28/06/2007

Do baú 5

Chuva in memoriam Quando eu tinha cinco anos, diziam-me que os trovões e seus estrondos colossais eram obras de um grupo de anjos doidos, boêmios e peritos na arte de derrubar pinos. Sim, eu ficava entusiasmado com as histórias que meus pais contavam: lá em cima, no céu, enquanto São Pedro e Ele lavavam "a casa" – despejando sobre a terra a água mais limpa que a natureza pode conceber –, os anjos, sem terem o que fazer, iam disputar uma animada partida de boliche. Mas por que, então, os raios? O que os relâmpagos têm a ver com uma brincadeira tão legal como esta?, perguntava-me intrigado. Meus pais, assustados, vinham logo com a resposta: os anjinhos, quando a disputa acirrava e os ânimos se exaltavam, caíam na porrada, e, aí, sobrava paulada para todo lado. E concluíam: como a briga ficasse feia, a ponto de prejudicar nós mortais, que possuímos eletrodomésticos e andamos descalços, que paramos embaixo de árvores e que pescamos em alto mar, Ele e São Pedro se inquietavam e resolviam acabar com aquela bagunça. Chegando ambos à pista de boliche, os anjos fugiam, jogando as bolas para o alto e dando no pé. Assim, cessavam os trovões e relâmpagos. Assim, não havia mais clima para faxina. Parava a chuva; e eu acreditava. Isso tudo eu lembrei noite dessas. Corria uma madrugada tranqüila e quente, quase de verão. Súbito, como todo ataque surpresa, começou a tempestade. Uma trovoada aqui, uma lá, e o aguaceiro caiu impetuoso, pegando a cidade de surpresa. Pingos de chuva pesados, clarões de relâmpagos e silêncio humano: podia-se ouvir somente a força da natureza, essa incógnita maravilhosa, pulsando incansável sobre a Terra. E eu ali, insone, com minha princesa ao lado, dormindo um sono profundo de mulher. Não tive coragem de olhar pela janela o que se passava lá fora, mas sabia que eram eles, os anjos malandros, e seus superiores, Ele e São Pedro, se exaurindo na limpeza do Paraíso. Mas as trovoadas ficavam cada vez mais fortes. A fúria angelical tomava conta de Florianópolis, e eu cheguei a pensar (confesso) que o mundo desabava sobre nossas cabeças, como em Roma, lembrando o Asterix. Cada pino derrubado era um barulho dos infernos, se me permitem a blasfêmia. O som das bolas rolando, rolando, me dava a impressão de que o cimento, a argamassa e as estruturas de todo a cidade tremiam de medo. Fiquei petrificado por mais ou menos meia hora. Até que Ele, irritado, foi ter com os foliões e os botou para correr. Porém, surpresa: São Pedro continuou seu árduo trabalho de faxina! A chuva prolongou-se em silêncio, sem o jogo de boliche. Era uma quinta-feira, e no início daquela semana haviam partido para sempre a colega Geanine dos Santos e sua filhinha de apenas cinco anos, que, como eu, estaria ainda aprendendo estas fábulas infantis. Só pensando desta maneira consegui dormir, pois cheguei à óbvia e confortante conclusão de que fora Ele quem ordenara a São Pedro que a limpeza continuasse: estavam a caminho do Reino dos Céus mais duas boas almas, e tudo tinha de estar pronto e limpinho, reluzindo um branco de paz e sossego. ps. esta crônica não saiu em jornal nenhum, apenas os amigos leram. foi escrita numa madrugada de outubro de 2000, e está encharcada de nicotina e insônia. naquela semana, a estudante de jornalismo Geanine dos Santos, colega de faculdade, e a filha foram encontradas mortas por sufocamento. um crime impune até hoje. e que ninguém esquece.

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