23/06/2008

Nanopinião 41 - O mago

O mago, de Fernando Morais - Planeta
Li em duas semanas, mas pode ser lido em três dias. É excelente. Fernando Morais escreve muito bem, e minha impressão é que emprestou todo o seu talento a este livro, que afinal já foi vendido para muitos países e a tendência é que alcance muitos outros. Não é caudaloso nem vibrante como Chatô, porém. Parece que o acesso ao baú de Paulo Coelho aos 45 minutos do segundo tempo, apesar de ter auxiliado a confecção de um perfil muito mais profundo e contundente do biografado, atrapalhou um pouco na hora de reescrever o que já estava pronto. Tem muita citação... No mais, a história de Paulo Coelho é mesmo digna de uma biografia robusta: a vida do escritor brasileiro que mais vendeu livros, mais quebrou recordes, é mais traduzido que Shakespeare e que desde a adolescência sonhou em ser o que é hoje. Morais não esconde que não acredita em nada que Coelho garante ter acontecido, espiritualmente falando, na sua trajetória tortuosa até tornar-se um mago. O ceticismo do autor é claro; no entanto, todas as experiências sensoriais, espirituais e de além-túmulo que Coelho diz ter vivido são narradas com correção jornalística e apuro estilístico invejáveis. Paulo não jura que se encontrou com o demônio, com o Anjo da Morte, com espíritos suspeitos? Está tudo lá. Interessante, claro, a relação de Coelho com Raul Seixas (foi Paulo quem desencaminhou o homem!) - e o desnudamento de uma personalidade egocêntrica, às vezes doentia e covarde, claramente usando as pessoas ao seu redor para alcançar o objetivo de ser um escritor lido em todo mundo. A parte final do livro, em que é destrinchada a “febre” Paulo Coelho, do lançamento de O Diário de um Mago em 1987 até o de A bruxa de Portobello em 2007, é como um alerta que Morais dá à imprensa, aos críticos e ao Brasil em geral: acordem, porque o homem já vendeu mais de 100 milhões de exemplares e não conseguiu receber um único e escasso prêmio em seu país, enquanto no resto do planeta coleciona comendas e homenagens em todos os idiomas e angaria ao menos o respeito de críticos e personalidades! A descrição dos vexames que já teve de aturar no exterior devido ao desprezo e à falta de sensibilidade das autoridades brasileiras é chocante. Em 1998, o governo federal levou uma caravana de 50 escritores para representar o país no Salão do Livro de Paris. Paulo Coelho, claro, não foi incluído na lista, mas estava no estande da sua editora francesa. No dia em que o presidente Jacques Chirac recebeu a caravana para um passeio pelo centro de convenções Paris Expo, a comitiva liderada pela primeira-dama Ruth Cardoso simplesmente ignorou o estande. Chirac, ao vê-lo amuado num canto, abandonou o grupo e foi cumprimentá-lo pessoalmente, para espanto geral da imprensa e dos brasileiros. Em 2006, no segundo turno das eleições presidenciais, Coelho, na sua casa no Sul da França, gravou um pedido de votos a Lula para ser veiculado no último programa eleitoral da TV, sábado à noite, véspera do pleito. Horas depois de o programa ter sido exibido no Brasil, sua caixa de e-mail passaria a receber cerca de 10 mil mensagens de leitores dizendo-se decepcionados com a atitude. Lula nunca disse obrigado, nem mesmo nessas cartas que só assina sem ler. É inacreditável que um escritor que leva o nome do Brasil mundo afora com tanta ou mais intensidade e sucesso que Ronaldo ou Pelé não mereça um bom-dia cordial, uma única demonstração de civilidade. E pensar que a mãe de Paulo Coelho – irritada por saber que o filho iria rodar de ano no tradicionalíssimo Colégio Santo Inácio – tenha tentado alertá-lo sobre a “carreira” de escritor: “Meu filho, somos 130 milhões de brasileiros, mas Jorge Amado só existe um”. No que ele respondeu, escrevendo no diário: “Minha mãe é uma besta”. A verdade é que passei a admirar Paulo Coelho, mesmo já tendo lido livros seus e não gostado. Pretendo ler O Alquimista, agora. Quem sabe o conhecimento da vida do autor não ajude a lê-lo com outros olhos?

2 comentários:

  1. Anônimo10:59

    Felipe, até eu estou com vontade de ler a biografia - eu que também li livros do Paulo Coelho e não gostei. Mas o post de que realmente gostei dos três recentes foi aquele que fala da memória do Roda Vida. Agora mesmo estou lendo a entrevista com Bioy Casares - e vou passar tua dica adiante.
    Beijo,

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  2. Vai nessa, Daise! :)
    Muito legal explorar o site do Roda Viva, né? Demais mesmo.
    Beijo

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