30/05/2007
25/05/2007
21/05/2007
A boa leitura
Exemplo da excelência de piauí: Dossiê tortura e maus-tratos.
É uma delícia e é um terror ao mesmo tempo.
20/05/2007
Um leitor aborrecido
Ando um leitor muito aborrecido. Abro jornais, revistas, e quase nada me agrada. Não sei o que pode ser. Só tolero os livros muito bons. Já li uma cacetada deles desde que me casei e saí da casa dos meus pais. Nem todos excelentes, claro, mas a maioria sim. Só o bem-escrito me conduz ao fim, me leva à última página. E para quem lê, gosta de ler, sente prazer com a leitura, incomodar-se com as palavras não é fácil. Esse parágrafo mesmo já não me parece nada bom.
Assino dois jornais. E eu, que já fui um leitor atento e contumaz da produção factual sem deixar de lado o que não é escrito para se ler em 10 minutos, agora mal os folheio. Só os vejo à noite, é verdade, e isso deve contribuir para o meu desestímulo. O português capenga e a pouca inventividade dos redatores são o que de fato broxam. Nem culpo a turma do lado de lá, porque já fui dela e nem sempre consegui pôr no papel o que a minha cabeça bolava. A máquina gira e mastiga muito rápido. Mas tem gente que consegue, e salva o todo.
(Um artigo do Nelson Rodrigues é definitivo sobre essa dificuldade de se manter uma produção de nível um pouco acima do minimamente legível dentro de um jornal diário. Está n'O baú de Nelson Rodrigues, da Cia das Letras. Cito um trecho: "E, assim, no ambiente estreito e opressor da redação, naquela atmosfera que a fumaça do cigarro torna irrespirável, desabam todas as criações da inteligência, todos os monumentos do raciocínio, todos os palácios da fantasia". Preste atenção: Nelson tinha 16 anos de idade.)
Já fui assinante “simultâneo” de três revistas. Uma semanal, duas mensais, todas marginais. Hoje, só recebo as mensais, porque não renovei a assinatura de CartaCapital. Compro, por mês, nas bancas, umas cinco ou seis outras. E tampouco as leio com muito prazer. Eu mais folheio do que leio. Só porque, às vezes, a gente esbarra em alguma coisa boa. Lê com gosto.
Tudo isso para dizer que a piauí, desde o primeiro número, é o que de melhor há no jornalismo brasileiro para quem tem tempo e gosto pela leitura. Não é de todo ruim ignorar um pouco a imprensa.
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Crônica
14/05/2007
Noite feliz
Felipe Christ
A noite de hoje foi de alegria e reencontros!
Salim Miguel e Eglê Malheiros receberam devida homenagem da Saraiva Mega Store, no Shopping Iguatemi, e eu e a Jade fomos lá ver. Somos fãs, admiradores, entusiastas e amigos do bom casal. Fez-se lá uma cerimônia rápida, inaugurou-se uma placa com um desenho dos escritores. Ambo são, agora e para sempre, padrinhos da livraria.
Eglê agradeceu e lembrou os professores catarinenses, antigos companheiros de profissão. Estendeu a homenagem a todos os que se esforçam por divulgar a cultura do Estado. Salim resgatou a infância em Biguaçu e contou que, depois de muito ler para o livreiro e poeta cego que o iniciou nas letras, veio para a capital e transferiu a sua arena de leituras para a Biblioteca Pública do Estado, que já está com mais de 150 anos, uma das mais antigas o Brasil, e por pouco não foi rifada na última reforma administrativa do governo estadual.
As reedições de A voz submersa e A vida breve de Sezefredo das Neves, poeta, Mare nostrum (resenhei para o DC!) e o recém-lançado O sabor da fome (todos da Record) estavam à venda e renderam ao menos muitas assinaturas do Salim, pois sua visão, debilitada, não permite mais autógrafos elaborados.
