Casa de praia, mas nem tanto
Muitos, hoje, estão numa casa de praia. Como inquilinos, como hóspedes, deitado numa rede, estirado na cama com o ventilador ligado na terceira velocidade. A casa de praia é o lar do veranista, o refúgio dos que estão de férias e gostam de praia, mar e sol. Há, contudo, casas de praia que parecem protegidas, isoladas, repelentes a tudo o que diga respeito a praia, mar e sol. São residências e apartamentos em que a areia e a água salgada são proibidas, vetadas, banidas. Muitos, hoje, estão numa casa de praia que “funciona” assim. Admita.
O que ocorre é que o veranista, apesar de tudo, do dinheiro que tem e gasta, do descanso que merece e desfruta, é um ingênuo. Não sabe que entre os donos das casas de praia existe um estatuto rígido, cheio de impedimentos e restrições a todos que não são os donos legítimos das casas de praia. E como são implacáveis no cumprimento das regras!
O estatuto proíbe, por exemplo, que qualquer um entre na casa com os pés sujos de areia. Não é permitido a quem vai à praia, a quem toma banho, a quem deita e rola na areia, a quem bate uma bola ou jogue frescobol e a quem anda de banana boat voltar para casa com os pés sujos. Repare que o dono da casa de praia já rosna de longe ao ver os pés brancos de areia entrando pelo quintal. É para evitar isso que o estatuto sugere que se instale logo na entrada do terreno uma torneira ou um chuveiro bem à vista, quase imponentes, sempre sugestivos.
E se o banhista ou veranista estiverem com a bermuda, a sunga, o calção, o biquíni ou o maiô molhados, após horas e horas de mar, o melhor é não voltar à casa de praia. É certo que o dono fará de tudo para que você não entre nem pelo portão, que dirá sentar-se à mesa para o almoço, ou sentar-se no sofá, diante daquela televisão com o sinal ruim, fraco, para assistir ao telejornal e saber se há filas nas estradas ou qual a melhor festa da noite.
Isso tudo porque os donos das casas de praia de todo o mundo são ardilosos, e o veranista e o inquilino e o hóspede, de tão distraídos, nem percebem nada.
Há mil outras maneiras de os donos evitarem o contato da casa de praia com a areia e a água do mar. E é tamanha a sua convicção, que eles às vezes acreditam que a casa só é de praia por descuido, pois nem tinha de estar ali, perto da orla, a metros do mar.
Imagine aqueles que são donos das casas de Jurerê Internacional, praia “nobre” de Florianópolis! São xerifes dos banhistas, fiscais dos pés sujos, censores da sunga molhada. São donos da anti-casa de praia.
ps. publicada na coluna Crônica de Verão, da Revista de Verão, no início deste ano, no Diário Catarinense. Saiu aqui também, não sei por quê.
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