Abre na segunda-feira que vem, dia 31, às 19h, no hall da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, em Florianópolis, a exposição fotográfica 100 Histórias, composta por fotos de dois repórteres-fotográficos estrangeiros com experiência de guerra: o italiano Matt Corner e o espanhol Guillermo Valle. Quem organiza é a jornalista Juliana Kroeger, esposa do também jornalista Fernando Evangelista, meus amigos (cada um à sua época) de Unisul. O patrocínio é da Brasil Telecom, e a mostra poderá ser visitada até o dia 11 de abril. Evangelista, repórter da Caros Amigos (de luto hoje, por sinal), trabalhou com os dois, na Palestina (2002), no Iraque (2003) e no Líbano (2006). Leia abaixo sobre a parceria deles.
Guillermo Valle, Líbano 2006
Matt Corner, Líbano 2006
Fotos de guerra e algumas encrencas
por Fernando Evangelista
Matt Corner é um fotógrafo de guerra. Tem cara de alemão, nome de americano, mas é italiano da gema. É um sujeito esperto e corajoso. Corajoso demais e, às vezes, lá no meio das bombas, eu ficava me perguntando se ele era mesmo corajoso ou só um suicida alucinado. Mais um doido em busca de um sentido ou de uma revelação, igual àqueles fanáticos com o Velho Testamento embaixo do braço. Uns se agarram à religião, outros ao poder, às drogas e outros se agarram às guerras. Cada um na sua, como naquele comercial de cigarro. Pena que não é tão simples assim.
A primeira reportagem que fizemos juntos foi durante a operação militar Escudo Defensivo. O exército de Israel fechou e ocupou todas as cidades controladas pela Autoridade Palestina. Era 2002 e esse seria o último grande confronto entre Ariel Sharon e Yasser Arafat. Em Ramallah, vimos uma senhora palestina ser assassinada por um franco-atirador israelense. Ela estava saindo de um hospital, acompanhada do marido e levou um tiro na testa e outro no pescoço. Tentamos regastá-la e trazê-la para dentro do hospital, mas ouvimos outros tiros e ela não pode ser socorrida. Morreu no meio da rua, a alguns metros de onde estávamos. Então é isso o que os jornais chamam de “efeito colateral”? É isso que chamam de “direito de defesa”? Que nome se dá a esse tipo de crime? Nas guerras do começo do século XX, 90% das vítimas eram soldados. Hoje, 90% são civis.
Em 2003, junto a um grupo de ativistas italianos, Matt e eu chegamos a Amã, capital da Jordânia, com o objetivo de cruzar a fronteira do Iraque, invadido meses antes pelos Estados Unidos. A estrada que liga Amã ao Iraque - 400 quilômetros em meio ao deserto - é estreita e sem sinalização. Lembro que fazia um calor de mais de 45 graus, nosso carro não tinha ar-condicionado e as janelas traseiras estavam emperradas. Na fronteira, os militares norte-americanos impediram a nossa passagem e nos ameaçaram de morte. “Tirem seus rabos daqui, senão vamos atirar”, disse um dos soldados, metralhadora em punho. Um pessoal nada simpático.
Assim, sem escolha, voltamos para Amã e na manhã seguinte o grupo de ativistas ocupou a embaixada italiana e exigiu do embaixador uma providência. “Somos cidadãos italianos e queremos que nosso governo nos ajude a entrar no Iraque”, gritou um dos ativistas. E o melhor de tudo isso foi a foto de Matt, mostrando a cara de um embaixador, perplexo e apavorado. O homem ligou para as autoridades norte-americanas, explicou a situação e eles mandaram um fax de rendição, autorizando nossa entrada. Fez-se uma festa. “Derrotamos o Império”, comentou alguém. Matt foi o único a não comemorar.
