Mostrando postagens com marcador Do baú. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Do baú. Mostrar todas as postagens
28/07/2009
Nelson Rodrigues de volta à rede!
Em 2002, sob orientação do professor Clóvis Geyer no Jornalismo da UFSC, a Jade publicou o site Tudo Sobre Nelson Rodrigues, como trabalho de conclusão. Desde então e até pouco tempo atrás, o site esteve hospedado no site do curso. Agora, volta ao ar com domínio próprio, o mesmo layout e o mesmo conteúdo, mas há promessas de atualização...
Marcadores:
Do baú
14/10/2008
Do baú: Erra uma vez e sorri
ERRA UMA VEZ E SORRI
Erra uma vez e te perdoarão um dia. Erra uma vez e te aplaudirão no picadeiro da vida. Erra uma vez, meu amigo. Erra uma vez e te liberta da pressão do ser perfeito. Erra uma vez, pois quem não erra não sai da Terra, e quem não cola não passa nem da escola. Erra uma vez e sorri. Eu garanto que sorrirei, e aquela menina ali ao lado também - ela acaba de me piscar o olho esquerdo. Ela errou, bem sei.
Erra uma vez, repito. Erra uma vez e esquece. Aprende com teu erro, ou não. Erra uma vez por livre vontade, espontâneo desejo. Mas erra. Errar é fundamental. Sócrates errou Grécia afora, e o outro Sócrates errou um pênalti. Talvez também Dalí tenha errado uma vez. Pelé errou um dia, então escolheu a bola. Dizem que Einstein errou também, mas foi um erro relativo. Erra e vai que dá certo! A coragem é o álibi do erro.
Erra uma vez uma frase. Erra um ponto, uma vírgula, erra um pronome. Erra o nome da pessoa. Chama João a Gilberto, Neuza a Roberta. Some dois mais dois e assinale cinco. Erra o dia de folga e mata o trabalho. Erra.
Nada mais simples: errar justifica o livre-arbítrio.
ps. publicado no Anjos de Prata, em algum mês de 2002.
Marcadores:
Do baú
11/07/2008
Do baú 9: Política literária
Era uma velha pequenina, de espírito cândido. Em suas mãos circulavam, nos fins-de-semana de solidão e nos dias cinzas, tristes, os livros clássicos. Ela os relia com a mesma satisfação da primeira vez. Descobria uma personagem nova, que antes era mera coadjuvante, apagada e sem cheiro, sem eira ou beira, e a saudava com um sorriso amigável. Descobria também outras nuances, outros contornos. Embalava-se horas e horas na maltratada cadeira de balanço, os olhos apertados em busca das frases eternas. Até que uma vez, sentada na varanda acompanhando o lento crepúsculo de um dia que fora lindo, resolveu criar a “política literária”. E assim foi.
Escolheu os candidatos: Dom Quixote (o de sua preferência e agrado), Hamlet, Otelo (um negro tinha que ter), Brás Cubas (ah, o emplastro, santo remédio), Gulliver (“político” rodado, experiente), Alice (a mulher) e Baleia (a cadelinha, representante do povo). Criou slogans bobos: ser ou não ser presidente?; vote Alice, a mulher maravilha!; Gulliver, presidente pra mais de metro. Promessas vãs: abaixo a fogueira de livros; viva Amadis de Gaula; todos terão o direito de escrever suas memórias de trás para frente (em respeito aos vermes, meus cabos eleitorais); proibirei a ação dos invejosos, em especial dos Iagos malvados. Deu certo. Reuniu os netos, distribuiu-lhes pequenas biografias escritas em linguagem infantil e cada um escolheu seu “candidato”. Decidiu: ela mesma seria Quixote (a fraude, pois não).
Uma semana depois, tudo certo. Eliana, onze anos, interpretou Alice, e não chegou a 10% do eleitorado (o resto da família). O cão da casa, Faísca, mergulhou no mundo de Baleia, e ao fim da campanha estava todo desmilingüido, o coitado: ganhou 3% dos votos, por compaixão dos eleitores mais sensíveis. Lucas, o caçula, virou um Hamlet vigoroso: andava pra cima e pra baixo com o crânio de um passarinho morto na mão e um lençol do Mickey enrolado no pescoço, falando “sê ou não sê?”. Foi um fenômeno eleitoral: 15%. Brás Cubas, que era o neto Pedro, andava vendendo balas de goma na vizinhança e dizia que curava tudo, até mesmo espirro. Já a velha, Dom Quixote até a medula, ia eufórica pela semana adentro, incentivando a molecada dizendo que a eleição estava ganha a seu favor: não haveria feiticeiro que a barrasse da presidência.
