01/08/2007

Do baú 6

Seu Genésio Um acidente de carro lhe deixou marcada na cara a lembrança da morte, e cada vez que olha o espelho deve se lembrar do instante em que foi atropelado. Faz tempo, mas mesmo assim é como se tivesse sido ontem. A fratura do lado esquerdo do rosto lhe destroçou a mandíbula e fez de sua fala um amontoado de palavras quase inaudíveis. O seu Genésio, que sobrevive bravamente com uma aposentadoria de R$ 136, não pode nem ao menos mastigar direito o amendoim que ele mesmo vende. Todo santo dia, nestes últimos seis meses, seu Genésio está ali no terminal de ônibus, sentado, esperando pacientemente que alguém puxe assunto. Como todo ser humano, gosta de conversar e quando começa não pára mais. Traz do fundo de sua memória fatos e crenças, histórias de outrora e relatos especiais de um josefense que viu sua cidade mudar com o mundo. No início, quando começou a se aventurar pelo ambiente requintado da vida universitária, não vendia um saquinho sequer de seu produto. Mas logo a presença de um velhinho baixinho manobrando uma cesta de palha carregada de amendoins assustou os donos do pedaço. Então, sem muitas explicações, foi expulso, enxotado como os cães errantes que pedem esmolas com o olhar, ferido em sua dignidade. Mas ele não desiste. Que jeito? Ficou de fora da casa bonita, impassível. Hoje, resiste. Da cidade antiga, São José, sabe tudo: da imensa propriedade dos pais e avós até os dias de hoje, em que ficou confinado com “a senhora minha mulher” num pequeno lote de um bairro qualquer da Palhoça. De Florianópolis guarda a lembrança de quando era vigia da única via que ligava a ilha ao continente, a ponte Hercílio Luz, e do emprego que lhe rendeu a suada aposentadoria que a cada dia e a cada governo míngua de sua conta bancária, os bons tempos da Comcap. Da família, porém, sabe muito mais: filhos em Blumenau, São Pedro de Alcântara e Biguaçu, Palhoça, São José e até no Estreito. Este perfil não quer fazer apologia ao seu Genésio e nem aos seus amendoins torrados, tampouco questionar o porquê da proibição da diretoria em não o deixar circular para ganhar seus cinco reais diários. Mas sim fazer com que as pessoas olhem para o lado e vejam quem as rodeia. Matéria da boa, na certa. ps. não sei se este texto saiu em algum jornal lá na Unisul. acho que não. e também não lembro a data, de 2002, talvez.

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