21/04/2009

Nanopinião 50 (!): 1808

1808, de Laurentino Gomes - Planeta Feriado de Tiradentes, escreverei sobre 1808. Demorei para puxar da estante, sentar e ler. Quando o fiz, terminei em quatro ou cinco noites. É muito bem escrito. Claro, o livro vendeu mais de 500 mil cópias, acho, por causa da passagem dos 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Brasil, e nada melhor do que ler sobre como foi a fuga da metrópole e o desembarque na colônia no dito "calor da hora", apesar de quase tudo ali já ser de conhecimento de quem estuda História no colégio. Acontece que o texto é muito bem escrito mesmo, e é notória a dificuldade que a maioria dos professores e historiadores tem para escrever um texto palatável ao leitor médio. Eis um trunfo decisivo, penso, para o sucesso do livro de Laurentino Gomes, jornalista que por muitos anos trabalhou praticamente anônimo na editora Abril. (Hoje, parece, depois de vender áudiobook, DVD, edição especial para jovens, kit com tudo isso reunido, ele largou a empresa para se dedicar apenas à faina de escrever livros. Sortudo.) Trata-se de uma longa narrativa de fatos históricos, uma mescla da forma jornalística da reportagem com o rigor do respeito à História - não faz sentido esperar ficção, boa ou má, de um livro desses. E a escolha é muito consciente: de quando em quando, o autor faz referências aos "livros de história", colocando-se à parte da historiografia "oficial" do assunto. Pode ser birra de jornalista, ou medo de se meter em áreas que sejam do domínio da academia - tome-se como exemplo o pau que outros jornalistas já levaram ao fazer o mesmo -, mas foi a escolha do autor. O último capítulo, por exemplo, nem é interessante, mas reforça a ideia de que Laurentino prefere ficar do lado do jornalismo sempre: revela, pela primeira vez, com informações descobertas na internet - uma ferramenta indispensável ao jornalista de hoje! - detalhes de um personagem que participou de toda a saga da fuga-chegada-estabelecimento da corte no Brasil e que livro algum, pesquisador algum, pergaminho algum preservara em arquivo algum. Me pareceu ironia. Só pareceu, claro, porque Laurentino presta a toda hora suas homenagens a dezenas de historiadores brilhantes. Mas o que será desperta mais a curiosidade do leitor de 1808? A descrição da sociedade portuguesa na época da invasão das tropas francesas? Do jeito de ser de D. João e Carlota Joaquina que já mais ou menos conhecemos do cinema? Da longa viagem da esquadra de XX naus que rumaram superlotadas para o Brasil em desabalada carreira? De como eram as cidades de Salvador (primeira parada) e Rio de Janeiro? Provavelmente isso tudo junto. Mas o que mais impressiona no livro é acompanhar a formação da elite brasileira, as pistas que Laurentino dá para que possamos adivinha o quê, daqueles tempos, permanece como praxe da nossa elite e da nossa classe dirigente atual. É assustador olhar de perto o Brasil de 1808 - cheio de capitães-do-mato, fazendeiros de açúcar, exploradores de minas, pequenos comerciantes, traficantes de escravos, todos eles precariamente alfabetizados, ignorantes das culturas já desenvolvidas de outros países - e ver que essa gente foi quem passou a dar as cartas enquanto a Universidade de Coimbra não nos fornecia cabeças pensantes em bom número. De repente, tínhamos condes, marqueses, barões oficializados, em profusão. De repente, o estado brasileiro "nascia" com 15 mil empregados (nos EUA, quando da transferência da capital da Filadélfia para Whashington, eram 1000), mantidos pela corte na base do aumento de impostos, do tráfico, de explorações de todo tipo etc. No fim das contas, foi o que D. João, inseguro, medroso, conseguiu fazer: uma elite tosca, mas também demarcar limites geográficos, erigir banco, biblioteca, faculdades, imprensa, instituições. De um matagal de 300 anos, ele praticamente fez um país. Em uma década, e depois fugiu - o que não deixa de ser bem brasileiro. ps. esta é a 50ª nanopinião no blog!

2 comentários:

  1. É bem essa. A leitura do 1808 contribui, mais do que outras coisas, para que entendamos o que acontece no Brasil de hoje! Não tinha como dar certo.

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