A gente repara sim
Todo ano a mesma história, mas tem gente que nunca repara. Entre maio e junho, durante uma semana, acontece a Festa da Laranja, e todo santo ano chove e em pelo menos uma noite tem briga feia. Briga de garotos, gente fumada, gente bêbada, gente comum, gente que briga por um olhar de revés, um cutucão involuntário, uma paquera proibida, um flerte audacioso, uma querela de menos. Todo ano é isso, e todo ano chove, chove muito, e é como que parte especial da festa, a chuva, chuva fina, chuva forte, temporal ou garoa, todo ano, enfim, a mesma história. É de espantar quando não chove, porque está frio, sempre está frio demais, eis que tem muito quentão à venda, muita cachaça em garrafa de plástico, e quando não chove a gente estranha, desconfia da boa vontade do bom tempo, e alguns chegam a comentar que assim não dá, que já não é mais a mesma coisa, mas que a chuva não tarda, se não chove hoje chove amanhã. Naquele ano a Festa da Laranja começou na sexta 24 e até a quarta-feira 29 não tinha chovido ainda, apesar do frio, que castigava, e teve muita gente que estranhou: nada de chuva, nada de briga. E foi justamente na quarta-feira 29 que choveu bastante, começou como garoa e desaguou uma chuva braba, precedida do vento sul, nosso vento, e foi quando a chuva começou a cair pesada que se viu um bando de uns 30 ou 40 garotos marchando para a Universidade Federal, bonés, calças largas, brasas de cigarro na escuridão, casacos de náilon, qual é mano, qual é brother, e caminhavam rápido, pois atrás vinham os militares, da polícia, para garantir a segurança de todos, a ordem e o bom andamento da festa. E se viu também uma garota bêbada gritar que ia ter briga, briga feia, pois um mexeu com a mulher do outro, e é assim caso de paquera proibida, delito que exige punição a faca ou a socos e pontapés. E então metade da festa, que é tudo de gente normal que briga por qualquer coisa, saiu atrás daquele rebuliço, daquela confusão que se prepara para mais ali adiante, e tem gente armada, garotos com armas de gente grande, disseram. E é então, então mesmo, definitivo então, que a gente repara: as pessoas todas, os curiosos, os amigos e os colegas, a namorada de um envolvido, outros policiais, um segurança, uma senhora e um senhor, um taxista, um vendedor de churros, o pipoqueiro, vai tudo atrás da briga, todo mundo quer ver a briga, sentir a briga, para saber quem vai bater e quem vai levar, e ficam pelos bancos e pelos cantos apenas os casais, entre beijos sob o temporal, indiferentes ao tempo e a todo o resto – a noite sobre as cabeças, o pagode de trilha sonora –, de olhos bem fechados e pensando noutra coisa.
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Adorei esta crônica. Digna de entrar na antologia.
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