Estorvo, de Chico Buarque - Cia das Letras
Sem muito a dizer. Bem-escrito, principalmente em relação a Fazenda modelo (que li na faculdade e achei muito ruim), mas a história não me disse nada. Interessante como exercício de estilo. Vou experimentar Budapeste.
30/06/2008
Nanopinião 42: Estorvo
Estorvo, de Chico Buarque - Cia das Letras
Sem muito a dizer. Bem-escrito, principalmente em relação a Fazenda modelo (que li na faculdade e achei muito ruim), mas a história não me disse nada. Interessante como exercício de estilo. Vou experimentar Budapeste.
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Nanopinião
27/06/2008
Guimarães Rosa completaria 100 anos hoje!
Foi o Daniel Piza, em seu blog no Estadão, quem me lembrou: hoje, 27 de junho, é o dia do aniversário de 100 anos de nascimento do escritor mineiro João Guimarães Rosa - autor do livro mais festejado no Brasil do século XX, Grande sertão: veredas. O que se diz é que a literatura brasileira consiste, basicamente, em Machado de Assis nos 1800 e Guimarães Rosa nos 1900. Deste, confesso, li só Primeiras estórias, em que um dos contos é o excelente "A terceira margem do rio" - e com bastante esforço. Grande sertão está na estante, ao lado do admirável O Léxico de Guimarães Rosa (Edusp, 2001), de Nilce Sant´Anna Martins. Um dia, quem sabe...
25/06/2008
Pinceladas de Victor Hugo
Os miseráveis, Cosac & Naify
tomo 2, páginas 110 e 111
"A vida para Marius ficou difícil. Comer com o dinheiro obtido na venda das roupas e do relógio não era nada. Ele se alimentou também dessa coisa inexprimível que se chama o pão que o diabo amassou. Coisa horrível, que inclui os dias sem pão, as noites sem sono e sem luz, a lareira sem fogo, as semanas sem trabalho, o futuro sem esperança, os cotovelos rotos, um chapéu velho que provocava o riso das mocinhas, a porta que encontra fechada à noite por não se ter pago o aluguel, a insolência do porteiro e do estalajadeiro, as zombarias dos vizinhos, as humilhações, a dignidade ofendida, a aceitação de trabalhos vis, o desgosto, a amargura, o desânimo. Marius aprendeu como se devora tudo isso, e como, muitas vezes, essas são as únicas coisas que existem para se devorar. Nesse momento da existência em que o homem tem necessidade de orgulho, porque tem necessidade de amor, viu-se escarnecido, porque estava mal vestido, e ridicularizado, porque era pobre. Na idade em que a juventude nos enche o coração de uma altivez imperiosa, ele muitas vezes baixou os olhos para as botinas furadas e conheceu a vergonha injusta e o pungente rubor da miséria. Admirável e terrível prova da qual os fracos saem infames e os fortes, sublimes. Cadinho em que o destino joga o homem todas as vezes em que quer criar um patife ou um semideus.
Nas pequenas lutas, fazem-se grandes ações. Há bravuras persistentes e ignoradas que se defendem corajosamente na sombra contra a invasão fatal das necessidades e torpezas. Nobres e misteriosos triunfos que nenhum olhar vê, que nenhum renome paga, que nenhuma fanfarra saúda. A vida, a desgraça, o isolamento, o abandono, a pobreza, são campos de batalha que também têm seus heróis; heróis obscuros, maiores talvez que muito herói ilustre.
Muitas naturezas firmes e raras assim foram criadas; a miséria, quase sempre madastra, às vezes mostra-se mãe; a privação gera o poder da alma e do espírito; a penúria é a nutriz da altivez; a desgraça é ótimo leite para os magnânimos.
