16/02/2007

Crônica de Verão 9 / Diário Catarinense

O segredo do Tio Jorge Tio Jorge era uma mina de bons predicados. Um bom pai, sem dúvida. Trabalhador responsável. Não tinha o vício do jogo, nem o gosto pela bebida. Poupava dinheiro, amava a mulher, cuidava dos filhos. Jamais flertara fora do casamento, nunca lhe passara pela cabeça dar um desfalque na empresa. Tinha zelo pelas suas coisas, lavava ele mesmo o carro, vivia sem luxos e lia pelo menos 30 livros por ano. Além de virtuoso, pregador: fazia discursos emocionados aos parentes, na tentativa de que eles o tomassem por rumo e Norte e seguissem seus passos pela vida afora. Era, enfim, sério e probo, consciencioso e correto sempre. Uma antologia de virtudes. – Tio Jorge é um chato de galochas, isso sim - dizia o Julinho, afilhado do Tio Jorge, reclamando que o padrinho não o acompanhava numa partida de videogame. Mas não era apenas o sobrinho mais chegado que via defeitos no Tio Jorge. Havia um comportamento, uma idiossincrasia do Tio Jorge que aborrecia não só o pequeno vidrado em jogos eletrônicos, mas todos os familiares. Eis o motivo: Tio Jorge não entrava no mar, simplesmente porque não confiava nele. Nascido em Florianópolis, um manezinho assim com o sotaque à Guga Kuerten, Tio Jorge recusou-se por toda a vida a colocar um pé dentro da água salgada do Atlântico. E era dono de uma bela casa de praia em Jurerê (o Internacional do nome veio depois) desde o fim dos anos 1980. – Quando a turma foi, eu já tava, não tem? - dizia ele, garboso. Até tentara, ainda pequeno, tomar banho como qualquer outra pessoa. Eram os anos (vejam vocês, turistas, como o tempo passa e as coisas mudam) em que as praias mais badaladas eram as de Coqueiros e Estreito, bairros populosos de Florianópolis localizados no continente! Foi uma vez, duas, tornou a ir, repetiu a dose. Falhou em todas. Não era medo, não era desespero, nojo, nada. Simplesmente, como já escrevi, não confiava. A correnteza, as águas vivas, as areias negras e as areias finas, os barcos, os guarda-sóis, os protetores solares, as algas verdes e escuras, o vento Sul ("Velho vento vagabundo!" – gostava de declamar Cruz e Sousa), tudo lhe despertava desconfiança. – Esse menino tá é muito afeminado – dizia, à época, o pai do Tio Jorge, Seu Pedro, conhecido na região central da cidade como Pedrão, gaúcho barbaridade que encontrara aqui na Ilha de Santa Catarina o amor e o sustento. Passou o tempo. Seu Pedro, a mãe, os cinco irmãos, os colegas, os professores, a vizinhança, enfim, o mundo inteiro desistiu de fazer Jorge ir à praia. Jorge estudou, cresceu, trabalhou com afinco e virou, claro, Tio Jorge, uma coletânea de qualidades. Formou família, comprou o terreno em Jurerê, ergueu uma bela casa e, desde então, não passava um janeiro longe da casa de praia. Ele e os familiares já viravam o ano lá. E, até março, Tio Jorge não colocava o pé na água, nem jogava videogame com o Julinho. Mas todo santo dia, quando o pessoal retornava da praia lá pela uma hora da tarde, a carne assada em brasas já estava pronta, no ponto, servida à mesa. Coraçõezinhos, lingüiças, franguinho e tudo o mais tinia na churrasqueira. Isso porque o Tio Jorge aprendera com o pai os segredos do melhor churrasco. Os elogios que essa virtude suprema rendia lhe enchiam de ternura, compensavam qualquer trauma. – Acha que eu não sei que quem vai pra praia volta com fome? Sou tolo, eu?

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