09/04/2009
Pinceladas de Lima Barreto
Recordações do escrivão Isaías Caminha
Lima Barreto
Capítulo 3
(...)
Do interior de um café, o Laje chamou-me. Não estava só; acompanhava-o o doutor Ivã Gregoróvitch Rostóloff, jornalista brasileiro a quem fui apresentado.
— Do Jornal do Brasil? perguntei.
— Não, senhor. Trabalhei no O Combate, de Belém, na Gazeta de Leopoldina; no Deutsches Tageblatt, de Blumenau; no Al-Barid, de São Paulo e aqui, no Rio, no Harum Al-Raxid, órgão da colônia síria. Pretendo, porém, acrescentou, entrar em breve para O Globo, onde vou fazer o artigo de fundo e tratarei da política interna.
— Escreve em muitas línguas?!
— Em dez.
— É extraordinário, fiz eu, não podendo conter a minha parva admiração.
— Tive sempre muito jeito... Logo, em menino, pelas primeiras lições de francês, comecei a escrever... Depois, houve sempre em mim um desejo de ver povos, de andar à aventura... Logo que sai da universidade, parti para a Índia. Queria servir a um rajá, mas não há mais rajás. Fui à China, ver se entrava como instrutor do exército do vice-rei de Cantão. Não consegui. Parti para o Japão, onde fui chefe de uma fábrica de pólvora... Tenho viajado muito...
— Você já esteve em Paris, Gregoróvitch? indagou o padeiro.
— Ora! fez o jornalista. Quem já não esteve lá! Estive na Índia, em Calcutá, onde trabalhei ao lado do grande Rai Kisto—conhece doutor?
— Não.
— Quem? indagou o Laje.
— Rai Kisto Das Pal Beader, um grande jornalista hindu... Admira-me que o doutor não o conheça; na Europa já se fala nele. O Professor Bouglé, de Toulouse, cita o seu nome em uma das suas últimas obras...
— É vivo? indaguei.
— Não. Morreu há alguns anos.
O caixeiro veio servir-nos café e o jornalista depois de sorver um trago, perguntou-me:
— Já está formado?
— Vou matricular-me ainda, respondi sob o olhar de censura do Laje da Silva.
— Direito?
— Medicina...
— Não é mau... Toda a carreira serve, mas...
— O doutor é formado em Direito? indaguei por minha vez
— Não. Formei-me em Línguas Orientais e Exegese Bíblica, na Universidade de Sófia, tendo começado o curso no Cairo.
Disfarcei a vontade que me deu de rir, ouvindo tão extravagante titulo escolar. Havia alguma coisa de opereta, mas o homem era tão simpático, tinha sido tão amável e parecia tão ilustrado que me esforcei por sujeitar o meu ímpeto de rir, soltando uma frase à-toa:
— Na Europa o homem de estudo tem campo, sabe onde deve chegar; aqui...
— Qual, doutor! Não há como a sua terra! A questão é pendurar, quando se entra, a sobrecasaca de cavalheiro no Pão de Açúcar; e no mais — tudo vai às mil maravilhas!
O padeiro ficou atônito com a cínica franqueza do julgamento do jornalista. Teve um assomo de virtude e objetou pudicamente:
— Nem tanto, doutor! Nem tanto! olhe que ainda há homens honestos nesta terra e em altas posições — o que é mais raro!
O doutor Gregoróvitch dardejou-lhe um breve olhar sarcástico e expelindo uma longa fumaça cheia de dúvida e de troça, disse devagar:
— Pode ser, Laje! Quem sabe?
Só, subindo a rua movimentada, pus-me a interrogar-me sobre o tal Gregoróvitch. De que nacionalidade era? Que espécie de moralidade seria a sua? Com aquele título burlesco de doutor em Línguas Orientais e Exegese Bíblica, quem poderia ser ao certo? Um bandido? Um aventureiro simplesmente? Ou um homem honesto, de sensibilidade pronta a fatigar-se logo com o espetáculo diário e que por isso corria o mundo? Quem seria? E jornalista! Jornalista em dez línguas desencontradas! Mas era simpático o diabo, de fisionomia inteligente...
(...)
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PARABÉNS PELO TIPO DE TEXTO...MUITO INTELIGENTE E INTERESSANTE.
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