Houve um momento na vida de Marius em que ele varria o patamar da escada, comprava um soldo de queijo Brie na quitanda, esperava que a tarde caísse para ir ao padeiro comprar um pedaço de pão, que levava furtivamente para seu quarto, como se o tivesse roubado. Às vezes viam entrar, no açougue da esquina, em meio às cozinheiras cheias de chistes que o acotovelavam, um jovem de aspecto acanhado, carregando livros debaixo do braço, ao mesmo tempo tímido e arisco, e que, ao entrar, tirava o chapéu mostrando a testa coberta de suor, fazia profunda saudação à açougueira admirada, outra saudação ao cortador, pedia uma costela de carneiro, pagava-a com seis ou sete soldos, embrulhava-a num papel, punha-a sob o braço, entre dois livros, e ia-se embora. Era Marius. Com essa costeleta, que ele próprio cozinhava, vivia três dias. No primeiro dia, comia a carne, no segundo, a gordura, e no terceiro dia roía o osso.
Ainda estava de luto pela morte do pai quando começou no seu íntimo a revolução de que acabamos de falar. Desde então nunca mais deixou de usar roupas pretas. Mas as roupas é que o deixaram. Chegou um dia em que seu casaco tornou-se imprestável. As calças ainda resistiam. Que fazer? Courfeyrac, que por sua parte o ajudara bastante, presenteou-o com um casaco velho. Por trinta soldos, Marius mandou-o a um porteiro qualquer que o virou do avesso; era a sua roupa nova. Mas o casaco era verde. Marius, então, só saía depois do pôr-do-sol. Com isso, seu casaco parecia preto. Querendo vestir sempre o luto, vestia-se da noite."
Nanopinião (10/06/2007).
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23/06/2008
Nanopinião 41 - O mago
O mago, de Fernando Morais - Planeta
Li em duas semanas, mas pode ser lido em três dias. É excelente. Fernando Morais escreve muito bem, e minha impressão é que emprestou todo o seu talento a este livro, que afinal já foi vendido para muitos países e a tendência é que alcance muitos outros. Não é caudaloso nem vibrante como Chatô, porém. Parece que o acesso ao baú de Paulo Coelho aos 45 minutos do segundo tempo, apesar de ter auxiliado a confecção de um perfil muito mais profundo e contundente do biografado, atrapalhou um pouco na hora de reescrever o que já estava pronto. Tem muita citação... No mais, a história de Paulo Coelho é mesmo digna de uma biografia robusta: a vida do escritor brasileiro que mais vendeu livros, mais quebrou recordes, é mais traduzido que Shakespeare e que desde a adolescência sonhou em ser o que é hoje. Morais não esconde que não acredita em nada que Coelho garante ter acontecido, espiritualmente falando, na sua trajetória tortuosa até tornar-se um mago. O ceticismo do autor é claro; no entanto, todas as experiências sensoriais, espirituais e de além-túmulo que Coelho diz ter vivido são narradas com correção jornalística e apuro estilístico invejáveis. Paulo não jura que se encontrou com o demônio, com o Anjo da Morte, com espíritos suspeitos? Está tudo lá. Interessante, claro, a relação de Coelho com Raul Seixas (foi Paulo quem desencaminhou o homem!) - e o desnudamento de uma personalidade egocêntrica, às vezes doentia e covarde, claramente usando as pessoas ao seu redor para alcançar o objetivo de ser um escritor lido em todo mundo. A parte final do livro, em que é destrinchada a “febre” Paulo Coelho, do lançamento de O Diário de um Mago em 1987 até o de A bruxa de Portobello em 2007, é como um alerta que Morais dá à imprensa, aos críticos e ao Brasil em geral: acordem, porque o homem já vendeu mais de 100 milhões de exemplares e não conseguiu receber um único e escasso prêmio em seu país, enquanto no resto do planeta coleciona comendas e homenagens em todos os idiomas e angaria ao menos o respeito de críticos e personalidades! A descrição dos vexames que já teve de aturar no exterior devido ao desprezo e à falta de sensibilidade das autoridades brasileiras é chocante. Em 1998, o governo federal levou uma caravana de 50 escritores para representar o país no Salão do Livro de Paris. Paulo Coelho, claro, não foi incluído na lista, mas estava no estande da sua editora francesa. No