19/08/2007

Nanopinião 19

As vinhas da ira, de John Steinbeck – Record Obra-prima. John Steinbeck conta pelo menos duas histórias. A geral é sobre a mecanização do campo no estado do Oklahoma, nos Estados Unidos: bancos e corporações tomam as terras de milhares de famílias de agricultores arrendatários empobrecidos, nos anos 1930. A particular é a narrativa da migração de uma dessas famílias arruinadas: os Joad. Assim como seus vizinhos, amigos e conterrâneos, a trupe de 13 ou 14 pessoas embarca num caminhão fodido (comprado com o dinheiro da venda de tudo o que lhe restara) e ruma para a Califórnia, espécie de Eldorado onde haveria emprego e felicidade geral, via a famosa Route 66 e o deserto californiano, uma travessia de 3.000 quilômetros e milhares de agruras.
Tem alguns dos diálogos mais bem-escritos que já li.
Da mesma forma que acontece com os personagens de Hemingway (a mim, pelo menos), com 30 páginas de As vinhas da ira o leitor já está íntimo de todos os Joad em sua viagem à ilusão de que o mundo pode ser melhor sob os parreirais da Califórnia dourada. Mas lá eles serão "okies", espécie de paus-de-arara, indesejáveis à população local, em especial aos trabalhadores locais, ciosos de seus empregos. Como brasileiro, é curioso ler o livro de Steinbeck, pois as pessoas que ele descreve parecem integrantes do MST, mas sem a politização consciente destes – a certa altura, Tom Joad se pergunta, irritado, quem serão esses vermelhos de que os proprietários de terras tanto falam e tanto detestam. Sabe lá ele o que é comunismo! –, ou retirantes nordestinos. (Os de Vidas secas, porém, são ainda mais desgraçados.) Tecnicamente, As vinhas da ira é brilhante: um capítulo é sobre os Joad, outro é sobre personagens sem nome (caminhoneiros, donos de ferros-velhos, de botequins, banqueiros, frentistas de postos de gasolina etc.) que ajudam a explicar o que está acontecendo aos Joad e aos outros desgarrados no Oklahoma. Dessa forma, você lê um capítulo sobre as técnicas que um vendedor de carros inescrupuloso usa para vender carroças a preços astronômicos aos “agricultores otários”. No capítulo seguinte, os dois filhos da família Joad retornam da “cidade” com um caminhão em estado lamentável, senão perigoso, reclamando do jeito como foram tratados e do dinheirão que lhes cobraram por aquela porcaria... A cena final é antológica. E o filme de John Ford, de 1940, com Henry Fonda, Jane Darwell e John Carradine, também é demais. (O crítico Roger Ebert tem uma observação interessante a respeito: As vinhas da ira é um filme de esquerda filmado por um diretor de direita.)

2 comentários:

  1. Meu Steinbeck favorito continua sendo A Leste do Éden..

    ResponderExcluir
  2. Oi, Jonas.
    Quando eu ler A leste do Éden, que já está na estante, à espera, opino. Valeu!

    ResponderExcluir

 
Clicky Web Analytics