Ontem eu conheci um coveiro. Foi no Centro, claro. O Centro é um saco de espantos machadiano. Você caminha 100 metros e descobre os lugares mais inusitados, vê as maiores extravagâncias. Eu percebi o sujeito de longe, sentado na escadaria de um prédio comercial. Ele falava sozinho, gesticulava, e abaixava a cabeça contra os joelhos. Parecia triste e atormentado. Se nenhum segurança do prédio o incomodava com um "circulando, circulando", é verdade também que nenhum transeunte lhe dava atenção. Então, fui a ele. Sentei-me ao seu lado e perguntei se precisava de alguma ajuda, um pão, um almoço, uma cana, um tutu. Sorri. Ele balançou a cabeça, recusando tudo, e desabafou à queima-roupa:
- A desgraça toda é que eu sou coveiro. Tu não imaginas o que é ser coveiro, meu filho.
Engoli uma golfada de ar. Nunca conhecera um coveiro. Pensei que coveiro só existia no último ato do Hamlet. Ou n'O enterro prematuro, do Poe, em que o narrador temia ser o coveiro de si mesmo ao apagar de uma maneira tal que as pessoas pensassem que ele estava morto e o atirassem sem muita pompa ou cerimônia para dentro de uma cova, devido a uma doença rara. Só na ficção mesmo, sei lá. Mas assim, sentado ao meu lado, na escadaria de um prédio no Centro, era demais. Eu não podia perder a chance de conversar com um coveiro. Mas disfarcei o meu encantamento. Que tem de mais ser coveiro, ué?
- Perdi o emprego, ontem. E agora, quem vai contratar um coveiro?
O homem estava mesmo amargurado. Tão logo fez essa triste previsão sobre o seu futuro, voltou a pôr a cabeça entre os joelhos, como se tivesse vergonha da vida. Eu puxei um cigarro. Cutuquei seu ombro esquerdo com o cotovelo, e lhe ofereci um. O coveiro quase me agrediu.
- Tá maluco! Foi essa porcaria que me fez infeliz e desempregado.
Acendi o cigarro e pedi mais explicações. Estava atrasado para a minha aula de francês, mas não podia deixar um ser shakespeariano sozinho, quase aos prantos, numa escadaria de mármore. Ele então me contou o seu destino funesto.
- Eu não tinha o que fazer da vida. Era jovem, não queria saber de estudar, nem nada. Também, no colégio fui um fracasso. Só tirava zero, levava bomba. Mesmo assim, trabalhar a sério é uma merda, não é? Então, um dia, passei diante de uma agência funerária. Vi o cartaz na porta: "Precisa-se de empregados". Pensei: "Taí um negócio mole de fazer. Nem trabalho é". Me apresentei e tudo certo. Consegui o emprego. Meio-período, das 14h às 18h, vida boa. Mas que nada. A minha desgraça começou ali...
E foi falando. Eu já estava no segundo cigarro. Era uma história de vida, e histórias de vida é do que precisamos todos. Eu tropeço num coveiro e ele me conta a sua trajetória infausta! Infausta, sim, porque o negócio ia mal das pernas, e o coveiro, então atendente de funerária, começou a preocupar-se com o seu futuro.
- Eu morava com a minha mãe ainda. Não gastava nada, só em futebol, gelada e putaria. Ê, vidão. Mas a empresa começou a ter problemas. Até hoje não sei o que aconteceu. Ouvi um boato, mas vai saber, né? Uma amiga de uma vizinha da mãe disse que o dono "superfaturava" os caixões. Eu sei lá o que é isso. Pra mim é migué. Deu errado é porque ninguém mais morre nesse mundo, bicho. Nego pra morrer tem que tá nas últimas mesmo, e sem um puto!
O coveiro se exaltou. De minha parte, para garantir, apaguei o cigarro com um pisão. O mármore ficou manchado e a bagana voou, arrastada pela brisa da tarde. Acontece que o coveiro, ainda atendente da funerária em falência, começou a ter uns pensamentos esquisitos. Aí eu comecei a ficar com o pé atrás de verdade.