dia em que o presidente Jacques Chirac recebeu a caravana para um passeio pelo centro de convenções Paris Expo, a comitiva liderada pela primeira-dama Ruth Cardoso simplesmente ignorou o estande. Chirac, ao vê-lo amuado num canto, abandonou o grupo e foi cumprimentá-lo pessoalmente, para espanto geral da imprensa e dos brasileiros. Em 2006, no segundo turno das eleições presidenciais, Coelho, na sua casa no Sul da França, gravou um pedido de votos a Lula para ser veiculado no último programa eleitoral da TV, sábado à noite, véspera do pleito. Horas depois de o programa ter sido exibido no Brasil, sua caixa de e-mail passaria a receber cerca de 10 mil mensagens de leitores dizendo-se decepcionados com a atitude. Lula nunca disse obrigado, nem mesmo nessas cartas que só assina sem ler. É inacreditável que um escritor que leva o nome do Brasil mundo afora com tanta ou mais intensidade e sucesso que Ronaldo ou Pelé não mereça um bom-dia cordial, uma única demonstração de civilidade. E pensar que a mãe de Paulo Coelho – irritada por saber que o filho iria rodar de ano no tradicionalíssimo Colégio Santo Inácio – tenha tentado alertá-lo sobre a “carreira” de escritor: “Meu filho, somos 130 milhões de brasileiros, mas Jorge Amado só existe um”. No que ele respondeu, escrevendo no diário: “Minha mãe é uma besta”. A verdade é que passei a admirar Paulo Coelho, mesmo já tendo lido livros seus e não gostado. Pretendo ler O Alquimista, agora. Quem sabe o conhecimento da vida do autor não ajude a lê-lo com outros olhos?
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Nanopinião
22/06/2008
O sol é para todos - adaptação à altura do papel
Revimos ontem a To kill a mockingbird (1962), clássico dirigido por Robert Mullingan, estrelado por Gregory Peck e baseado na obra-prima de Harper Lee. Chorei, claro, mas também porque, visto logo em seguida à leitura do livro, o filme ficou ainda mais lindo. Impressiona a atuação de Peck como o advogado viúvo Atticus, pai dos ótimos, cativantes Jem e Scout. O ator não só disse as falas, mas também criou uma persona, um jeito de ser irretocável ao personagem: compenetrado, sério, sábio. O filme consegue mostrar o novelo de histórias paralelas e simultâneas de Maycomb com perfeição. Eis, acho, o segredo da adaptação de obras literárias para o cinema: engrandecer o que está no papel. Entre todas as nuances, a que mais gosto é sugerida nas cenas do tribunal, lotado de gente ansiosa pelo desfecho do julgamento de Tom Robinson. É tão claro que o réu não estuprou ninguém e está sendo acusado somente por ser negro que até Jem, com 8 ou 9 anos de idade, percebe. Para o garoto, a frustração de ver uma pessoa claramente inocente ser condenada à morte é decepcionante, e dói. É o fim, “precoce, mas necessário”, poderia dizer Atticus, da inocência. Que belo filme.
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Cinema
21/06/2008
Para fuçar - e assistir: Memória Roda Viva
Dias atrás, foi lançado o Memória Globo, site em que a emissora expõe sua história desde 1965. Agora, leio no Dveras que o programa Roda Viva, da TV Cultura, também lançou um site com o arquivo em texto e vídeo de suas entrevistas. Conforme o Dauro Veras, "já colocaram 206 nomes, como Grande Otelo, Millôr Fernandes, Davi Yanomami, Niède Guidon, Darcy Ribeiro, Dráuzio Varella, Jesus Martín-Barbero, Manuel Castells...". Passa lá, e aproveite!
16/06/2008
Um adeus para Jamelão (1913-2008)
Passei o fim de semana desligado de televisão e internet. Só agora pela manhã soube da morte de Jamelão, a "carranca" da Mangueira. E lembrei do perfil dele escrito por Fred Melo Paiva em 2006, publicado no caderno Aliás do Estadão. Brilhante, à altura do mestre.
"A carranca vai passar"
Aos 93 anos, ele quer comandar a escola na avenida. Quer ser sempre Jamelão. Vai morrer Jamelão
Fred Melo Paiva
Jamelão é um sujeito que não gosta. Não gosta assim mesmo, com o verbo no intransitivo, tantas são as coisas que ele desgosta. Não gosta de falar do passado, não gosta de falar do presente, não gosta de roda de samba nem exatamente de carnaval. Não gosta de Cartola.
