102 minutos, de Jim Dwyer e Kevin Flynn - Jorge Zahar Editor
Só no último ano de faculdade uma professora me chamou a atenção para o óbvio. A grande reportagem, disse-me ela, não é apenas uma reportagem extensa, de muitas páginas, mas sim aquele texto de fôlego que se baseia no maior número possível de fontes. Ou seja, a grande reportagem transcende o que o repórter vê e vive, pois o que a torna robusta são os outros olhares e as outras informações que não estão disponíveis no momento em que o repórter está na rua com seu bloco de anotações e sua câmera fotográfica.
O que assusta mais do que um ensinamento desses ser passado a um estudante apenas no último ano da faculdade, de maneira nada professoral, fora de sala de aula, é saber que, sob esse critério mais preciso, o gênero praticamente não existe na imprensa brasileira. O comum é que jornalistas-escritores, ao alcançarem esse nível de sofisticação profissional, publiquem seus trabalhos em livros, que vendem aos montes. E essa escola jornalística, como muitas outras (para o mal, como para o bem), é também norte-americana.
102 Minutos, de uma dupla de reportagem do New York Times, é uma grande reportagem que reconstitui a manhã de 11 de setembro de 2001 do ponto de vista das pessoas que estavam dentro das duas torres do World Trade Center, complexo de sete edifícios localizado no sul da Ilha de Manhattam, em Nova York. Cimentado por mais de 200 entrevistas, tanto com sobreviventes como com familiares daqueles que literalmente sumiram dentro dos arranha-céus demolidos, o livro é uma aula de jornalismo que merece ser levada para dentro das universidades, adotado nas aulas de Técnica de Reportagem e semelhantes.
A primeira consideração é a qualidade do texto. Em nenhum momento há, por parte dos repórteres, concessões à pieguice que os acontecimentos dramáticos despertam no público em geral. E o 11 de Setembro, o fatídico 9/11 norte-americano, foi e será para muitas gerações o evento mais dramático da história dos Estados Unidos. Mas nem essa constatação, reconhecida pela dupla do NYT, abala a reconstituição criteriosa daquela manhã de assombro e perplexidade. O texto às vezes é até seco demais. Grande leitura.
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