- Vou te contar, a coisa ficou feia. O dinheiro não entrava, o patrão começou a reinar, a dizer que ia demitir eu e a fulana que trabalhava de manhã. Ih, foi o maior bode. O chefe cortou a televisãozinha em que a gente assistia à Sessão da Tarde. Depois foi a internet, que era muito cara, que isso e aquilo. A coisa ficou tão preta que eu... eu...
O coveiro gaguejava. Fiz um sinal com a cabeça: que é?
- Eu comecei a desejar a morte das pessoas, cara. De qualquer um. Eu via a pessoa passando na frente da loja, olhava e dizia, quase babando: "que belo cadáver não daria". Passava outra e eu dizia: "esse aí poderia morrer decapitado, pra caber num caixão menor, menos custoso pra empresa". Esse tipo de coisa. Cliente entrava para ver caixões, consultar tamanhos, condições de pagamento, e eu já desejava a morte dele e da família inteira. Um dia cheguei a levar uma arma pro trabalho, que eu peguei emprestada com um brother meu lá do morro. Me deu uma loucura que nem sei.
"Pelamordedeus...", gemi para mim mesmo. Contra doido, loucura é remédio. Puxei um cigarro e, de propósito, acendi pelo contrário, toquei fogo no filtro e traguei como se nada fosse. O coveiro então riu como há muito não fazia.
- Ó, doido. Tá fumando o filtro, huauhahuauauauua. Há tempos que eu não via um troço assim engraçado, ahuhauhuahahu...
Sorri amarelo, fingi um constrangimento, e voltei à carga: e aí?
- Ah, quando eu pensei que iria enlouquecer de vez pedi demissão, bicho. O patrão ainda foi contra, talvez a coisa melhorasse, a indústria tava colocando mais hormônios no frango, mais gente fumava, o trânsito estava cada vez mais perigoso... Isso tudo faria a população morrer mais rápido. Mas mandei ele tomar no cu e saí daquela merda. Eu queria era futebol, putaria e gelada, e não ficar desejando a morte dos outros, ora. Mesmo assim o chefe me indicou no cemitério. E alertou: "Lá é mais mole ainda. Se eu não faturo, tu não trabalha, porra". Eu achei isso do caralho. Fui lá pro cemitério e virei coveiro.
Ufa. Eu já estava cansado. Ia me levantar e ir embora, quando lembrei e perguntei o porquê da demissão.
- Ih, cara, nem me lembra! Nem me lembra! Vou te contar... Numa tarde de calor fodido, eu abri uma cova à pá, no muque, que era para as seis da tarde. Mas o caixão, com o defunto dentro, chegou mais cedo, e os rapazes que trabalham lá vieram na minha e disseram: "Ó, vamos deixar o presunto aqui. É uma velha cabeluda. Cuidado que o caixão tá aberto", e saíram rindo. Eu, pra ver a lata da velha, abri o esquife e o deixei aberto, enquanto descansava do trabalho, fumando um cigarrinho. Mas aí... Levantei e fui dar uma banda ali em volta, olhar as lápides, as flores, as faixas, as mensagens de saudades... E quando ia me afastar de vez, num gesto impensado, joguei o cigarro fora com um peteleco, para trás. E nem dei bola. Quando eu voltei, bicho, o caixão estava em chamas. Bah, que loucura. Acho que a xepa caiu dentro do caixão da velha, se enroscou na cabeleira dela e foi um horror. A gurizada, quando viu a fumaça, veio correndo com um balde d'água e, assim, apagamos o incêndio. Mas o cheiro era terrível. A defunta tava tostada, virada num pandeiro velho. E vai explicar isso pro chefe do cemitério? Quando a família chegou, foi ainda pior. O choro na hora de cobrir o caixão com a areia era tamanho, que as mulheres, todas de preto, uivavam à beira da sepultura, e os homens queriam me capar. Eu mesmo chorei feito bebê a cada pazada de areia vermelha...
Sem dizer uma palavra, eu me levantei e dei no pé. Ainda ouviu o homem gritar:
- Ei! Eu bem que avisei...
26/10/2006
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