Não gosta sequer de cantar - só o faz para embolsar algum e justamente porque não gosta de ficar devendo.
Gosta menos ainda que venham lhe beijar a mão. Se um desavisado se curva, fica com a beiça a ver navios: 'Num sô pai-de-santo', ele rosna.
Estender-lhe a mão, esse gesto simples, é uma temeridade: 'Num sei onde cê pôs essa mão...' O jeito é apenas sorrir para ele. Mas não espere reciprocidade - Jamelão não gosta de sorrir.
Esse sujeito que não gosta sentiu-se ainda mais desgostoso há duas semanas, quando correu a notícia em um jornal popular do Rio de Janeiro: 'Jamelão não é mais o puxador da Mangueira'. Quer deixar de mau humor o Jamelão, não precisa fazer nada. Jamelão não fica de mau humor - é de mau humor.
Se quiser no entanto jogar lenha na fogueira, basta chamá-lo de puxador de samba, o que para ele é xingamento, ao estilo puxa-saco ou puxador de fumo. Jamelão não puxa - é intérprete.
Desde 1950 a sua voz grave, bonita, embala a escola nos desfiles da avenida. Aos 93 anos, é figura tão lendária na Sapucaí que parte dela, a área destinada à concentração das alas, chama-se oficialmente Espaço Jamelão.
De forma que a manchete do jornal sugeria uma puxada de tapete. O Jamelão não gostou. - Eu só não canto esse carnaval se Deus não quiser. O dia que Deus me tirar de circulação, aí cabô.
Continua aqui.
Pinceladas de Ernest Hemingway
As ilhas da corrente (1970)
tradução de Milton Persson
editora Bertrand Brasil
páginas 174 e 175
– Avance mais um pouco – pediu Roger.
– Avançando mais um pouco.
David já tinha a chumbada a seu alcance.
– Tudo pronto, Eddy? – perguntou Roger.
– Claro – respondeu Eddy.
– Olho nele, Tom – gritou Roger, inclinando-se e agarrando a chumbada do fio.
– Afrouxe o travão – pediu a David e começou a içar o peixe devagar, segurando e erguendo o fio pesado para aproximá-lo do arpão.
O peixe vinha subindo, comprido e largo como uma vasta tora na água. David o controlava, olhando de relance para o caniço, a fim de verificar se não estava enroscando. Pela primeira vez em seis horas não retesava as costas, braços e pernas, e Thomas Hudson viu que os músculos das pernas se retorciam e tremiam. Eddy estava debruçado à amurada com o arpão e Roger içava, vagarosa e uniformemente.
– Pesa mais de quinhentos – afirmou Eddy. Depois em voz baixa: – Roger, o anzol tá quase arrebentando.
– Dá para alcançá-lo? – perguntou Roger.
– Ainda não – disse Eddy. – Vá aproximando ele com calma, devagar.
Roger prosseguiu içando o fio de arame e o grande peixe se ergueu uniformemente para o barco.
– Ta se cortando – avisou Eddy. – Tá preso praticamente por nada.
– E agora, dá pra alcançar? – perguntou Roger. Seu tom de voz não mudara.
– Por enquanto ainda não – respondeu Eddy, também baixo.
Roger içava com toda a delicadeza e suavidade possíveis. Depois, parando, endireitou-se, perdendo a tensão; segurando a chumbada frouxa nas duas mãos.
– Não. Não. Não. Ah, meu Deus, por favor, não – exclamou Tom Jr.
Investindo para baixo com o arpão, Eddy saltou pela amurada para tentar cravá-lo no peixe se conseguisse alcançá-lo.
Não adiantou. O grande peixe pairou ali na profundidade da água onde parecia um enorme pássaro roxo escuro e depois afundou lentamente. Todos o viram ir descendo, ficando cada vez menor, até sumir de vista.
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Pinceladas
13/06/2008
Para fuçar: Memória Globo
Com atraso...