Totalizada a apuração, ganhou a velha. Não houve choro nem lamentação: a criançada pulava exultante, dava parabéns à avó, pois ela merecia. Então a velha, que fizera aquilo como brincadeira para passar o tempo, emitiu o primeiro decreto de seu governo de mentirinha: às seis horas da tarde, após o colégio, ela faria a leitura de Cervantes, no jardim, ao pôr-do-sol. Dessa maneira, o povo saberia como agir e ficaria atento às venturas e desventuras do presidente e sua comitiva.
Assim, durante dois meses, a velha leu as oitocentas páginas do Engenhoso Fidalgo para os netos. Depois, voltou à cadeira de balanço e lá morreu (Ulisses, de Joyce, no regaço) de um tédio profundo.
ps. crônica de 2001, escrita sabe-se lá em que mês, publicada no Anjos de Prata.
Marcadores:
Do baú
12/10/2007
Do baú 8
A gente repara sim
Todo ano a mesma história, mas tem gente que nunca repara. Entre maio e junho, durante uma semana, acontece a Festa da Laranja, e todo santo ano chove e em pelo menos uma noite tem briga feia. Briga de garotos, gente fumada, gente bêbada, gente comum, gente que briga por um olhar de revés, um cutucão involuntário, uma paquera proibida, um flerte audacioso, uma querela de menos. Todo ano é isso, e todo ano chove, chove muito, e é como que parte especial da festa, a chuva, chuva fina, chuva forte, temporal ou garoa, todo ano, enfim, a mesma história. É de espantar quando não chove, porque está frio, sempre está frio demais, eis que tem muito quentão à venda, muita cachaça em garrafa de plástico, e quando não chove a gente estranha, desconfia da boa vontade do bom tempo, e alguns chegam a comentar que assim não dá, que já não é mais a mesma coisa, mas que a chuva não tarda, se não chove hoje chove amanhã. Naquele ano a Festa da Laranja começou na sexta 24 e até a quarta-feira 29 não tinha chovido ainda, apesar do frio, que castigava, e teve muita gente que estranhou: nada de chuva, nada de briga. E foi justamente na quarta-feira 29 que choveu bastante, começou como garoa e desaguou uma chuva braba, precedida do vento sul, nosso vento, e foi quando a chuva começou a cair pesada que se viu um bando de uns 30 ou 40 garotos marchando para a Universidade Federal, bonés, calças largas, brasas de cigarro na escuridão, casacos de náilon, qual é mano, qual é brother, e caminhavam rápido, pois atrás vinham os militares, da polícia, para garantir a segurança de todos, a ordem e o bom andamento da festa. E se viu também uma garota bêbada gritar que ia ter briga, briga feia, pois um mexeu com a mulher do outro, e é assim caso de paquera proibida, delito que exige punição a faca ou a socos e pontapés. E então metade da festa, que é tudo de gente normal que briga por qualquer coisa, saiu atrás daquele rebuliço, daquela confusão que se prepara para mais ali adiante, e tem gente armada, garotos com armas de gente grande, disseram. E é então, então mesmo, definitivo então, que a gente repara: as pessoas todas, os curiosos, os amigos e os colegas, a namorada de um envolvido, outros policiais, um segurança, uma senhora e um senhor, um taxista, um vendedor de churros, o pipoqueiro, vai tudo atrás da briga, todo mundo quer ver a briga, sentir a briga, para saber quem vai bater e quem vai levar, e ficam pelos bancos e pelos cantos apenas os casais, entre beijos sob o temporal, indiferentes ao tempo e a todo o resto – a noite sobre as cabeças, o pagode de trilha sonora –, de olhos bem fechados e pensando noutra coisa.
