30/10/2007

miniconto

O cão enamorado
Deitado nas escadarias da catedral, o vira-lata olhava o movimento com fuça entediada. Não lhe ocorria nada melhor a fazer: estarrado, observava o vaivém no Centro da cidade. Era cedo, oito horas, e o sol espoucava no céu, cegando a visão turva, deficiente do vira-lata. Um pombo desses imundos que andam à Carlitos se aproximou, bicou uma pata do vira-lata, surpreendeu-se com a falta de reação do cão, anestesiado de tédio, e saiu para lá. Então o vira-lata se ergueu, subitamente enérgico, e ficou alerta. As orelhas espetadas, as narinas trêmulas, a postura digna de prêmio. Ficou assim muitos segundos, concentrado, a farejar. Quando apareceu ela, a moça apressada, de saltos altos, elegante, linda mesmo, o vira-lata saltou do degrau da escadaria e se pôs a trotar atrás dela. Abanando o rabo, satisfeito. Havia meses as suas incansáveis narinas sujas farejavam de onde diabos vinha aquele feromônio gostoso, mistura de pimenta e vertigem.

Um comentário:

  1. Voltei. Bonito conto. Gosto de textos curtos. Não são mais fáceis de se fazer. Chego através do SpaceMelato, atalhos. Aqui encontro posts interessantes sobre livros, leituras e autores. Não sabemos quando alguém nos lê, por isso comento e deixo um abraço.

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