No Estadão de sábado, dia mundial da liberdade de imprensa, a Globo divulgou um anúncio de impacto em página dupla: o lançamento do site Memória Globo, com reportagens, vídeos e textos do arquivo da emissora desde a sua inauguração, em 1965. Para aumentar a provocação, o anúncio deu exemplos de assuntos que estão disponíveis no site: Time/Life, concessões de canais entre os anos 1950/1960, Brizola/Proconsult, cobertura das Diretas Já, último debate entre Lula e Collor nas eleições presidenciais de 1989... Só pedreira, assuntos que colaram a pecha de chapa-branca ao jornalismo da emissora. É visitar e explorar.
12/06/2008
La plus belle du quartier/Anyone else but you
Se você tem certeza de que partilha e enfrenta a vida com a mulher certa, hoje é dia de dizer obrigado a ela. De dizer obrigado e abraçá-la com o ímpeto do encontro fortuito, beijá-la com o hálito que convida à entrega; utilizar o saca-rolhas com a destreza de um maitre e servir o vinho com a deferência dos enamorados; hoje é dia de dizer obrigado e de revelar a ela um segredo temível, desses que reabririam feridas se contados a outros, mas que confidenciados assim, numa data tão íntima, proporcionam apenas alívio; dia de dizer obrigado e de preparar uma surpresa ingênua, pendurar um quadro novo na parede da sala, resgatar do álbum esquecido a foto da primeira viagem conjunta; de ouvir as baladas da modelo francesa, ver um Antonioni à luz de abajures, recitar um Neruda para ela na cama, à beira do sono ou a um passo do abismo; oferecer-lhe um presente para vestir, para comer, para beber, para decorar o cômodo preferido dela; dia de estrear a calça que ela lhe deu, falar as palavras que ela mais gosta de ouvir, elogiar as qualidades que mais a envaidecem; é dia também de ignorar os cartões de romantismo industrial, as telemensagens de conteúdo e entonação piegas, os buquês de rosas envelhecidas a serviço do comércio do amor; de dizer obrigado e acalentar mais um pouco o sonho de um futuro cúmplice e de uma felicidade à moda da casa, jamais irrestrita; de renovar a certeza de que se pode viver a dois para sempre; abrir uma exceção e falar de filhos sem medo: menino, menina ou gêmeos. Dizer obrigado, e ébrio de tinto repetir obrigado, obrigado por tudo.
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Crônica
11/06/2008
Vida longa ao CQC!
Segunda-feira, após uma cansativa pelada com os amigos, sentei na frente da televisão e, zapeando, vi a cara do Marcelo Tas. Lembrei da entrevista da Trip de maio e concluí, com a prostração do zagueiro fracassado: "Ah, o Custe o que custar, aquele programa argentino de que a Band comprou a franquia...". Fiquei assistindo. Que maravilha. Fui dormir rindo, acordei alegre e passei o dia de ontem com um sorriso na boca. O CQC é, hoje, o mais divertido programa da TV brasileira. E jornalístico, o que o torna ainda mais seutor. Tas treinou uma equipe de entrevistadores muito boa: um pessoal inteligente, engraçado, bem informado e sangue-frio. Enfim, já estou ansioso pelo programa da semana que vem. Vai ao ar às 22h. Se, como eu, você há anos não assiste Casseta & Planeta, jamais gostou de Pânico e está um pouco cansado do Roda Viva (que dirá da Tela Quente!), experimente. Vale cada minuto.
Abaixo, CQC entre os tucanos, na festa em memória aos 10 anos da morte do Sérgio Motta. Há dezenas de outros vídeos no Youtube. É só escolher:
ps. esse estilo de ir aos lugares e captar o ridículo das pessoas e situações me lembrou muito as matérias que o Bob Fernandes fazia em CartaCapital, em especial com os grã-finos: festa na Daslu, exposição de pintor de novos-ricos, encontros de caciques políticos, casamento de celebridades... Que bom ter isso de volta!
