02/03/2009

As crônicas do DC...

Porque na semana passada foi Carnaval, e o blog ficou ainda mais às moscas, segue a atualização das duas últimas crônicas publicadas na página 7 do caderno Variedades, do Diário Catarinense. 2/3/09 A Zona Sul de Floripa Toda cidade precisa ter uma Zona Sul. É por isso que se deve visitar a capital do estado do Rio de Janeiro. Pelo menos, a cada seis meses. Claro que o visitante expõe-se ao risco de bala perdida, à ameaça da guerra civil – que, aos poucos, trucida e humilha a cidade – e aos outros tantos males que o Jornal Nacional não deixa de denunciar toda noite. Mas o importante, o fundamental, é embriagar-se de Zona Sul. Certa vez, disseram-me o seguinte: – Você não imagina o que é morar em Ipanema e trabalhar no Leblon, ou no Jardim Botânico. Essa é a melhor rotina que alguém pode manter nesse mundo. E eu fiquei cabisbaixo, nostálgico dessa vida que não levei, e talvez jamais experimente. Do Flamengo à Gávea, o Rio é habitado por milhares de Marcelinho Zona Sul, aquele personagem do Stepan Nercessian dirigido pelo Xavier de Oliveira. Os bares, as lojas, os prédios, os casarões, as calçadas, os horizontes, os morros, as praias, a gente – quase tudo na Zona Sul conforta o carioca e o faz mais feliz. (E a Urca? Não sei por que puxo o assunto. É que o irmão de um amigo meu, natural das Gerais, a nossa impagável Potosí brasileira, mora na Urca, vive na Urca, dorme na Urca, patrocinado pela mãe. Cursa uma faculdade de Cinema e tem um carro à disposição e habita um espaçoso apartamento com vista para a baía. É jovem como um Menudo, solteiro, e goza da Urca. O meu amigo mineiro repete essa história a cada 15 dias, em uma roda de bar, e eu e os demais comparsas de mesa, açulados de inveja, dizemos a ele que um dia, quando criarmos coragem, vamos nos candidatar a uma vaga de irmão dele.) Bem, quem não mora no Rio nem vive na Urca precisa inventar uma Zona Sul para a sua cidade. E a minha Zona Sul, em Florianópolis, fica entre Coqueiros e o Bom Abrigo. Não há dúvida, nem cabe eleição. À nossa Zona Sul continental só faltam a água limpa das praias do Rizzo, da Saudade, do Meio, de Itaguaçu etc., uma filial da Livraria Argumento – onde pudéssemos sentir o cheiro dos livros que importam – e a sede do finado, estimado, saudoso Cine York. Porque o resto – bares, botecos e botequins, restaurantes, comércio, “agito noturno”, parque, brisa marinha, construções históricas – tudo há neste trecho encantado da cidade. E é na noite do primeiro dia útil da semana que a Zona Sul de Floripa começa a vibrar, e trepidante segue até o domingo seguinte. 23/2/09 É Carnaval! O lugar é amplo o bastante para que celebremos a nossa notória falta de samba no pé. Grande que chega para que dancemos desengonçados e exaltemos a nossa brasilidade batucando com algum talento e algum senso musical em latinhas e caixas de fósforo. Há cadeiras, poltronas, pufes e até um sofá para que, cansados, sedentos e suados, sentemos confortavelmente para uma pausa providencial e abramos uma latinha de cerveja de boa cepa. Bebida, aliás, é o que não falta no freezer; água e refrigerantes em meio ao gelo descansam dentro de um isopor do tamanho de um baú de navio. A iluminação é especial, projetada por alguém que entende de eletrônica e passou a tarde testando os melhores efeitos. E o ambiente inteiro foi decorado com motivos carnavalescos – pendurada na parede, dominando a cena, está a capa do disco de vinil da Banda de Ipanema, gravado na rua, em 1977, e narrado, vejam só, pelo Sérgio Chapelin! E sobre uma mesa há comida farta – frios, queijos, pães e patês, azeitonas e muito amendoim – para saciar os foliões esgotados. Para completar, o aparelho de som com amplificador foi ligado à televisão de 29 polegadas. Assim podemos assistir aos desfiles de todas as agremiações do Brasil sem sair do seguro e confortável camarote da nossa sala de estar. * * * Ainda sobre folia. Na semana passada divulgou-se que o prefeito Dário Berger foi aplaudido por ter cedido à pressão da chamada classe cultural da cidade e acatado a desistência da insultuosa ideia de submeter a Fundação Franklin Cascaes à Secretaria de Turismo e Esporte. Fora dois ou três, os vereadores aprovaram a decisão de reunir os três segmentos numa só pasta. Levantados do chão, escritores, músicos, cineastas, produtores e promotores culturais pressionaram, chatearam, aborreceram o prefeito e os “edis” para que não cometessem esse desserviço. O prefeito enfim cedeu, e foi aplaudido. Não entendi. Sempre achei que aplausos fossem uma forma de reconhecimento ao belo e ao talento, e devessem ser dirigidos, por exemplo, aos integrantes de orquestras sinfônicas que executam com excelência o seu trabalho. E não é que, na semana em que se dedicou uma salva de palmas ao prefeito, o maestro, os músicos e a parafernália da Orquestra Sinfônica de Santa Catarina foram despejados de dentro das salas que ocupavam no CIC? O ano só começa no dia 2 de março mesmo.

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