Reencontrei gente especial. Conversei com o cronista-mor Sérgio da Costa Ramos e sua esposa Carmem, e nos divertimos a falar de crônicas, DC (em que eu fui seu interino por 30 dias) e o bairro de Coqueiros. O amigo Moacir Loth logo me informou, piadista, que não fora ele, funcionário da Agecom, o responsável pelo fechamento do Unaberta!, e prometeu cobrar da mulher Raquel Wandelli um e-mail com as novidades dos dois. Cumprimentei Laudelino José Sardá - ele foi coordenador do curso de Jornalismo da Unisul na época em que lá eu comprei o diploma. Fui apresentado ao veterano ator Édio Nunes, pai de uma das nossas madrinhas de casamento, a Eve. Dei oi à distância a Flávio José Cardozo, outro baita ficcionista catarinense, cronista impecável, incentivador de novos talentos. E, claro, conversamos muito com Salim e Eglê, "velhinhos" adoráveis, gente da nossa mais alta estima.
Devolvi ao Salim livros de sua autoria que eu lhe pegara emprestado em 2005, para um projeto do DC naufragado em meio a uma tempestade de falta de tempo! Autografei os dois "mais novos" (Voz..., O sabor...), rimos. O Felipe Christ até tirou uma foto!
Estavam lá ainda o Guto Lima (padrinho, junto com a Eve), a Néri Pedroso (minha editora na Revista de Verão do DC 2005/06), o Régis Malmann (colega de Variedades em 2005), o cronista Amílcar Neves, o poeta Alcides Buss, o professor Lauro Junckes...
Bom revê-los! Que noite!
10/05/2007
Nonsense
A corda deslizou levemente, como brisa, feito sopro, no pescoço do Infeliz.
Clemência o encarava de longe. Balançava a cabeça, negaceava. Estava de chinelas, bata puída, pedaço de corda argolando a cintura. Machadiano, Claudio Frollo sem maldades, nenhum Quasímodo a sustentar (nem nos bolsos, nem nos ombros). Com dificuldades, segurava um livro debaixo do braço esquerdo, e não era a Bíblia. Eram poemas de benevolência, poesia indolor e ineficaz. Uma algema prendia suas mãos às costas.
Perto, de binóculos, o soldado também assistia. Um bravo de Waterloo, boina verde à Stallone. Olhava e pensava consigo que o mundo é mesmo um battlefield, minado de brinquedos explosivos, recheado de agulhas incisivas. Um tabuleiro de War II a explorar e ser conquistado, peças vermelhas contra azuis, briga ferrenha de dados. Por via das dúvidas, mantinha no coldre um 38 de policial. Eficaz em caso de pânico.
A Massa, claro, a tudo via. Reunida, compactada, espremida em praça pública. Olhos e lábios abertos, baba e passividade bovinas. Exclamava, bradava, inquietava-se, sem se mexer, mover um pé. Hipnotizada: o jornal a informara, a televisão a convidara. Quando fazia silêncio, um raro momento, podia-se ouvir o vendedor de pipocas.
A comandar a festa pública, mestre-de-cerimônias com a corda na mão, do alto do cadafalso, Miss Felicidade. Empertigada, metida em roupa bonita, uma bela flor na lapela, sorriso de Coringa rasgado na face. Os sapatos brilhavam lustrosos, a fivela do cinto à mostra. Era um contente a olhar um pobre-diabo. Um bobo a intimidar um cético. Enquanto ria, fumava um cigarro. Quando escarrarou na multidão, o chão do patíbulo finalmente cedeu. Fez-se o show.
Massa, o rosto sujo de cuspe, urrou ao ver a cena. Ideal balançava ao vento.
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Crônica
Grêeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeemio!
Pedi permissão à Jade e psicografei o Nelson Rodrigues após o Grêmio vencer o São Paulo por 2 x 0 nesta quarta-feira no Estádio Olímpico Monumental:
"Em quatro semanas, este novo time do Grêmio já acumulou a experiência de um Balzac".
E eu concordo com o velho Nelson.