10/06/2008
Nanopinião 40 - O sol é para todos
O sol é para todos, de Harper Lee - José Olympio
Enfim, leituras plenamente retomadas. Que livro este de Harper Lee, a amiga de Truman Capote. Lindo, lindo, lindo... Não sei não, mas achei que ela escreveu diálogos de crianças melhor do que Mark Twain. Impossível ler as falas de Atticus sem lembrar do Gregory Peck, estrela do belíssimo filme (To Kill a Mockingbird, 1962) baseado no romance. A narradora, Scout, conta sua vida ao lado do irmão Jem e sob a proteção do pai, o advogado que, por determinação do estado, tem de defender um negro acusado de estupro contra uma branca na região mais racista dos EUA. Scout é de uma ironia... A tensão sobre a sua sexualidade é quase explícita (estranha-se seu jeito de falar, sua preferência por brincar com meninos e o fato de usar macacão de jeans em vez de vestidos, por exemplo), e ela, como contadora da história, não esconde nada, até esnoba as senhoras que a tentam pôr "na linha". E ainda há a subtrama de Boo Hadley. O fim é demais. Atticus é um dos melhores professores de ética da história da humanidade. Quase como Jean Valjean. Obra-prima.
Jem e Scout, perfeitos no filme, como no livro
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Nanopinião
09/06/2008
Resenhas, resenhas, resenhas...
Sunday Book Review do NYT trouxe duas resenhas de lançamentos de que ouviremos falar em bvreve no Brasil: Rushdie e Naipaul. Na internet, disponibilizou o arquivo do caderno desde 1997. Fartura de resenhas, hein?
'A Writer’s People'
By V. S. NAIPAUL
Reviewed by DAVID RIEFF
The author meditates on his literary life, in London and far beyond.
'The Enchantress of Florence'
By SALMAN RUSHDIE
Reviewed by DAVID GATES
Salman Rushdie’s new novel is about the imagination.
Archive
The New York Times Book Review: Back Issues
Complete contents of the Book Review since 1997.
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Do NYT
06/06/2008
Um baita site para a biografia de Paulo Coelho
O site da editora Planeta estampa na capa uma chamada irresistível:
"Paulo Coelho por Fernando Morais: incrível, fantástico e extraordinário".
Cliquei, pensando cair numa página com release, fotos, algumas críticas e resenhas já publicadas pela imprensa brasileira. Que nada! O link levou a um hotsite de primeiríssimo nível, com música da dupla Paulo Coelho/Raul Seixas, entrevistas em vídeo com Morais sobre o processo de pesquisa e escritura da biografia, quase 50 entrevistas/matérias sobre o lançamento, galeria de fotos e o primeiro capítulo de O mago, com 51 páginas em formato PDF. Visite lá, experimente ler as duas primeiras páginas e tente parar. É simples: não dá. O autor de Chatô escreve bem demais.
O e-book assusta editores e livreiros... nos EUA
Domingo terminou em Nova Iorque a Book Expo America, grande feira anual da indústria editorial norte-americana. O assunto do evento, que rendeu uma longa matéria na edição de segunda-feira do NYT (Electronic Device Stirs Unease at Book Fair), foi o crescimento das vendas de e-books, cujo suporte de leitura são, basicamente, os e-readers Kindle, da Amazon, e Sony. A previsão de editores que ainda não disponibilizam os livros físicos em formato digital e de donos de livrarias é que já existam 50 mil e-readers em circulação (o Kindle foi lançado em novembro passado). As vendas de e-books, segundo a reportagem, "estão crescendo exponencialmente". A diretora executiva da Simon & Schuster, por exemplo, declarou que suas vendas nesse setor em 2008 vão mais que dobrar em relação a 2007, quando cresceram 40% em relação a 2006. David Shanks, do Penguin Group USA, afirmou que a editora já vendeu mais e-books em 2008 do que em todo o ano de 2007... Outra questão discutida pelos editores durante a feira foi o baixo preço do e-book na Amazon (US$ 9,99): e se a companhia, daqui uns meses, resolver que os livros de lombada precisam competir em preço com os e-books? Como será? Também na edição de hoje, Paulo Krugman escreve que usou o Kindle por alguns meses, e achou ótimo.
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Do NYT
05/06/2008
02/06/2008
O retrato da leitura no Brasil é uma tristeza...
