02/02/2007

Crônica de Verão 7 / Diário Catarinense

Olhar não tira pedaço? O casal tinha bodas de prata, e ambicionava ouro e diamante. Preparado estava: ambos, homem e mulher, tinham afinidades, sonhos comuns e muita cumplicidade, mas também alguns antídotos – de descoberta penosa, mas providencial – ao óxido que a convivência amorosa ora produz. Além disso, eram os pais responsáveis de um filho que já lhes presenteara com um neto. Para eles, o divórcio não passava de um termo jurídico mais útil aos advogados e rábulas do que a um par de amantes e avós orgulhosos. Como todo casal ajustado, tinham seus acordos tácitos. Vou revelar um deles.
Parte deste acerto é que os dois combinavam tirar férias durante o Verão. Porque adoravam o mar, a casa de praia, o cheiro da maresia nas noites quentes e de brisa, o barulho das ondas na hora de dormir, os ventiladores de teto, os churrascos com os amigos nas tardes ensolaradas de domingo, as pranchas de body-board, a preguiça de acordar, a relutância em ir dormir, a animação das pessoas nas ruas, o clima festivo e alto astral da estação, a meninada na praia. Nem das filas nos supermercados se queixavam...
E a outra parte do acordo? Consistia numa permissão que ela dava ao marido. Acontecia assim: com sol a pino ou céu nublado em dia de mormaço, os dois iam à praia de manhã e ficavam até o fim da tarde. Tomavam banho juntos, pegavam umas ondinhas, torravam ao sol lado a lado, almoçavam em algum restaurante próximo... Mas, em determinado momento, separavam-se. Era quando ele, ajeitando o boné, dizia alto e bom som:
– Vou por aí.
Era a senha, e a mulher nem chiava. Conhecia o homem que tinha. Sabia que o marido, ao anunciar o seu passeio, iria vistoriar o restante da praia. Não pelo prazer de caminhar, exercitar-se, entrar em forma. Ele ia era olhar as bundas da mulherada, um de seus vícios de Verão. E nem punha óculos escuros: ia de cara limpa, a sombra do boné melhorando a visão, sem que precisasse manter os olhos semicerrados em busca daquele fio dental...
E assim todo o Verão, ano a ano. A certa altura, geralmente quando a mulher já estava estendida de bruços na cadeira de praia havia horas, ele erguia-se de sob o guarda-sol, com aquela cara de despreocupado, ajustava o bonezinho, a bermuda na cintura, e dizia:
– Vou por aí.
Um dia, porém, após voltar de uma das melhores caminhadas de sua vida (era bunda boa, morena e luzidia de protetor solar para todo o lado!), não agüentou e comentou com a esposa, que lia sentada, de óculos escuros:
– Nunca vi tanta bunda bonita!
No que a mulher respondeu:
– Seu bobo. Pensa que olhar é bom, é? Bom é mostrar...
E ela largou o livro e virou de costas, bunda para o ar...

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