09/11/2006

Velho nada

O melhor de passar dias longe dos jornais é folheá-los no retorno a casa. Procurar aquilo que, mesmo velho, merece a leitura atrasada. Ficar surpreso com algumas notícias de que não tomamos conhecimento durante a viagem. Ver imagens e ler textos sobre aquilo que as tevês já expuseram, as rádios alardearam, a internet disseminou, todo mundo ficou sabendo. O jornal de três ou quatro dias de idade é melhor do que o jornal de hoje. Você pega a coleção dos retardatários, folheia aos poucos cada edição, e a semana está ali, em títulos e fotos, já gasta e anacrônica. Mas o não factual salta aos olhos, prende a atenção, faz a gente separar a página do restante das folhas. O bom é isso: é pôr de lado o que se vai ler com calma. Não há um novo livro de John Gledson traduzido no Brasil? Não são ensaios sobre Machado de Assis? E José Saramago, o bravo português, não reconhece, em seu novo livro, que participou da Juventude Salazarista? E essa revelação não ocorre poucos meses após a confissão do também Nobel de literatura Günter Grass, o alemão que admitiu, igualmente em livro recém-lançado, ter integrado a Juventude Hitlerista? Ora pois... Hannah Arendt nasceu há 100 anos! Sai em DVD no Brasil o filme La commare secca, de Bertolucci, com roteiro de Pasolini! Sai nos EUA o segundo volume da biografia de Orson Welles, de Simon Callow, e o Sérgio Augusto já leu! Marcelo Rubens Paiva, em crônica, faz a pergunta fulminante: "E alguém vai pedir desculpas ao New York Times? Ué, ficou todo mundo histérico quando o jornal publicou há um mês que nosso espaço aéreo é sobrecarregado, um samba do controlador doido". E o homem que cuida da "Capela das 13 almas", em SP, santuário que guarda o que sobrou de 13 mortos não-identificados no incêndio do edifício Joelma, em 1974? Quem é ele? É alguém muito franco: "Acendem vela porque dizem que as almas precisam de luz. Mais luz do que já receberam?". E o representante do Bush na terra de Hugo Chávez, sabe quem é? É um humilhado: "Willian Brownfield é embaixador dos Estados Unidos na Venezuela. Por onde passa, voam sobre ele ovos e tomates". E assim vai-se recuperando o que de essencial se tem para ler dos jornais extraviados no tempo.

2 comentários:

  1. Anônimo13:25

    O chato do jornal antigo é que não dá para levar a sério [?!] o horóscopo... rs.

    Passei por experiência semelhante semana passada. Mas confesso que me dá uma certa "aflição" a pilha de jornais. Parece que fiquei sabendo depois o que deveria ter sabido antes...

    Bjs

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  2. Anônimo13:48

    AMEI, rei.

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