06/04/2009
A crônica de hoje, no DC!
Página 7 do caderno Variedades, no Diário Catarinense.
Deu trabalho, mas saiu.
Incomum
Nem tudo são flores nessa vida. Mas devo confessar: nasci em berço de ouro, minha infância foi um mar de rosas. Batia uma pelada com a galera, marcava gol de placa, me doava para o time, ouvia o professor, às vezes passava por um mau momento, mas logo dava a volta por cima e fazia as pazes com a vitória. No colégio, não tinha medo de errar, afundava a cabeça nos livros até altas horas da noite, mas, em compensação, tirar nota máxima era comigo mesmo, minha especialidade. A contragosto, porém, em certo momento tive de repensar a vida, que até então me sorria com uma boca cheia de dentes. Chegara o dia D, a hora da verdade: o que eu vou ser quando crescer? Fiz o que o meu coração mandou, entreguei na mão de Deus.
A certa altura dos meus estudos, resolvi investir pesado, com o intuito de um dia nadar em dinheiro. Para tanto, era preciso tomar um rumo na vida, explorar meu potencial, trabalhar na área, correr atrás. Bem-sucedido, quem sabe eu não fosse flechado por cupido, vivesse uma paixão intensa com uma mulher de verdade e constituísse uma família unida? Se tudo desse errado nesse percurso, eu poderia tirar um coringa da manga, dar uma cartada de mestre: concederia uma entrevista explosiva em alto e bom som, arrebentava a boca do balão, entregava a corja toda. Aí eu poderia limpar o meu nome, contabilizar os prejuízos, sanear as finanças, sair do vermelho, chegar a um denominador comum, para não ter mais dor de cabeça. Deveria arrancar o mal pela raiz, aparar arestas, preencher lacunas. Mas quem não deve não teme.
A bem da verdade, devo confessar que hoje, passada a tempestade, o azul límpido de um céu de brigadeiro se descortina à minha frente. Eu gostaria muito de só contar estrelas, carregar pianos, fazer girar a roda da máquina da história. Ensinar aos alunos da universidade da vida com quantos paus exatamente se faz uma canoa. Pelo menos uma vez vestir o hábito do monge, o traje esporte e o passeio completo antes de silenciar dentro do paletó de madeira, no apagar das luzes. Viajar sem rumo, ir num pé e voltar no outro, num ai, de mala e cuia, na cara e na coragem, sem lenço e sem documento, porque navegar é preciso. Ver chover no molhado, presenciar o sertão virar mar, chorar lágrimas de crocodilo no ombro do amigo da onça. Viver com intensidade e, quem sabe, tirar a sorte grande já nos descontos... Encerrar com chave de ouro, enfim.
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