando-me de "amigão". Perguntei pelo setor de carteiras de identidade. Ele apontou: "Aquela porta ali, amigão".
Havia três pessoas na fila. Puxei a minha senha e aguardei. Uma garota de uns 16 anos me perguntou se eu desejava uma segunda via. Respondi que não, apenas um documento novo. Ela conferiu a certidão de casamento, as fotos, o CPF – que optei incluir no RG – e me deu um boleto e uma outra senha, para ser utilizada na volta do banco. Com uma rispidez danada, completou: "O boleto você paga no Besc; abre daqui a pouco, às 10 horas. Senta e aguarda". Fiquei sem reação; eram 8h45, a Jade já devia ter chegado ao serviço e eu só queria voltar àquele lugar para buscar o documento.
Saí da salinha e olhei o hall de entrada: não havia cadeiras, nem bancos, nem nada. "Não é possível." Escalei uma escada, rumo ao primeiro andar. Nem sinal. E agora? Voltei para a entrada do prédio e sentei-me na escada. O PM me olhou e riu: "É, amigão..." Para não ter de conversar com estranhos, ainda mais um desconhecido que me chama de "amigão", sempre carrego uma leitura na mochila, neste caso, a Piauí. Foi o melhor momento da manhã infausta.
(Lá pelas tantas, enquanto lia o excelente perfil de Eurico Miranda escrito por Roberto Kaz, me ocorreu que esse maldito boleto talvez estivesse disponível na internet, para você pagar na hora do almoço perto do trabalho e, no outro dia de manhã, já levar tudo pronto para resolver a pendenga o mais rápido possível. Óbvio, há o boleto na internet. Eu bem mereço o Estado.)
O tempo passa. Quando me dou conta, são 9h50. Levanto, lépido, para ir ao Besc. "Agora vai." Qual o quê. Umas 13 pessoas estão no hall, boleto na mão. Então o prestativo PM dá uma sugestão à turma: "Organizem a fila do banco ali no canto. Quando abrir, não vai dar briga". E os 13 se espremeram contra a parede do imenso hall, em fila indiana, satisfeitos com o conselho do guarda. Eu já estava bastante puto da cara. Continuei lendo na fila a revista grandona, em protesto.
Paguei. Voltei à menina, e ela disse que minha senha "já foi pro espaço". Puxei uma nova, e a garota me fez um favor espantoso: apontou, escondidas atrás do balcão onde estava, um monte de cadeiras, algumas já ocupadas por gente com boletos quitados. Havia cadeiras no prédio! Ao me atender a primeira vez, a moça deve ter esquecido de me informar. Sentei-me, e aguardei o apito da senha eletrônica, lendo. Enfim, soou a corneta.
Um sujeito atendeu-me com cortesia, puxou conversa ("Ah, jornalista! Que vida corrida, hein?" Sorri, pareceu-me irônico), foi rápido. Mas não tem jeito. Quando estou me encaminhando para a terceira fila, a "do dedão sujo", o funcionário me alerta que posso diminuir o prazo de entrega do documento de 15 para 5 dias úteis, caso pagasse uma segunda taxa... "Porra", exclamei sem pensar, "claro!", corrigi. Ele me entregou novo boleto e cochichou, como a um amigo: "Depois de pagar, não pega outra senha não; entra aqui na sala e me entrega". E lá fui eu para a fila do banco de novo.
Paguei a taxa, adentrei a sala com indescritível cara-de-pau, entreguei o canhoto, assinei lá um documento e fui, enfim, para o último estágio. Eram 10h50.
Um casal aguardava para fazer o RG da sua filha, ainda no colo da mãe. Pendurado na parede por uma cordinha, um banner de plástico com a impressão digital de um enorme polegar. Uma voz de mulher chamou o casal com a menina. Pelo que ouvi, foi uma festa. Risonha, alegre, a atendendente fez brincadeiras, interagiu com a criança, deve ter passado tinta preta no narizinho dela. Os pais exclamavam de contetamento. Silêncio.
"Felipe."
