30/11/2006

Nanopinião 14

A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queirós - Editora Ática A redescoberta do ano. No colégio, desprezava tanto as professoras quanto as aulas de Literatura. O que elas diziam pouco importava, o que elas ensinavam eu não aprendia. Dos livros que indicavam, para no fim fazermos aquelas temíveis e chatíssimas fichas de leitura, não guardei nada de nenhum. (De vez em quando eu as atazanava, escrevendo redações extensas, segurando-as em sala de aula depois do horário para que eu pudesse escrever folhas e folhas de papel almaço, com uma letra miúda de criança.) Azar meu: só fui ler Machado de Assis na universidade, muito atrasado; surpreendido e embasbacado a um só tempo. Do Eça, nem uma página. Mas eis a Série Bom Livro, da Editora Ática, rediviva nas estantes aqui de casa. Depois de ler A ilustre..., que é excelente, percorri os sebos e comprei os romances e novelas que encontrei do autor. No todo, este é um belo livro. Os trechos escritos pelo próprio Gonçalo Ramires, porém, são enfadonhos, porque intricados com a história de Portugal, que pouco conheço. Nesses momentos dá vontade de imitar o "Fidalgo da Torre" e exclamar, aborrecido: "Irra, que maçada!". Segue tela abaixo um diálogo de Gonçalinho, à página 35, em que ele, depois de um lauto jantar, explica a um amigo, João Gouveia, o porquê de detestar um cidadão chamado André Cavaleiro, homem de governo e seu inimigo, conhecido de ambos: – Escute você, oh João Gouveia! Por que é que você lá em cima, à ceia, não comeu a salada de pepino? Estava divina, até o Videirinha a apeteceu! Eu repeti, acabei a travessa... Por que foi? Porque você tem horror fisiológico, horror visceral ao pepino. A sua natureza e o pepino são incompatíveis. Não há raciocínios, não há sutilezas, que o persuadam a admitir lá dentro o pepino. Você não duvida que ele seja excelente. Desde que tanta gente de bem o adora; mas você não pode... Pois eu estou para o Cavaleiro como você para o pepino. Não posso! Não há molhos, nem razões, que mo disfarcem. Para mim é ascoroso. Não vai! Vomito!... E agora oiça... Sabe aquela frase do Mark Twain de que "a diferença entra a palavra certa e a quase certa é a mesma diferença entre o relâmpago e o vaga-lume"? Precisei ler um livro do Eça de Queirós para compreender o seu alcance e significado preciso. Português de Portugal para as nossas crianças!

29/11/2006

Do baú 4

Vênus e Cupido
Eu estava sentado, absorto na trama e saga do Comandante Aureliano Buendía - que viria a se lembrar, quem sabe quando?, do dia em que seu pai o levou pra conhecer o gelo - quando ela chegou. O ônibus, naquele exato momento, estremeceu. Olhei-a vindo para perto de mim: com olhos de ressaca, palpitantes, ela me olhou.
O engraçado é que nada mais existia, pois, assim como a Macondo de Cem Anos de Solidão, o banco em que estava sentado, lendo, parecia longe de tudo, prostrado no irreal. E eu a olhei, e ela me olhava. Devassei-a na intimidade o mais que pude: fui ao âmago de sua alma, senti sua pulsação, sua respiração, e recuei.
Isso tudo se passou em longos milésimos de segundo. Logo eu já estava de novo em transe, dado à leitura; e o ônibus, seguindo o seu destino cotidiano, sacolejava como sempre. Ela, contudo, Vênus misteriosa, sentou-se em minha frente.
Desci alguns pontos depois daquela enxurrada de sensações e daquela experiência fulminante de empatia. Ficou-me, devido aos sagrados mistérios do corpo e do espírito, aquele vazio triste. Vênus, como amiga de Cupido, provou ter uma bela mira. Flecha certeira: só pensava nela e só sentia o nada.
E eis que cá estou, já calmo e sóbrio do veneno do malvado anjo, completando esta página em branco. Preencho, numa louca tentativa de alívio imediato, o vazio deixado por aquela linda mulher, Vênus eternizada...
ps. é de 2000. escrita em aula, publicada na Usina de Letras.

28/11/2006

O brado do bêbado

A moça suspirou de amor uma vez. Estava sentado no banco da praça, e a olhava de longe. A moça suspirou de amor uma vez e fechou os olhos, encolhendo o peito. Batia um sol de três da tarde, a praça estava um vaivém danado, o barulho dos carros, os galhos das árvores balançavam ao vento. Eu tinha de ir ao banco, tinha. Mas não ia. Faltava pouco para o banco fechar, a tarde cair, a noite espalhar-se, e eu não tinha saco para mais nada. Era sexta-feira, e a semana que eu trazia nas costas era um fardo de chumbo. Então, resmungando comigo mesmo, sentado num banco da praça que não estava ocupado, fiquei olhando o movimento. E lá do outro lado, reparei na moça. Antes de suspirar de amor e desfalecer de contentamento sobre o próprio colo, ela falava ao telefone celular. Conversava com alegria, o braço livre ativo, fazendo gestos, puxando o cabelo em resposta a um golpe de ar mais forte. Sorria, às vezes gargalhava. A pessoa com quem ela se divertia devia ser mesmo uma parada. Eu virei o rosto para outros motivos. O solzinho brando que nos cobria a todos pintava de luz as mulheres de saias que atravessavam a praça. Em duplas, em trios, trocando risadinhas e confidências, elas iam e vinham. De saias, e eu as fitava com interesse. De vez em quando, uma daquelas saias iluminava-se ao sol e ficava, por um segundo de nada, com uma transparência diáfana. Eu, bobo, achava um negócio tremendo flagrar aqueles instantes que fugiam num relance. Então surgiu um bêbado diurno. Como se estivesse num picadeiro, centralizou todas as atenções. O seu discurso (arengava, eloqüente!) logo atraiu muitos à sua volta. Era um bebum manso, passivo, que apenas dizia o que a bebedeira lhe inspirava. Do que ouvi, não guardei muitas frases. Ficou-me apenas uma, que achei interessante. Berrou ele para a já quase multidão que o admirava (não sem um certo receio), com uma sintaxe ébria: – O que que é o amor? Se não for bom de verdade, não é nada demais. É uma frase simplória, reconheço. A princípio, nem vi nela sentido algum. Mas ela me chamou a atenção. Fiquei mastigando a frase do bêbado, conferi o relógio (mais um pouco e eu perdia o banco!), desamarrei e amarrei o cadarço do tênis direito. Estava nessa quando procurei de novo a moça lá do outro lado da praça. Consegui ver ela desligar o telefone, olhar para o aparelho como se mirasse um espelho e suspirar de amor. Aí ela fechou os olhos e baixou a cabeça, encolhendo o peito. E o bêbado repetia aos brados, no meio da praça de que era a atração do momento: – O que que é, minha gente! O amor, se não for bom de verdade, não é nada demais. Ora essa...

27/11/2006

Nanopinião 13

A morte de Olivier Bécaille, de Émile Zola - L&PM Pocket A terceira leitura mais recompensadora do ano, depois do Hemingway e da grande reportagem sobre o 11 de setembro de 2001. Excelente. O conto A inundação é dos melhores de toda a história da literatura. Eu enterraria num baú para as gerações cada vez mais iletradas do futuro. O texto tem o impacto de um cataclismo. É perturbador. Sem brincadeira.
 
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