As ilhas da corrente, de Ernest Hemingway - Bertrand Brasil
Li em julho. Foi a experiência de leitura mais impressionante do ano, até agora. Eu nunca tinha ouvido falar em As ilhas da corrente, uma obra póstuma de Ernest Hemingway. Mas a espera valeu cada parágrafo, todos de uma maestria inquestionável. Já li por aí que é uma obra menor, incompleta (obviedade gritante, posto que livro inacabado). Bobagem. Escrito pouco antes do suicídio, em 1961, é escancaradamente autobiográfico. Conta a história de um pintor de sucesso norte-americano que mora numa ilhota, isolado. O contato maior que tem com o resto do mundo é quando recebe os filhos, sempre no verão, e por poucos dias; dois meses, se tanto. O cara bebe bem pra dedéu e vive cercado por dezenas de gatos. Cada uma das três partes do livro (Bimini, Cuba, No mar) tem a solidez de um encouraçado. Há pelo menos uma passagem antológica em todos os sentidos, inclusive no metalinguístico. Trata-se de uma pescaria. São páginas e páginas da mais perfeita descrição de uma batalha entre um peixe de proporções cavalares e um garoto de não mais que 15 anos. No fim (o peixe morre, foge?), o pintor, o grande Thomas Hudson, comenta ironicamente que gostaria de ser escritor para um dia descrever aquela cena com a perfeição que ela merecia. É como se Hemingway dissesse ao embasbacado leitor: "Essa é para você que achava O velho e o mar genial, meu chapa". O tom melancólico de Hudson, personagem muito mais carismático do que Santiago, às vezes é comovente. Como quando ele calcula que não se pode deixar enganar pela euforia que a presença dos filhos lhe causa, já que ela é efêmera, eles logo vão embora, e aí a depressão até ele se "reajustar" pode ser mortal. E quando seus filhos se acidentam, bem na metade do livro, já longe da ilha, depois de um verão memorável? É de rachar o coração ao meio. As ilhas da corrente (do Golfo, no caso) é espantoso. Para o meu gosto, briga com Por quem os sinos dobram para ser a obra-prima de Hemingway. Mas me disseram que o quente mesmo é O último bom lugar, que saiu no Brasil pela primeira vez num suplemento especial da revista Realidade, edição nº 94, que encontrei e comprei no Estante Virtual. A tradução é do Hélio Pólvora. Está na fila.
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