Marcadores:
Do baú
12/09/2007
Do baú 7
Eduardo Galeano: careca de saber
Num dia qualquer de 1978, já há muito no exílio, perguntou: “vale a pena escrever?” Botou no papel essa idéia maluca, dúvida que lhe mexeu com o espírito e o corpo. Parágrafos depois, concluiu: “as pessoas escrevem a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar aquilo que machuca e compartilhar aquilo que traz alegria”. De fato, Eduardo Galeano escreve, desde então e de muito antes e para todo o sempre, com esse princípio agarrado à caneta ou ao lápis, e sempre à mão.
Com a mão. É por ali que desabafa e procura sua identidade e a identidade de todos nós, homens e mulheres da América Latina, periferia do mundo. É na mão que as palavras, palavras de sonho e esperança, palavras de alento, sentem e pensam por si próprias. Dos pés à cabeça elas passeiam, as palavras andantes, e o batimento cardíaco do seu pulso as expele em um rio de poesia. Eduardo Galeano dá à luz palavras “sentipensantes”. A caneta em punho, mero instrumento de criação, vira faca e enxada, pilão dos negros de engenho, arco sagrado de Túpac Amaru, fuzil de Che Guevara.
Ele celebra Machado de Assis, assovia músicas de Chico Buarque, admira Cartola, voa como uma mosca ao lado de Santos Dumont, acompanha Lima Barreto à decrepitude da loucura e Luis Carlos Prestes na maior marcha do mundo. Vibra com Garrincha fazendo que vai mas volta, fingindo que vem mas foge, põe os louros reais em Pelé, e aplaude. Conhece com intimidade Marx, Freud, Shakespeare e Fidel, já visitou Macondo e conversa diariamente com Pablo Neruda, que acena do Além. Estava na praia, junto aos índios, quando Colombo chegou. Tem passe livre nos rituais incas, astecas e maias, e muito bem disfarçado se aventura nas bolhas invioláveis de Trujillo, Somoza, Batista e Augusto Pinochet. Dá suas alfinetadas no regime cubano, contaminado que está por uma burocracia burra e uma democracia mínima. Descrê no comunismo de Stálin, que muitos ainda celebram. Comeu o pão que o ianque amassou no decorrer do Século XX, século do vento, porém conhece como poucos a fornalha original, norte-americana por excelência, que Mark Twain teve a bondade de registrar o funcionamento, a temperatura e os ingredientes. Pratica traquinagens com Tom Sawyer e Huckleberry Finn.
Memórias do fogo, efêmeras: protesta de braços dados com as Mães da Praça de Maio, ocupa latifúndios improdutivos com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, veste a passamontanha e se embrenha nas matas de Chiapas, invade os EUA com Pancho Villa e seu exército estropiado, está até agora em La Moneda, apoiando a resistência de Allende. Eduardo Galeano participa todo dia de uma rebelião, todo dia de toda a História, contra um sistema que impede a descoberta da identidade apresentando-nos espelhos rachados e coibi nossa criatividade impondo uma cultura chula e alienígena.
Dirigiu inúmeros jornais. Fundou Crisis, a revista cultural de maior tiragem na história da língua espanhola. Seus companheiros de redação foram mortos ou torturados ou então desapareceram como num passe de mágica, engolidos pela terra. Com ele, Galeano, a palavra: “Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa. Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba, e que antes de tombar teve nome ou pelo menos número. A frase de um amigo piedoso me consola: ‘se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora’. Também me consolo comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meu cabelos mas nenhuma de minhas idéias, o que acaba sendo uma alegria quando a gente pensa em todos esses arrependidos que andam por aí”. Eduardo Galeano: um jornalista careca de saber.
ps. perfil publicado em 2000 ou 2001 no falecido Parem as máquinas.
Marcadores:
Do baú
01/08/2007
Do baú 6
Seu Genésio
Um acidente de carro lhe deixou marcada na cara a lembrança da morte, e cada vez que olha o espelho deve se lembrar do instante em que foi atropelado. Faz tempo, mas mesmo assim é como se tivesse sido ontem.
A fratura do lado esquerdo do rosto lhe destroçou a mandíbula e fez de sua fala um amontoado de palavras quase inaudíveis. O seu Genésio, que sobrevive bravamente com uma aposentadoria de R$ 136, não pode nem ao menos mastigar direito o amendoim que ele mesmo vende.
