13/11/2006

Do baú 1

Para celebrar Pablo Neruda
Benditos aqueles que juram de pé junto, com um cravo na mão e um livro debaixo do braço, olhando de lado e falando baixinho, tristonhos no Chile como em toda a parte, que Pablo Neruda morreu de desgosto e não de doença naquele setembro chuvoso de setenta e três.
Inteligentes aqueles que classificam o desgosto como a mais triste e terrível das doenças, daquelas que fulminam de um só golpe os poetas como ele, Neruda, que levou ao Chile como para todo o mundo a sua arte de rimar coisas simples, porém belas, coisas bem simples, mas deslumbrante: leia "por que Cristóvão Colombo não pôde descobrir a Espanha?" e diga se não é mesmo simples, mas poderoso.
Que fez da vida esse Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, chileno de nome truncado, senão trocá-lo por Pablo Neruda, pendurar uma estrela vermelha no lado esquerdo do peito e sair por aí soltando chistes e distribuindo panfletos, Pablo do povo, e arengando às massas quando possível e lendo poemas do exílio e de amor a sua gente e a todos que sentem percorrer pela espinha o vento gelado da indignação.
Muito atentos os que vêem no nome de batizado do poeta a sombra benfazeja de Fernando Pessoa, o português que perseguiu Camões e se perdeu em heterônimos, deu-nos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e... Ricardo Reis. Louvada seja esta hereditariedade literária.
Porque o poeta um dia se confundiu com o carteiro e conquistou uma moça que não lhe pertencia, com textinhos furtados de livros antigos, palavras, pronomes, provérbios de outros tempos que seduziram a mulher e criaram confusão – porque o carteiro um dia inverteu a coisa e se fez poeta. Jean Paul Sartre que fique lá com suas idéias, guarde seus livros, celebre seu orgulho e sua nobre existência, mas o poeta respira fundo, ajeita no peito a estrela vermelha e vai a Estocolmo, com a dignidade estufada, igualar-se a Gabriela Mistral e receber o Nobel de Literatura daquele ensolarado 1971 em que o amigo Salvador Allende já era presidente do Chile.
Celebremos nesta segunda-feira o centenário de nascimento de Pablo Neruda: o pseudônimo que o Chile usou para entrar para a História.
ps. perfil publicado na revista Donna DC, do Diário Catarinense, na edição dominical de 11 de julho de 2004.

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