A trégua, de Mario Benedetti - Alfaguara
Depois de Quem de nós, primeiro livro do escritor uruguaio que li e passei para a Jade, agora ocorreu o contrário: entusiasmada com o "novo" autor, ela puxou da estante A trégua, leu em poucos dias, adorou e passou para mim, que li em duas semanas, dando um tempo na biografia de Rubem Braga. Trata-se do diário de Martín Santomé, chefe de departamento de uma empresa burocrática, nos fim dos anos 1950 em Montevidéu. A um ano da aposentadoria (que será marcada pela comemoração de meio século de vida!), ele anota seu dia-a-dia enfadonho e comenta crises e dificuldades no relacionamento com os três filhos. Viúvo, vive sozinho há mais de duas décadas, conquistando aqui e ali mulheres sem nome nem compromisso. Bem, um dia ele conhece uma garota, funcionária nova da sua repartição, e se envolve com ela, provavelmente apaixonado. Eis um resumo do que se precisa saber. Banal, acho também, mas bem escrito demais! O narrador é muito inteligente e escreve um texto simples mas complexo, com um vocabulário que vexa leitor preguiçoso. Apesar da estrutura de diário, há diálogos, mudanças de ambiente, silêncios. E o tom, apesar de confessional... Há uma contenção, um jeito não exaltado de narrar a felicidade que me agradou bastante - ah, essas indentificações com personagens de ficção! - quando explicado, porque de início, e até pouco mais da metade do livro, achei estranhíssimo. Foi quando li o trecho abaixo:
Mas é que não consigo ser um desses sujeitos que andam sempre com o coração na mão. Custa-me ser carinhoso, inclusive na vida amorosa. Sempre dou menos do que aquilo que tenho. Meu estilo de gostar é esse, um pouco reticente, reservando o máximo só para as grandes ocasiões. Talvez haja uma razão, e é que eu tenho a mania dos matizes, das gradações. De modo que, se estivesse sempre expressando o máximo, o que deixaria para esses momentos (há quatro ou cinco em cada vida, para cada indivíduo) nos quais a gente deve apelar para o coração em cheio? Também sinto um leve mal-estar diante do pieguismo, e o pieguismo me parece justamente isso: andar sempre com o coração na mão. A quem chora todo dia, o que resta fazer quando lhe couber uma grande dor, uma dor para a qual sejam necessárias as máximas defesas? Sempre é possível matar-se, mas isso, afinal, é uma solução pobre. Quero dizer que é quase impossível viver em crise permanente, fabricando-se uma impressionabilidade que submerja a pessoa (uma espécie de banho diário) em pequenas agonias.
Não dói de bom?
15/02/2008
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