28/09/2009

A crônica de hoje, no DC!

Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense. Sem anestesia Estou há 12 dias engolindo três comprimidos de antibiótico de oito em oito horas. Durante esse período, tomei um anti-inflamatório de 12 em doze horas. Estou também há quase cinco dias sem conseguir comer direito, tomando líquidos com dificuldade, ingerindo uma baga de cortisona a cada 24 horas, bochechando um líquido verde e fazendo compressa de gelo no lado esquerdo da face. Tudo para o meu próprio bem, claro, pois agora só me restam um siso e um pouco de juízo que o dentista ainda não extraiu na marra. Meus amigos dentistas tentam me esclarecer certos assuntos relacionados à sua profissão, mas é em vão. Imagino que arrancar um dente hoje não seja muito diferente de como o faziam nos tempos de Homero. A técnica deve ser rigorosamente a mesma do século VIII a.C., com exceção de que agora há uma anestesia que pode não “pegar” direito, enquanto nos tempos de Ulisses o paciente era embriagado e nada via. Atualmente, aliás, vemos tudo o que cometem na nossa boca. E ainda somos prestativamente informados do que está acontecendo, isso quando não oferecem um espelho para acompanharmos a necropsia das cáries e a exumação dos dentes inclusos. Certo, houve evolução. Na década de 30, Nelson Rodrigues, com 21 anos, precisou arrancar todos os dentes, por ordem médica, para tentar combater uma febre que não passava e que era, na verdade, uma tuberculose. Ninguém mais faz isso, claro. Mas imagine a multidão que anda por aí com dentes implantados, próteses etc.! Ora, decerto o dentista abre a sua boca, rasga a gengiva com um bisturi, liga uma espécie de furadeira na tomada, abre um rombo no osso da sua cara – com todo o cuidado, que é para não arrebentar um nervo da face e lhe deixar desfigurado para o resto da vida – e enfia lá um parafuso com um dente de mentira na ponta. Se algo der errado, ele terá de abandonar a sofisticação do procedimento e utilizar um martelo e um formão para rachar a sua mandíbula. O preço será o mesmo: meia dúzia de salários mínimos. O jovem Woody Allen poderia ter filmado a seguinte cena em alguma das suas primeiras comédias: vestidos de branco, dentistas caminham lentamente, um a um, rumo ao cadafalso: deitado com a cabeça no tronco, cada um deles recebe 10 injeções de anestesia em várias partes da gengiva, antes de ser guilhotinado diante de uma eufórica multidão de desdentados.

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