O outono do patriarca, Record
tradução de Remy Gorga, Filho
páginas 159 e 160
Pouco antes do anoitecer, quando acabamos de tirar a courama apodrecida das vacas e arrumamos um pouco aquela desordem de fábula, ainda não havíamos conseguido que o cadáver se parecesse à imagem de sua lenda. Nós o havíamos raspado com ferros de descamar peixes para tirar-lhe a rêmora de fundo do mar, nós o lavamos com creolina e sal de lavar pedra para apagar as marcas da putrefação, nós empoamos sua cara com amido para esconder os remendos de talagarça e os buracos de parafina com que tivemos de restaurar-lhe a cara picotada de pássaros de muladar, nós lhe devolvemos a cor da vida com camadas de ruge, e batom de mulher nos lábios, mas nem mesmo os olhos de vidro incrustados nas covas vazias conseguiram impor a ele o semblante de autoridade que seria necessário para expô-lo à contemplação das multidões. Enquanto isso, no salão do conselho de governo invocávamos a união de todos contra o despotismo de séculos para repartir em partes iguais o espólio do seu poder, pois todos haviam voltado ao exorcismo da notícia sigilosa mas incontível de sua morte, haviam voltado os liberais e os conservadores reconciliados no remorso de tantos anos de ambições postergadas, os generais de alto-comando que haviam perdido o rumo da autoridade, os três últimos ministros civis, o arcebispo-primaz, todos os que ele não teria querido que estivessem estavam sentados à volta da longa mesa de nogueira tentando pôr-se de acordo sobre a forma como se devia divulgar a notícia daquela morte enorme para impedir a explosão prematura das multidões na rua, primeiro um boletim número um do correr da primeira noite sobre um ligeiro percalço de saúde que havia obrigado a cancelar os compromissos públicos e audiências civis e militares de sua excelência, em seguida um segundo boletim médico no qual se anunciava que o ilustre enfermo se havia visto obrigado a permanecer em suas habitações privadas em conseqüência de uma indisposição própria de sua idade, e por último, sem nenhum aviso, os dobres rotundos dos sinos da catedral no amanhecer radiante da cálida terça-feira de agosto de uma morte oficial que ninguém havia de saber nunca com toda certeza se em realidade era a sua.
27/08/2008
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