04/11/2006

Nanopinião 4

O jornalismo dos anos 90, de Luis Nassif - Editora Futura
Comecei na quinta, terminei ontem. A análise do cara sobre o desenvolvimento dos meios de comunicação no Brasil da década de 1970 até o início dos anos 2000 é única, brilhante mesmo. O foco principal são as grandes coberturas da última década do século passado, do governo Collor à CPI da Corrupção do segundo mandato do FHC, em 2001. E nesse período ocorreram os casos da Escola Base, o Impeachment do Collor, o Proer, Eldorado dos Carajás, os casos médicos de Osmar Santos e Cláudia Liz, a CPI dos Precatórios, a morte do índio Galdino, Sérgio Naya, o Osasco Plaza Shopping (que explodiu), o dossiê Cayman e o calouro da Medicina (que morreu afogado), entre outros menos famosos. Nassif publica os principais artigos dele sobre cada um desses assuntos (em geral veiculados na Folha, mas também na revista Imprensa). Antes, porém, explica o contexto e os motivos que o levaram a escrever o que escreveu. Seu objetivo é o estudo da catarse e das "ondas de linchamento" que a mídia, em grupo, provoca na opinião pública, que por sua vez pedia (ou pede ainda hoje?) mais e mais catarse e linchamentos. Expõe como o Jornal da Tarde do início dos anos 1980 (pós Mino Carta, portanto) "criou" o jornalismo de serviços, como a Folha de S. Paulo (pós Cláudio Abramo) introduziu no Brasil o "marketing da notícia" e a defesa dos interesses do cidadão (o tal "De rabo preso com o leitor") e como esses movimentos foram importantes para o fortalecimento de uma opinião pública doida para se manifestar com liberdade (afinal, a ditadura se ia). A Folha, principalmente depois de abraçar as Diretas Já! (idéia do Ricardo Kotscho), é que acostumou os leitores a um estilo que "se baseava em opiniões de tintas fortes, pouco matizadas. Todo funcionário público era displicente, todo usineiro caloteiro, todo banqueiro ganancioso, todo sindicalista corporativista. Qualquer demanda individual ou setorial era condenada a priori". A questão é que a imprensa não soube trabalhar bem esse negócio, depois do impeachment, e de cada caso fez um show para uma sociedade viciada "no escabroso, no repugnante, no obsceno, no escatológico" (não tinha até supositórios de cocaína?). Então, Nassif mostra como é duro ir contra todo mundo, dar opiniões frontalmente opostas às da maioria (da imprensa e da sociedade) em cada um dos casos citados lá em cima. E, acredite, ele tinha razão em todas (só no caso de Eldorado dos Carajás achei que não). E é com vergonha que reconheço: a cada página lida, eu me lembrava dos fatos e de como eu os julgava na época e cheguei à conclusão inevitável: eu era da turba. Pior que era. ps. o livro tem uma edição de texto péssima; todo ele é cravejado de erros grosseiros.

Um comentário:

 
Clicky Web Analytics