No dia seguinte - sempre com o grupo – retornamos à fronteira segurando o papel das autoridades norte-americanas, nosso visto incontestável. Os militares (os mesmos da véspera) olharam o papel, conversaram entre si, olharam outra vez, e disseram muito educadamente: “isso não vale nada, caiam fora”. E tudo aconteceu muito rápido. Dois soldados me pegaram pelos braços, outros dois pelas pernas e me arremessaram para fora da fronteira. Fomos expulsos e alguns de nós levaram pontapés e socos. Matt também foi expulso, mas não deixou de fazer as fotos sem que os soldados percebessem.
O resto do grupo desisitiu de entrar no Iraque. Eu também desistiria não fosse pela insistência do meu companheiro de reportagem. De volta a Amã, descobrimos que a Polícia Secreta da Jordânia era o único orgão – naquele momento – que poderia nos conceder um documento autorizando a entrada no país vizinho. Fomos a vários ministérios até encontrar a sede da Polícia Secreta, bem no centro da cidade e devidamente identificada com uma placa na entrada. Lá, depois de uma interminável conversa sobre o futebol brasileiro, pegamos nosso “visto”. E assim, nós dois e um motorista iraquiano, fizemos aqueles 400 quilômetros pelo deserto e chegamos pela terceira vez à fronteira.
Papéis e passaportes entregues, o militar norte-americano perguntou se estávamos com o grupo do dia anterior – “grupo, qual grupo?” – olhou cada página do passaporte, chamou um superior, repetiu as mesmas perguntas e, finalmente, nos deixou entrar. Fomos os únicos, de um grupo de 43 pessoas. E lá no Iraque, no mesmo momento em que Bush e boa parte da mídia ocidental comemoravam – patrioticamente - o fim da guerra, Matt e eu fizemos uma reportagem dizendo que a tragédia estava apenas começando. Porém, nem os mais pessimistas poderiam imaginar o que aconteceria nos cinco anos seguintes: o número de civis iraquianos mortos – segundo o jornalista Robert Fisk - está entre 350 mil e um milhão, quatro mil são as baixas norte-americanas e os feridos passam dos 29 mil. Conforme o governo dos Estados Unidos, o conflito já custou 500 bilhões de dólares. Para Joseph Stingliz, prêmio Nobel de economia, os gastos já chegam a 3 trilhões de dólares.
Não é simples caminhar pelas estradas do Oriente Médio e Matt escolheu trilhar as estradas secundárias. As histórias que lhe interessam são as histórias que não se contam. Ele possui qualidades fundamentais para quem trabalha em áreas de risco: é pragmático, sem ser indiferente; é posicionado, sem ser ideológico; é cético, sem ser cínico. É apaixonado pelo o que faz, o que pode soar piegas e fora de moda diante do jornalismo estatístico e desumanizado de hoje em dia.
Em 2006, cobrimos a guerra do Líbano, que durou 34 dias e matou 1.200 libaneses e 157 israelenses. E foi no sul de Beirute que conheci o fotógrafo espanhol Guillermo Valle. Ele, então com 23 anos, já estava cobrindo sua quarta guerra. Havia começado aos 14 anos. As fotos de Guillermo unem o que existe de mais fascinante no fotojornalismo: arte e informação de qualidade. Não por acaso, tornou-se um dos mais jovens colaboradores do jornal El País e integrante da agência francesa Sipa Press. Não conheço ninguém que tenha captado tão profundamente o clima desse conflito como ele o fez. Se alguém me perguntar o que de fato aconteceu no Líbano, posso indicar qualquer uma de suas fotos.
Matt e Guillermo lançam, no dia 31 de março, às 19 horas, na Assembléia Legislativa de Santa Catarina, o projeto 100 histórias, mostra fotográfica que reúne imagens da Europa, África e Oriente Médio, com destaque para imagens recentes da Palestina, Iraque e Líbano. A mostra, organizada pela jornalista Juliana Kroeger e patrocinada pela Brasil Telecom e pela Universidade Estácio de Sá, é dedicada a todos aqueles que, por ignorância ou ingenuidade, acreditam nas armas como um método legítimo de luta. Toda a guerra, como fica evidente em cada uma das fotos, é imunda e desumana. Sem exceção.
