Ontem à noite, revi Hannah and Her Sisters. É dos meus preferidos. Acho a cena em que Michael Cane beija pela primeira vez a cunhada, Barbara Hershey, ao som do melancólico Concerto em Fá Menor de Bach, bela como poucas. O beijo é tão repentino, tão impulsivo, que os dois esbarram na vitrola, a agulha desliza sobre o prato e a música, de romântica, recomeça tensa, nervosa, ao mesmo tempo em que o namorado pintor de Barbara, Max von Sydow, adentra bufando a sala onde eles acabam de se beijar, furioso, despachando um "rock star" interessado em decorar sua casa em Southampton: "I'm not interested in what your decorator thinks. You don't buy paintings to blend in with the sofa".
Acho horrível a situação da mulher de Cane, Mia Farrow, enganada pelo marido, traída pela irmã. Cane sente um remorso medonho, é verdade (sentimento que o cineasta levaria à catarse três anos depois, com Martin Landau em Crimes and Misdemeanors), mas a covardia e a comodidade do seu casamento impedem-lhe de terminar tudo e brigar por Barbara, que está na dele e não aguenta mais a imposição intelectual sufocante de Max. Cane passa a se encontrar com Barbara semanalmente, num quarto de hotel, e seu desconforto com a situação, mastigado em monólogos amargurados ("For chrissake, stop torturing her"), irrompe num jantar com Mia, que lhe enche de perguntas sobre a sua mudança de humor e atenção em família: "What is this? The Gestapo?".
E há ainda o humor, claro, protagonizado por Allen, ex-marido de Mia. A cena em que imagina o médico informando-lhe sobre o tumor no cérebro, hipocondríaco incurável, é ótima: "Mr. Saxe, I'm afraid the news is not good. If I can show you where the tumor is and why we feel that surgery would be of no use". E na verdade o médico apóia o raio X contra o quadro de luz e diz: "You're just fine. There's nothing here at all. And your tests are all fine". Começa aí a corrida de Allen pelo sentido da vida. Se estivesse com câncer, teria dado um tiro na cabeça. Agora que está bem, por que continuar vivo? Que diferença faria? O périplo por bibliotecas, sacristias, consultas religiosas é hilário. Até aos Hare Krishna, dançando no Central Park ensolarado, ele recorre, mas é besteira: "Who are you kidding? You're gonna be a Krishna? You're gonna shave your head and dance around at airports? You'd look like Jerry Lewis. Oh, God, I'm so depressed".
O casal que Allen forma com a irmã-problema de Mia, Diane Wiest, no fim do filme – após uma tentativa frustrada de começarem um relacionamento, anos antes – mostra bem que as relações amorosas vão e vêm e ninguém consegue de fato explicá-las: "I was telling your father that it's ironic I used to always have Thanksgiving with Hannah and I never thought I could love anybody else. Here it is years later. I'm married to you and completely in love with you. The heart is a very, very resilient little muscle. It really is".
Ainda tem os versos de e.e. Cummings: "The voice of your eyes / Is deeper than all roses / Nobody, not even the rain / Has such small hands". E Cole Porter.
Para ler o roteiro deste filmaço, clique aqui.
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