07/05/2007
Nanopinião 17
Assistimos ontem à The corporation. Um excelente documentário. Longo (145 minutos), às vezes repetitivo, mas incisivo e inteligente. Tem um argumento brilhante: se as corporações norte-americanas são tratadas como pessoas comuns diante da lei, seu comportamento pode ser tanto o de um sujeito pacato quanto o de um psicopata. É claro que para quase 100% dos casos analisados a última opção é a mais precisa e correta. Enfim, um monte de gente bacana (e nem tanto) fala no filme e defende suas idéias. A edição, deve-se reconhecer, usa um recurso tolo: fulano fala algo e o texto em off começa em seguida com uma frase que contradiz ou zomba do entrevistado. Enfim... Mas no geral é ótimo. Principalmente para quem nunca ouviu falar de nada do que é tratado. Você sabia que a Coca-Cola Company criou a simpática Fanta Laranja especialmente para manter seus negócios em alta na Alemanha de Hitler, enquanto do outro lado do front empurrava o refrigerante gasoso negro aos soldados aliados? O Michael Moore é quem conta. Agora, se você já leu De pernas pro ar, publicado no já longínquo 1999 pelo mestre uruguaio Eduardo Galeano, nada lhe surpreenderá demais.
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Nanopinião
06/05/2007
Uma conversa inusitada
A mulher daria um perfil para a piauí. Era inteligente e esquisita, feia e deselegante. Pitava um cigarro barato, tinha os dedos sujos de nicotina e fumaça. Estava sentada no banco do ponto de ônibus quando eu cheguei e foi logo olhando a minha cara e dizendo sem cerimônia: Como vai, meu chapa? Eu respondi como quem rebate, sentando-me ao seu lado: Tudo bem, senhora. Que bom, completou ela, dando mais uma tragada. Seu rosto era fino e comprido, coberto quase até a metade com uns óculos escuros antigos, daqueles que começam negros e, embaixo, são meio transparentes. Cabelos louros, crespos e desgrenhados, nem longos nem curtos. Pela forma como me abordou, lembrou-me uma personagem do Hemingway, aquele "chapa" de boxeador ou veterano de guerra fechando o cumprimento. Mas, olhando bem de perto, ela tinha mesmo o aspecto de um jogador de futebol argentino depois de uma partida extenuante. Estávamos sós, e ela queria papo.
– Passou bem o feriado, rapaz?
– Sim.
– Passeou, aproveitou...
– Trabalhei.
– Trabalhou!
– É...
– Mas no dia mundial do trabalho você trabalhou! Em que você trabalha?
– Jornalismo.
– Ah... em jornal?
– Não.
– Por conta própria?
– Er... sim.
– E me diz uma coisa: como acabou aquela história do supermercado que pegou fogo?
– Olha, o que eu sei foi o que saiu nos jornais: que destruiu boa parte e que o rapaz morreu...
– Sim... ele cometeu suicídio, né? A minha empregada disse que o rapaz foi traído pelo chefe, porque tem uma esposa acamada com câncer, em estado terminal.
– Não sei disso, não.
– Pois é... você lê que jornais? DC...
– E o estado de são paulo.
– Ah, pensei que fosse só café pequeno...
– Tem de ler pelo menos dois...
– Você não gosta de matéria de polícia, pelo jeito.
– Não, não gosto.
– Também, é masoquismo, né? A minha empregada gosta.
Nesse momento o ônibus chegou. Outras pessoas estavam de pé, também à espera, de certo ouvindo com interesse a nossa conversa inusitada. Formou-se a fila, a mulher jogou o segundo cigarro longe, ajeitou os óculos escuros na cara e entrou. Subi atrás. Já não nos falávamos. Então, como quem encontra um velho amigo, ela disparou para o primeiro senhor que estava num banco da parte da frente, sentando-se ao seu lado, abrindo caminho para a fila rodar a catraca:
– Como vai, meu chapa? Passou bem o feriado?
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Crônica
03/05/2007
Velho Vento Vagabundo*
Um dia inédito e histórico na terra do poeta *Cruz e Sousa. Hoje de manhã a Polícia Federal executou a Operação Moeda Verde e pôs algemas no poder público de Florianópolis. Segundo informações da imprensa, ocupou as sedes da prefeitura, de duas secretarias municipais e de uma estadual. Prendeu 18 pessoas, mais duas em Porto Alegre. Empresários, políticos e servidores públicos. Habitasul (que "fez" Jurerê Internacional), Costão do Santinho, Shopping Iguatemi, Floripa Shopping, Colégio Energia... O vereador Juarez Silveira passou mal ao ouvir voz de prisão logo cedo e teve de receber atendimento médico. Foi mesmo uma manhã de sobressaltos. Uma santa e bela manhã.
Leia a lista com os nomes dos detidos e acompanhe a cobertura do clicRBS.
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