20/02/2007

Uma aposta alta

Hoje eu fiz um troço inédito na minha amadora trajetória de leitor: comprei um livro por causa da sua adaptação para o cinema. E pior: de um autor que eu até então jamais ouvira falar o nome. E ainda: autor vivo, nascido em 1949, um “contemporâneo”, portanto. O livro é O perfume – história de um assassino, do alemão Patrick Süskind. Assisti ao filme com a Jade, no cinema, e ficamos ambos encantados com a história. Pensei comigo, já nos créditos, esperando aparecer o nome do autor da trama: “Cacilda, se esse cara escrever bem mesmo, que livro não deve ser!”. Comprei, estou ansioso para comprovar. Apesar de “contemporâneo”, o enredo é à antiga. Parece uma mistura de Oliver Twist (que eu conheço só do cinema, também, pelo Roman Polanski, mas tenho aqui a tradução do Machado de Assis, na estante, à espera) com Os Miseráveis (que leio desde janeiro). Num dos momentos do filme, cheguei a cochichar à Jade: “O Victor Hugo é que devia ter escrito essa história!”. O ambiente é a Paris do século XVIII, suja, miserável e desigual – pré-1789. Numa feira livre de peixes – segundo o narrador um local putrefato, o mais fétido de toda a Paris, de toda a Europa –, nasce um garoto chamado Jean-Baptiste Grenouille (que cena, a do parto!). Ele tem um olfato extraordinário e passa a juventude em busca do segredo de como aprisionar o cheiro das coisas, que ele sente como ninguém jamais sentiu. E não há aroma mais delicado e agradável que o de uma mulher. Portanto, na cabeça maluquinha de Grenouille, é preciso reter para sempre o cheiro natural das fêmeas deste mundo, misturá-los nas doses corretas e criar o mais inebriante perfume da história. Eis a concepção do serial killer. Enfim... Em geral, livros são muito superiores aos filmes que rendem. Espero o mesmo de O perfumista... Já me fascina o fato de que o livro tenha, repito, um enredo à antiga, com começo, meio e fim delineados, alguma reviravolta, as partes conectando-se ao todo de maneira engenhosa e, muitas vezes, insuspeita – ao menos é isso que apreendi, até agora, dos grandes romances do século XIX. Se Süskind escrever como os antigos mestres, então, já não terei mais dúvida em pôr Jean-Baptiste Grenouille ao lado de Quasímodo, Twist, Quixote e outros no rol de personagens imortais da literatura mundial. ps1. o livro é de 1985, foi traduzido para 40 idiomas. ps2. li esse continho, como amostra grátis do cara, e indico.

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