Entro; desajeitado, me inclino para jogar a mochila no chão. A mulher, com cara de infinita indiferença, me indica uma cadeira: "Ali, filho, ali". Era uma outra pessoa. Com uma mecanicidade que raiava a eficiência, pintou meu dedos, apertou e tal e resolveu. "Ali tem um banheiro", indicou. Entrei.
O sabonete era uma garrafa de detergente; Pinho Sol, sei lá. O papel toalha estava amontoado em cima do recipiente que devia comportá-lo. Parecia um WC de boteco. Saio do banheiro e olho uma porta lateral: um papel A4, colado no sentido horizontal, com a palavra SAÍDA pintada em vermelho. Lembrava um Centro Acadêmico.
Foi com alívio que enfrentei o estacionamento, para a rua, livre. Eram 11h10.
Agora eu precisava de um ônibus. Cheguei a uma parada. Havia umas senhoras sentadas, aguardando o ônibus com cara de quem está na fila do Besc. Comentavam: no dia seguinte, uma ficara 40 minutos esperando o ônibus; outra, meia hora. Eu tive certeza de que não passaria ônibus antes do meio-dia. "Um táxi, preciso de um táxi." Ora, o prédio verde do Instituto Geral de Perícias fica na rua do cemitério São Francisco de Assis, e não encontrei táxis por ali. O sol a pino fritava a parada de ônibus, e as velinhas sentadas debaixo do plástico quente, cheias de roupas, resignadas como aposentadas na fila do INSS. Eu já estava puto da cara de novo.
Toca o celular. É a Jade: "Oi, meu amorrr, como foi lá?" Respondo: "Tá quase acabando..." Ela fica surpresa: "Ainda?" Resmungamos em coro que o mundo é mesmo uma impossibilidade. Desligo, o ônibus se aproxima. São 11h35.
Sento num banco do fundão, descansado. Puxo a Piauí, tudo resolvido. Aí, o inesperado. O ônibus não vai para o Centro. A Transol pensa como o Estado. O coletivo faz contorcionismos sobre os elevados da região e ruma para o Terminal da Trindade (Titri).
Lá, depois de mais uma fila, entro num ônibus que tem como destino o Centro. Desço no Ticen por volta do meio-dia.
Agora, resta esperar 5 dias úteis. Há de dar tudo certo.
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Crônica
Felipão, somos todos órfãos teus!!!
Grêmio: duas eliminações em 76 horas, no Olímpico... Há tempos o clube não tem time... Pelo menos desde 2001. O da Libertadores do ano passado, valente mas muito limitado, foi só um esboço, mantido de pé até onde deu por causa da garra do Mano Menezes. Perder para Juventude e Atlético-GO é demais. Felipão, que vergonha: somos todos órfãos teus!!!
09/04/2008
O canudo vem aí...
Do blog do Cacau Menezes, no portal do Diário Catarinense:
Sexta-feira, 04 de abril de 2008
Doutorado completo
Exatos seis anos após marcar presença no extinto O Ilhéu, com a apresentação do site brasileiro mais completo sobre Nelson Rodrigues, polêmico jornalista, contista e dramaturgo, Jade Martins Lenhart defende agora sua tese de doutorado no programa de Teoria Literária da UFSC. Sua pesquisa, intitulada Nelson Rodrigues e sua cena: dramaturgia da dupla tensão, cinema da síntese, aborda as (quase sempre) improdutivas adaptações do cinema nacional sobre a obra teatral do autor. Em 500 páginas, a pesquisa discute todas as 17 peças de Nelson Rodrigues e as sete adaptações mais importantes e conhecidas: aquelas que ajudaram a distorcer a imagem do dramaturgo. Segundo a pesquisadora, o único filme capaz de dialogar com o teatro do autor é Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor. Para quem quiser conferir o trabalho de cinco anos, a banca de defesa acontece no dia 24 de abril, às 14h30min.