Na semana passada, o Instituto Pró-livro divulgou a nova pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Entre 29/11 e 14/12 de 2007, o Ibope realizou 5.012 entrevistas em 311 cidades de todos os estados brasileiros. A população estudada foi de 172.731.959 habitantes com idade a partir de 5 anos. Os números são vergonhosos. Algumas notícias sobre a pesquisa procuraram mostrar que a situação tem melhorado. Eu li, li, reli, e não encontrei alento nenhum. Só vi miséria. Confira abaixo alguns exemplos. O link para a pesquisa completa, em PDF, é este. Foi interessante perceber que, mesmo sendo um leitor contumaz (ausente de todos os quesitos desse levantamento), pude me encaixar em alguns padrões daqueles que lêem três ou quatro livros por ano... Teste aí.
RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL
(Instituto Pró-livro, 28 de maio de 2008)
Conceitos:
Leitor (55% do total): quem declarou ter lido pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses.
Não leitor (45% do total): quem declarou não ter lido nenhum livro nos últimos 3 meses.
Entre os não leitores:
- dos 77,1 milhões que não leram nada, 6 milhões disseram ter lido 1 livro há mais de 3 meses.
- 4,5 milhões deles lêem a Bíblia.
- 21 milhões são analfabetos.
- 27 milhões só cursaram até a 4ª série do Ensino Fundamental.
- Gênero mais lido: livros religiosos.
Entre os leitores:
- Metade lê o que a escola indica.
- 7% estava lendo a Bíblia no momento da entrevista.
- 1/3 afirma ler freqüentemente, dos quais 55% são mulheres.
- Na região Sul, 75% dos que gostam de ler lêem com freqüência, contra 71% do Sudeste.
Sobre o significado da leitura:
- A leitura tem significado positivo para 3 em cada 4 pessoas.
- 1 em cada 4 pessoas não faz a menor idéia sobre a importância da leitura.
Principais motivações para ler (várias opções):
- Para 63% dos leitores: prazer, gosto ou necessidade espontânea.
- Para 53% dos leitores: atualização cultural/conhecimentos gerais.
- 60% dos entrevistados não conhecem ninguém que venceu na vida por ser um leitor.
Atividade em tempo livre:
- Televisão: 77%
- Ouvir música: 53%
- Descansar: 50%
- Ouvir rádio: 39%
- Ler: 35%
Gêneros mais lidos:
- Bíblia: 45%
- Livros didáticos: 34%
- Romance: 32%
- Literatura infantil: 31%
- Poesia: 28%
mulheres lêem mais que homens em todos os gêneros, menos História, Política e Ciências Sociais.
Autores brasileiros preferidos:
- 51% dos leitores souberam dizer o nome de um autor brasileiro que admiram.
- Os 4 escritores brasileiros mais votados receberam quase metade das indicações.
- Os 4 mais citados: Monteiro Lobato, Paulo Coelho, Jorge Amado e Machado de Assis.
Livro mais marcante da vida:
- 59% dos leitores souberam citar o livro mais marcante.
- O número de citações da Bíblia é 10 vezes maior que a do 2º colocado.
- 2 em cada 3 entrevistados não souberam dizer ou não informaram um livro marcante.
- Os 5 cmais citados: Bíblia, Sítio do Pica-pau Amarelo*, Chapeuzinho Vermelho, Harry Potter e O Pequeno Príncipe.
*não é título de obra, mas referência à obra de Monteiro Lobato.
Último livro lido, ou que está lendo:
- 64% dos leitores souberam dizer que livro está lendo ou o último que leu.
- Desses 64%, 6,9 milhões estavam lendo a Bíblia (18 vezes mais citada que o segundo colocado).
- Os cinco mais citados: Bíblia, Código Da Vinci, O Segredo, Harry Potter e Cinderela.
Tempo de leitura de livro:
- 51% dos leitores de livros dedicam de 1 a 3 horas por semana à leitura.
- 10% dedicam de 4 a 10 horas por semana.
- 2% dedicam mais de 10 horas por semana.
- 34% dedicam menos de 1 hora por semana.
