Passei o fim de semana desligado de televisão e internet. Só agora pela manhã soube da morte de Jamelão, a "carranca" da Mangueira. E lembrei do perfil dele escrito por Fred Melo Paiva em 2006, publicado no caderno Aliás do Estadão. Brilhante, à altura do mestre.
"A carranca vai passar"
Aos 93 anos, ele quer comandar a escola na avenida. Quer ser sempre Jamelão. Vai morrer Jamelão
Fred Melo Paiva
Jamelão é um sujeito que não gosta. Não gosta assim mesmo, com o verbo no intransitivo, tantas são as coisas que ele desgosta. Não gosta de falar do passado, não gosta de falar do presente, não gosta de roda de samba nem exatamente de carnaval. Não gosta de Cartola.
Não gosta sequer de cantar - só o faz para embolsar algum e justamente porque não gosta de ficar devendo.
Gosta menos ainda que venham lhe beijar a mão. Se um desavisado se curva, fica com a beiça a ver navios: 'Num sô pai-de-santo', ele rosna.
Estender-lhe a mão, esse gesto simples, é uma temeridade: 'Num sei onde cê pôs essa mão...' O jeito é apenas sorrir para ele. Mas não espere reciprocidade - Jamelão não gosta de sorrir.
Esse sujeito que não gosta sentiu-se ainda mais desgostoso há duas semanas, quando correu a notícia em um jornal popular do Rio de Janeiro: 'Jamelão não é mais o puxador da Mangueira'. Quer deixar de mau humor o Jamelão, não precisa fazer nada. Jamelão não fica de mau humor - é de mau humor.
Se quiser no entanto jogar lenha na fogueira, basta chamá-lo de puxador de samba, o que para ele é xingamento, ao estilo puxa-saco ou puxador de fumo. Jamelão não puxa - é intérprete.
Desde 1950 a sua voz grave, bonita, embala a escola nos desfiles da avenida. Aos 93 anos, é figura tão lendária na Sapucaí que parte dela, a área destinada à concentração das alas, chama-se oficialmente Espaço Jamelão.
De forma que a manchete do jornal sugeria uma puxada de tapete. O Jamelão não gostou. - Eu só não canto esse carnaval se Deus não quiser. O dia que Deus me tirar de circulação, aí cabô.
Continua aqui.
16/06/2008
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