12/09/2007

Do baú 7

Eduardo Galeano: careca de saber Num dia qualquer de 1978, já há muito no exílio, perguntou: “vale a pena escrever?” Botou no papel essa idéia maluca, dúvida que lhe mexeu com o espírito e o corpo. Parágrafos depois, concluiu: “as pessoas escrevem a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar aquilo que machuca e compartilhar aquilo que traz alegria”. De fato, Eduardo Galeano escreve, desde então e de muito antes e para todo o sempre, com esse princípio agarrado à caneta ou ao lápis, e sempre à mão.
Com a mão. É por ali que desabafa e procura sua identidade e a identidade de todos nós, homens e mulheres da América Latina, periferia do mundo. É na mão que as palavras, palavras de sonho e esperança, palavras de alento, sentem e pensam por si próprias. Dos pés à cabeça elas passeiam, as palavras andantes, e o batimento cardíaco do seu pulso as expele em um rio de poesia. Eduardo Galeano dá à luz palavras “sentipensantes”. A caneta em punho, mero instrumento de criação, vira faca e enxada, pilão dos negros de engenho, arco sagrado de Túpac Amaru, fuzil de Che Guevara.
Ele celebra Machado de Assis, assovia músicas de Chico Buarque, admira Cartola, voa como uma mosca ao lado de Santos Dumont, acompanha Lima Barreto à decrepitude da loucura e Luis Carlos Prestes na maior marcha do mundo. Vibra com Garrincha fazendo que vai mas volta, fingindo que vem mas foge, põe os louros reais em Pelé, e aplaude. Conhece com intimidade Marx, Freud, Shakespeare e Fidel, já visitou Macondo e conversa diariamente com Pablo Neruda, que acena do Além. Estava na praia, junto aos índios, quando Colombo chegou. Tem passe livre nos rituais incas, astecas e maias, e muito bem disfarçado se aventura nas bolhas invioláveis de Trujillo, Somoza, Batista e Augusto Pinochet. Dá suas alfinetadas no regime cubano, contaminado que está por uma burocracia burra e uma democracia mínima. Descrê no comunismo de Stálin, que muitos ainda celebram. Comeu o pão que o ianque amassou no decorrer do Século XX, século do vento, porém conhece como poucos a fornalha original, norte-americana por excelência, que Mark Twain teve a bondade de registrar o funcionamento, a temperatura e os ingredientes. Pratica traquinagens com Tom Sawyer e Huckleberry Finn.
Memórias do fogo, efêmeras: protesta de braços dados com as Mães da Praça de Maio, ocupa latifúndios improdutivos com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, veste a passamontanha e se embrenha nas matas de Chiapas, invade os EUA com Pancho Villa e seu exército estropiado, está até agora em La Moneda, apoiando a resistência de Allende. Eduardo Galeano participa todo dia de uma rebelião, todo dia de toda a História, contra um sistema que impede a descoberta da identidade apresentando-nos espelhos rachados e coibi nossa criatividade impondo uma cultura chula e alienígena.
Dirigiu inúmeros jornais. Fundou Crisis, a revista cultural de maior tiragem na história da língua espanhola. Seus companheiros de redação foram mortos ou torturados ou então desapareceram como num passe de mágica, engolidos pela terra. Com ele, Galeano, a palavra: “Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa. Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba, e que antes de tombar teve nome ou pelo menos número. A frase de um amigo piedoso me consola: ‘se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora’. Também me consolo comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meu cabelos mas nenhuma de minhas idéias, o que acaba sendo uma alegria quando a gente pensa em todos esses arrependidos que andam por aí”. Eduardo Galeano: um jornalista careca de saber.
ps. perfil publicado em 2000 ou 2001 no falecido Parem as máquinas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

 
Clicky Web Analytics