Fatores que influenciam na hora de comprar um livro:
- Tema: 63%
- Título: 46%
- Dicas de outras pessoas: 42%
- Autor: 33%
- Capa: 23%
Livros lidos em outros idiomas:
- 87% não lêem em outros idiomas
- 9% lêem em inglês
- 5% lêem em espanhol
Maior influência para o entrevistado virar um leitor:
- Mãe ou responsável mulher: 49%
- Professora: 33%
- Pai ou homem responsável: 30%
- Outro parente: 14%
Hábito dos pais:
- 60% dos leitores se habituaram a ver os pais lendo.
- 63% dos não leitores nunca ou quase nunca viam os pais lendo em casa.
Livros de presente:
- 52% dos leitores geralmente são presenteados com livros.
- 85% dos não leitores nunca ganharam esse presente.
Livros em casa:
- 146,4 milhões de brasileiros afirmam possuir pelo menos 1 livro em casa.
- 8% da população não tem nenhum livro em casa.
- 4% tem apenas um.
- A média é de 25 livros por residência.
Concentração dos livros:
- 19% dos livros estão nas mãos de 1% da população.
- 49% dos livros estão nas mãos de 10% da população.
- 66% dos livros estão nas mãos de 20% da população.
Visitas a bibliotecas:
- 3 em cada 4 brasileiros não vão a bibliotecas.
- 1 em cada 4 estudantes freqüenta bibliotecas públicas municipais.
Limitações para ler um livro:
- 11% dos entrevistados citaram que não têm paciência.
- 16% que lêem devagar.
- 48% que não têm dificuldade alguma.
Média de livros comprados por ano:
- 1,2 por habitante.
- Entre os compradores, 5,4.
- 36,3 milhões compraram pelo menos 1 livro no ano anterior.
Média de livros lidos por ano:
- 4,7 por habitante.
- Livros indicados pela escola (inclui didáticos): 3,4 por habitante.
- Livros lidos fora da escola: 1,3 por habitante.
- Mulheres lêem 5,3 e homens, 4,1.
Paulo Coelho, a biografia de um mago
No sábado, o Estadão me informou que a biografia de Paulo Coelho, escrita por Fernando Morais (Olga, Chatô), começou a chegar às livrarias do país inteiro ontem, com tiragem de 100 mil exemplares. A matéria de Ubiratan Brasil garante: a editora Planeta, que publica os livros do mago no Brasil, pretende traduzir a obra em 40 países. Não lembro de outra reportagem de jornal que tenha me despertado o desejo de ler um livro. Pudera. Em entrevista, Morais conta que, depois de ter o livro pronto para publicação, leu no testamento do autor de O alquimista que, quando ele morresse, um baú teria de ser incinerado imediatamente. Morais, claro, quis saber que diabos continha o baú, guardado com todo cuidado num apartamento em Copacabana (RJ). Coelho recusou-se a informar o conteúdo da arca, mas Morais tanto insistiu que o biografado lhe propôs um desafio: o biógrafo teria acesso ao baú se descobrisse o nome do militar que o prendeu em 1969, no Paraná, achando que detia um guerrilheiro. Repórter de primeira, Morais descobriu, e fez a descoberta: cadernos com os diários de Coelho entre 1960 e 1994 e cerca de 100 fitas cassete com gravações do autor. Resultado: a biografia precisou ser reescrita.
Paulo Coelho já vendeu 100 milhões de livros, é mais traduzido que Shakespeare atualmente (66 idiomas) e, em entrevista a Mônica Bergamo, tempos atrás, disse que não sabe quanto dinheiro tem na conta bancária: ele apenas vai ao banco e saca a quantia necessária para o momento. Morais escreve que desde jovem, quando era roqueiro, Paulo Coelho tinha obsessão de ser o que é hoje: um escritor lido em todo canto do planeta. O resto não importava. Nem Raulzito, nem nada. É estranho, porque li um ou dois livros de Coelho (Na margem do Rio Piedra eu sentei e chorei e Brida, acho) e achei uma porcaria sem tamanho, mas minha impressão é de que, após ler a biografia, vou achar o sujeito do cacete...
Confira a cobertura do Estadão aqui.
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