Todo santo dia, nestes últimos seis meses, seu Genésio está ali no terminal de ônibus, sentado, esperando pacientemente que alguém puxe assunto. Como todo ser humano, gosta de conversar e quando começa não pára mais. Traz do fundo de sua memória fatos e crenças, histórias de outrora e relatos especiais de um josefense que viu sua cidade mudar com o mundo.
No início, quando começou a se aventurar pelo ambiente requintado da vida universitária, não vendia um saquinho sequer de seu produto. Mas logo a presença de um velhinho baixinho manobrando uma cesta de palha carregada de amendoins assustou os donos do pedaço.
Então, sem muitas explicações, foi expulso, enxotado como os cães errantes que pedem esmolas com o olhar, ferido em sua dignidade. Mas ele não desiste. Que jeito? Ficou de fora da casa bonita, impassível. Hoje, resiste.
Da cidade antiga, São José, sabe tudo: da imensa propriedade dos pais e avós até os dias de hoje, em que ficou confinado com “a senhora minha mulher” num pequeno lote de um bairro qualquer da Palhoça.
De Florianópolis guarda a lembrança de quando era vigia da única via que ligava a ilha ao continente, a ponte Hercílio Luz, e do emprego que lhe rendeu a suada aposentadoria que a cada dia e a cada governo míngua de sua conta bancária, os bons tempos da Comcap. Da família, porém, sabe muito mais: filhos em Blumenau, São Pedro de Alcântara e Biguaçu, Palhoça, São José e até no Estreito.
Este perfil não quer fazer apologia ao seu Genésio e nem aos seus amendoins torrados, tampouco questionar o porquê da proibição da diretoria em não o deixar circular para ganhar seus cinco reais diários. Mas sim fazer com que as pessoas olhem para o lado e vejam quem as rodeia. Matéria da boa, na certa.
ps. não sei se este texto saiu em algum jornal lá na Unisul. acho que não. e também não lembro a data, de 2002, talvez.
Marcadores:
Do baú
28/06/2007
Do baú 5
Chuva in memoriam
Quando eu tinha cinco anos, diziam-me que os trovões e seus estrondos colossais eram obras de um grupo de anjos doidos, boêmios e peritos na arte de derrubar pinos. Sim, eu ficava entusiasmado com as histórias que meus pais contavam: lá em cima, no céu, enquanto São Pedro e Ele lavavam "a casa" – despejando sobre a terra a água mais limpa que a natureza pode conceber –, os anjos, sem terem o que fazer, iam disputar uma animada partida de boliche. Mas por que, então, os raios? O que os relâmpagos têm a ver com uma brincadeira tão legal como esta?, perguntava-me intrigado. Meus pais, assustados, vinham logo com a resposta: os anjinhos, quando a disputa acirrava e os ânimos se exaltavam, caíam na porrada, e, aí, sobrava paulada para todo lado. E concluíam: como a briga ficasse feia, a ponto de prejudicar nós mortais, que possuímos eletrodomésticos e andamos descalços, que paramos embaixo de árvores e que pescamos em alto mar, Ele e São Pedro se inquietavam e resolviam acabar com aquela bagunça. Chegando ambos à pista de boliche, os anjos fugiam, jogando as bolas para o alto e dando no pé. Assim, cessavam os trovões e relâmpagos. Assim, não havia mais clima para faxina. Parava a chuva; e eu acreditava.
Isso tudo eu lembrei noite dessas. Corria uma madrugada tranqüila e quente, quase de verão. Súbito, como todo ataque surpresa, começou a tempestade. Uma trovoada aqui, uma lá, e o aguaceiro caiu impetuoso, pegando a cidade de surpresa. Pingos de chuva pesados, clarões de relâmpagos e silêncio humano: podia-se ouvir somente a força da natureza, essa incógnita maravilhosa, pulsando incansável sobre a Terra. E eu ali, insone, com minha princesa ao lado, dormindo um sono profundo de mulher. Não tive coragem de olhar pela janela o que se passava lá fora, mas sabia que eram eles, os anjos malandros, e seus superiores, Ele e São Pedro, se exaurindo na limpeza do Paraíso.
