A moça suspirou de amor uma vez. Estava sentado no banco da praça, e a olhava de longe. A moça suspirou de amor uma vez e fechou os olhos, encolhendo o peito. Batia um sol de três da tarde, a praça estava um vaivém danado, o barulho dos carros, os galhos das árvores balançavam ao vento. Eu tinha de ir ao banco, tinha. Mas não ia. Faltava pouco para o banco fechar, a tarde cair, a noite espalhar-se, e eu não tinha saco para mais nada. Era sexta-feira, e a semana que eu trazia nas costas era um fardo de chumbo.
Então, resmungando comigo mesmo, sentado num banco da praça que não estava ocupado, fiquei olhando o movimento. E lá do outro lado, reparei na moça. Antes de suspirar de amor e desfalecer de contentamento sobre o próprio colo, ela falava ao telefone celular. Conversava com alegria, o braço livre ativo, fazendo gestos, puxando o cabelo em resposta a um golpe de ar mais forte. Sorria, às vezes gargalhava. A pessoa com quem ela se divertia devia ser mesmo uma parada.
Eu virei o rosto para outros motivos. O solzinho brando que nos cobria a todos pintava de luz as mulheres de saias que atravessavam a praça. Em duplas, em trios, trocando risadinhas e confidências, elas iam e vinham. De saias, e eu as fitava com interesse. De vez em quando, uma daquelas saias iluminava-se ao sol e ficava, por um segundo de nada, com uma transparência diáfana. Eu, bobo, achava um negócio tremendo flagrar aqueles instantes que fugiam num relance.
Então surgiu um bêbado diurno. Como se estivesse num picadeiro, centralizou todas as atenções. O seu discurso (arengava, eloqüente!) logo atraiu muitos à sua volta. Era um bebum manso, passivo, que apenas dizia o que a bebedeira lhe inspirava. Do que ouvi, não guardei muitas frases. Ficou-me apenas uma, que achei interessante. Berrou ele para a já quase multidão que o admirava (não sem um certo receio), com uma sintaxe ébria:
– O que que é o amor? Se não for bom de verdade, não é nada demais.
É uma frase simplória, reconheço. A princípio, nem vi nela sentido algum. Mas ela me chamou a atenção. Fiquei mastigando a frase do bêbado, conferi o relógio (mais um pouco e eu perdia o banco!), desamarrei e amarrei o cadarço do tênis direito. Estava nessa quando procurei de novo a moça lá do outro lado da praça. Consegui ver ela desligar o telefone, olhar para o aparelho como se mirasse um espelho e suspirar de amor. Aí ela fechou os olhos e baixou a cabeça, encolhendo o peito.
E o bêbado repetia aos brados, no meio da praça de que era a atração do momento:
– O que que é, minha gente! O amor, se não for bom de verdade, não é nada demais. Ora essa...
28/11/2006
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amei, rei.
ResponderExcluirparabéns.
olá! voltei. fiquei uma semana sem internet.
ResponderExcluiracho que a frase deveria ser: amor, quando morno, não é nada demais.