Postado por Cacau Menezes - Floripa às 14h41 (Horário de Brasília)
Otis Redding, O cantor, graças à Fraçoise
A Françoise Techio, Françoá, é designer gráfico, voltou a escrever o seu Caraminholas e trabalha na Letras Brasileiras. Além de senso estético, tem bom gosto musical. De vez em quando, ela desenha livros ouvindo música. E desde que descobri Madeleine Peyroux cantando Dance me to the end of love tocando no seu MAC, eu sempre fico atento para saber o que ela anda escutando. Foi assim, também, com Regina Spektor e seu pop tristonho, bonito. Mas agora - há um mês, na verdade - ela veio com um negócio surpreendente, um cantor genial, de que eu jamais ouvira falar: Otis Redding, um desses lampejos geniais que a música negra norte-americana deu ao mundo, ele que morreu aos 26 anos, num acidente de avião. A música que me convenceu é uma interpretação de A hard day's night, dos Beatles, ao vivo. Tem também I cant get no (satisfaction), Fa-fa-fa-fa-fa (sad song), I'm depending on you, Try a little tenderness etc. O negrão cantava com uma energia, uma vontade, que é demais – no cd em questão ele termina o show bufando, quase tendo um troço. Fui conferir com o meu amigo Fábio "Mutley" Bianchini se o cara é isso tudo mesmo que eu achava. Foi via MSN que eu lhe escrevi: "Porra, Mutley, esse Otis Redding canta pra caralho, hein?". E ele respondeu: "Demais! Melhor cantor da história". É isso aí, e só hoje me ocorreu de procurar um vídeo no Youtube para ver um show dele. Confira abaixo, e ouça alto, muito alto:
I cant get no (satisfaction) – "Mick Jagger is in the house!"
Try a little tenderness
07/04/2008
Nanopinião 35
Carne viva, de Paulo Francis - Francis Editora
Comprei na terça-feira passada, junto com A morte e a morte de Quincas Berro Dágua (nanopinião, dois posts abaixo), do Jorge Amado. E já terminei. É um bom romance, apesar de o Francis ter morrido quando ainda ajeitava a história. Mesmo assim, gostei mais do que Cabeça de papel e Cabeça de negro, de que não retive quase nada – Filhas do segundo sexo, então, nem conta. A melhor parte de Carne viva é quando o personagem principal, o banqueiro Francisco Guerra, vai a Paris, tratar de negócios, em maio de 1968...
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04/04/2008
"The heart is a very, very resilient little muscle"
Ontem à noite, revi Hannah and Her Sisters. É dos meus preferidos. Acho a cena em que Michael Cane beija pela primeira vez a cunhada, Barbara Hershey, ao som do melancólico Concerto em Fá Menor de Bach, bela como poucas. O beijo é tão repentino, tão impulsivo, que os dois esbarram na vitrola, a agulha desliza sobre o prato e a música, de romântica, recomeça tensa, nervosa, ao mesmo tempo em que o namorado pintor de Barbara, Max von Sydow, adentra bufando a sala onde eles acabam de se beijar, furioso, despachando um "rock star" interessado em decorar sua casa em Southampton: "I'm not interested in what your decorator thinks. You don't buy paintings to blend in with the sofa".
Acho horrível a situação da mulher de Cane, Mia Farrow, enganada pelo marido, traída pela irmã. Cane sente um remorso medonho, é verdade (sentimento que o cineasta levaria à catarse três anos depois, com Martin Landau em Crimes and Misdemeanors), mas a covardia e a comodidade do seu casamento impedem-lhe de terminar tudo e brigar por Barbara, que está na dele e não aguenta mais a imposição intelectual sufocante de Max. Cane passa a se encontrar com Barbara semanalmente, num quarto de hotel, e seu desconforto com a situação, mastigado em monólogos amargurados ("For chrissake, stop torturing her"), irrompe num jantar com Mia, que lhe enche de perguntas sobre a sua mudança de humor e atenção em família: "What is this? The Gestapo?".