Mas as trovoadas ficavam cada vez mais fortes. A fúria angelical tomava conta de Florianópolis, e eu cheguei a pensar (confesso) que o mundo desabava sobre nossas cabeças, como em Roma, lembrando o Asterix. Cada pino derrubado era um barulho dos infernos, se me permitem a blasfêmia. O som das bolas rolando, rolando, me dava a impressão de que o cimento, a argamassa e as estruturas de todo a cidade tremiam de medo. Fiquei petrificado por mais ou menos meia hora. Até que Ele, irritado, foi ter com os foliões e os botou para correr. Porém, surpresa: São Pedro continuou seu árduo trabalho de faxina! A chuva prolongou-se em silêncio, sem o jogo de boliche.
Era uma quinta-feira, e no início daquela semana haviam partido para sempre a colega Geanine dos Santos e sua filhinha de apenas cinco anos, que, como eu, estaria ainda aprendendo estas fábulas infantis. Só pensando desta maneira consegui dormir, pois cheguei à óbvia e confortante conclusão de que fora Ele quem ordenara a São Pedro que a limpeza continuasse: estavam a caminho do Reino dos Céus mais duas boas almas, e tudo tinha de estar pronto e limpinho, reluzindo um branco de paz e sossego.
ps. esta crônica não saiu em jornal nenhum, apenas os amigos leram. foi escrita numa madrugada de outubro de 2000, e está encharcada de nicotina e insônia. naquela semana, a estudante de jornalismo Geanine dos Santos, colega de faculdade, e a filha foram encontradas mortas por sufocamento. um crime impune até hoje. e que ninguém esquece.
Marcadores:
Do baú
29/11/2006
Do baú 4
Vênus e Cupido
Eu estava sentado, absorto na trama e saga do Comandante Aureliano Buendía - que viria a se lembrar, quem sabe quando?, do dia em que seu pai o levou pra conhecer o gelo - quando ela chegou. O ônibus, naquele exato momento, estremeceu. Olhei-a vindo para perto de mim: com olhos de ressaca, palpitantes, ela me olhou.
O engraçado é que nada mais existia, pois, assim como a Macondo de Cem Anos de Solidão, o banco em que estava sentado, lendo, parecia longe de tudo, prostrado no irreal. E eu a olhei, e ela me olhava. Devassei-a na intimidade o mais que pude: fui ao âmago de sua alma, senti sua pulsação, sua respiração, e recuei.
Isso tudo se passou em longos milésimos de segundo. Logo eu já estava de novo em transe, dado à leitura; e o ônibus, seguindo o seu destino cotidiano, sacolejava como sempre. Ela, contudo, Vênus misteriosa, sentou-se em minha frente.
Desci alguns pontos depois daquela enxurrada de sensações e daquela experiência fulminante de empatia. Ficou-me, devido aos sagrados mistérios do corpo e do espírito, aquele vazio triste. Vênus, como amiga de Cupido, provou ter uma bela mira. Flecha certeira: só pensava nela e só sentia o nada.
E eis que cá estou, já calmo e sóbrio do veneno do malvado anjo, completando esta página em branco. Preencho, numa louca tentativa de alívio imediato, o vazio deixado por aquela linda mulher, Vênus eternizada...
ps. é de 2000. escrita em aula, publicada na Usina de Letras.
Marcadores:
Do baú
22/11/2006
Do baú 3
Ars et Science
Confesso, pouco ou nada sei de arte. Na verdade, entendo apenas o que me agrada, ou o que eventualmente pode me render algum dinheiro. O que, se não é muito, já é alguma coisa. Falo concretismo fluentemente, em qualquer lugar do mundo, com pessoas de qualquer idade. Não tenho o mesmo domínio do neo-realismo, sabidamente um idioma complicado e obscuro, pois meu vocabulário é curto e impreciso. No mais, me viro sem problemas com o cubismo, língua que muito me atrai e que estudo com freqüência. Ah, quase me esqueço do velho e bom Latim, que nunca é demais, pelo menos para as teses de mestrado e doutorado. De todas estas, ensino somente o concretismo. Oitenta reais a hora.
No campo da culinária, sou ainda mais requintado. Preparo, só para dar uma colher de chá ao leitor, um excelente fetuccinne à parnasiana, receita secreta de um já falecido mestre-cuca e escritor italiano amigo de meu avô. Prato este dos mais admirados e idolatrados nos jantares que damos, eu e minha mulher. Mas deve-se servir acompanhado de vinho tinto, seco: eu indico o bárbaro Monet et philosophê. É o must da erudição alimentícia. Não dou, não vendo ou alugo a receita. Oras...
