Estava na fila do banco havia 20 minutos. Nada de interessante, a não ser aguardar, de pé, e pensar na vida. Algumas pessoas sempre têm algo a mais para perguntar ao funcionário do caixa. Não basta pagar a conta, depositar ou sacar dinheiro, agradecer, virar as costas e ir embora. Há que questionar, sondar possibilidades, perguntar por quê, reclamar das taxas, dos preços, comentar uma bobagem. E ia eu pensando nisso tudo quando surgiu uma velhinha, e essa velhinha mudou a tarde e o tédio.
Era uma velhinha bem velhinha, encarquilhada mesmo. Uma ruga só, digamos. Baixinha, dessas de quem a gente tem vontade de beijar a testa toda vez que encontra. Ela se ergueu da cadeira quando o painel eletrônico soou e anunciou a senha XXX no guichê 5, e se encaminhou ao guichê 4. O rapaz do caixa apontou para a telinha luminosa e disse: "guichê errado, senhora", e a senhora riu o seu riso sem dentes, bateu com a mão na testa e deu um passo para o lado. Todos em volta sorriram, enternecidos com a auto-ironia dela.
Mas a graça desvaneceu em pouco. A mulher do guichê número 5 não demorou a dizer em voz alta, provavelmente porque a velhinha não conseguia se fazer ouvir: "Ainda não acredita em mim? Será possível? Esta poupança está fechada desde 1992, minha senhora. Não tem mais dinheiro nenhum para sacar. Como? Estamos em 2007, minha senhora. Faz 15 anos que essa conta não existe! É da sua filha? E cadê a sua filha? Ah, já morreu... E a senhora tem mais filhos? Não? Me dê um minuto, por favor...". A mulher levantou-se e sumiu da nossa frente, indo meter-se naqueles corredores misteriosos que a gente não vê, mas desconfia como sejam.
A velhinha, como se não entendesse direito o que se passava, voltou a sentar-se na cadeira de onde saíra. Uma boa senhora, bem idosa também - mas com a lucidez ainda brilhando nos olhos -, foi conversar com ela. As duas gesticulavam bastante. Uma menininha, talvez neta da boa senhora, acompanhava tudo, metida em vestido rosa e de mão dada à avó. Estava boquiaberta e com os olhos esbugalhados de quem tem medo de um dia ficar como a velhinha enrugada e sem dentes.
A funcionária do banco reapareceu do labirinto burocrático. Trazia um pedaço de papel na mão. A boa senhora alertou a velhinha, que se dirigiu novamente à boca do caixa. A mulher não teve saída: "Veja só - e mostrou à velhinha o papel que carregava -, como eu já tinha dito para a senhora na semana passada, o seu nome não consta em nenhuma parte do banco. A senhora não existe aqui dentro, nem o número da conta-poupança. Eu lamento muito...".
A boa senhora não se conteve. Levantou-se e abraçou a velhinha pelo ombro. Ao que parece, convenceu a velhinha de que não havia nada a fazer. Em seguida, consolou-a. O painel eletrônico soou outra senha para o guichê 5, e a lengalenga da espera, e da fila em que eu me encontrava, tornou a se assentar no trilho do enfado.
A velhinha se retirou com passos curtos. À saída, parou para conversar com o segurança gordo e alto e forte que a escutava e negaceava com a cabeça, quem sabe lamentando, junto com a velhinha, que nesse mundo moderno de hoje ficou tudo de cabeça para baixo mesmo. E quando a velhinha empurrou a porta-giratória de acesso, por um momento imaginei que ela jamais conseguiria sair daquela roda-viva de acrílico.
06/09/2007
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Poxa, Felipe! Gostei muito de como seu texto adquire a tristeza da velhinha no final. Não que eu tenha gabarito para achar ou deixar de achar alguma coisa, mas realmente li do começo ao fim com interesse!
ResponderExcluirAbraço!
Oi, Bel Colucci! Muito bem-vinda, obrigado pelo elogio e volte sempre!
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