E há ainda o humor, claro, protagonizado por Allen, ex-marido de Mia. A cena em que imagina o médico informando-lhe sobre o tumor no cérebro, hipocondríaco incurável, é ótima: "Mr. Saxe, I'm afraid the news is not good. If I can show you where the tumor is and why we feel that surgery would be of no use". E na verdade o médico apóia o raio X contra o quadro de luz e diz: "You're just fine. There's nothing here at all. And your tests are all fine". Começa aí a corrida de Allen pelo sentido da vida. Se estivesse com câncer, teria dado um tiro na cabeça. Agora que está bem, por que continuar vivo? Que diferença faria? O périplo por bibliotecas, sacristias, consultas religiosas é hilário. Até aos Hare Krishna, dançando no Central Park ensolarado, ele recorre, mas é besteira: "Who are you kidding? You're gonna be a Krishna? You're gonna shave your head and dance around at airports? You'd look like Jerry Lewis. Oh, God, I'm so depressed".
O casal que Allen forma com a irmã-problema de Mia, Diane Wiest, no fim do filme – após uma tentativa frustrada de começarem um relacionamento, anos antes – mostra bem que as relações amorosas vão e vêm e ninguém consegue de fato explicá-las: "I was telling your father that it's ironic I used to always have Thanksgiving with Hannah and I never thought I could love anybody else. Here it is years later. I'm married to you and completely in love with you. The heart is a very, very resilient little muscle. It really is".
Ainda tem os versos de e.e. Cummings: "The voice of your eyes / Is deeper than all roses / Nobody, not even the rain / Has such small hands". E Cole Porter.
Para ler o roteiro deste filmaço, clique aqui.
02/04/2008
Nanopinião 34
Mal reclamei de ter passado março sem ler um livro (ver duas postagens abaixo) e já inicio abril com sorte. Ontem, fui à Livrarias Catarinense do Centro de Florianópolis e comprei um livro de Jorge Amado da coleção da Cia. Das Letras. E levei a obra que havia tempos queria ler: A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. Minha vontade de lê-lo começou quando dei com as primeiras frases da novela no blog Todoprosa, do jornalista Sérgio Rodrigues. Eu me encantei com o ritmo daquela abertura misteriosa:
“Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranqüila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia.”
Um começo desses só pode dar em obra-prima. E deu: divertida, bela, perfeita. Affonso Romano de Sant’Anna, no excelente posfácio, chama A morte e a morte... de obra-prima, “que não é um romance nem um conto, mas uma novela exemplar. Exemplar até no sentido de Miguel de Cervantes, que tanto lidava com o cômico e o picaresco...”. (No mais, Sant’Anna conta de onde Jorge Amado tirou a história para escrever a novela, publicada originalmente na primeira edição da revista Senhor, em 1959. É tão maluca quanto a ficção.)
A incerteza sobre a hora do óbito de Quincas; o fato de a filha ouvir a voz do pai finado durante o velório, apesar de defender publicamente a versão da morte “matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase”; o mistério sobre a frase derradeira (há duas, três, há até um soneto!); a bebedeira dos amigos do peito durante o velório, a turvar o discernimento e a realidade... Carpintaria de mestre. Fora que é bem-humorado, uma beleza mesmo.
Destaque também para a qualidade da edição da Cia. Das Letras, que está fazendo um trabalho monumental e generoso com a obra do escritor baiano mais lido no mundo. A capa traz bela foto datada de 1943: Puxada do xaréu, em Salvador, de Marcel Gautherot. Há cronologia detalhada da vida do autor, um bilhete de Zélia Gattai sobre o processo de escrita de A morte e a morte... (em uma semana o texto estava pronto!), reproduções de telas, fotos, originais batidos à máquina e editados à mão... Para quem trabalha em editora, invejável!
Conheça mais sobre a reedição da obra completa de Jorge Amado no site que a editora criou para divulgar tudo sobre Jorge Amado, aqui.
ps. não foram, portanto, os anúncios na Folha de S. Paulo, com Chico Buarque e José Saramago lendo Jorge Amado, que me fizeram adquirir A morte e a morte... Mas tomara que eles incentivem a venda deste livro em especial.
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Eu queria a escrivaninha do Dickens!