Esses dois fotógrafos, além de certa loucura, compartilham a certeza de que uma foto – apenas uma foto bem feita – pode ser capaz de denunciar a injustiça mais terrível. E isso, para eles, justifica todos os riscos.
Fernando Evangelista é jornalista
fernando_evangelista@hotmail.com
Guillermo Valle, Líbano 2006
Matt Corner, Líbano 2006
Fotos de guerra e algumas encrencas
por Fernando Evangelista
Matt Corner é um fotógrafo de guerra. Tem cara de alemão, nome de americano, mas é italiano da gema. É um sujeito esperto e corajoso. Corajoso demais e, às vezes, lá no meio das bombas, eu ficava me perguntando se ele era mesmo corajoso ou só um suicida alucinado. Mais um doido em busca de um sentido ou de uma revelação, igual àqueles fanáticos com o Velho Testamento embaixo do braço. Uns se agarram à religião, outros ao poder, às drogas e outros se agarram às guerras. Cada um na sua, como naquele comercial de cigarro. Pena que não é tão simples assim.
A primeira reportagem que fizemos juntos foi durante a operação militar Escudo Defensivo. O exército de Israel fechou e ocupou todas as cidades controladas pela Autoridade Palestina. Era 2002 e esse seria o último grande confronto entre Ariel Sharon e Yasser Arafat. Em Ramallah, vimos uma senhora palestina ser assassinada por um franco-atirador israelense. Ela estava saindo de um hospital, acompanhada do marido e levou um tiro na testa e outro no pescoço. Tentamos regastá-la e trazê-la para dentro do hospital, mas ouvimos outros tiros e ela não pode ser socorrida. Morreu no meio da rua, a alguns metros de onde estávamos. Então é isso o que os jornais chamam de “efeito colateral”? É isso que chamam de “direito de defesa”? Que nome se dá a esse tipo de crime? Nas guerras do começo do século XX, 90% das vítimas eram soldados. Hoje, 90% são civis.
Em 2003, junto a um grupo de ativistas italianos, Matt e eu chegamos a Amã, capital da Jordânia, com o objetivo de cruzar a fronteira do Iraque, invadido meses antes pelos Estados Unidos. A estrada que liga Amã ao Iraque - 400 quilômetros em meio ao deserto - é estreita e sem sinalização. Lembro que fazia um calor de mais de 45 graus, nosso carro não tinha ar-condicionado e as janelas traseiras estavam emperradas. Na fronteira, os militares norte-americanos impediram a nossa passagem e nos ameaçaram de morte. “Tirem seus rabos daqui, senão vamos atirar”, disse um dos soldados, metralhadora em punho. Um pessoal nada simpático.
Assim, sem escolha, voltamos para Amã e na manhã seguinte o grupo de ativistas ocupou a embaixada italiana e exigiu do embaixador uma providência. “Somos cidadãos italianos e queremos que nosso governo nos ajude a entrar no Iraque”, gritou um dos ativistas. E o melhor de tudo isso foi a foto de Matt, mostrando a cara de um embaixador, perplexo e apavorado. O homem ligou para as autoridades norte-americanas, explicou a situação e eles mandaram um fax de rendição, autorizando nossa entrada. Fez-se uma festa. “Derrotamos o Império”, comentou alguém. Matt foi o único a não comemorar.
No dia seguinte - sempre com o grupo – retornamos à fronteira segurando o papel das autoridades norte-americanas, nosso visto incontestável. Os militares (os mesmos da véspera) olharam o papel, conversaram entre si, olharam outra vez, e disseram muito educadamente: “isso não vale nada, caiam fora”. E tudo aconteceu muito rápido. Dois soldados me pegaram pelos braços, outros dois pelas pernas e me arremessaram para fora da fronteira. Fomos expulsos e alguns de nós levaram pontapés e socos. Matt também foi expulso, mas não deixou de fazer as fotos sem que os soldados percebessem.
