14/09/2007

Nanopinião 24

A mulher do próximo, de Gay Talese - Cia. das Letras
Comecei a ler e, em especial pela biografia de Hugh Hefner, criador da revista Playboy, não consegui parar. Mas um detalhe da estrutura do livro – uma grande reportagem sobre a mudança da moralidade da classe média norte-americana a partir dos anos 1950 e a história das leis de censura ao sexo nos Estados Unidos – passou a me incomodar a partir do quinto ou sexto capítulo. É que, invariavelmente, o capítulo termina apresentando uma personagem (até então inédita no livro) que terá sua história contada no capítulo seguinte. No começo é bacana, dá um jeitão de romance à pesquisa jornalística, mas cansa. Então, passei a ler com mais vagar, sem muito entusiasmo, até. Nos capítulo finais, porém, o livro volta a ser envolvente. No último, Gay Talese arrisca colocar a si próprio como personagem do livro (o pesquisador americano das mudanças de paradigmas e tabus sexuais americanos), expõe os detalhes dos nove anos que dedicou à pesquisa para escrever a obra, a maneira como conheceu e se aproximou das pessoas que fazem parte do livro, as sacanagens em que se envolveu, o quase fim do seu casamento por causa dessas sacanagens – tudo num texto simplesmente hipnótico: “De volta aos Estados Unidos, Talese continuou sua pesquisa em viagens pelo interior, entrevistando homens e mulheres comuns, bem como líderes comunitários e celebridades locais. Conversou tanto com casais monogâmicos e casais praticantes assumidos da troca de parceiros quanto com promotores e advogados de defesa, teólogos e conselheiros matrimoniais. Passou semanas em Virgínia Ocidental, Kentucky, Indiana, Ohio e depois desceu para o Cinturão da Bíblia, onde ouviu sermões em igrejas e compareceu a reuniões municipais, prestou atenção nas conversas dos outros em bares, visitou distritos policiais e os bairros da pesada. Durante o dia, passeava pelas zonas comerciais, notando a proximidade das Woolworth’s e J. C. Penney com as casas de massagem e cinemas pornôs. À noite, demorava-se nos saguões dos Holiday Inns, Ramadas e outros motéis, observando que homens com terno cinzento e pasta de executivo compravam Playboy e Penthouse antes de subirem para seus quartos. Observou também casais jovens com filhos e caminhonetes entrando em shopping centers; sólidos rotarianos e kiwanianos, com camisas de cetim escandalosas, jogando boliche; mulheres sardentas do interior, retirando romances góticos de bibliotecas escolares; moradores bronzeados de subúrbios de classe média jogando partidas de tênis em duplas mistas; membros da geração Pepsi cantando no coro da igreja aos domingos. Depois de longas conversas com esse tipo de gente, Talese percebeu que a vida familiar normal e as tradições americanas perduravam na superfície, mas no âmbito individual estavam sendo repensadas e reavaliadas. Nas viagens, Talese procurava não esquecer que, apesar das mudanças sociais e científicas relevantes para a Revolução Sexual – a pílula, a reforma das leis sobre aborto e as restrições legais à censura –, havia milhões de americanos cujo livro favorito continuava a ser a Bíblia, que não cometiam adultério e tinham filhas universitárias ainda virgens. A Reader’s Digest indiscutivelmente prosperava, e, embora a taxa de divórcio fosse mais alta do que nunca, o mesmo acontecia com a de segundas núpcias”. Leitura obrigatória mesmo. Obra-prima.

2 comentários:

  1. Anônimo12:20

    Li este livro há uns dois anos> realmente uma obra-prima, muito bom! Não achei cansativo, pelo contrário, bem interessante e envolvente (sacana!) ;)

    Abraço!

    ResponderExcluir
  2. Eu li boa parte desse livro numa viagem para a Serra Gaúcha, uns três anos atrás. Passava o dia conhecendo os lugares e no comecinho da noite me enfiava no quarto, o aquecedor ligado para expular a temperatura quase negativa, e me punha a ler. Boas lembranças.

    ResponderExcluir

 
Clicky Web Analytics