Escrivaninha em que Dickens escreveu clássico vai a leilão
Por Mike Collett-White
LONDRES (Reuters) - A escrivaninha em que Charles Dickens escreveu "Grandes Esperanças" e sua última correspondência, horas antes de sua morte, serão leiloadas em junho, anunciou a Christie's na quarta-feira.
A escrivaninha e cadeira da sala de estudos de Gad's Hill, a casa do escritor perto de Rochester, no condado de Kent, foram transferidos por herança a Christopher Charles Dickens e sua mulher, Jeanne-Marie Dickens.
Esta os doou ao hospital infantil Great Ormond Street, em Londres, com o qual Dickens mantinha um relacionamento estreito, para que pudessem ser leiloados para levantar fundos.
Incluídos no leilão da Christie's de livros e manuscritos valiosos, que terá lugar em 4 de junho, os itens estão previstos para ser arrematados por entre 50 mil e 80 mil libras (100 mil e 160 mil dólares).
Continua aqui.
Fonte da imagem: www.qub.ac.uk
01/04/2008
Geral do Grêmio! Festa e festa!
Vídeo do Ducker, pescado no Youtube, com cenas da Geral do Grêmio no Olímpico, em 2007, ao som de Refuse/Resist, do (para mim) finado Sepultura.
Leitura em baixa: ficção zero
Março foi um mês perdido; transformei-me num desses brasileiros que as pesquisas denunciam: nenhum livro lido. Nem 20 páginas. O que é nocivo. Ao contrário do brasileiro médio, o que me faltou foi tempo, não vontade. Abril, que começa hoje com o dia da mentira, será diferente.
Woody em outdoors pode render 10 milhões
Do site do Estadão:
Crédito: www.forward.com - Boris Flshman
Woody Allen processa grife por anúncios e pede US$ 10 mi
REUTERS
NOVA YORK - O cineasta Woody Allen processou a American Apparel na segunda-feira, dizendo que a marca de roupas usou sua imagem sem autorização em anúncios, outdoors e na Internet.
Segundo o processo, arquivado no distrito de Manhattan, os outdoors mostram Allen vestido como rabino e estavam nas ruas de Nova York e da Califórnia.
Ele exige uma indenização de 10 milhões de dólares, de acordo com o processo.
Allen, diretor ganhador do Oscar, conhecido por filmes como "Annie Hall" e "Crimes e Pecados", disse no processo que ele nem foi contatado pela companhia nem compensado pelo uso de sua imagem.
"Allen não faz propagandas de produtos ou serviços nos Estados Unidos", de acordo com a ação judicial.
Representantes da American Apparel não retornaram as ligações da reportagem para comentar o processo.
A empresa produz e vende suas próprias roupas de algodão e tem mais de 180 lojas nos Estados Unidos e Canadá.
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ps. a imagem utilizada no outdoor é, se não me traem os neurônios cansados, do filme Take the money and run (Um assaltante bem trapalhão, no Brasil).
Crédito: www.forward.com - Boris Flshman
Woody Allen processa grife por anúncios e pede US$ 10 mi
REUTERS
NOVA YORK - O cineasta Woody Allen processou a American Apparel na segunda-feira, dizendo que a marca de roupas usou sua imagem sem autorização em anúncios, outdoors e na Internet.
Segundo o processo, arquivado no distrito de Manhattan, os outdoors mostram Allen vestido como rabino e estavam nas ruas de Nova York e da Califórnia.
Ele exige uma indenização de 10 milhões de dólares, de acordo com o processo.
Allen, diretor ganhador do Oscar, conhecido por filmes como "Annie Hall" e "Crimes e Pecados", disse no processo que ele nem foi contatado pela companhia nem compensado pelo uso de sua imagem.
"Allen não faz propagandas de produtos ou serviços nos Estados Unidos", de acordo com a ação judicial.
Representantes da American Apparel não retornaram as ligações da reportagem para comentar o processo.
A empresa produz e vende suas próprias roupas de algodão e tem mais de 180 lojas nos Estados Unidos e Canadá.
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ps. a imagem utilizada no outdoor é, se não me traem os neurônios cansados, do filme Take the money and run (Um assaltante bem trapalhão, no Brasil).
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