Reparação, de Ian McEwan - Cia. das Letras
O primeiro impulso depois de ler Reparação é lamentar o final de Desejo e reparação, filme baseado no livro de Ian McEwan: é muito menos bonito e elaborado que o original. A adaptação do roteirista Christopher Hampton dirigida por Joe Wright é, no geral, um melodrama, e o livro é uma obra-prima de muitas leituras. E é muito pior, mais fraca de intensidade e emoção porque McEwan escreve bem demais, como eu não sabia que se escrevesse por aí... Agora, é preciso confessar um preconceito: comprei Reparação com dois pés atrás, e quase não o comprei, apesar de já ter lido críticas muito favoráveis. Sem me informar antes sobre a nacionalidade do escritor (e, portanto, da tradição literária de seu país) e sua idade, cheguei à conclusão fantástica, e burra, de que se tratava de um autor “contemporâneo”, ou “pós-moderno”, ou seja: nada de enredo, nada de personagens, só fluxo de consciência e livros em que não acontece nada. Há no Brasil, mas não só por aqui, tantos assim... Quantas críticas você já não leu a García Márquez, Vargas Llosa etc. de gente que, peito estufado, garante nunca ter lido Dickens, Mann, Hugo, Balzac, Zola etc. e que defende livros em que não acontece nada, narrados por figuras marginais, esquecidas ou isoladas, com muito sangue, muita violência, muitas bizarrices e fraturas sociais expostas em linguagem coloquial? Nada disso. Ian McEwan é inglês e completará 60 anos no dia 21 de junho – e, parece, segue a melhor tradição do seu país (ficaria chocado de ver uma crítica dele à “falta de atualidade” de Dickens, por exemplo). Bem, como só li Reparação, tenho receio de dizer que é um escritor supremo; vai que Reparação seja uma iluminação, trabalho extraordinário que talvez ele nunca mais consiga repetir? Pelo menos, é um autor admirável, e Reparação tem de entrar na lista dos melhores livros dos anos 2000, e deve figurar em listas que abranjam mais décadas. Mas as minhas dúvidas não acabam. Em Reparação, a prosa é tão rica, de uma engenhosidade tão rara, de tanta sensibilidade, que é impossível não pensar que quem narra a história é uma mulher. Talvez ele tenha se esforçado para emular um “estilo” feminino, se é que existe isso, e sua prosa em si nada tenha com aquilo (teimo em pensar que há em Reparação uma homenagem a Jane Austen, George Eliot – mulher também, lembre-se...) Bom, seria o caso, então, de os seus fãs pedirem com veemência: “não desencorpore Briony!”. Ainda pensando em termos literários, lá pelas tantas o narrador conta que Briony, jovem metida a escritora, tem certeza de que na época em que ela vive (pré-Segunda Guerra Mundial) a ficção não pode mais ser como a do século XIX, baseada em personagens e enredos... Mesmo depois de tomar conhecimento do nome do tal narrador da história, este trecho me pareceu uma ironia de McEwan, pondo uma idéia tão atual entre círculos literários na cabeça de uma jovem dos anos 1930. E Reparação é isso: personagens de quem você se aproxima e conhece em poucas páginas, enredo envolvente e uma prosa muito, muito elegante. Tão elegante que deve envergonhar certos escritores “contemporâneos” – porque invejável. Livraço.
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