Sou admirador também de esculturas e tudo que diga respeito às artes plásticas. "Standarts" de arame renascentistas, finíssimos manequins de mármore greco-romanos, colares gigantes de Constantinopla, enfim, todas estas loucuras que a humanidade nos dá o prazer de conhecer. Lógico que faço das minhas, afinal, sou um artista cosmopolita. Tenho, além disso, uma visão holística e pacificadora do mundo, seja lá o que isso queira dizer. Dou aula de escultura: modelos jovens, entre os 15 e os 25, loiras ou morenas, que tenham, no mínimo, conhecimento da arte Atlântica e Polar. Telefone, vide lista - as amarelinhas. Cento e vinte reais por lição.
Como diria o esnobe do Verissimo, tenho leitura. Passar bem...
ps. COPYRIGHT! porque essa é de 2000, publicada em 2001, no livro A palavra como arma (Editora Garapuvu), organizado pelo professor e jornalista Mário Pereira. tempos de Unisul...
Marcadores:
Do baú
14/11/2006
Do baú 2
Casa de praia, mas nem tanto
Muitos, hoje, estão numa casa de praia. Como inquilinos, como hóspedes, deitado numa rede, estirado na cama com o ventilador ligado na terceira velocidade. A casa de praia é o lar do veranista, o refúgio dos que estão de férias e gostam de praia, mar e sol. Há, contudo, casas de praia que parecem protegidas, isoladas, repelentes a tudo o que diga respeito a praia, mar e sol. São residências e apartamentos em que a areia e a água salgada são proibidas, vetadas, banidas. Muitos, hoje, estão numa casa de praia que “funciona” assim. Admita.
O que ocorre é que o veranista, apesar de tudo, do dinheiro que tem e gasta, do descanso que merece e desfruta, é um ingênuo. Não sabe que entre os donos das casas de praia existe um estatuto rígido, cheio de impedimentos e restrições a todos que não são os donos legítimos das casas de praia. E como são implacáveis no cumprimento das regras!
O estatuto proíbe, por exemplo, que qualquer um entre na casa com os pés sujos de areia. Não é permitido a quem vai à praia, a quem toma banho, a quem deita e rola na areia, a quem bate uma bola ou jogue frescobol e a quem anda de banana boat voltar para casa com os pés sujos. Repare que o dono da casa de praia já rosna de longe ao ver os pés brancos de areia entrando pelo quintal. É para evitar isso que o estatuto sugere que se instale logo na entrada do terreno uma torneira ou um chuveiro bem à vista, quase imponentes, sempre sugestivos.
E se o banhista ou veranista estiverem com a bermuda, a sunga, o calção, o biquíni ou o maiô molhados, após horas e horas de mar, o melhor é não voltar à casa de praia. É certo que o dono fará de tudo para que você não entre nem pelo portão, que dirá sentar-se à mesa para o almoço, ou sentar-se no sofá, diante daquela televisão com o sinal ruim, fraco, para assistir ao telejornal e saber se há filas nas estradas ou qual a melhor festa da noite.
Isso tudo porque os donos das casas de praia de todo o mundo são ardilosos, e o veranista e o inquilino e o hóspede, de tão distraídos, nem percebem nada.
Há mil outras maneiras de os donos evitarem o contato da casa de praia com a areia e a água do mar. E é tamanha a sua convicção, que eles às vezes acreditam que a casa só é de praia por descuido, pois nem tinha de estar ali, perto da orla, a metros do mar.
Imagine aqueles que são donos das casas de Jurerê Internacional, praia “nobre” de Florianópolis! São xerifes dos banhistas, fiscais dos pés sujos, censores da sunga molhada. São donos da anti-casa de praia.
ps. publicada na coluna Crônica de Verão, da Revista de Verão, no início deste ano, no Diário Catarinense. Saiu aqui também, não sei por quê.
Marcadores:
Do baú
13/11/2006
Do baú 1
Para celebrar Pablo Neruda
Benditos aqueles que juram de pé junto, com um cravo na mão e um livro debaixo do braço, olhando de lado e falando baixinho, tristonhos no Chile como em toda a parte, que Pablo Neruda morreu de desgosto e não de doença naquele setembro chuvoso de setenta e três.