O resto do grupo desisitiu de entrar no Iraque. Eu também desistiria não fosse pela insistência do meu companheiro de reportagem. De volta a Amã, descobrimos que a Polícia Secreta da Jordânia era o único orgão – naquele momento – que poderia nos conceder um documento autorizando a entrada no país vizinho. Fomos a vários ministérios até encontrar a sede da Polícia Secreta, bem no centro da cidade e devidamente identificada com uma placa na entrada. Lá, depois de uma interminável conversa sobre o futebol brasileiro, pegamos nosso “visto”. E assim, nós dois e um motorista iraquiano, fizemos aqueles 400 quilômetros pelo deserto e chegamos pela terceira vez à fronteira.
Papéis e passaportes entregues, o militar norte-americano perguntou se estávamos com o grupo do dia anterior – “grupo, qual grupo?” – olhou cada página do passaporte, chamou um superior, repetiu as mesmas perguntas e, finalmente, nos deixou entrar. Fomos os únicos, de um grupo de 43 pessoas. E lá no Iraque, no mesmo momento em que Bush e boa parte da mídia ocidental comemoravam – patrioticamente - o fim da guerra, Matt e eu fizemos uma reportagem dizendo que a tragédia estava apenas começando. Porém, nem os mais pessimistas poderiam imaginar o que aconteceria nos cinco anos seguintes: o número de civis iraquianos mortos – segundo o jornalista Robert Fisk - está entre 350 mil e um milhão, quatro mil são as baixas norte-americanas e os feridos passam dos 29 mil. Conforme o governo dos Estados Unidos, o conflito já custou 500 bilhões de dólares. Para Joseph Stingliz, prêmio Nobel de economia, os gastos já chegam a 3 trilhões de dólares.
Não é simples caminhar pelas estradas do Oriente Médio e Matt escolheu trilhar as estradas secundárias. As histórias que lhe interessam são as histórias que não se contam. Ele possui qualidades fundamentais para quem trabalha em áreas de risco: é pragmático, sem ser indiferente; é posicionado, sem ser ideológico; é cético, sem ser cínico. É apaixonado pelo o que faz, o que pode soar piegas e fora de moda diante do jornalismo estatístico e desumanizado de hoje em dia.
Em 2006, cobrimos a guerra do Líbano, que durou 34 dias e matou 1.200 libaneses e 157 israelenses. E foi no sul de Beirute que conheci o fotógrafo espanhol Guillermo Valle. Ele, então com 23 anos, já estava cobrindo sua quarta guerra. Havia começado aos 14 anos. As fotos de Guillermo unem o que existe de mais fascinante no fotojornalismo: arte e informação de qualidade. Não por acaso, tornou-se um dos mais jovens colaboradores do jornal El País e integrante da agência francesa Sipa Press. Não conheço ninguém que tenha captado tão profundamente o clima desse conflito como ele o fez. Se alguém me perguntar o que de fato aconteceu no Líbano, posso indicar qualquer uma de suas fotos.
Matt e Guillermo lançam, no dia 31 de março, às 19 horas, na Assembléia Legislativa de Santa Catarina, o projeto 100 histórias, mostra fotográfica que reúne imagens da Europa, África e Oriente Médio, com destaque para imagens recentes da Palestina, Iraque e Líbano. A mostra, organizada pela jornalista Juliana Kroeger e patrocinada pela Brasil Telecom e pela Universidade Estácio de Sá, é dedicada a todos aqueles que, por ignorância ou ingenuidade, acreditam nas armas como um método legítimo de luta. Toda a guerra, como fica evidente em cada uma das fotos, é imunda e desumana. Sem exceção.
Esses dois fotógrafos, além de certa loucura, compartilham a certeza de que uma foto – apenas uma foto bem feita – pode ser capaz de denunciar a injustiça mais terrível. E isso, para eles, justifica todos os riscos.
Fernando Evangelista é jornalista
fernando_evangelista@hotmail.com
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