Feliz é a gaivota Leitoras, a verdade é uma só. Como não almejo ser o autor de qualquer versão oficial, é preciso que eu confesse, antes de tudo: foi uma bruxa, destas que de vez em quando saem dos livros de Franklin Cascaes para dar uma volta nas noites de lua cheia, quem me segredou o que vai relatado abaixo. À sabedoria da feia e boa velha, pois, é que devemos creditar a beleza da revelação. O lúdico a quem é fantástico, como deve ou deveria ser tudo o mais nesta Ilha misteriosa. Contou-me a bruxa que há uma relação estreita entre os que moram em Florianópolis, em especial os que aqui nasceram ou se criaram desde pequeno, e as gaivotas que habitam a cidade. Ora, quem não as conhece de vista? Encontramos gaivotas por toda parte, diariamente, e não apenas nas praias. No trajeto para o trabalho, ao atravessar as pontes de carro, numa caminhada pela Avenida Beira-Mar Norte, nas pinturas das fachadas de prédios... A gaivota é nossa íntima. Dito isto, aprendam enquanto há tempo e ainda existem bruxas para nos ensinar os segredos da Ilha: da mesma forma que nós olhamos para o céu à noite e vemos a beleza, a intensidade e a presença de estrelas que não existem mais, as gaivotas manezinhas sobrevoam uma cidade que ainda tem a beleza, a intensidade e a presença de uma Florianópolis que também não existe mais. Ou que só é visível a olhos humanos nas fotos da nossa carente Biblioteca Pública, nos arquivos de jornais ou nos blogs dos saudosistas. As gaivotas que habitam as nossas praias ainda olham para o mar e só vêem canoas e baleeiras de pescadores, no lugar dos jet-skis poluidores e lanchas potentes poluidoras e banana-boats ridículos e escunas cujo passeio é embalado por trilhas sonoras de filmes do Indiana Jones; miram os costões e áreas de preservação e não encontram prédios, casas e outros empreendimentos irregulares construídos sob a rígida vigilância de políticos desatentos; voam pela faixa de areia e enxergam só areia, que na cidade entrevista por elas ainda não foi engolida pelas casas criminosamente construídas à beira-mar nem é utilizada para festas "VIP" de réveillon, privando o público do seu espaço; dão rasantes sobre o espelho dágua e ainda encontram fartura de peixes para deglutir, no lugar de uma sujeira cada vez mais irremovível que bóia e nos fere o olho, o nariz e a saúde. Elas até hoje não conseguiram compreender o sentido da canção de Luiz Henrique Rosa, que diz "Ai, que saudades que eu tenho da minha lagoa", já que a Lagoa da Conceição, do seu ponto de vista, ainda é um paraíso pujante de vida, cor e cheiro de mar como desde sempre. Nessa cidade fantástica das gaivotas nativas, o Avaí é o time mais vezes campeão do Estado e também o de maior torcida. E a bruxa contou ainda que dentre todas essas gaivotas, as que mais enxergam a beleza, a intensidade e a presença de uma Ilha que não existe mais são as que vivem entre Coqueiros e Itaguaçu, bairros onde Florianópolis é mais Rio de Janeiro. Eis, portanto, toda a verdade. De minha parte, desconfio que as belas gaivotas que habitam Florianópolis são todas umas hippies da primeira geração dos hippies. Mas não considero que essa característica as faça um exemplo acabado de alienação. Afinal, elas não escrevem as leis, não se elegem vereadoras nem são envolvidas até as asas em operações da Polícia Federal como a Moeda Verde. Diria mesmo que as invejo. Todo dia, quando abro a janela aqui de casa, não por acaso em Coqueiros, sinto prazer em observá-las planando, corajosas, contra o vento Sul, velho e vagabundo, como o definiu outro dia o poeta Cruz e Sousa.
23/03/2008
Floripa, 282
Um domingo de Páscoa de muito trabalho me impediu de ir ao aniversário do amigo Rodrigo Octávio, que completou 29 anos, e de folhear os jornais como se deve. O seu Júlio, avô da Jade, foi quem me alertou durante o almoço de bacalhau: "O caderno do DC em homenagem a Florianópolis está lindíssimo". Agora eu conferi, e é verdade. Destoam apenas os anúncios toscos, constrangedores, de Sérgio Grando e do tal "vereador Miotto", que melhor fariam se não estivessem ali roubando lugar das fotografias. No Donna DC, seis artigos sobre a cidade, e o que de melhor há está na aula de história de Sérgio da Costa Ramos, na declaração de amor do Flávio José Cardozo e na pensata do vento da Regina Carvalho.
Veja a galeria de fotos do caderno do DC.
De minha parte, escrevi no Donna DC de 16/12/07, no período de interino do escritor Maicon Tenfen, a seguinte crônica, que cabe no clima de homenagem:
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Gostei muito deste olhar de Fernão Capelo...Gaivota. Abraço da Fatima de Laguna.
ResponderExcluirMuito obrigado, Fátima! E viva a Floripa que resiste.
ResponderExcluirAvaí, o mais vezes campeão da época em que se amarrava cachorro com lingüiça.
ResponderExcluirTigre über alles!!!