Inteligentes aqueles que classificam o desgosto como a mais triste e terrível das doenças, daquelas que fulminam de um só golpe os poetas como ele, Neruda, que levou ao Chile como para todo o mundo a sua arte de rimar coisas simples, porém belas, coisas bem simples, mas deslumbrante: leia "por que Cristóvão Colombo não pôde descobrir a Espanha?" e diga se não é mesmo simples, mas poderoso.
Que fez da vida esse Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, chileno de nome truncado, senão trocá-lo por Pablo Neruda, pendurar uma estrela vermelha no lado esquerdo do peito e sair por aí soltando chistes e distribuindo panfletos, Pablo do povo, e arengando às massas quando possível e lendo poemas do exílio e de amor a sua gente e a todos que sentem percorrer pela espinha o vento gelado da indignação.
Muito atentos os que vêem no nome de batizado do poeta a sombra benfazeja de Fernando Pessoa, o português que perseguiu Camões e se perdeu em heterônimos, deu-nos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e... Ricardo Reis. Louvada seja esta hereditariedade literária.
Porque o poeta um dia se confundiu com o carteiro e conquistou uma moça que não lhe pertencia, com textinhos furtados de livros antigos, palavras, pronomes, provérbios de outros tempos que seduziram a mulher e criaram confusão – porque o carteiro um dia inverteu a coisa e se fez poeta. Jean Paul Sartre que fique lá com suas idéias, guarde seus livros, celebre seu orgulho e sua nobre existência, mas o poeta respira fundo, ajeita no peito a estrela vermelha e vai a Estocolmo, com a dignidade estufada, igualar-se a Gabriela Mistral e receber o Nobel de Literatura daquele ensolarado 1971 em que o amigo Salvador Allende já era presidente do Chile.
Celebremos nesta segunda-feira o centenário de nascimento de Pablo Neruda: o pseudônimo que o Chile usou para entrar para a História.
ps. perfil publicado na revista Donna DC, do Diário Catarinense, na edição dominical de 11 de julho de 2004.
Marcadores:
Do baú
31/10/2006
Do baú
Perdeu a vida...
...num jogo de futebol. Pode ser que antes mesmo, num baile, numa festa de arromba ou em passeio pelo Centro da cidade. Costumava cantar debaixo do chuveiro, costumava rezar antes de dormir, costumava se benzer, se persignar solenemente ao se deparar com uma cruz. Tinha uma pinta no pescoço, o que sempre fora motivo de gozações, e de pânico na frente do espelho. Sonhava com a mulher amada, com um livro editado, um best-seller momentâneo e explosivo, um artigo polêmico, fama e dinheiro, mulheres e alguma paz pessoal. Um dia soltou um peido num elevador, onde estavam mais três pessoas, e foi o primeiro a reclamar, alegando que aquilo era uma falta de respeito, um disparate dito com a bunda. Uma falta de vergonha foi o que exclamou quando viu pela primeira vez um programa do Ratinho, e "ah, fina flor da intelligentsia" disse ao fim de um Roda Viva. Adepto de pensamentos típicos da esquerda, da festiva, julgava-se culto e refinado, sabia que Rembrandt tinha nascido na Holanda nos idos de 1600 e que Dali havia nascido na Espanha, ou em Portugal? Tinha lapsos misteriosos de esquecimento, confundia os ditados, misturava-os impunemente. Vestia-se com apuro, elegância, furtava frutas na casa do vizinho quando era pequeno. Seu primeiro beijo ele roubou de uma colega do primário, beijo molhado e sutil, muito diferente dos batons com que topou pelo caminho da vida. Casou-se com uma bela morena, tiveram os dois cinco filhos sadios e bem dotados fisicamente. Ao surgirem na imprensa as notícias da clonagem humana, contava aos amigos que certamente iria vender seu esperma aos bancos de esperma, e que com seu esperma muitas crianças como os seus filhos iriam ser produzidas. Perdeu a vida num jogo de futebol, do qual não gostava, mas foi assistir porque um de seus filhos estava em campo. Pai coruja. E a arquibancada desabou em cima do povo. Perdeu a vida soterrado, mas orgulhoso do caçula. Perdeu a vida num jogo de futebol.
ps. essa é de agosto de 2001. publicada no Anjos de Prata.
Marcadores:
Do baú
Assinar:
Postagens (Atom)